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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Bite Me

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Aqui no estaminé, Avril Lavigne dispensa apresentações. É uma personagem recorrente desde os primeiros tempos deste blogue – gosto de chamar-lhe a minha mãe musical – tendo inspirado múltiplos textos. Este é mais um deles, a propósito de Bite Me, o primeiro single do seu sétimo álbum. 

 

Avril já anda a lançar pistas sobre este álbum há um ano, na verdade – embora, segundo entrevistas mais recentes, nessa altura ainda estava a começar. Típico dela, fazendo anúncios e promessas antes de tempo, deixando os fãs baralhados. Mas ao menos já temos o primeiro single.

 

Este álbum, ainda sem nome, representa o regresso de Avril ao pop punk. A cantora sempre esteve associada a este género musical. Se perguntarem por aí, dir-vos-ão que Let Go foi a sua era mais pop punk, mas o álbum que mais explora este estilo é na verdade o The Best Damn Thing. Antes do seu terceiro álbum, Avril só contava duas músicas lançadas oficialmente influenciadas por este estilo: Sk8er Boi, em Let Go, e He Wasn’t, em Under My Skin

 

Temos ainda I Always Get What I Want, dos trabalhos do segundo álbum, que faz parte da banda sonora do segundo filme d’O Diário da Princesa. Este é um tema que tem tido muita rotação nos concertos de Avril: está no top 10 das músicas mais tocadas segundo o Setlist.fm, mais do que alguns singles. Tenho quase a certeza que Avril se arrepende de não ter incluído a música na edição-padrão de um álbum. 

 

Na minha opinião, devia ter sido guardada para o The Best Damn Thing. Encaixa-se que nem uma luva ao lado de I Can Do Better e a faixa-título.

 

Penso que a b-side Take It, também the Under My Skin, poderá ser igualmente considerada pop punk. Por outro lado, temos um caso estranho com I Don’t Give, dos trabalhos de Let Go. A música foi lançada como b-side do single Complicated e soa semelhante à larga maioria de Let Go. No entanto, durante a digressão Try to Shut Me Up (ela antigamente era mais imaginativa com os nomes das digressões), Avril tocava uma versão diferente de I Don’t Give: mais pesada, mais rápida, pode-se dizer mesmo mais pop punk. 

 

 

Eu adoro esta versão. Há mais de metade da minha vida que lamento que não haja uma versão pop punk de I Don’t Give gravada em estúdio. Seria uma surpresa agradável se isso acontecesse com uma potencial edição comemorativa dos vinte anos de Let Go. Pouco provável, mas uma pessoa pode sonhar…

 

Por outro lado, faz-me pensar em quantas músicas no primeiro álbum teriam um arranjo parecido com este, se Avril tivesse tido mais controlo sobre o processo. 

 

Isto tudo para dizer que, nos primeiros dois álbuns de Avril, apenas cinco músicas, no máximo, podem ser consideradas pop punk. E destas, só duas fazem parte das edições-padrão. Foi precisamente para colmatar esta falha que Avril criou o The Best Damn Thing – em que pelo menos metade das músicas, mais uma b-side, têm influências pop punk. Por isso, quando a comunicação social diz que Avril está a recuperar o estilo de Let Go com Bite Me, não fizeram o trabalho de casa. 

 

O regresso de Avril a este estilo acontece na mesma altura que o pop punk tem estado de novo na moda. Não é uma coincidência: ela é um dos muitos artistas apadrinhados por Travis Barker, o baterista dos Blink 182, o grande catalisador deste movimento. Outros artistas com quem Travis tem colaborado são Mod Sun, Machine Gun Kelly, Willow Smith, Yungblood. 

 

Não surpreende. Há quem diga que a nostalgia cumpre ciclos de vinte anos. Nos anos 2000 tínhamos saudades dos anos 80, na década de 2010 tínhamos saudades dos anos 90, agora temos saudades dos anos 2000. Suponho que tenha a ver com a geração que está na casa dos vinte e/ou dos trinta durante determinado período, que recorda a sua infância e/ou adolescência. 

