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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Música de 2019 #2

Segunda parte da minha retrospetiva musical de 2019. Hoje começamos com...

 

  • Roxette e companhia ilimitada

 

 

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Já estava nos meus planos falar sobre os Roxette neste texto antes de recebermos a notícia da morte de Marie Fredriksson, a vocalista feminina. A sua partida foi uma infeliz coincidência. Assim sendo, estes parágrafos não são exatamente iguais ao que seriam não fosse esta perda. 

 

Já se sabe como é: depois de alguém morrer, temos a tendência de homenagear o defunto de uma forma que nem sempre fazemos quando a pessoa está viva. Um dos motivos pelos quais tenho este blogue é para contrariar essa mania, mostrar a minha apreciação por trabalhos mediáticos enquanto os seus criadores estão vivos – mesmo que seja altamente improvável eles lerem o meu blogue. Mas neste caso não fui a tempo.

 

A verdade é que, embora esteja um bocadinho triste com a morte da senhora, não sabia muito sobre ela. Marie foi diagnosticada com um tumor cerebral em 2002. Apesar de ter sido operada com sucesso, a sua saúde nunca recuperou por completo. Nas últimas digressões ela passava os concertos quase todos sentada, num estado visivelmente fragilizado. Em 2016 finalmente deu-se por vencida e reformou-se as digressões. 

 

É possível que Marie estivesse em sofrimento nesta reta final, que o seu estado de saúde se degradasse cada vez mais a partir de agora. Talvez tenha sido melhor assim.

 

É também triste porque Bryan é apenas um ano mais novo. Nunca teve problemas graves de saúde e, mesmo que a idade se vá notando aqui e ali, ainda não dá sinais de abrandar. Ele diz que é a dieta vegan, mas acho que será sobretudo sorte: conta mais do que se pensa.

 

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Já tinha referido num texto anterior que a música Listen to Your Heart me ajudou a definir o meu gosto musical em miúda. Durante algum tempo foi a única música dos Roxette que ouvia com alguma regularidade. Mais tarde (para aí há dez anos) houve uma altura em que andei obcecada com Sleeping in My Car. Com o passar dos anos, aliás, sobretudo desde que comecei a usar o Spotify, fui continuando a acrescentar canções deles às minhas playlists. Ainda hoje o faço.

 

Muitas dessas músicas estão dentro do estilo de Listen to Your Heart: baladas rock no feminino, emotivas mas confiantes, com personalidade. Fading Like a Flower e Spending My Time são provavelmente as minhas preferidas. Almost Unreal é uma descoberta mais recente e tenho andado um bocadinho viciada. 

 

It Must Have Been Love, o maior êxito dos Roxette, também se encaixa nesse estilo. Está entre as minhas preferidas mas, como tenho andado a explorar outras músicas, tenho-lhe dado menos atenção ultimamente – porque já a conheço bem. Continua a ser uma excelente canção, como escrevem neste artigo. Eu destacaria o piano nesta canção, sobretudo o solo antes dos últimos refrões, em tom mais agudo. 

 

Por outro lado, este ano tenho encontrado músicas dos Roxette que fogem um pouco ao rock mas que não são em nada inferiores às demais. Já conhecia Wish I Could Fly, embora não soubesse que era deles – havia uma altura há muitos anos (quando eu tinha treze ou catorze? Mais tarde?) em que a apanhava várias vezes na rádio. Breathe e Queen of Rain são agradavelmente atmosféricas, com letras a condizer. 

 

Depois, temos músicas sem ser baladas, mais alegres e divertidas. Como referi acima, conheço Sleeping in My Car há muito tempo, embora me tenha cansado um bocadinho dela. Também gosto de Joyride (uma das mágoas da minha vida é não conseguir replicar os assobios) e sobretudo de The Look, ambas com vocais de Per Gessle. Confesso que a maior parte das canções de que gosto dos Roxette são cantadas a solo por Marie, mas os dois fazem uma dupla fixe.

 

 

Bem… faziam.

 

Ainda estou em modo de exploração, na verdade. E vou continuar. Vou continuar a adicionar músicas dos Roxette à fila, se gostar adiciono-as às minhas playlists. Talvez um dia compre um dos CDs: Look Sharp! ou Crash! Boom! Bang! Mesmo que Marie já não esteja entre nós, a musica dela está. E pelo menos da minha parte o legado dela não sofrerá de falta de apreciação. 

 

Existem outros exemplos de pop rock/soft rock no feminino que tenho ouvido nos últimos anos, em particular no passado, se bem que menos que os Roxette. Pat Benatar é um desses casos, bem como Blondie – dá para ver que estes últimos são uma influência importante dos Paramore.

 

Por outro lado, os Cranberries também perderam a sua vocalista, Dolores O'Riordan, vai fazer dois anos daqui a dois dias. Tenho ouvido alguns singles deles, mas gosto muito de um cover de Zombie, dos Bad Wolves. Consta que o plano era Dolores contribuir com vocais para o cover. Infelizmente ela morreu antes de poder gravar. Os Bad Wolves acabaram por gravar o cover à mesma e lançá-lo como homenagem à cantora – os lucros reverteram para os seus filhos.

 

A meu ver, a versão dos Bad Wolves ganhou personalidade própria. Não apenas pela instrumentação mais pesada e atualizações da letra (como por exemplo “It’s the same old theme in 2018”), mas também porque a dor pela perda de Dolores acabou por se entretecer na música, dando-lhe um carácter ainda mais melancólico. O videoclipe contribui ainda mais para esse efeito, como poderão ver abaixo.

 

 

Outra música marcante este ano e que podia também ser incluída nesta secção foi Holding Out For a Hero, de Bonnie Tyler… mas antes tenho de falar sobre outra. 



 

  • Carry On & Holding Out for a Hero

 

 

Vou ser sincera, se as circunstâncias fossem outras, se por exemplo tivesse ouvido esta canção na rádio, esta teria entrado por um ouvido e saído por outro. Não sendo má, tem pouco que a distinga do resto da música mainstream dos últimos anos. Instrumentalmente, é uma espécie de pop tropical, disco tropical, com piano e sintetizadores, com um interregno musical mais ou menos dançante a seguir ao refrão – no caso desta música, uma sequência vagamente dançante com sintetizadores. 

 

Existem canções neste estilo que exploram bem essa fórmula: Stay the Night, This One’s For You, Outside de Calvin Harris (gosto muito desta). Não acho que Carry On seja uma delas. Enquanto as melhores músicas neste estilo conseguem construir um crescendo, aumentando a excitação, culminando com o tal interregno musical, Carry On mantém-se sempre no mesmo nível, não atinge nenhum clímax. 

 

 

Mesmo a letra em si não é nada de especial. Fala sobre amor e saudade, com algumas referências a praia e ao mar que lhe conferem características de música de verão. Pode referir-se a uma relação romântica, pode referir-se a uma relação platónica. Dá a ideia que a letra foi mantida vaga de propósito para que o ouvinte pudesse projetar os seus próprios significados nela. Sou a primeira a admitir que isso tem vantagens – passo a vida a fazê-lo, incluindo com esta canção – mas para um compositor e/ou letrista é o caminho mais fácil.

 

Como referi antes, se as circunstâncias fossem outras, Carry On ter-me-ia passado ao lado. No entanto, foi a música escolhida para os créditos do filme Pokémon: Detetive Pikachu. Agora, mesmo não tendo sido composta de propósito para este filme (consta que a primeira demo datava de setembro de 2016), faz parte do cânone da franquia – pelo menos na minha mente.

 

Um dia destes hei de escrever sobre este filme aqui no blogue. Posso adiantar desde já que gostei muito, mesmo não tendo sido perfeito.

 

A letra de Carry On podia ser aplicada à relação entre Tim e o Detetive Pikachu. Ainda assim, se me permitem, acho que se aplica ainda melhor a Digimon Tamers. Como disse antes, a letra fala em amor e saudade. As estâncias focam-se na saudade. No refrão, no entanto, o sujeito narrativo reconhece que o ser amado mudou a sua vida, ajudou-o a crescer, e promete seguir em frente por ele. 

 

No fundo, Carry On é um resumo geral, ultra-simplificado, dos voicemails dos Treinadores para os seus Digimon, no CD Drama Message in a Packet

 

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Tendo eu dedicado uma grande parte do meu ano a Tamers e tendo Detetive Pikachu sendo um filme tão marcante, não posso deixar de referir Carry On como uma das músicas de 2019. Mesmo que a canção em si não seja nada por aí além. Às vezes basta um pouco de sentimentalismo – e eu sou extremamente sentimental e lamechas – para elevar uma canção mediana a algo extraordinário. 

 

Falemos agora de Holding Out for a Hero. Esta foi usada no segundo trailer de Detetive Pikachu – depois de Happy Together ter sido usada no primeiro. De início não compreendi a escolha das músicas – e não apreciei muito. Iam lançar um filme de Pokémon, uma franquia com uma forte componente musical, e em vez que usarem essas músicas, iam usar canções pop?

 

No entanto, depois de pesquisar, fiquei a compreender a lógica. Se formos a ver (ou melhor, a ouvir), as duas canções – Happy Together, dos Turtles, e Holding Out for a Hero, de Bonnie Tyler – partilham características com os dois principais temas da franquia. No início dos respetivos trailers, ouvem-se notas discretas desses temas.

 

Happy Together (uma música de que não gosto muito, confesso), usada no primeiro trailer, é muito parecida com o tema principal de Pokémon nos jogos – o tema que ouvimos em quase todos os ecrãs iniciais de quase todas as versões, com variantes, claro. No site TV Tropes alegam que o tema dos The Turtles terá influenciado a música de Pokémon. É possível, mas não encontrei nenhuma fonte que o confirmasse. 

 

Por sua vez, Holding Out for a Hero terá sido escolhida pelas suas semelhanças com Gotta Catch'em All, o primeiro tema de abertura do anime. Ambos se caracterizam pelo piano (ou teclado?) em ritmo acelerado, que entusiasma, que funciona bem como banda sonora de cenas de ação.

 

 

Entre Happy Together e Holding Out for a Hero prefiro a segunda. Não apenas pelos méritos da canção, também porque… eu adoro Gotta Catch'em All. Gosto do tema dos jogos tanto quanto qualquer fã da franquia mas para mim, por muitos defeitos que o anime tenha, o primeiro tema de abertura será sempre a música de Pokémon. Se a oiço quando não estou à espera, derreto como manteiga. Aconteceu neste filme – ouvir o Ryan Reynolds cantando-o a chorar é uma das várias cenas do filme que, por si só, valem o preço do bilhete. Aconteceu com dois dos trailers para Let’s Go – num usaram a versão inglesa, noutro usaram a versão portuguesa. Uma jogada suja porque… resulta. 

 

Holding Out For a Hero fica, agora, associada a dois filmes de que gosto. Detetive Pikachu e Shrek 2: pela célebre cena a que serve de banda sonora. 

 

Por muito que goste da versão original, tenho de admitir que a versão de Shrek 2, interpretada de forma soberba por Jennifer Saunders, é melhor. A instrumentação é mais moderna, com variações para acompanhar os eventos no ecrã. Além de ser uma combinação única de dance music com elementos orquestrais.

 

Suponho que tenha de falar do elefante na sala: a mensagem obsoleta e pouco feminista da canção. Não me incomoda muito. Quando a oiço, gosto de imaginar um videoclipe irónico, mostrando mulheres tomando conta de si mesmas, em diametral oposição à letra. Ou entanto, pura e simplesmente, pessoas salvando-se umas às outras. 

 

Voltaremos a falar sobre Detetive Pikachu em breve, como referi acima. Prossigamos. 

 

 

  • Carly Rae Jepsen

 

 

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Como poderão ler no texto correspondente do ano passado, Carly Rae Jepsen, cantautora canadiana, foi uma artista marcante para mim em 2018. Sobretudo por causa do álbum Emotion, a edição padrão, faixas extra e o EP Side B, lançado um ano mais tarde. Como tal, estava interessada no seu álbum novo Dedicated, lançado em maio de 2019. 

 

Antes de mais nada, devo confessar que demorei alguns meses a dar a atenção devida a Dedicated. Como já referi aqui no blogue, muitas vezes só consigo ouvir um álbum como deve ser sob a forma de CD, no meu carro. Só comprei Dedicated perto do fim do ano.

 

Uma das coisas que me chateou foi o facto de Party for One não fazer parte da edição padrão do álbum – a que comprei em CD. Já com Emotion deixaram várias músicas excelentes de fora… mas este foi o primeiro single. Qual é a lógica? Obrigar toda a gente a compar a versão Deluxe?

 

Ainda preciso de passar mais algum tempo com Dedicated, mas, nesta altura, posso desde já adiantar que gosto da maior parte das músicas. Now That I Found You, Happy Not Knowing, The Sound (gosto muito do pré-refrão), I Want You In My Room (ameninada, engraçada, com um saxofone que me recorda Let’s Get Lost). 

 

Too Much tem uma letra interessante – acho que todos conhecemos alguém assim, incapaz de meio termo, de moderação, que leva tudo ao extremo. A própria Carly, então, já admitiu ser uma romântica incurável. É possível que seja daquelas pessoas que, quando se apaixona, deixa-se levar pelas suas emoções – o que pode levar a que se magoe a si mesma ou a que assuste os demais.

 

 

A minha preferida até agora, no entanto, é Real Love. A sonoridade é semelhante à dance pop dos dias de hoje. Ao contrário de Carry On, no entanto, Real Love executa a fórmula com mestria. Um crescendo constante desde as estâncias, passando pelo pré-refrão, culminando com o último verso do refrão e o interregno dançante.

 

Mas aquilo que destaca Real Love das demais é a sua letra. Real Love exprime o desejo de encontrar amor num mundo cada vez mais degradado, numa altura em que parece que estamos todos em guerra constante uns com os outros (sobretudo na Internet), em que a apatia e a indiferença são uma tentação cada vez mais forte. Deseja-se amor verdadeiro, mesmo que não se saiba ao certo o que isso é.

 

No fundo, é Lesson Learned por outras palavras e noutro estilo musical. Com a diferenca de que na música de My Indigo já se tem amor. Em Real Love ainda se está à procura.

 

Falemos agora dos aspetos de que menos gosto em Dedicated. Os vocais artificiais em várias canções irritam-me – bem como os apitos e algumas escolhas de instrumentos. A sonoridade em geral é um bocadinho  homogénea demais para o meu gosto. 

 

Além de que todas as canções são sobre relações amorosas. Mesmo Party For One, que procura celebrar a solidão, começa como uma “break up song”. É certo que a larga maioria de Emotion também é assim, mas sempre tinha algumas exceções, como Boy Problems, L.A. Hallucinations e, até certo ponto, Making the Most of the Night (que também podia ser aplicada a uma amizade).

 

Aliás, tenho de dizer que numa ocasião, ao fim de algum tempo com Dedicated, fiquei com vontade de ouvir Emotion. Como disse antes, é possível que Dedicated suba na minha consideração no futuro, mas duvido que ultrapasse o seu antecessor. Dedicated pura e simplesmente fica atrás de Emotion. 

 

Para sermos justos, era muito difícil ser melhor.

 

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Pergunto-me se Dedicated terá um side B este ano, como Emotion teve. Aparentemente está nos planos de Carly, se bem que não necessariamente nos mesmos moldes do de Emotion. Afinal, Carly terá composto umas duzentas músicas durante os trabalhos para este álbum. Só estas quinze é que merecem ser ouvidas? Duvido. 

 

Esperemos para ver.

 

E pronto, foi assim 2019 em música para mim. Existem outras canções e/ou artistas que ouvia com regularidade. Não acho que justifiquem uma secção, mas não queria deixar de mencioná-los. 

 

Billie Eilish foi um dos fenómenos deste ano. Há uns meses pus-me a ouvir o álbum dela no Spotify. À primeira não gostei assim muito – só agora é que me estou a habituar ao estilo musical – mas Bury a Friend ficou-me logo na cabeça. Sobretudo a frase que dá título ao álbum “When we all fall asleep, where do we go?”. Também gosto de Bad Guy. Hei de ouvir mais músicas dela.

 

Por outro lado, nos últimos anos tenho andado interessada na música de António Variações. O filme inspirado na vida dele, que saiu no verão passado, reforçou esse interesse. A Canção do Engate é para mim uma das melhores da música portuguesa. Por outro lado, tive uns dias em que andei absolutamente viciada em Anjinho da Guarda. “Ele não, não usa aaaarmaaa… Ele não, não usa a foooorçaaa…”

 

 

Tenho também andado a explorar um bocadinho mais a discografia de Mika, sobretudo os seus dois últimos álbuns – o mais recente lançado este ano. Por fim, os Coldplay lançaram Everyday Life em novembro, mas preciso ainda de passar algum tempo com o álbum. Talvez escreva sobre ele – num texto independente ou no da música de 2020.

 

Como mudámos não apenas de ano como de ano como de década, muita gente tem aproveitado para fazer retrospetivas dos anos 10. Para mim não faz muito sentido. Uma década é demasiado tempo, muitas coisas acontecem, de bom e de mau. Gostos e opiniões mudam, alguns deles de forma radical. Tirando coisas muito gerais, é muito difícil encontrar aspetos que se tenham mantido consistentes ao longo de dez anos.

 

Suponho que possa referir os álbuns que mais me marcaram esta década (ainda que, lá está, estas opiniões não estejam gravadas em pedra): os dois que os Paramore lançaram, em 2013 e 2017, os dois álbuns de Lorde (sobretudo o segundo), Living Things dos Linkin Park, Post Traumatic de Mike Shinoda. Menções honrosas seria Goodbye Lullaby de Avril Lavigne, The Unforgiving e Hydra, dos Within Temptation, Bare Bones de Bryan Adams, My Indigo, Emotion, de Carly Rae Jepsen.

 

Em relação a 2020, teremos o projeto a solo de Hayley Williams, Petals For Armor. A primeira música (ou músicas? Ou o álbum ou EP inteiros?) sairá já este mês, no dia 22 – falaremos sobre isso na altura. 

 

Tirando isso, e possivelmente o side B de Dedicated, não há nada de concreto planeado para sair este ano. Lorde tinha um álbum quase pronto no ano passado, mas entretanto morreu-lhe o cão que adotara no ano anterior. Pearl, que é como se chamava o bichinho, mudara a vida de Ella para melhor, como ela descreve na mensagem que escreveu: “Pearl trouxe uma quantidade imensurável de alegria e propósito para o meu mundo. Amor vibrava à nossa volta. Sentia a minha vida a crescer, inchando de saúde, esta esfera de satisfação brilhando à minha volta, de Pearl, da nossa família”. Supostamente, o seu terceiro álbum refletiria esse estado de espírito. 

 

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No entanto, com a perda de Pearl, isso mudou. Não sou capaz de censurá-la por precisar de tempo para, como ela diz, recalibrar antes de trabalhar no seu álbum novo – quando eu mesma tenho a minha Jane. Eu, aliás, andava contente por Lorde ter "seguido" o meu conselho e arranjado um cão e um gato, como revelara uns meses antes. Ninguém merece…

 

*breve pausa para festinhas à Jane*

 

Assim sendo, a haver álbum este ano, deverá ser mais para o fim. Não me importo de esperar. Se estiver ao nível dos anteriores, até se espera uma década, como a própria Lorde referiu uma vez. 

 

Muito obrigada por terem acompanhado este blogue durante mais um ano. Vou agora tentar despachar os vários textos que tenho atraso, tanto aqui como no meu outro estaminé. Deixo-vos uma playlist com as músicas que se comentaram aqui, bem como as músicas que mais toquei no Spotify este ano (não são um espelho muito muito rigoroso, aviso desde já). A próxima publicação será, provavelmente, a análise a Petals For Armor, o que quer que isso seja – se forem mais do que três ou quatro músicas, devo demorar um bocadinho ainda. Continuem por aí!

 

Música de 2019 #1

Primeira publicação de 2020! Bom ano, pessoal! Com algum atraso, eis o meu habitual apanhado da música que mais me marcou no ano.

 

Isto no fundo é uma espécie de Spotify Wrapped por escrito. Como muito se comentou, na altura em que estes começaram a sair e toda a gente os partilhava nas redes sociais… ninguém quer saber dos Spotify Wrapped dos outros (só dos seus próprios). Suponho que ainda menos gente quererá saber deste meu, que ainda por cima se estende por oito mil palavras (esta é a primeira parte). No entanto, se eu me ralasse com isso, não tinha blogues.

 

Recordo que, à semelhança dos textos equivalentes anteriores, não falarei apenas de música lançada em 2019. Dito isto, pela primeira vez em algum tempo, música lançada neste ano está em maioria. Sobretudo porque tive vários artistas do meu “nicho” lançando música em 2019. Três deles, aliás, lançaram logo no início do ano, com duas semanas de intervalo entre cada lançamento de álbum.

 

Na altura andava entusiasmada com isso. No entanto, todos esses três álbuns deixaram a desejar, em graus diferentes. O que faltou? Veremos já de seguida, começando com… 

 

 

  • Within Temptation

 

 

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O primeiro dos tais três álbuns lançados no início do ano foi Resist, dos Within Temptation. Conforme escrevi antes, depois de encerrado o ciclo de Hydra, os Within Temptation precisaram de fazer uma pausa. A vocalista Sharon den Adel aproveitou para lançar um projeto a solo, My Indigo – um álbum de que gostei muito. Esse trabalho ajudou Sharon a desbloquear a sua criatividade. Assim, a banda regressou ao estúdio e nasceu Resist.

 

Eu, naturalmente, estava interessada. Quando o álbum saiu, fiz questão de ouvi-lo com frequência no Spotify e, mais tarde, comprei o CD. Por outras palavras, não se pode dizer que não tenha dado uma oportunidade a Resist. 

 

Este, no entanto, revelou ser um álbum que, pelo menos pela parte que me toca, entra por um ouvido e sai por outro. Não é mau, é apenas… aborrecido, desenxabido. Cansei-me depressa dele. 

 

Pode haver quem argumente que um álbum aborrecido é pior que um álbum pura e simplesmente mau. Eu acho que depende dos casos. De qualquer forma, não me lembro da última vez que ouvi Resist do princípio ao fim e não tenho grande vontade de voltar a ouvi-lo tão cedo. Mesmo as músicas de que gosto mais neste álbum – The Reckoning, In Vain, Supernova, Mercy Mirror – considero apenas vagamente interessantes, boazitas. 

 

Talvez o problema seja eu. Talvez os meus gostos estejam a mudar. Talvez esteja a entrar naquela fase em que praticamente todos os artistas de rock entram mais cedo ou mais tarde, em que começam a preferir o pop.

 

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Ou talvez não. As críticas a Resist que li têm sido mistas: há quem goste, há quem não goste, as piores faixas para uns são as preferidas de outros. Naturalmente não é possível agradar a todos. E, como já referi antes aqui no blogue, neste género musical os fãs são complicados. 

 

Ainda assim, uma crítica que li e com a qual concordo refere que os instrumentais não fazem quase nada senão acompanhar os vocais. Se formos a ver (ou melhor, a ouvir), é verdade. Os únicos momentos em que o instrumental faz alguma coisa de interessante neste álbum são a trompa eletrónica de The Reckoning, o coro masculino de Supernova, os elementos vagamente eletrónicos nesta última música e em Endless War. 

 

Comparemos com Hydra. Este não é dos álbuns mais populares entre os fãs, pode ser demasiado pop/mainstream, mas, com uma ou outra exceção, ninguém pode acusar os seus instrumentais de falta de carácter. Silver Moonlight será o melhor exemplo, mas Paradise (What About Us) também tem um instrumental giro. Whole World is Watching parece ser um percussor de várias músicas de My Indigo e músicas como Dangerous e Tell Me Why têm uns padrões de bateria alucinantes. 

 

E claro, nem falo dos álbuns anteriores a Hydra, menos controversos, as influências célticas em The Silent Force. Mesmo My Indigo tem uns belos instrumentais. Por comparação, Resist é demasiado monótono. 

 

Não deve admirar que, depois disto tudo, prefira um segundo álbum de My Indigo em vez de outro álbum dos Within Temptation. No entanto, mesmo que a banda não demore a regressar ao estúdio, uma pessoa tem sempre a esperança de que o próximo trabalho seja melhor. 

 

 

  • Avril Lavigne 

 

 

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Nesta fase já não é necessário fazer grandes introduções quando escrevo sobre Avril Lavigne neste blogue. Esta lançou o seu sexto álbum de estúdio, Head Above Water, este ano – que ficou aquém das expectativas, como poderão ler aqui

 

Quando um álbum é lançado relativamente cedo no ano, às vezes, por alturas do fim do ano, as minhas opiniões mudaram um pouco. Neste caso, no entanto, não existem grandes diferenças em relação ao que escrevi anteriormente. 

 

A primeira metade do álbum é melhor que a segunda, na minha opinião. Birdie e I Fell In Love With the Devil são claros destaques, bem como It Was in Me. Souvenir continua a ser a minha preferida, mas depois dela a qualidade do álbum decai.

 

Falando em I Fell In Love With the Devil, referir que a canção teve alguma cobertura mediática durante o verão, aquando do lançamento do videoclipe. Queria, aliás, dedicar-lhe alguns parágrafos.

 

Se eu tivesse de descrever o vídeo com o menor número de palavras possível, diria que é previsível no bom sentido. Reflete a música de forma quase perfeita e está muito dentro do estilo de Avril. Parece uma versão (ainda) mais gótica do vídeo de Alice.

 

 

E “gótico” nem sequer é a melhor palavra para descrever este vídeo. Nem mesmo “sombrio”. Este é um vídeo tétrico, sobretudo a parte de Avril conduzir o seu próprio carro funerário, cantar no seu próprio caixão. Isto pode parecer estranho, mas fiquei aliviada quando Avril referiu, numa entrevista, que ia tendo um mini ataque de pânico quando estava deitada no caixão. É bom saber que não sou a única a quem a ideia provoca um medo primário (provavelmente um reflexo do medo da morte).

 

Tudo isto fez com que I Fell in Love with the Devil subisse um bocadinho mais na minha consideração. Mas também sempre gostei dela, mesmo que nem sempre a tenha considerado uma favorita.

 

Avril, na verdade, parece bastante orgulhosa desta letra, bem como de outras este álbum. Chegou a falar em lançar um livro de poesia… o que, aqui entre nós, me parece um salto maior do que a perna. Sou a primeira a reconhecer que as letras dela em geral melhoraram significativamente nos últimos dois álbuns mas, na minha opinião, Avril está longe de ser das melhores nesse capítulo. 