 

Um aspeto engraçado em que tenho vindo a reparar é que, na altura, os críticos desprezavam muita da cultura que nós, da minha geração, consumimos. Sobretudo nós, meninas adolescentes. Mas agora que somos adultos, temos a palavra e podemos fazer justiça àquilo que nos definiu. 

 

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Travis Barker está, no fundo, a capitalizar esse ciclo de nostalgia. Pode-se debater que percentagem disso é oportunismo e que percentagem é genuína paixão por este estilo musical. Eu pelo menos acho que não havia necessidade de o homem se colar a todos estes artistas, como o “feat Travis Barker” no título de cada música. 

 

Há quem acuse este movimento de alguma falta de carácter, alguma falta de originalidade. Mesmo sem acompanhar essa onda de muito perto, tenho um par de exemplos desse problema. Olivia Rodrigo, para começar, não é uma das artistas patrocinadas por Travis Barker, mas também ela trouxe o pop punk de volta ao mainstream com a música good 4 u. Desde o início, as pessoas assinalaram as semelhanças com Misery Business, o êxito dos Paramore. Até que, há poucos meses, Olivia acabou por incluir Hayley Williams e Josh Farro nos créditos da música, o que deu polémica.

 

Pessoalmente, não acho good 4 you assim tão parecida com Misery Business. Um bocadinho no refrão, talvez, mas combina com elementos mais modernos, parecidos à música contemporânea. Para acusações de plágio já vi exemplos piores. 

 

Depois, temos grow de Willow – esta sim, um dos artistas apadrinhados por Travis Barker. Avril canta uma parte da música. O tema até é agradável ao ouvido, mas é uma mistura estranha de All the Small Things com música das estrelinhas do Disney Channel, nos anos 2000.

 

Não se pode ser demasiado duro com Olivia e Willow pela falta de originalidade. São miúdas novinhas, que ainda estarão a desenvolver o seu estilo pessoal, a descobrir a sua identidade. 

 

 

Depois, temos Machine Gun Kelly. Já falámos dele antes, de passagem – quando participou no concerto de homenagem a Chester Bennington e quando colaborou com Mike Shinoda em Lift Off. Nessa altura, ele era rapper, mas há um par de anos desistiu do rap/hip-hop e decidiu aventurar-se no pop punk, com o álbum Tickets to my Downfall. Ora, eu não teria problemas com isso… só que o tipo parece ser um estafermo. 

 

Segundo consta, o motivo pelo qual MGK trocou de géneros musicais foi por ter entrado em rota de colisão com Eminem. Mas aparentemente não aprendeu nada, pois quando veio para o pop punk arranjou logo picardias. A mais recente foi com Corey Taylor, dos Slipknot. As pessoas já começaram a virar-se contra ele – há um par de meses, MGK foi assobiado durante um festival qualquer. Não contente com isso, o tipo chegou a vias de facto com pessoas da audiência. 

 

Avril referiu MGK como uma das pessoas com quem ela colaborou no seu sétimo álbum, o que não me agrada. Não pelas suas qualidades musicais, mas pela personalidade dele. Preferia que Avril não se associasse a um tipo como este. O que vale é que ela tem juízo suficiente para não se envolver nas encrencas de MGK. 

 

Por outro lado, Avril está a namorar com Mod Sun, com quem colaborou no seu álbum – e no álbum dele, Internet killed the rockstar. Este também tem um passado como rapper, mas parece-me ser um tipo decente, mais decente que MGK. Parece gostar genuinamente de Avril – e tem um Husky muito giro. 

 

No início do ano lançaram um dueto, Flames – que tem vindo a subir na minha consideração, ligeiramente. O instrumental é diferente, é giro – alternando momentos mais calmos, ao piano, com momentos mais intensos e pesados. Só acho o refrão algo repetitivo. 

 

Além disso, eles perderam uma oportunidade ao não terem tentado fazer uma ligação com Bridgerton na promoção da música.