 

Por outro lado, se ela quiser mesmo escrever um livro de poesia, se for algo de que ela goste… porque não? Mesmo que não seja material digno do Prémio Nobel, mesmo que fique uns furos abaixo das letras de outros artistas, eu compraria. Se isso a ajudar a melhorar a sua escrita…

 

O problema com Avril é que, por muito que as letras tenham melhorado, por muito poderosa que a sua voz se tenha tornado, por muitas experiências que ela faça com o seu som (e algumas até são bem sucedidas)... no fim do dia, vira o disco e toca o mesmo, quase literalmente. Se rasgarmos as embalagens, os produtos são os mesmos de sempre: as mesmas canções de amor e desgosto desde o início da sua carreira. 

 

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Mesmo quando tenta variar um pouco, na maior parte das vezes perde-se em clichés, acrescenta muito pouco ao cânone geral da música. As letras são demasiado vagas, demasiado superficiais para causarem algum impacto.

 

Por estes dias, Avril goza o estatuto de uma artista veterana, recebe louros por ter inspirado toda uma geração de cantoras femininas a cantarem e comporem sobre os seus próprios sentimentos e experiências. Já tinha falado um pouco sobre isso aqui. Este ano em particular tem sido Billie Eilish quem não poupa elogios a Avril, uma das suas maiores inspirações. 

 

O pior é que muitas dessas cantoras inspiradas por Avril, para quem a canadiana abriu caminho de uma forma ou de outra, tornaram-se melhores Avrils que a própria Avril.

 

Vou dar exemplos. Hayley Williams dos Paramore há muito que usurpou o lugar de Avril no meu nicho musical: alguém que cresce comigo, cuja música reflete a fase da vida em que estou. Taylor Swift é uma das maiores estrelas pop do momento e também admitiu ter sido inspirada por Avril. Nunca o referi cá no blogue, mas nos últimos anos tornei-me numa fã muito casual dela. A sua música e imagem pública em geral podem ter algumas falhas, mas diria que, neste momento, as suas letras estão entre as melhores do mundo da música. 

 

Por sua vez, Lorde, como já referi antes, é uma espécie de Cristiano Ronaldo da música pop: joga num campeonato diferente, acima dos simples mortais. A jovem nunca terá sido diretamente inspirada pela canadiana, mas pode-se argumentar que, se não tivéssemos tido Avril, talvez não tivéssemos tido Lorde. Ou Adele. Ou Billie Eilish. 

 

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Ao longo dos últimos dez, quinze anos, estas mulheres surgiram e floresceram no mundo da música apontando os microfones para os seus cérebros e corações. Avril, infelizmente, não foi capaz de acompanhar. Pelo contrário, foi perdendo a originalidade que a caracterizava no início da sua carreira. Não quero insinuar que ela se tenha vendido (se era essa a sua intenção, está visto que não resultou). Apenas que, por algum motivo, foi deixando de ter coisas para dizer. E, como já referi antes, se nem depois dos piores anos da sua vida tem algo a dizer para além de frases-feitas e terrenos batidos… quando terá?

 

Dito isto tudo, não quero deixar de assinalar o trabalho que Avril tem feito como, digamos, ativista anti-Doença de Lyme. Veja-se esta semana, depois de Justin Bieber ter anunciado que também sofreu da doença. Pelos vistos é mais prevalente do que se pensa, o que significa que o trabalho de Avril e da sua Fundação será cada vez mais relevante.

 

Avril referiu em entrevistas que o sucessor a Head Above Water será diferente, será um álbum mais pop rock, com mais guitarra e bateria. Vai manter o padrão, portanto, alternando entre música mais séria e intimista e música mais leve e divertida. The Best Damn Thing após Under My Skin, o homónimo após Goodbye Lullaby. 

 

Eu não me imaginava escrevendo isto há meia dúzia de anos, ou mesmo há um ano, mas nesta fase prefiro isso, prefiro que ela regresse ao pop rock, a música semelhante ao quinto álbum. Como já referi antes, Avril Lavigne o álbum tem os seus defeitos, mas faz exatamente aquilo a que se propõe: ser um disco variado mas leve, feel-good, com músicas boas de cantar, sem se levar demasiado a sério. Quando saiu não me satisfez por completo, mas hoje acho-o preferível a um álbum que tenta ser “poderoso”, “cru” e tal e não consegue. 

 

E daí não sei. Às tantas o sétimo álbum inclui uma espécie de Hello Kitty parte 2 e eu, na altura vou escrever aqui que quero que Avril regresse às baladas. Não sei mesmo o que pensar. Só sei que quero mais daquela que ainda é a minha cantora preferida.

 

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Isto agora vai parecer uma transição estranha, mas há uns meses Avril anunciou uma digressão europeia para a primavera de 2020. Os bilhetes têm-se vendido surpreendentemente bem: alguns concertos foram mudados para salas maiores, algumas cidades receberam uma segunda data (Londres tem três no total). 

 

Aqui entre nós, depois dos desempenhos modestos dos álbuns que Avril lançou esta década, não estava à espera deste fenómeno. Talvez seja por ela não vir à Europa desde 2011, talvez seja o fator nostalgia, talvez Head Above Water não se esteja a sair tão mal quanto isso.

 

Ora, a digressão não passará por Portugal. Fiquei desapontada, claro, mas de início resignei-me a continuar a esperar. Há muitos anos que alimento a esperança de ir a um concerto dela no meu país. Ouvindo-a usando “Lisboa/Lisbon” e “Portugal” para se dirigir ao público, acompanhada por outros fãs portugueses, alguns dos quais conheço há uma década ou mais.

 

Só que esses fãs portugueses não partilham do meu sentimentalismo. Começou toda a gente de imediato a fazer planos para ir aos concertos nas várias cidades europeias. Eu mesmo assim continuei na minha… até me aperceber que estava a ser parva.

 

Conforme referi acima, Avril não vem à Europa desde 2011. Esteve de baixa durante quatro anos por causa do Lyme. Sabe-se lá quando poderá voltar depois disto. Eu ainda por cima tenho já um artista amado que não poderei voltar a ver. Olhando para esta digressão... O meu irmão está a viver em Zurique, a primeira data da digressão europeia – ou seja dormida grátis. Tenho também um voucher da TAP por causa de um voo que me cancelaram há uns meses – ou seja viagem grátis.

 

Quando terei eu melhor oportunidade que esta?

 

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Por isso, lá engoli o meu orgulho e arranjei bilhetes para o concerto. Ou melhor, acabou por ser o meu irmão a comprar-mos, para mim, para ele e para a namorada, como prenda de Natal. Zurique, a 13 de março, no Samsung Hall – foi um dos que foi mudado para uma arena maior.

 

Tenho de confessar que estou um bocadinho menos entusiasmada do que imaginaria. Talvez por não se em Portugal, talvez porque, lá está, fiquei desiludida com o álbum Head Above Water, talvez porque, em termos de desempenho em palco, Avril é muito inconsistente – pelo menos em comparação com outros dos meus artistas preferidos. Em todo o caso, não acho que seja má ideia manter as minhas expectativas baixas. 

 

Dito isto, mesmo que a maior parte do concerto não seja nada de especial, tenho a certeza que músicas como Complicated, Sk8er Boi ou I’m With You serão pontos altos. Momentos como os que sempre sonhei, que valerão o preço do bilhete. E quando ela cantar Girlfriend, mesmo não sendo das minhas preferidas, não vou querer saber, vou dançá-la como se não houvesse amanhã – o meu querido maninho vai desejar ter-me oferecido um livro ou algo do género este Natal em vez disto. 

 

Pois é, a minha “relação” com Avril já viu melhores dias. Há alturas em que penso se ainda devo considerá-la a minha cantora preferida. No entanto, uma das coisas que a perda de Chester me ensinou foi que, no fim do dia, álbuns que desiludem são problemas menores, interessam pouco. Há que estar grato por os nossos artistas continuarem a fazer música, a dar concertos. É praticamente certo que todos os discos terão pelo menos um ou dois temas de que gosto. E mesmo que não tragam, teremos sempre os velhos favoritos, que nunca faltarão nas setlists.

 

Avril então já teve uma baixa prolongada (pensando agora que muitos portugas dariam tudo para ter uma baixa assim…). Esperemos que não tenha de voltar a parar durante tanto tempo. E mesmo que eu já não seja tão devota como há meia dúzia de anos, enquanto ela estiver por cá, eu também estarei. 

 

 

  • Bryan Adams

 

 

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O álbum Shine a Light, o décimo-terceiro de inéditos de Bryan Adams, foi o último dos três a ser lançado no início do ano – no dia 1 de março. Não diria que este álbum tenha sido uma desilusão tão grande como foram os outros dois álbuns de que falei acima, mas ficou um pouco aquém das minhas expectativas. 

 

Não que seja um mau álbum. Apenas o acho um pouco… descaracterizado. As músicas são boazitas, regra geral, mas não são particularmente marcantes, não arrebatam. Quando oiço o CD no meu carro até o aprecio mas quando começo a ouvir outra coisa, mal me lembro que as músicas existem, não sinto vontade de ouvi-las de novo. Quase todas as faixas podiam ter sido incluídas em qualquer álbum de Bryan Adams desde o início dos anos 90 para a frente e ninguém daria por ela. 

 

Uma das poucas exceções é That’s How Strong Our Love Is, o dueto com Jennifer Lopez, mas não pelos melhores motivos. Não que tenha problemas com a participação da cantora, nada disso – só com a percussão eletrónica irritante, que não tem nada a ver com o estilo de Bryan.

 

Para ser justa, muitos álbuns de Bryan são assim. Lembro-me de ler algures na Internet entrevistas antigas onde ele referia que, regra geral, vai compondo música até ter faixas suficientes para um disco. Nesses casos, escolhe um dos singles para dar nome ao álbum. No caso de Shine A Light, esse conjunto de faixas foi composto nos intervalos da preparação do musical de Pretty Woman.

 

(Se me permitem o grande desvio ao assunto… terá Bryan sido a primeira escolha para compôr as canções deste musical? Ninguém pôs a hipótese de pedir aos Roxette, compositores e intérpretes do êxito It Must Have Been Love, da banda sonora do filme? Talvez até tenha estado em cima da mesa e os Roxette recusaram devido ao estado de saúde de Marie Fredriksson…

 

Enfim. Isto sou só eu a divagar. Mais sobre os Roxette adiante.) 

 

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Admito que devia ter baixado um bocadinho as expectativas, mas a verdade é que os dois álbuns anteriores de Bryan foram mais conceptuais do que o habitual. 11 esteve perto de ser um álbum maioritariamente acústico. Bryan acabaria por mudar de ideias, mas o resultado final continua a ter uma forte base acústica. Além de que, em termos de letras, 11 acaba por ser relativamente consistente, com temas recorrentes de esperança e otimismo.

 

Por sua vez, Get Up, como vimos quando saiu, caracterizou-se muito pela sonoridade vagamente retro e pela produção de Jeff Lynne, que incutiu o seu próprio carácter nas canções.

 

Estes dois álbuns baralharam-me as expectativas, portanto. E apesar de continuar a achar que Shine A Light não tem nenhuma música absolutamente extraordinária, a verdade é que o álbum subiu um bocadinho – não muito – na minha consideração ao longo do ano.

 

Para começar, afeiçoei-me a Last Night on Earth depois de esta ter aberto o concerto de 6 de dezembro. Uma das que me cativou desde as primeiras audições, por outro lado, foi Part Friday Night Part Sunday Morning. Tem uma letra engraçada, sobre uma personagem feminina que tem tanto de “good girl” como de “bad girl” (em suma, é uma mulher de carne e osso. Compreendo o choque.)

 

Por outro lado, gosto mais de Whiskey in the Jar do que de metade do resto do álbum – o que tem piada tendo em conta que é a única que não é inédita. Whiskey in the Jar é uma canção tradicional irlandesa que, na verdade, conta versões de vários cantores contemporâneos (gosto bastante da versão dos Metallica). Consta que Bryan foi desafiado a cantá-la num concerto em Dublin e acabou por decidir incluí-la em Shine a Light.

 

 

A canção em si é encantadora. Bryan canta-a acompanhado apenas de uma guitarra acústica e uma harmónica – e isso, na minha opinião, é o ponto forte da música. É uma pena Bryan não ter muitas músicas em nome próprio neste estilo.

 

Em todo o caso, não tenhamos ilusões. Um dos motivos principais, se não for o principal, para Bryan lançar este álbum nesta altura do campeonato será para servir de pretexto para (mais) uma digressão. O que nos leva ao concerto que ele deu no Pavilhão Atlântico a 6 de dezembro. 

 

Foi a minha quarta vez num concerto de Bryan Adams. Já escrevi sobre a terceira vez, em janeiro de 2016. Isto já se tornou num encontro habitual tetranual – a minha segunda vez foi em dezembro de 2011. 

 

Houveram muitos aspetos semelhantes entre este concerto e o de 2016. Para começar, mais uma vez, fui eu e a minha irmã. Chegámos cedo, ficámos na plateia quase no mesmo local exato: segunda ou terceira fila, à direita, junto a um dos microfones. Uma vez mais, nos últimos vinte, trinta minutos antes do início do concerto, mostraram a capa do álbum mais recente nos ecrãs gigantes (neste caso Shine A Light), a cara de Bryan mexendo-se de vez em quando. A grande diferença foi que, no fim, do nada, a cabeça vermelha virou-se para a câmara e rugiu, pregando um valente susto à audiência. A minha irmã até se agarrou a mim.

 

Isto faz-se, senhor Bryan?

 

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Um aspeto que diferiu em relação ao outro concerto foi o facto de nos terem pedido explicitamente para não filmarmos com os telemóveis. Podíamos usá-los para tirar uma ou outra fotografia (e, tacitamente, para acendermos as luzes durante as baladas), mas se estivéssemos a filmar os seguranças iriam intervir.

 

Não me importei muito e até aplaudi o pedido. Também não estava a planear passar muito tempo de telemóvel no ar – só para filmar uma canção ou outra.

 

Eu, aliás, sou um bocadinho paradoxal. Eu gosto de ver vídeos depois do concerto, para ajudar a recordar, mas… não quero ser eu a filmá-los. Quero passar os concertos aos pulos, a cantar, a dançar, não a filmar. Traduzindo uma expressão anglo-saxónica, quero comer o bolo sem deixar de tê-lo. Com o outro concerto até foi possível pois foi a minha irmã a filmar a maior parte dos vídeos – que mesmo assim não foram muitos.

 

Felizmente no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook, de que faço parte, partilharam vários vídeos. E descobri este canal no YouTube, que filmou algumas das canções. A maior parte filmados nas bancadas, logo as imagens deixam a desejar, mas valem pelo áudio.

 

Bryan abriu, assim, com Last Night on Earth. É uma decisão que não compreendo muito bem, confesso. Porquê abrir com uma música do álbum que em sequer é single, que se calhar metade da audiência não conhece? Já em 2011 e 2016 tinha feito o mesmo, abrindo com House Arrest e Do What You Gotta Do respetivamente. 

 

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Não faria sentido abrir com um êxito, para entusiasmar logo o público? Não precisava de ser um dos Summer of 69 desta vida, mas, sei lá, um Somebody. Ou então Shine a Light, o primeiro single do álbum novo, que partilha o nome com o álbum e com a digressão, que até toca nas rádios. 

 

Enfim.

 

Para ser justa, mesmo não sendo single, mesmo não sendo um êxito, The Last Night On Earth até é uma boa música para abrir um concerto: alegre, excitante, com uma mensagem recorrente na música de Bryan de viver o momento, de fugir a tudo e divertir-se. 

 

Mas continuo a achar que Shine a Light teria sido melhor.

 

Na verdade, foi a segunda canção da noite que causou maior impacto em mim. Uns dias antes tinha deixado um comentário numa publicação de Bryan no seu Instagram, pedindo duas músicas para o concerto. Depois de, em 2016, outras pessoas terem feito pedidos de músicas nas redes sociais, queria tentar a minha sorte.

 

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Como poderão ver acima, as músicas que pedi foram Tonight e The Best Of Me. Hei de explicar a primeira um dia destes, noutro texto. Por sua vez, a segunda é a preferida da minha irmã – ou andará lá perto. 

 

Suspeito que a culpa seja minha – um dos primeiros CDs de Bryan Adams que comprei foi a compilação com o mesmo nome, de 1999. Eu tinha treze anos e a minha irmã cinco e dormíamos no mesmo quarto. Na altura, tinha um rádio-despertador com leitor de CDs. Com o alarme, o CD inserido começava a tocar – assim, tanto eu e a minha irmã acordámos muitas vezes com Bryan exclamando “You got it!” antes do início do instrumental. 

 

Em retrospetiva, era uma maneira algo abrupta de acordar – taquicárdia logo de manhãzinha. Hoje escolho músicas mais suaves para despertar (acho que as minhas atuais são 3 Primary Colors e Hard Feelings/L.O.V.E.L.E.S.S.). Em todo o caso, fez com que a minha irmã ficasse a gostar de The Best Of Me

 

Também pode ter sido porque, na mesma altura, de noite, quando ela já estava a dormir, eu punha-me a ouvir o CD muito baixinho. Estou convencida que foi assim que ela se tornou fã de Bryan Adams. 

 

Mas falava eu do comentário no Instagram. Tanto quanto vi na altura, não estava mais ninguém a pedir canções nos comentários – pelo menos não naquela publicação. Ainda assim, não me atrevia a acreditar que Bryan ou alguém da sua equipa veriam o meu comentário, no meio de dezenas de outros. 

 

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Se calhar viram. Mesmo antes do concerto, enquanto esperávamos que nos deixassem entrar no Pavilhão, ouvimos Bryan e o resto da banda ensaiando Tonight (à semelhança do que já tinha acontecido no concerto de 2016). Eu ainda não conseguia acreditar que o meu desejo tinha sido concedido.

 

Mas Tonight foi mesmo incluída na setlist, foi logo a segunda canção. The Best Of Me também seria tocada mais tarde (já lá vamos). A minha irmã reconheceu Tonight antes de mim e agarrou-me logo o braço. Mais tarde, depois do concerto, fui à net consultar as setlists dos concertos e ele, de facto, não tinha tocado Tonight nas noites anteriores. Tocou-a no dia seguinte, no concerto de Braga, mas depois dessa, tirando no concerto de Barcelona, em resposta a um pedido do público, não voltou a tocá-la.

 

Foi porque eu pedi? Foi porque, mesmo quase quarenta anos depois, Tonight continua a ter bastante rotação nas rádios portuguesas? Não sei. Em todo o caso, fiquei contente. Aqui entre nós, a remota possibilidade de eu ter introduzido duas músicas na setlist de um concerto de Bryan Adams deixa-me um bocadinho embriagada de poder, ah ah. Já começo a pensar nas músicas que vou pedir para o próximo concerto.

 

Depois desta, a primeira metade, primeiros dois terços, da setlist foi a típica de qualquer outro concerto de Bryan. Can’t Stop This Thing We Started, Run to You, It’s Only Love, (Everything I Do) I Do It For You… Em retrospetiva, a apresentação de Heaven foi muito semelhante à do concerto de 2016, com o público cantando a primeira estância espontaneamente. Mas na altura não me apercebi. Foi um ponto alto, que me tocou no coração.

 

Também não faltou Here I Am, a minha preferida, ainda que numa apresentação acústica, estilo Bare Bones. O impacto foi o mesmo de sempre – como escrevi antes, Here I Am soa-me perfeita, toca-me no coração, sob qualquer arranjo – e adorei a iluminação do palco durante a música. Vejam por vocês no vídeo abaixo. 

 

 

Como o costume, procurei aproveitar ao máximo. Cantei, dancei, saltei… No fim do concerto o meu telemóvel marcava mais uns quatro mil passos em relação ao início – apesar de não ter saído do mesmo lugar. Ao mesmo tempo, houveram momentos – não muitos – em que pura e simplesmente me calei e fiquei a ouvir a audiência a cantar. Não me canso de sons como esse.

 

Por outro lado, como estava perto do palco, sempre que Bryan ou Keith Scott, o guitarrista, vinham para perto de nós, eu tentava interagir. O melhor que consegui foi Keith retribuindo um beijo que lhe soprei durante Cuts Like A Knife. Foi fofo.

 

Uma coisa em que reparei durante este concerto, com grande pena minha, foi que a idade de Bryan e de muitos membros da banda dele. Keith, que já vai nos 65 anos, parecia ter menos cabelo Houve um momento, se não estou em erro durante Can’t Stop This Thing We Started, em que o baixista Solomon Walker (para aí uns vinte anos mais novo que os colegas de banda) deu um salto em palco que nem Bryan nem Keith conseguiram acompanhar. 

 

Pode não significar nada – agora que penso nisso, eles podiam pura e simplesmente não estar a prestar atenção e perderam o momento. E mais tarde os dois saltariam, ao mesmo tempo. No entanto, na altura senti-o com um lembrete de que, parecendo que não, o tempo passa. 

 

Já aí voltamos. 

 

 

Bryan não se esqueceu de homenagear a sua costela portuguesa, antes da versão acústica de Straight From the Heart, como já é habitual. Desta feita, como poderão ver no vídeo, mostrou fotografias dos seus anos em Birre, Cascais, em miúdo. Terminando com uma foto, tirada no próprio dia, das suas filhas brincando na praia do Guincho.

 

Houveram alturas do concerto em que Bryan aceitou pedidos da audiência – alguns antes do encore, alguns durante. Foi nessa altura que tocou The Best Of Me, ainda que incompleta. Não sei se foi por causa do meu comentário no Instagram ou se alguém no público pediu – fiquei com a ideia que o pedido veio de uma tal Carla, que segundo Bryan tem vindo a todos os concertos dele em Lisboa. De qualquer forma, a minha irmã ficou contente.

 

Bryan ia perguntando os nomes às pessoas que pediam as canções: Marta, Raquel… Às vezes não percebia logo, ou fingia não perceber. Chegou mesmo a incluir “Anabela”, autora de um dos pedidos, na letra quando cantou Please Forgive Me.

 

Houveram músicas requisitadas pela audiência que Bryan tocou com a banda toda – Do I Have to Say the Word teve mesmo direito a imagens do videoclipe gigante (das duas uma: ou a canção é um pedido comum, ou os vídeos estão sempre a jeito). Para a maior parte dos pedidos, no entanto, Bryan tocou sozinho, com a guitarra acústica, muitas vezes só a primeira estância e um refrão. Como já referi aqui, não gosto muito quando fazem isso, mas, pelo menos neste concerto, sempre foi melhor que não tocar as músicas de todo.

 

E a verdade é que, apesar de ter recusado alguns pedidos, como Rebel, Bryan fez por agradar o mais possível. Fiquei com a impressão de que as últimas duas canções não estavam no plano. Eu por minha vontade ficava lá a noite toda, claro, mas pronto, o homem tinha de dormir – o concerto de Braga era no dia seguinte e eles também mereciam um Bryan no seu melhor.

 

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E pronto, foi uma das noites mais felizes de 2019 para mim – mesmo que o concerto não tenha sido muito diferente dos anteriores que vi. De ver em quando preciso de noites como esta: o mundo fica lá fora, celebrando música leve, simples, sobre amor, nostalgia, sexo, ser-se jovem, livre e feliz. 

 

Mesmo passados estes anos todos, ainda não me fartei de Bryan Adams. Por um lado quero acreditar que ele estará de volta daqui a quatro anos, para mais uma noite como esta. Por outro… como disse antes, o tempo passa. Quem sabe se ele consiguirá voltar? Quem sabe se eu conseguirei voltar?

 

O tempo dirá. De qualquer forma, enquanto todos tivermos possibilidades para isso, enquanto Bryan continuar a lançar álbuns, a arranjar desculpas, eu estarei lá.

 

E por hoje já chega. A segunda parte do texto será publicada amanhã ou depois. 

My Indigo (2018)

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Quando os Within Temptation concluíram o ciclo do álbum Hydra, lançado no início de 2014, os membros da banda deram por si sem saber o que fazer a seguir. Sharon den Adel, em particular, estava desgastada, com bloqueio criativo. Começava a sentir as consequências de ter passado uma boa parte da sua vida adulta em digressão, mesmo sendo mãe de três (com Robert Westerholt, guitarrista da banda). Por fim, o seu pai contraiu uma doença grave, de que viria a falecer.

 

Como tenho assinalado várias vezes, os últimos anos não têm sido fáceis para ninguém.

 

Sharon tinha, assim, muito com que lidar, muito para refletir. Quando conseguiu voltar a criar música, esta não se encaixava no leque habitual dos Within Temptation. Desse modo, decidiu lançá-la à parte, num projeto a solo, a que chamou My Indigo.

 

Sharon criou e editou este álbum faz hoje um ano, apenas para se satisfazer a si mesma. Sem a pressão de corresponder aos critérios da música dos Within Temptation, sem preocupações comerciais – daí não ter investido por aí além na divulgação. Em parte por isso e em parte porque o pai faleceu na altura em que My Indigo foi lançado.

 

Na minha opinião, foi uma decisão acertada lançar esta música como um projeto lateral. Tentar vender este material como Within Temptation podia não correr bem – até porque, como referi antes, fãs de metal nem sempre são fáceis de aturar.

 

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My Indigo é uma mistura interessante de indie pop, folk, anos 80 e elementos orquestrais/grandiosos da música dos Within Temptation. É um som mais leve que o rock/metal sinfónico da banda holandesa, mas ao mesmo tempo e um pop mais adulto que a maioria da música que passa nas rádios, tal como referi antes.

 

Sharon escolheu My Indigo para nome deste álbum e deste projeto porque é essa a cor que esta música lhe evocava: índigo. Leve, mas melancólico, contemplativo. Um dos melhores exemplos é o tema-título.

 

My Indigo é também o nome da primeira música deste álbum a ser lançada como single em meados de novembro de 2017. Este não foi um mês fácil para mim, como penso ter referido antes – depois do concerto no Hollywood Bowl, a morte de Chester Bennington estava a atingir-me como ainda não tinha atingido antes. Misturando isso com alguns problemas pessoais e com o estado geral do Mundo (que, verdade seja dita, não melhorou deste essa altura), passei os últimos dois meses de 2017 debaixo de uma nuvem de desânimo.

 

Acabou por ser uma boa altura para My Indigo sair, pois o seu tom melancólico condizia de maneira agradável com o meu estado de espírito.

 

 

Mesmo hoje, My Indigo é uma das minhas músicas preferidas do álbum com o mesmo nome. O som mistura folk com sintetizadores. A letra fala de um amor não correspondido, descrevendo essa relação como “índigo” – o sentimento de melancolia, de resignação, de quem sabe que por muito que ame uma pessoa, por muito que faça por ela, ela nunca dará retorno.

 

Out of the Darkness seria lançada no mês seguinte. Tal como My Indigo, saiu numa boa altura, ressoando com o que andava a sentir naqueles tempos. Musicalmente, poderia funcionar como uma balada dos Within Temptation, mudando apenas alguns elementos. Começa só com piano e voz, com o resto da instrumentação – a percussão, os sintetizadores – juntando-se depois do primeiro refrão.