 

 

A minha opinião sobre a participação de Avril neste movimento tem oscilado entre contra e a favor. Existe uma parte que parece um bocadinho forçada: a transição da era Head Above Water para esta nova foi muito repentina. Mesmo aspetos como aquele Tik Tok com Sk8er Boi me parecem exploração descarada da nostalgia – algo que ela já tinha feito com Here’s to Never Growing Up (como assim já lá vão mais de oito anos?!). E pergunto-me se a sua associação com Travis Barker e companhia não será uma extensão disso. 

 

Talvez seja um bocadinho. Por outro lado, Avril está longe de ser a única artista musical, sobretudo feminina, em constante reinvenção. Taylor Swift comentou há uns tempos que ela e as suas contemporâneas são obrigadas a fazê-lo, mais do que os seus homólogos masculinos. Para manterem o público interessado nelas. 

 

Não que seja uma coisa má, na minha opinião. Aposto que muitos artistas, de qualquer género, não gostam de estar sempre a fazer o mesmo, gostam de mostrar diferentes facetas. Como Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Avril por exemplo é conhecida mais pelo pop rock, mas já brincou com vários estilos musicais.

 

Ela ia regressar a este estilo, mais cedo ou mais tarde. O seu modus operandi tem sido sempre alternar álbuns mais leves e alegres com álbuns mais sérios e pausados. Já em 2019, em plena era Head Above Water, Avril dizia que o sucessor teria mais guitarra e bateria. E assim o fez, oportunismo ou não. Penso que não corremos o risco de o material novo dela ser demasiado derivativo – ela está há mais de vinte anos nisto, não terá dificuldades em dar carácter próprio à música.

 

O que nos leva a Bite Me. É mais ou menos o que se esperava – penso que todos concordamos com isto. Um tema pop punk que, não sendo particularmente original, não é nada que esteja demasiado batido. Mesmo dentro do microcosmos da discografia de Avil, é suficientemente distinto do que ela fez antes. 

 

 

Gosto imenso do instrumental nas estâncias e no pré-refrão. Também gosto da mudança da velocidade a meio do refrão. E a voz de Avril soa impecável, como sempre. 

 

A letra é Avril sendo Avril, os tropos do costume: um ex-namorado que se arrepende de a ter deixado, mas ela agora manda-o passear. Uma vez mais, não é nada por aí além, mas ela tem letras piores.

 

Em suma, gosto de Bite Me. Talvez estivesse com a fasquia demasiado baixa, depois das desilusões que apanhei com os trabalhos mais recentes da Avril. Mas, ao contrário da maioria de Head Above Water, Bite Me sabe exatamente quem é, o que vem fazer e fá-lo com eficácia. 

 

Ao que parece, o resto do álbum deverá ser neste estilo. Avril chegou a dizer que não haveria uma única balada no disco – o que seria inédito na discografia dela. Mas entretanto mudou de ideias e incluiu uma. 

 

Eu fico contente. 

 

Em termos de temáticas, Avril disse que, no início dos trabalhos, estava numa fase de desgaste em relação ao amor. Não surpreende: mesmo sem estar a par dos mexericos dos últimos anos, estamos a falar de uma mulher com dois divórcios. Ninguém poderá censurá-la pelo cinismo. Uma das primeiras músicas compostas para este álbum chama-se mesmo Love Sux. 

 

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No entanto, quando Mod Sun colaborou com ela, Avril apaixonou-se e começou uma relação com ele. Ou seja, a sua atitude em relação ao amor mudou – o que se deverá refletir no álbum. Outro título avançado por Avril é Kiss Me Like the World is Ending (o que faz sentido em tempos de pandemia). A balada do álbum – aposto que será a faixa de encerramento – chama-se Dare to Love Me, precisamente sobre abrir-se de novo ao amor. 

 

Tudo isto me parece bem. Está longe de ser um tema inédito – veja-se Petals For Armor, de Hayley Williams. Duvido que Avril faça melhor. Mas ao menos sempre dará alguma profundidade a um álbum que, Avril já o confirmou, será bastante descontraído – com The Best Damn Thing nem se preocupou com isso, tirando as baladas e pouco mais. 