 

A letra, como o título sugere, fala de procurar fugir da escuridão, deixando para trás a nossa dor, os nossos fantasmas. Out of the Darkness refere mesmo uma pessoa que ajuda a narradora nesse processo, a suportar os momentos maus.

 

Acaba por ter um tema parecido ao de 26, dos Paramore – por sinal, outra música com que me identificava muito em finais de 2017. Tal como 26, Out of the Darkness explora diferentes facetas do idealismo. Por um lado, alerta para o perigo de nos perdermos nos nossos próprios sonhos e mágoas, nos versos “We dwell on our dreams and somehow we forget to live” – que, a propósito, ninguém me convence que não são a uma referência às palavras de Dumbledore, no primeiro livro de Harry Potter). Por outro, parece querer sonhar com algo mais – “See the bluebirds flying high, so I’m wondering down below, could I?”, estes uma possível referência a Somewhere Over the Rainbow.

 

 

Mais do que outra coisa, era a mensagem do refrão que ressoava comigo. Na altura em que Out of the Darkness saiu, via muita gente lidando com situações difíceis. Só para dar alguns exemplos, os fãs dos Linkin Park ainda em luto por Chester e apoiando-se uns aos outros; Hayley Williams, dos Paramore, que pusera uma boa parte da comunidade a falar sobre saúde mental; uma Youtuber que terminara uma relação prolongada e publicara um vídeo falando sobre isso. De uma maneira estranha, consolava-me saber que estávamos todos a tentar lidar com os nossos próprios problemas, a tentar cuidar de nós mesmos. Como reza a letra desta música, estávamos todos a tentar fugir da escuridão.

 

Estas foram as únicas duas músicas que ouvia com regularidade antes de o álbum ser editado.

 

Uma coisa que me confunde é o facto de a tracklist do álbum em CD ser diferente das versões digitais. Nunca tinha encontrado um caso destes. Não é grave: na minha opinião, My Indigo não é um álbum onde a ordem das faixas seja particularmente significativa – ao contrário de, por exemplo, Post Traumatic. Mas é estranho.

 

Crash and Burn, segundo Sharon, fala de uma pessoa próxima dela que vive uma vida instável, errática, de altos e sobretudo de baixos  muito baixos (talvez seja toxicodependente). A pessoa em questão não aprende com os erros. Não que não tenha recebido ajuda, mas ele ou ela gosta de viver no limite. Até agora, tem conseguido sobreviver, reerguer-se depois de cair, mas Sharon receia perdê-lo ou perdê-la de vez, mais cedo ou mais tarde.

 

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A sonoridade encaixa-se no estilo do álbum, com destaque para o saxofone melancólico, que faz lembrar a banda sonora de um filme western.

 

É uma faixa interessante, mas confesso que não está entre as minhas preferidas.

 

Uma música que acho muito gira neste álbum é Black Velvet Sun, mais pela sonoridade que pela letra. Mistura sintetizadores e uma percussão acelerada com o som de um violino, criando um efeito ao mesmo tempo dançante e atmosférico, de uma maneira muito única.

 

Indian Summer é outra canção interessante em termos musicais, ao combinar violinos e sintetizadores, lembrando um bocadinho de world music, um bocadinho de funk.

 

A expressão “indian summer” é usada pelos anglo-saxónicos para designar um Verão tardio: tempo solarengo e temperaturas altas algures entre Setembro e Novembro. Costuma também ser usada como metáfora para um período de alegria juvenil vivido numa fase tardia da vida. A expressão terá tido origem num romance de William Dean Howells, de 1886, com o mesmo nome. Nele, o protagonista vive um romance quando já está na meia idade.

 

 

Faz sentido, desse modo, que a narradora de Indian Summer deseje reacender uma paixão antiga.

 

Someone Like You acaba por funcionar um pouco como uma antítese a Indian Summer – usando também imagens outonais na letra. Esta é uma das minhas canções preferidas em My Indigo, apesar de ter algumas falhas a apontar-lhe. Adoro os vocais doces de Sharon, a sua simplicidade encantadora.

 

Someone Like You supostamente conta a história de um casal que se juntou na adolescência e que se vai separar ao fim de cinquenta e seis anos. Digo “supostamente” porque eu confesso que não chegaria lá sem a explicação de Sharon. A letra é um bocadinho vaga de mais. Tudo o que consigo deduzir dela é que a narradora continua tão investida na relação como no início desta e se pergunta para onde o amante deseja ir.

 

Não sei. Apesar de gostar imenso desta música, acho que funcionaria melhor se tivesse a letra de uma canção romântica, não de separação.

 

Star Crossed Lovers tem a letra mais interessante de todo o álbum, a meu ver. Esta é outra faixa com um carácter vagamente western, desta feita por causa dos violinos.

 

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Star Crossed Lovers parece falar de um casal numa relação há já muitos anos, que talvez tenha começado como um amor proibido. Talvez tivessem havido fatores exteriores, terceiros, a conspirar contra a relação. Assim, o romance ter-se-á alimentado da excitação de quebrar as regras, os dois valorizavam os poucos momentos em que conseguiam estar juntos.

 

Eventualmente, a relação estabilizou. Com o tempo, a paixão poderá ter arrefecido, como acontece muitas vezes com relações prolongadas. Os dois ter-se-ão afastado um do outro sem darem por isso. A narradora deseja regressar ao modo “amantes proibidos”, recuperar esse espírito, essa adrenalina, para salvar a relação.

 

É um tema interessante. Só é pena a faixa ser um bocadinho curta demais.

 

As faixas que sobram possuem uma sonoridade grandiosa, podiam encaixar-se bem num álbum dos Within Temptation, com poucas alterações. O caso mais flagrante de todos é Lesson Learned, bastando acrescentar uns acordes de guitarra elétrica para passar despercebida na tracklist de Hydra.

 

Só me apercebi disso aquando da preparação desta análise, mas a letra de Lesson Learned descreve bem algo que tenho sentido várias vezes nos últimos anos, em que o mundo parece cada vez mais caótico. A narradora sente-se tentada a recorrer à apatia para se proteger das inperfeições do mundo, da aleatoriedade e falta de lógica da vida. No entanto, acaba por perceber que, ao bloquear a dor e a revolta, também bloqueia o amor e a alegria. Percebe que, por muito que diga o contrário, não quer viver uma vida sem emoção.

 

 

A lição que aprendemos, como reza o título, é que é assim que o mundo e o amor funcionam. Mesmo perante a dor e o caos, não deixam de florescer.

 

Where Is My Love também possui semelhanças com os Within Temptation em termos musicais, se bem que menos ostensivas – a repetição de “My mamma said” (um elemento de que não gosto muito, admito) dificilmente se encaixaria na música da banda, por muito épico que seja o acompanhamento.

 

Este é outro caso em que a mensagem da música nos foi informada por Sharon – neste caso, Where Is My Love fala de desigualdade de género – mas sem a adenda eu não chegava lá. Tirando a terceira estância, tomaria esta letra por mais uma história de amor não correspondido.

 

Não deixa de ser uma mensagem relevante, claro. Mas podia ter sido melhor explorada.

 

Por fim, Safe and Sound é uma carta de amor aos filhos de Sharon. Esta também possui um som grandioso, não muito diferente do típico dos Within Temptation. O exemplo mais flagrante é a pausa depois da terceira estância, onde facilmente se imaginam coros, parecidos àqueles presentes em quase todas as canções da banda.

 

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Na letra, Sharon debate-se entre o desejo de proteger os filhos e a necessidade de prepará-los para as dificuldades do mundo – um equilíbrio que todos os bons pais procuram e que eu imagino que não seja fácil de atingir. A terceira estância é particularmente ternurenta – “love you to the moon and back again”. Sharon consegue soar doce e poderosa (sobretudo no refrão) no mesmo tema. É impressionante.

 

E é isto My Indigo. Diria que este é um álbum outonal: maduro, sério, introspetivo, algo melancólico e nostálgico. A própria estética do álbum, em tons terra e alaranjados, condiz com o outono.

 

Conforme fui referindo ao longo desta análise, algumas destas músicas refletem vários conflitos internos que tenho tido nos últimos anos, coisas que senti várias vezes. Apesar de, como referi nos meus textos de fim de ano, ainda apreciar boa música pop, apenas para cantar, dançar e entreter (tenho, aliás, vindo a apreciá-la cada vez mais ultimamente), também preciso de música assim na minha vida.

 

É outro dos motivos pelos quais Head Above Water, de Avril Lavigne, me desiludiu: porque não me deu música assim. Isto apesar de Avril ter estado em boa posição para criar música desse género, com a Doença de Lyme.

 

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My Indigo não é um álbum perfeito, mas considero-o uma aposta ganha por parte de Sharon. Espero que ela não fique por aqui no que toca a este projeto. Quero outro álbum daqui a uns anos.

 

Eu tinha dito que não queria escrever sobre Resist, o novo álbum dos Within Temptation, sem antes escrever sobre My Indigo. Já escrevi, mas ainda não me sinto preparada para escrever sobre o álbum. Vou precisar de mais tempo. Hei de fazê-lo, eventualmente, nem que só consiga publicar no primeiro aniversário de Resist, como estou a fazer com My Indigo.

 

Até porque, nesta altura, a minha atenção está noutro lado – no grande projeto para este blogue de que já falei antes. Ainda estou numa fase muito inicial no planeamento, isto é capaz de demorar. Mas garanto-vos que vai valer a pena.

 

Fiquem atentos.

Avril Lavigne – Head Above Water (2019)

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(Eu tinha dito que ia fazer este meme...)

 

Avril Lavigne lançou, no passado dia 15 de fevereiro, o seu sexto álbum de estúdio, intitulado Head Above Water. Conforme comentámos antes, este é o primeiro disco que a cantautora lança em mais de cinco anos – uma boa parte deles passados debatendo-se com a Doença de Lyme.

 

Como poderão ler aqui, da última vez que Avril tinha lançado um álbum, o meu parecer foi misto. Ao longo destes cinco anos, admito, tive flutuações na minha opinião. Funciona bem como álbum pop, feel-good, para entreter, para cantar no carro – quer os temas mais animados, quer as baladas. Não representou uma grande evolução no som de Avril, mas incluiu uma ou outra experiência bem sucedida. E Hello Kitty…

 

Não é um mau álbum, mas eu na altura queria algo com mais substância.

 

Sendo o sucessor ao álbum homónimo o primeiro que Avril lança após sobreviver a uma doença grave, seria de esperar que estivesse mais satisfeita com Head Above Water, descrito por ela como o seu mais pessoal até ao momento. E estou.

 

Bem, mais ou menos.

 

 

Antes de começarmos, e já que falamos do quinto álbum, uma curiosidade: depois de ter ouvido Avril Lavigne, o álbum, pela primeira vez enquanto passava um fim de semana em Vila Viçosa, voltei a estrear um álbum novo dela em viagem. Desta feita foi em Bilbau. Tal como aconteceu com o quinto álbum e com a Capital do Mármore, Head Above Water há de ter sempre um saborzinho ao País Basco, ao Museu Guggenheim.

 

Seria giro se conseguisse manter essa tradição: marcar viagens para os dias em que a Avril lança álbuns.

 

Mas falemos de Head Above Water em si. O álbum abre com a faixa do mesmo nome, que também serviu de primeiro avanço. Conforme vimos antes, terá sido a primeira música que Avril compôs para este álbum, inspirada por um momento em que a cantora pensava que estava a morrer. Head Above Water acaba por representar bem o álbum a que dá o nome. Várias músicas apresentam estruturas parecidas, sobretudo na primeira metade do álbum.

 

Uma das minhas preferidas é It Was in Me. Se a ouvirem, acho que percebem porquê: é muito parecida com I’m With You. Na parte musical, sobretudo, mas não só.

 

 

A instrumentação assemelha-se a uma versão moderna da grande balada de Let Go, com o piano a conduzir e um carácter um tudo nada etéreo. A estrutura melódica é semelhante à de I’m With You: estâncias em tom grave, refrão e terceira parte em tons agudos. A música vai ao extremo de, à semelhança da música de 2002, ter uma parte em que o instrumental diminui, Avril canta parte do refrão em tom baixinho para, depois, clamar “It was in me! It was in me!” com uma melodia idêntica à de I'm With You.

 

Até mesmo na temática It Was in Me é parecida com a grande balada de Let Go. Calhou bem ter escrito há pouco tempo sobre I’m With You e outras canções à volta do tema de estar à procura de algo: de companhia, de respostas, de um sentido para a vida. De sítios perfeitos.

 

It Was in Me também pega nesse tema. A narradora procura respostas por todo o lado: em festas, em bens materiais, noutras pessoas.

 

No fim, a resposta estava dentro de si: nas pequenas coisas, na sua espiritualidade, na sua relação com Deus, em si mesma. Dezassete anos depois de I’m With You (metade da vida dela, vejo agora), Avril já não tem medo de estar sozinha. Consegue “sentir-se eufórica enquanto sóbria (infelizmente não existe nenhuma tradução literal para “high”. Apenas “pedrada” e não é cem por cento exata), jovem enquanto velha” sem ajudas exteriores. 

 

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Mesmo antes de Avril o confirmar em entrevista no outro dia, já suspeitava que ela estava a tentar recriar a magia de I’m With You. A música até foi co-composta por Lauren Christy, que costumava fazer parte do The Matrix! E hão de reparar na curiosa abundância de “yeah-yeah”s neste álbum.

 

Não acho que tenha sido uma má ideia. Para além de ser uma boa sequela a I’m With You, na minha opinião, é uma das melhores músicas de Head Above Water. E é, sem sombra de dúvida, a letra mais madura que Avril alguma vez escreveu até ao momento.

 

Por sua vez, Warrior foi um dos primeiros títulos de que Avril falou – há cerca de dois anos, conforme podem ver aqui.

 

É uma música linda, embora seja demasiado parecida com Head Above Water para o meu gosto: conduzida pelo piano, com os violinos a acompanhar e a interpretação emotiva de Avril.

 

Na verdade, não consigo decidir se gosto mais da versão oficial ou da versão demo, que apareceu na internet no mesmo dia em que o álbum saiu. A demo tem um tom mais intimista, tem mais personalidade própria, não parece tanto uma Head Above Water parte 2 – já ajudava terem dispensado a percussão. Por outro lado, gosto mais da terceira parte da versão do álbum – mas eu teria conservado o crescendo de violinos da demo. E, claro, a versão oficial está melhor produzida, possui melhor qualidade de som.

 

 

A letra não é má, está acima da média no que toca à discografia da Avril, mas ela vai para todas as metáforas óbvias, tornando a canção demasiado genérica. Já de si é vulgaríssimo chamar “guerreiros” a pessoas com doenças graves, sobretudo cancro, e Warrior não se eleva acima desses clichés. Fica a ideia que qualquer um podia ter escrito esta letra.

 

Vou dizer, no entanto, que gosto do verso “I’ve got a whole damn army”: um exército do qual fazem parte a família de Avril, os seus amigos e, claro, nós, os fãs. Conforme escrevi aqui no blogue há pouco tempo, julgo eu, o mais importante são as pessoas, sobretudo em alturas difíceis como estas.

 

E são estas as músicas inspiradas pela Doença de Lyme (bem, It Was in Me mais ou menos). Sim, apenas três músicas.

 

Bem, mudando um pozinho ou outro, Birdie podia aplicar-se ao Lyme. A letra fala da sensação de prisão, de nos sentirmos um animal numa jaula, um pássaro numa gaiola (lá está). Podia ser sobre a doença que a confinou a uma cama durante longos períodos de tempo ao longo de dois, três anos, mas a letra alude mais a uma relação amorosa. Talvez o seu casamento falhado com Chad Kroeger, talvez a relação tóxica de que fala noutras músicas.

 

 

Em termos de instrumentação, Birdie não difere muito das músicas que falámos antes. Por outro lado, em termos de estrutura da melodia, foge um pouco à fórmula da larga maioria do álbum, sobretudo no que diz respeito ao refrão. Tem ainda uma aura de melancolia que joga bem com a letra.

 

Em suma, não sendo das minhas preferidas neste álbum, é certamente uma das mais interessantes e únicas.

 

Outra música que aborda relações disfuncionais é I Fell In Love With the Devil. Produzida pela própria Avril, esta faixa possui um tom inesperadamente gótico e dramático, cortesia do piano e dos violinos. Parece uma música retirada do Under My Skin, sem guitarras elétricas, com um carácter mais maduro e moderno.

 

A condizer com a parte musical, a letra é dramática, mesmo melodrámatica. Não que fosse de esperar outra coisa de um título como I Fell in Love With the Devil. Descreve uma relação tóxica, da qual a narradora parece incapaz de sair sozinha. A letra usa imagens de Céu e Inferno, anjos e demónios – melodramático, lá está, mas funciona dentro da sonoridade.

 

 

Não sendo uma das minhas preferidas, é outra canção interessante. Nos primeiros dias após a edição do álbum, era a mais reproduzida no YouTube. Não surpreende: três quartos da comunidade de fãs venera Under My Skin e I Fell in Love With the Devil parece ter sido criada de propósito para eles.

 

Tell Me It’s Over também aborda uma relação disfuncional, como vimos antes. Ouvindo-a no contexto do álbum é um destaque claro: boa letra, boa sonoridade (tirando a batida irritante), bom desempenho vocal. Foi uma boa jogada lançá-la como single em dezembro – houve quem a descrevesse como uma música de Natal triste. Existem outros temas com influências soul em Head Above Water, como veremos adiante, mas Tell Me It’s Over é de longe o melhor.

 

Praticamente todos os álbuns de Avril, sobretudo os mais calmos e pessoais, como este, possuem pelo menos um outlier. Neste caso, este é Dumb Blonde. Na minha opinião, sendo Head Above Water um álbum mais homogéneo que o costume, nota-se mais a diferença. Também não ajuda o facto de Dumb Blonde estar a meio da tracklist – aquando de Goodbye Lullaby, por exemplo, tiveram o bom senso de colocar What the Hell logo no início.

 

Dumb Blonde era mais ou menos o que eu calculava que fosse, mal saíram as primeiras pistas sobre a múscia. Com uma batida “roubada” a Hollaback Girl, mais prevalente no início, acaba por ganhar mais personalidade após a primeira estância. A minha parte preferida é o pós-refrão, gosto imenso dos vocais.

 

 

Sendo tão contagiante como qualquer outro single pop da discografia da Avril, a letra por outro lado é melhor que o habitual para este estilo. Terá sido inspirada por um idiota qualquer que acusou Avril de ser, lá está, uma loira burra. Avril vingou-se assim. O “braggadocio” em Dumb Blonde lembra um pouco certas músicas do The Best Damn Thing e vai ainda mais longe: é a primeira vez que Avril se gaba do dinheiro que ganha, dos discos de Ouro e Platina (gaba-te enquanto podes, querida…).

 

Dumb Blonde está longe de ser um hino feminista revolucionário, mas sempre tem alguma mensagem, algum significado, o que a coloca num nível acima das Girlfriends e Hello Kittys desta vida.

 

Dumb Blonde possui várias versões. Quando foi lançada como single, uns dias antes do lançamento do álbum, por exemplo, veio com um rap de Nicky Minaj.

 

Nós os fãs só soubemos da colaboração uns dias antes. Ninguém estava à espera. Parece-me óbvio que esta foi uma decisão de última hora, talvez para que a música descole (não parece estar a resultar…). Muitos de nós andavam nervosos, como seria de esperar, por um lado. Por outro, tanto Nicky como Avril trocaram elogios nas redes sociais, o que foi agradável – quando a Comunicação Social gosta tanto de virar cantoras umas contra as outras.

 

 

A participação de Nicky não é má mas, na minha opinião, era desnecessária. Gosto mais da versão a solo. Não a versão que aparece no CD, a versão explícita que, tanto quanto sei, não foi lançada oficialmente. Fico um bocadinho chateada por essa não aparecer pelo menos no CD. Não sou nenhuma criancinha, estou habituada aos “fucks” e “shits” desta vida na música.

 

Tudo isto para dizer que, para o típico single “radiofónico” semelhante a Girlfriend, Dumb Blonde não é má. É certamente melhor que Hello Kitty – o que não era difícil, sejamos sinceros.

 

O resto do álbum consiste em canções de amor (bem, mais ou menos no caso de Bigger Wow). Cinco de seguida, na verdade. A primeira, Souvenir, é a minha preferida – uma das minhas preferidas em todo o álbum, aliás, cativando-me logo nas primeiras audições.

 

Isto acontece-me em todos os álbuns de Avril, mesmo que até nem goste dos álbuns a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar (e Head Above Water é um desses casos, como veremos adiante). Existe sempre pelo menos uma faixa que me agarra pelo coração, contra toda a racionalidade. Muitas vezes é uma das faixas que mais passam despercebidas, de que Avril menos fala, que menos atenção recebe dos fãs.

 

 

Nada disto acontece com outros artistas ou bandas. É um dos motivos pelos quais ela continua a ser a minha preferida, mesmo passados estes anos todos, mesmo que tenha algumas reservas relativamente aos seus álbuns mais recentes.

 

Continuo a achar que Souvenir tem argumentos a seu favor. Na minha opinião, esta é a 17 de Head Above Water: uma música com um tom primaveril/estival, muito alimentada a nostalgia. Souvenir é, aliás, um romance de verão em forma de música – não apenas pela letra. A guitarra acústica e os discretos elementos eletrónicos dão vida aos cenários idílicos que a canção descreve.

 

Eu, aliás, quero viver para sempre naquele refrão agridoce. Numa das primeiras noites após o lançamento do álbum, estive um bom bocado deitada, ouvindo Souvenir em repetição, de lágrimas nos olhos. A música faz-me desejar passar férias num lugar paradisíaco, longe da minha vida habitual – de preferência sem Internet. O romance de verão seria opcional.

 

Mais uma vez, é raro encontrar uma canção que tenha esse efeito em mim: capaz de me levar às lágrimas, de me arrancar do aqui e agora.

 

A letra de Souvenir fala, assim, de um romance de verão que está a terminar. A narradora brinca com a ideia de manter o contacto depois das férias, de repetir a história no verão seguinte, talvez mesmo tornar a relação permanente.

 

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É um sentimento bonito, mas a verdade é que nem sempre estes romances sobrevivem à rentrée, ao regresso à rotina, ao mundo real.

 

Curiosamente, uma das músicas que vazaram no dia em que o álbum saiu, In Touch, cuja letra aborda o mesmo tema por outras palavras. Provavelmente foi uma primeira versão de Souvenir. Ainda bem que foi excluída da tracklist que, na minha opinião, Souvenir é muito melhor.

 

Esta é, então, mais de uma canção de amor, é uma canção romântica, idílica. Um pouco como Run Away With Me, se formos a ver.

 

Se Souvenir é uma canção de amor idílica, Goddess é uma canção de amor mais apoiada na realidade. É uma balada acústica fofinha, mais ritmada que Falling Fast (a percussão resulta de bater com os dedos nas cordas na guitarra). Lembra-me um bocadinho 23, da Shakira. Também faz pensar em noites ao ar livre, à volta de uma fogueira, com alguém a tocar guitarra.

 

Há muita gente a implicar com a rima de “pajamas” com “bananas”, não sem alguma razão. A mim não me incomoda muito porque o inglês não é a minha língua nativa e, em português, pijama até rima com banana. Eu até gosto, pois dá um carácter adorkable à música, na minha opinião.

 

 

Além disso, sejamos sinceros, esta é a mulher que começou uma canção com “He was a boi, she was a girl” e outra com “Singing Radiohead at the top of our lungs” – até eu sei que a música dos Radiohead não é do género que se cante a plenos pulmões. Contestação a esse verso parece-me bem mais compreensível que uma mera rima forçada.

 

Tirando isso, gosto bastante da letra de Goddess (apesar de, por vezes, cair em clichés). Ao contrário de todas as outras canções de amor neste álbum, esta até parece relacionar-se com a Doença de Lyme, pelo menos em parte.

 

Recordemo-nos que Avril passou uma boa parte de dois anos presa a uma cama. Em certos momentos, segundo declarações da mesma, nem conseguia lavar os dentes – quanto mais pentear-se, depilar-se, maquilhar-se. A última deve ter sido particularmente difícil para Avril, que já confessou ser viciada em maquilhagem, sentir-se nua sem o seu característico smokey eye.

 

Não admira, assim, que Avril refira que o seu amado a ache atraente de pijama, que ache o seu corpo perfeito, numa canção de amor. Qualquer mulher tem essas inseguranças: “Será que ele ou ela me vai achar bonita sem maquilhagem? Ou se ganhar uns quilos? Ou quando estiver doente ou velha?”.

 

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É certo que é mais fácil a Avril parecer sexy de pijama – ela tem acesso a muitos mais produtos e tratamentos cosméticos que nós, simples mortais. Mas também a sociedade faz de tudo para que as mulheres nunca se sintam suficientemente bonitas. Diz-se, aliás, que as modelos são das pessoas mais inseguras que existem.

 

Isto tudo para dizer que, se alguém vos acha atraente mesmo quando não estão no vosso melhor, esse alguém é pelo menos um forte candidato a pessoa certa para vocês.

 

As outras canções do álbum, infelizmente, não me impressionam assim tanto. Estou com dificuldades em decidir se gosto ou não de Crush (que também foi um dos primeiros títulos a ser revelado). Por um lado tem influências soul/jazz interessantes, à semelhança de Tell Me It’s Over, mas a música é demasiado lenta para o meu gosto. Além de que a letra não lhe faz favores nenhuns.

 

O mesmo se passa com Love Me Insane. O instrumental tem alguns elementos interessantes: o piano tem um carácter algo retro, faz-me lembrar Easy, dos Commodores. Também gosto dos violinos. Tirando isso, no entanto, a música acrescenta muito pouco: a letra reutiliza o tema de Crush e o desempenho vocal não é nada por aí além. Esta podia ter sido uma b-side.

 

Uma coisa em que reparei neste álbum é a mania de Avril de criar refrões circulares. Estes começam com a palavra ou expressão que dá o título à música e terminam com a mesma expressão, ou com uma pequena variação. Por vezes, repete esse título algumas vezes, acompanhando-o com monossílabos do género “yeah-yeah”. Esta última é uma tendência que herdou do álbum homónimo e que, sinceramente, já cansa. Isso e os refrões circulares fazem com que as músicas pareçam demasiado forçadas. Não sou fã.

 

 

Bigger Wow inclui esses dois pecados – embora eu até goste dos “Na na na”, ficam no ouvido. Encaixaria bem no álbum homónimo. Mais uma vez, a sonoridade tem elementos interessantes, nomeadamente os violinos mas, mais uma vez, tirando isso, é uma música mediana.

 

O tema, então, já tem barbas na discografia da Avril: é mais uma canção sobre aproveitar a vida, viver experiências fortes e tal. A ironia é que este é um tema que Avril parece adotar por defeito, à semelhança das canções de amor e desgosto.