 

Nesta fase, não estou à espera que Avril se ponha a re-inventar a roda ou a ser particularmente introspetiva. Nem sequer quero – quando tentou fazê-lo com Head Above Water não resultou, perdeu-se em clichés. Nestas circunstâncias, mais vale manter-se na sua zona de conforto. Além disso, como tenho vindo a referir, nesta altura não quero música demasiado triste.

 

Estou assim cuidadosamente otimista em relação a este novo álbum. Não deverá ser nada que mude as nossas vidas, mas sei que vou gostar de pelo menos uma mão-cheia de canções. E aposto que haverá pelo menos uma que me tocará de maneira especial. 

 

Ainda não sabemos o nome do álbum, nem a tracklist, nem a data de lançamento. Há poucos dias ela anunciou datas no Canadá sob o nome “Bite Me Tour”. Será esse o nome do trabalho? Espero que não, é pouco imaginativo. Avril disse que lançará um segundo single em janeiro. Talvez divulgue o resto dos pormenores nessa altura. O álbum em si deverá sair “no início do ano”, o que quer que isso signifique (com o histórico dela, lá para abril ou maio, isto se tivermos sorte!). 

 

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Entretanto, a digressão europeia foi remarcada, pela segunda vez, para a primavera do próximo ano. A tal que devia ter decorrido em 2020. Como já escrevi antes, tenho bilhetes para o concerto de Zurique. 

 

A ver se é desta. É mais de metade da minha vida à espera. 

 

E pronto, para já é tudo. Acabei por falar muito pouco de Bite Me em si, mas não faz mal. Estes textos de Músicas Não Tão Ao Calhas sobre primeiros singles têm funcionado mais como prequelas às análises dos respectivos álbuns. E pareceu-me importante refletir sobre o histórico de Avril com este género musical antes de me debruçar sobre a música em si. 

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita. Continuem desse lado que o próximo texto não deverá demorar muito.

Músicas Ao Calhas – I Want What I Want e Break It So Good

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Hoje trago de volta uma personagem recorrente no cânone deste blogue e mesmo das Músicas Ao Calhas. Nem sequer é a primeira vez que escrevo sobre B-sides do álbum mais recente de Avril Lavigne. Ao contrário de Bright, que saiu mais de um ano depois de Head Above Water – na altura certa, como escrevi na altura – as músicas sobre as quais vou escrever neste texto surgiram na Internet no mesmo dia em que o álbum foi editado oficialmente. Não foram as únicas mas, como já tinha referido antes, foram as únicas de que gostei. Falo de I Want What I Want, um cover de Lauren Christy, e Break it So Good. 

 

Lauren é, aliás, o denominador comum a estas duas músicas: foi ela que cantou o original da primeira e contribui com vocais para a segunda. Qualquer fã razoavelmente bem informado de Avril saberá que Lauren fazia parte do The Matrix – a equipa por detrás da co-composição de uma grande parte do Let Go, nomeadamente o triunvirato Complicated, Sk8er Boi e I’m With You. Anos mais tarde, Lauren tornaria a colaborar com Avril durante os trabalhos de Head Above Water. 

 

Antes de fazer parte do The Matrix, no entanto, Lauren teve uma relativamente curta carreira a solo. I Want What I Want faz parte de Breed, o seu segundo álbum – e o último antes de desistir da carreira a solo e formar o The Matrix. 

 

A versão original tem aquele som pop rock dos anos 90, início dos anos 2000 que eu sempre adorei. Sinto mesmo que é o meu género musical primordial, sobretudo quando cantado no feminino. Além disso, as semelhanças com as músicas de Let Go são evidentes.

 

Desse modo, ouvir Avril cantando I Want What I Want bate certo. A versão da canadiana tem uma roupagem mais moderna, melhor que a original, na minha opinião. Eu ainda assim gostava que fosse menos eletrónica – mas lá está, é apenas uma demo. Se fosse para ser lançada oficialmente, a qualidade seria melhor.

 

 

Também gosto mais da interpretação de Avril – e nem sequer falo apenas da interpretação vocal. Gosto mais das vozes de apoio na versão de Avril, em particular os “and I want, and I want, and I want” no refrão. Para além disso, Avril alterou a terceira parte da música – para melhor, na minha opinião.