 

E a verdade é que um Bigger Wow é exatamente aquilo que me fica a faltar, quando acabo de ouvir este álbum.

 

Antes de partirmos para as alegações finais, uma palavra rápida para as tais faixas que vazaram no dia do lançamento oficial. Eu assumo foram excluídas do álbum. De uma maneira geral, acho que foram bem excluídas. As únicas de que gosto são de Break It So Good e o cover de I Want What I Want, mas não sei se se encaixariam muito bem em Head Above Water. Pode ser que pelo menos Break It So Good saia numa edição Deluxe do álbum ou algo assim.

 

Não me interpretem mal, não acho que Head Above Water seja mau. Pelo contrário, todas as músicas têm um aspeto positivo, por pequeno que seja. Ainda assim, estava à espera de mais.

 

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Como referi antes, muitos artistas de que gosto passaram por experiências difíceis nos últimos anos. A única vantagem foi terem criado ótima música inspirada por isso: After Laughter, My Indigo, Post-Traumatic, mesmo 13 Voices. Lorde, então, criou uma autêntica obra de arte a partir de algo tão trivial como um primeiro desgosto de amor… mas também é injusto comparar Lorde com quem quer que seja.

 

Olhemos para o álbum que Avril lança agora, após viver os piores anos da sua vida: só três músicas abordam diretamente as causas desses maus anos. Pelo menos uma delas – Warrior – podia ter sido composta por qualquer outra pessoa.

 

O resto do álbum consiste nos mesmos temas de amor e desgosto que apareceram em literalmente todos os outros álbuns da Avril, ainda que com outras roupagens – e, vá lá, letras melhorzinhas.

 

Quando a tracklist de Head Above Water foi revelada, pensei que Warrior tinha sido deixada para o fim para funcionar como epílogo. Talvez até fosse essa a intenção. No entanto, não funciona pois sure após cinco canções de amor de seguida. Quando finalmente se ouve Warrior, uma pessoa já quase se esqueceu que Avril esteve doente.

 

Por outras palavras, Avril viveu os piores anos da sua vida e isto é o melhor que ela consegue fazer?

 

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Fico desiludida porque, se nem após o Lyme Avril consegue sair do registo que tem mantido nos últimos dois, três álbuns, a contar com este, é pouco provável que alguma vez o faça. Head Above Water acaba por ter falhas parecidas com as do álbum homónimo: falta a originalidade que caracterizava Avril no início da sua carreira.

 

Em defesa de Avril Lavigne, o álbum, no entanto, este não tentava ser o que não era. Assumia não ser um disco demasiado sério e introspetivo. Por sua vez, Avril tem tentado vender Head Above Water como o álbum mais pessoal e honesto da sua carreira. Se isto é o reflexo da sua personalidade, das suas crenças, da sua vida interior… tenho pena, mas ela não é assim tão interessante.

 

É certo que, mesmo que lhes falte profundidade e originalidade, as músicas de Head Above Water terão ajudado Avril a lutar contra a sua doença – nem que tenha sido apenas por lhe terem dado um motivo para se levantar da cama, apenas como escapismo. Eu, aliás, sinto-me um bocadinho hipócrita pois também tive períodos nos últimos anos – alguns deles, curiosamente, até poderão ter coincidido com as piores fases da Doença de Lyme da Avril – em que a minha escrita e os meus blogues eram as únicas coisas que davam sentido à minha vida. E eu não escrevia sobre os motivos da minha vida não fazer sentido! (Nem sobre quase nada que diga respeito à minha vida pessoal, na verdade…)

 

A própria Avril tem dado a entender, nalgumas entrevistas, que não gosta de falar muito sobre a sua doença. Mas acaba por entrar em contradição consigo mesma, ao descrever este álbum como “pessoal, íntimo, dramático, cru, poderoso”… quase sem cantar sobre o motivo de ter passado pelos piores anos da sua vida.

 

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Ainda assim, mesmo que, na minha opinião, Avril não explore a luta contra o Lyme como deve ser, Head Above Water tem sido suficiente para tocar outras pessoas afetadas pela doença, o que não é de desprezar. E ainda que ache que músicas como Head Above Water e sobretudo Warrior são demasiado genéricas para o meu gosto, a vantagem é que qualquer pessoa com uma doença grave ou com outra situação difícil pode identificar-se com elas.

 

Existem outras coisas de que gosto em Head Above Water, aliás. Em termos vocais, este é capaz de ser o melhor de Avril até agora, para começar. Além disso, Head Above Water confirma a tendência de melhoria em termos de letras que começou com o quinto disco. E eu até gosto deste estilo mais adulto, ainda que não com grande profundidade.

 

Não sei se esse se vai manter em álbuns posteriores, se ela vai regressar ao pop rock mais juvenil em discos futuros. O tempo dirá, suponho eu.

 

O que é certo é que eu vou gostar de praticamente tudo o que a Avril criar, mesmo que nem sempre a cem por cento, mesmo que tenha vários defeitos a apontar. Foi o que aconteceu com os primeiros seis álbuns dela, não estou a ver as coisas a mudarem. Estou satisfeita por termos Head Above Water, apesar de tudo, e quero que ela continue a fazer música.

 

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O pior é que, no que toca ao meu nicho musical, temo que ela acabe por ganhar um estatuto parecido àqueles funcionários mais velhos numa empresa. Ninguém os despede pois, apesar de hoje não darem muito para a caixa (embora, de vez em quando, façam um ou outro brilharete), eles fizeram muito pela empresa antes e estão gratos por isso. Mas toda a gente sabe que, hoje, são os trabalhadores mais recentes que obtém os melhores resultados

 

E não devia ser assim. Isto aceitava-se se falássemos de alguém como Bryan Adams, por exemplo. Ele está perto dos sessenta (!!!) e, hoje em dia, praticamente só lança álbuns como desculpa para ir em digressão. Mas a carreira da Avril ainda vai a meio. É demasiado cedo para ter este odor (ainda ligeiro, mesmo assim) a estagnação.

 

Pode ser que isso mude em álbuns futuros. Pode ser que ela tente fazer algo diferente daqui a dois ou três anos. Neste momento, quero ver como é que a minha opinião em relação a este álbum evolui nos próximos meses. Depois farei uma atualização nos textos de fim de ano.

 

Quanto a nós, já estou a escrever a minha análise a My Indigo – finalmente! Temos também os novos álbuns dos Within Temptation e de Bryan Adams, mas ainda não sei quando escreverei sobre eles. Nem sei se vou escrever sobre Shine a Light, para ser sincera.

 

Na verdade, estou a planear um mega projeto aqui para o blogue (julgo já ter falado dele antes). Ainda precisa de muita preparação, deve demorar algumas semanas, se não forem meses. Mas estou ansiosa por começar a escrevê-lo!

 

Obrigada, mais uma vez, pela vossa visita.

 

Músicas Ao Calhas – Here I Am & I'm With You

Tudo começou quando a minha irmã me enviou esta mensagem:

 

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É claro que eu estava a exagerar para efeito cómico, mas confesso que fiquei um bocadinho chateada. Depois de arranjar uma cadela, tornei-me um bocadinho sensível a animais abandonados ou maltratados. Associar histórias dessas a uma das minhas canções preferidas de todos os tempos era a última coisa que desejava. Não se faz!

 

A neura não durou muito, felizmente. Aliás, esta mensagem da minha irmã pôs-me a pensar nas minhas duas músicas preferidas: I’m With You, de Avril Lavigne, claro está, e Here I Am, de Bryan Adams. Foi aí que reparei – pela primeira vez em mais de metade da minha vida – que as duas canções têm aspetos em comum, o que pode não ser coincidência.

 

Daí este texto. Não é a primeira vez que escrevo sobre I’m With You – esta será a terceira vez. Escrevi sobre ela de passagem na primeiríssima entrada de Músicas Ao Calhas, neste blogue. Também falei sobre ela quando analisei o álbum Let Go.

 

Talvez seja um bocadinho de mais mas, em minha defesa… é uma das minhas canções preferidas de todos os tempos! E espero, com este texto, apresentar uma nova perspetiva sobre a música.

 

 

Antes de começarmos, já que vamos falar sobre as minhas duas músicas preferidas, uma curiosidade. Há cerca de um ano, encontrei este artigo, que descreve um estudo segundo o qual os homens conhecem a sua canção preferida quando têm, em média, catorze anos. Para a mulher, a média é os treze anos. Cheguei a enviar este artigo para o Jon da ARTV (o tal Youtuber, crítico de música, que refiro de vez em quando), ele comentou o artigo no vídeo acima e parece que é verdade – embora hajam exceções, claro.

 

Pelo menos no meu caso, é verdade. Here I Am e I’m With You foram editadas em álbum quando tinha doze anos – com um mês de intervalo, por sinal! Ouvi Here I Am pela primeira vez algures no verão ou outono desse ano, quando fui ver o filme Spirit (sobre o qual escrevi aqui) ao cinema. Por sua vez, só conheci I’m With You no ano seguinte.

 

Tanto Here I Am como I’m With You foram as primeiras canções que conheci como sendo de Bryan Adams e Avril Lavigne, respetivamente. Não sei se o facto de terem sido as primeiras contribuiu para o seu estatuto como favoritas – talvez um pouco. No que toca a outros artistas ou bandas do meu “nicho”, as minhas canções favoritas deles não costumam ser as primeiras que oiço deles.

 

Acho que isso aconteceu com a Avril e com o Bryan porque foram os primeiros artistas que “adotei” oficialmente. Sempre gostei de música e de cantar desde muito pequena, mas foi com a Avril e o Bryan que iniciei oficialmente a minha vida como fã de música.

 

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Ainda há bem pouco tempo comentei que a Avril é a minha mãe musical. Pela mesma lógica, Bryan também pode ser considerado o meu pai musical (e esse tem de facto idade para ser meu pai). A relação de fã que tenho tido com cada um deles é diferente, visto que Bryan, na altura em que o conheci, já tinha uma carreira feita, com toda uma discografia que levei anos a conhecer. Avril, por sua vez, estava ainda a dar os seus primeiros passos no mundo da música.

 

Para além de serem ambos canadianos e de terem um estilo maioritariamente pop rock (e, tanto quanto parece, aparecerem nas capas dos álbuns novos em pelota), aquilo que Avril e Bryan têm em comum é o facto de – não tenho problemas em admiti-lo – não serem os melhores músicos por aí. Nem sequer são os melhores do meu nicho musical.

 

Não significa que sejam maus, bem pelo contrário. Bryan tem tido uma carreira invejável, cheia de êxitos, sobretudo nos anos 80 e 90. Aquela voz enrouquecida é como o vinho do Porto: só fica melhor com o tempo. Tem um jeito especial para baladas de amor (conforme deu para ver aqui), embora também saiba compôr músicas mais animadas, mais soft rock.

 

No entanto, acaba por não se venturar muito para fora de temas de amor e luxúria. Nunca foi o género de artista que tenta esticar os limites da música ou fazer algo que nunca foi feito.

 

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Por sua vez, Avril tem uma voz única, inconfundível. Abriu caminho para outras mulheres no mundo da música, tanto no que toca a música rock como para comporem as suas próprias canções, serem honestas e vulneráveis atrás do microfone. É conhecida pelos temas pop rock com influências de punk pop, mas também tem uma queda para baladas. Além de que, mesmo passados estes anos todos, continua a dar a ideia de ser genuína, despretensiosa, faz a música que entende, sem se preocupar com modas ou em causar choque mediático, ao contrário de muitos artistas por aí.

 

No entanto, apesar de uma boa parte da sua discografia ser honesta e autobiográfica, muitas das suas letras deixam a desejar. Uma coisa são músicas com Sk8er Boi e Girlfriend. Outra coisa são músicas como My Happy Ending, Nobody’s Home e Let Me Go, que tentam passar por sérias e emotivas, mas cuja letra tira-lhes credibilidade.

 

A qualidade aumentou no quinto álbum – e espero que continue a melhorar no próximo – mas, como vimos antes, a letra de Head Above Water, não sendo má, podia ser melhor.

 

Tenho de admitir, para além disso, falta a Avril algum carisma e presença em palco. Mais uma vez, ela tem melhorado com o tempo, mas continua intermitente – embora, na última digressão, os primeiros sintomas da Doença de Lyme podem explicar algumas apresentações mais apagadas.

 

Mesmo com estes “defeitos”, Avril e Bryan continuam a estar bem acima da média, a meu ver. Além disso, são os meus pais musicais, estarão sempre em primeiro lugar no meu coração.

 

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Mas falemos sobre as músicas em si, por ordem cronológica. Como referi acima, conheci Here I Am quando fui ver o filme Spirit. Conforme escrevi antes, Spirit é um dos meus filmes de animação preferidos de todos os tempos, o Rei Leão da DreamWorks, criminalmente subvalorizado (pergunto-me se terá a ver com o facto de os vilões serem os colonizadores americanos).

 

Um dos destaques do filme é a sua banda sonora, obviamente. Já escrevi aqui no blogue sobre várias das músicas. Ainda hoje tenho o CD no meu carro e, quando o oiço, não deixo de me maravilhar com os arranjos sublimes de Hans Zimmer – o homem é um génio! É um daqueles álbuns que considero clássicos.

 

Here I Am é considerado o tema principal da banda sonora de Spirit, mas a verdade é que I Will Always Return toca mais vezes ao longo do filme – enquanto Here I Am consiste, apenas, em uma estância e um refrão repetido, no início do filme, e nunca mais se ouve até aos créditos finais. No entanto, Here I Am foi lançada como single e acho que até se saiu bem. Portugal foi um dos três países, a par do Taiwan e do Azerbaijão onde chegou ao primeiro lugar (viva nós!). Mesmo nos Estados Unidos e nalguns países da Europa andou perto dos lugares cimeiros. Ainda hoje é tocada nas rádios.

 

Um rápido aparte: sabemos que estamos a ficar velhos quando a nossa música preferida passa na m80. E no entanto já apanhei Bad Romance, que tem menos de uma década…

 

Estou a desviar-me. Voltemos atrás.

 

 

Here I Am é o Circle of Life de Spirit: a música que toca quando o protagonista nasce. A versão que toca no filme está dentro do estilo dos arranjos de Hans Zimmer. Começa suave e inocente, como seria de esperar, até ganhar um carácter eufórico e grandioso no segundo refrão.

 

A versão single que toca nos créditos finais é diferente, claro: pop rock, mais compatível com as rádios do início dos anos 2000.

 

Ainda assim, Here I Am não é assim tão parecida com o resto da discografia de Bryan. Tem elementos de rock, sim, mas a percussão é diferente e os teclados são mais predominantes que o habitual. Segundo o booklet de Anthology – o álbum Greatest Hits que Bryan lançou em finais de 2005 – foram os produtores Jimmy Jam e Terry Lewis que, quando a banda sonora de Spirit estava quase pronta, pegaram nas gravações iniciais de Here I Am e deram-lhe um carácter mais R&B.

 

Suponho que, se tivesse sido produzida pelos seus colaboradores habituais, Here I Am seria mais parecida ao resto da discografia de Bryan.

 

Só sei que aquelas notas iniciais (de teclado?), que são a imagem de marca da música, aquecem logo o meu coração. A música começa suave, minimalista, até ao refrão. É nesta altura que surgem as guitarras elétricas e a batida, que conferem um tom eufórico que se mantém durante toda a faixa. Destaque para o tal riff que abre a canção e se vai repetindo e para o solo de guitarra.

 

 

A versão original de Here I Am tem quase cinco minutos de duração logo, como seria de esperar, existem versões mais curtas para passar nas rádios. A compilação Ultimate inclui uma delas. Nesta versão (que só ouvi pela primeira vez há coisa de duas semanas), curiosamente, a linha de abertura é tocada por guitarra elétrica, por cima do teclado. Não desgosto da alteração, dá um efeito fixe, mas gostava de saber se a fizeram por algum motivo especial.

 

Cortaram, no entanto, a repetição da primeira estância na terceira parte da música. Sei que é assim que Bryan a tem tocado nos concertos ao longo dos últimos anos, mas não sou fã.

 

Aliás, por princípio, não gosto de versões reduzidas para a rádio. Compreendo o seu propósito, mas por norma prefiro as versões integrais. Há exceções, claro – por exemplo, Let’s Make a Night to Remember é demasiado comprida e não me importo que Bryan corte a segunda parte quando a toca ao vivo. No entanto, regra geral, se os músicos achassem que dá para saltar uns compassos ou mesmo parte de uma estância, estes não teriam sido incluídos no álbum! Parecendo que não, alguns de nós conseguem concentrar-se numa música durante mais de quatro minutos.

 

No caso de Here I Am, então, não cortava nenhum momento de pausa, nenhuma nota do solo de guitarra. Na minha opinião, todos esses elementos, a alternância entre momentos de calma e momentos de euforia, contribuem para a emoção da música. Não digo que as versões editadas não tenham o mesmo efeito, mas fica definitivamente a faltar qualquer coisa.

 

 

Here I Am foi uma das canções incluídas no álbum ao vivo Bare Bones, em 2010 – e também no que foi gravado ao vivo na Casa da Ópera de Sydney e editado em 2013. Este arranjo também funciona – a música chega a parecer uma balada, com o piano tocando o riff de marca da canção e Bryan improvisando o solo na guitarra acústica.

 

Na verdade, a meu ver, Here I Am é daquelas músicas – como, por exemplo, Heaven – cuja melodia é tão boa que soa bem em quase todos os arranjos possíveis.

 

Passando à letra de Here I Am, sou a primeira a admitir que esta não é das melhores – curta, demasiado vaga, perdendo-se um pouco em clichés. Como ainda era muito nova quando conheci a música, nem sequer reparei na letra fraquinha. Nos dezasseis anos seguintes, não fiz outra coisa que não projetar significados nela.

 

Vimos acima que a música foi composta para assinalar o nascimento do protagonista de Spirit. Para mim, Here I Am é precisamente isso: uma música de começos, ou de recomeços. Bryan, por exemplo, escolheu-a para abrir o concerto que deu cá, em fevereiro de 2003 (o primeiro a que assisti na vida). Também em dezembro de 2011 (o segundo dele a que fui) foi uma das primeiras da setlist.

 

Here I Am, no entanto, serviria para marcar o início de qualquer história, desde que não seja demasiado sombria. Um nascimento. O Harry Potter vislumbrando Hogwarts pela primeira vez. Um treinador de Pokémon começando a sua jornada numa região nova. As Crianças Escolhidas despertando, pela primeira vez, no Mundo Digimon.

 

 

Para além destas, há muitos anos que associo Here I Am à Seleção Nacional. Montei este vídeo há quase uma década (!!!). As imagens estão desatualizadas (O Meireles sem barba!) e a qualidade não é a melhor, mas a emoção é a mesma: a euforia de um jogo da Equipa de Todos Nós, sobretudo ao vivo, de um golo, da presença num campeonato de seleções.

 

Fez particular sentido no 10 de julho de 2016 – tonight we’ll make our dreams come true.

 

No fundo, o tema de Here I Am é este: alguém que chegou a um sítio novo, ou regressou a um sítio, que é exatamente onde quer estar.

 

Por sua vez, I’m With You é sobre alguém que não quer estar onde está.

 

 

Avril compôs I’m With You com Lauren Christy (as duas colaboraram outra vez, passados estes anos todos, no sexto álbum, na música It Was in Me) quando estava a ter um dia daqueles: o tempo estava cinzento, ela sentia-se triste, vazia, chateada por não ter namorado.

 

Todos nós já tivemos dias assim. Todos nós nos sentimos sozinhos de vez em quando, sem saber onde estamos nem para onde vamos. Ou até sabemos, mas não queremos lá estar.

 

É aí que está uma das forças de I’m With You: a sua mensagem universal.

 

Já contei antes a minha história, de ter treze anos e de cantarolar I’m With You enquanto esperava que me viessem buscar à escola. Tenho, aliás, visto muitas pessoas na Internet gracejando que I’m With You é sobre estar à espera de um Uber.

 

Também já me vi numa situação parecida à do videoclipe, quando tinha dezoito anos: numa festa a que fui contrariada, em que literalmente toda a gente menos eu se estava a divertir, em que passei a noite inteira à espera que acabasse para poder ir para casa.

 

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Liability, da Lorde, possui uma emoção parecida: a sensação de estar num sítio – ou numa relação – onde não nos integramos, onde não somos bem-vindos, onde nos sentimos isolados. A narradora de Liability decide, em resposta, voltar-se para si mesma, fazer companhia a si mesma. A narradora de I’m With You não tem uma atitude tão saudável, como veremos adiante.

 

Segundo Lorde, de resto, um dos temas do álbum Melodrama é solidão: as partes boas e as partes más.

 

Não gostei da cena dos cãezinhos abandonados, mas a interpretação não está errada. Há pessoas que se comportam como cachorrinhos perdidos: extremamente solitárias, sedentas de companhia, que se agarram a qualquer pessoa. Já apanhei utentes assim na farmácia. Não é o comportamento mais saudável, mas a narradora de I’m With You apresenta traços dele – ao pedir companhia a um estranho.

 

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Uma coisa em que só reparei há cerca de um par de anos foi que, se formos a ver, Give You What You Like é uma versão erótica de I’m With You. Em ambas as canções, as narradoras buscam uma cura para a solidão. Em I’m With You, essa vem da companhia de um estranho. Em Give You What You Like, essa cura vem de um encontro sexual.

 

Mesmo em termos musicais, as duas faixas possuem semelhanças entre si. Ambas começam num tom grave e intimista. Só que Give You What You Like mantém-se nesse tom, enquanto I’m With You evolui para uma power ballad de respeito.

 

O que me leva, então, à parte musical de I’m With You. Segundo a Avril, esta foi composta ao piano – terá sido a única do álbum Let Go a ser composta ao piano – mas, tanto quanto consigo ouvir, esse instrumento não aparece em parte nenhuma da música. I’m With You é guiada por uma guitarra acústica em tom grave, acompanhada por um violoncelo e uma ou outra nota de guitarra. É no refrão que surgem as guitarras elétricas.

 

O destaque, no entanto, é mesmo o desempenho vocal. Conforme vimos quando falámos sobre Let Go, nesta altura a voz da Avril não era tão firme como agora. Era pura, inocente, com nuances deliciosas – uma das minhas partes preferidas em I’m With You é a maneira como ela canta o verso “tryin’ to figure out this life” no último refrão.

 

 

Mesmo com vocais ainda algo frágeis, estes não falham na hora de cantar os agudos. A escalada dos yeah-yeah é um exemplo óbvio, mas a minha parte preferida da música é o último minuto: com os “I’m with you! I’m with you!” agudos e os últimos em tom normal, de novo. Sempre adorei esta transição. É como se houvesse um alívio da tensão após o clímax da música.

 

I’m With You é uma música triste na sua maioria, mas sempre deixa uma nota de esperança – a narradora consegue encontrar companhia no fim. Vimos antes que confiar em estranhos pode não ser a atitude mais saudável, pode correr mal. Mas também pode vir a correr bem. Pode ser que esse estranho se torne alguém importante na nossa vida – talvez um novo amor ou “apenas” um novo amigo. Se estivermos dispostos a dar esse salto de fé.

 

Numa sessão de perguntas e respostas que ela deu no Twitter, em dezembro último, Avril revelou que, se pudesse dedicar uma canção aos seus fãs, essa seria I’m With You. Para começar, é a sua favorita (embora, nos primeiros anos da sua carreira, alegasse que Losing Grip era a sua favorita). Em concertos, ela costuma virar o microfone para o público, para a primeira parte do último refrão. Nos últimos anos, chega mesmo a fazer as audiências repetirem essa parte várias vezes. Avril revelou que, mais do que qualquer outra, quando a canta, sente-se em sintonia com os seus fãs.

 

Gosto de pensar que é, também, dedicada àqueles que têm usado a música da Avril para combater a solidão, para conhecer e ligar-se a outra pessoas, para descobrir quem eram e o seu lugar no mundo. Como eu.

 

 

 

Como podem ver, as minhas duas músicas preferidas são o oposto uma da outra, de certa forma. I’m With You é sobre estar-se perdido – ou, pelo menos, no sítio errado – e encontrar uma luz que nos poderá conduzir ao sítio certo. Here I Am é sobre a euforia de estar no sítio certo.

 

Que diz isso sobre mim? Que alterno entre perdida e achada? Que ando sempre à procura de algo? De sítios perfeitos, como reza outra das minhas canções preferidas?

 

Talvez seja isso. Afinal de contas, existiram muitas alturas na minha vida em que me sentia isolada, desajeitada, sem saber o que estava a fazer com a minha vida, incapaz de me integrar entre os “normais”. Demorei muito tempo a aprender a sentir-me confortável na minha pele – ainda ando a trabalhar nisso. Fui capaz em parte porque, nos últimos anos, tive o prazer de conhecer várias pessoas, de viver experiências fabulosas, precisamente à conta das minhas paixões – as coisas que dificultavam a minha integração.

 

Por outras palavras, de viver momentos como os descritos em Here I Am.

 

E, agora que penso nisso, se houver uma canção equivalente a Here I Am na discografia de Avril – uma canção sobre estar no sítio certo – é Innocence.

 

 

I’m With You e Here I Am funcionam, assim, como prequela e sequela, duas facetas de mim mesma – com Perfect Places a funcionar, talvez, como um intermédio entre ambos esses modos. À medida que envelheço tenho conseguido inclinar-me mais para o modo Here I Am, mas continuo a ter os meus dias I’m With You.

 

Ou talvez tudo isto sejam coincidências. Talvez esteja a projetar, a ver tratados filosóficos em músicas pop. Mas também de que serve a música – e a arte em geral – senão como ponto de partida para descobrir quem somos?

 

Felizmente, como referido no texto anterior, nas próximas semanas vou receber dois álbuns novos de cada um destes artistas, com duas semanas de intervalo – já depois de ter recebido Resist, dos Within Temptation. Mais de trinta músicas novas no total para catalisarem as minhas introspeções.

 

Ou, pelo menos, para cantar no carro ou para ajudar a suportar um dia difícil.

 

Como é habitual, quero escrever análises desses três álbuns. E como também é habitual, essas análises devem demorar. Não quero escrever sobre Resist sem escrever sobre My Indigo – uma análise que ando a adiar desde o verão passado. No entanto, é possível que comece a escrever sobre Head Above Water mal o álbum esteja disponível.

 

Que querem? É a minha mãe musical!

 

De qualquer forma, as análises a esses quatro álbuns deverão ser as próximas publicações neste blogue, mesmo que ainda demorem umas semanas (se não forem meses).

 

Obrigada por terem lido este texto particularmente egocêntrico. Faltam oito dias e picos para Head Above Water e vinte e dois dias para Shine A Light. Até lá... 

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