 

Entretanto, enquanto escrevia este texto, descobri uma outra versão de I Want What I Want, cantada por Tata Young, uma cantora tailandesa. Esta é mais parecida com o original – é como se tivessem aplicado um filtro pop na versão de Lauren. Continuo a gostar mais da versão de Avril, mas esta não é má. Tata tem uma voz bonita.

 

Ora, Break it So Good é uma música bastante diferente. Esta também é uma demo, ainda menos polida que I Want What I Want. Tem um instrumental minimalista e algo sombrio, apenas piano (?), batida e sintetizadores. É como se fosse uma Give You What You Like mais eletrónica. 

 

Um pormenor estranho é o facto de Avril só cantar o refrão. Lauren canta as estâncias, com algum auto-tune (para a sua voz soar mais parecida com a de Avril?). É possível que esta canção tenha sido composta e gravada numa fase má da Doença de Lyme. Avril poderá ter conseguido gravar o refrão, mas depois pode não se ter sentido suficientemente bem para cantar as estâncias, logo, Lauren tomou o lugar dela. Se quisessem incluí-la em Head Above Water, gravariam uma nova versão, cantada a solo por Avril. 

 

De qualquer forma, a verdade é que, na minha opinião, esta produção minimalista, imperfeita, resulta. Break it So Good ficou com um tom intimista, sombrio e estranhamente sexy. Para lançarem oficialmente esta música teriam de manter o instrumental mais ou menos assim. 

 

 

Por outro lado, o carácter também vem da letra, uma das partes mais interessantes de Break it So Good. Esta aborda uma relação que já se percebeu que não vai durar. No entanto, a narradora está disposta a aceitar o antigo amante (assumindo que se trata de um homem), não porque acredite na relação, mas porque se quer vingar dele (“Imma break your heart but I’ll break it so good/(...)/Do to you what you do to me”). 

 

É bem possível que estejamos a falar da mesma relação abordada em I Fell In Love with the Devil e sobretudo Tell Me It’s Over. Compare-se os versos desta última – “you come and you leave” – com os de Break it So Good – “maybe I’ll come and go, a taste of your own medicine”. Um amante que brinca com os sentimentos dela, que lhe vira as costas, mas que volta e meia diz que quer regressar para ela (“Come and whisper you miss me”, “you say you still adore me, you’re still kind of a mess”). Ao contrário de Devil e Tell Me It’s Over, a narradora não se limita ao papel de vítima, quer derrotar o amante no jogo dele. 

 

Segundo a minha teoria, Avril não incluiu Break it So Good em Head Above Water porque esta canção não se encaixa na narrativa de I Fell In Love With the Devil e Tell Me It’s Over. Sobretudo na altura em que andava a promover a primeira, Avril tentou vender-se como a vítima de uma relação tóxica, tendo tido de ganhar forças para sair dela (ainda que nenhuma dessas músicas sustentem bem esta última parte. Só esticando muito.)

 

Break it So Good, por seu lado, é uma resposta menos politicamente correta, mesmo menos moralmente correta, a uma relação tóxica. Uma resposta de que Avril talvez não se orgulhe, que talvez lhe tenha saído pela culatra se de facto a tentou. Mas não deixaria de ser uma resposta humana, uma perspetiva mais única, provando que Avril também não fora propriamente uma santinha na relação. 

 

Acaba por ser este o meu problema com Avril nos últimos anos. A partir de certa altura deixou de parecer genuína, esconde-se atrás de clichés e superficialidades. Em retrospetiva, uma parte de mim acha que ela se aproveitou da “moda” do feminismo e das relações tóxicas para promover I Fell In Love With the Devil, Tell Me It’s Over e Dumb Blonde. Da mesma forma, nos últimos meses parece estar a aproveitar-se da nostalgia pelo pop punk dos anos 2000 – juntamente com Mod Sun, Machine Gun Kelly e Travis Barker – para se tornar relevante de novo, preparando o lançamento do seu sétimo álbum.

 

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Quando é que eu me tornei tão cínica em relação à minha cantora preferida?

 

Já que falamos nisso… sim, Avril terá um álbum pronto a ser editado, radicalmente diferente de Head Above Water e mesmo das músicas de que falámos aqui. Mesmo à moda dela, a mulher anda a acenar-nos com este lançamento desde finais do ano passado e, até agora, nada. 

 

Para ser sincera, as minhas expectativas estão em mínimos históricos para este álbum. Não tenho pressa em ouvi-lo. Preocupa-me mais a digressão europeia, adiada desde o início da pandemia. A equipa de Avril se calhar está à espera deste novo ciclo de álbum antes de confirmar as datas. 

 

A ser verdade, é melhor esperarmos sentados.

 

Numa nota menos cética… não deixará de ser um álbum da Avril. Terá quase de certeza pelo menos uma mão-cheia de músicas de que gostarei, mesmo que não adore todas. 

 

Para já, por estes dias já só penso em ouvir Solar Power, o álbum novo de Lorde. Sai já esta sexta-feira. A sua análise deverá ser o próximo texto deste blogue. Noutras notícias musicais do meu nicho, Bryan Adams deverá lançar um single em outubro – na altura decido se escrevo sobre ele. 

 

Entretanto, já comecei a rever e a anotar Digimon Frontier, desta feita dobrado em português. Neste momento vou para o episódio 14. Dentro de algumas semanas já devo estar pronta para escrever sobre essa temporada.


É mais ou menos este o plano para os próximos tempos. Obrigada pela vossa visita, como o costume. Visitem a página de Facebook deste blogue.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Solar Power

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No passado dia 10 de junho houve um eclipse solar – que infelizmente mal se viu em território português. A cantora neozelandesa Ella Yelich-O'Connor, mais conhecida pelo seu nome artístico Lorde, aproveitou a ocasião para lançar Solar Power, o primeiro single do seu terceiro álbum de estúdio com o mesmo nome, que sairá a 20 de agosto.

 

Solar Power sucede a Melodrama, que saiu em 2017. Este é um álbum que, já na altura em que escrevi sobre ele, reconheci ser espetacular e o tempo só o melhorou. Dois, três, quatro anos após o seu lançamento e continuo a descobrir significados novos – mas não tantos como a autora desde excelente vídeo. Melodrama não se saiu grande coisa em termos comerciais, mas ganhou um culto de seguidores devotos, nos quais me incluo.

 

Por sua vez, Melodrama sucedia a Pure Heroine. Pessoalmente, gosto menos e compreendo menos este álbum, mas todos concordam que é também excelente e francamente revolucionário.

 

Ou seja, a fasquia está altíssima para Solar Power. Mais sobre isso adiante.

 

O primeiro single do álbum com o mesmo nome não se encaixaria nem em Pure Heroine e Melodrama. Dá para notar, no entanto, as impressões digitais de Lorde.

 

 

Uma das novidades é o facto de ser conduzida pela guitarra acústica. É apenas a segunda canção de Lorde conduzida por esse instrumento – a primeira foi The Louvre. Em entrevista ao The Guardian, Ella confessou que, durante os trabalhos de Pure Heroine, não achava as guitarras fixes. Eram demasiado “meio dos anos 2000” para o seu gosto, mais adequadas a serem cantadas à volta de uma fogueira, num acampamento.

 

Nisso não éramos parecidas.

 

Os acordes que guiam Solar Power nas estâncias têm um tom grave e contido – que se obtém quando se prende ligeiramente as cordas no braço na guitarra e só se toca as de alumínio. No refrão, as cordas de nylon soltam-se, emitindo um som mais luminoso.

 

Eu falo em refrão mas, para ser rigorosa, Solar Power não tem um refrão convencional. A melodia é semelhante, mas a letra é diferente. Depois do segundo refrão, a música explode para um som ainda mais luminoso, mesmo tropical, que se adequa à letra. 

 

Muitos têm-na comparado a Freedom, de George Michael. Eu concordo que é parecida, mas não tanto como algumas pessoas parecem achar. Pelo menos não ao ponto de ter pensado que era um “sample”. De qualquer forma, os herdeiros do falecido cantor já deram a benção a Lorde e a Solar Power.

 

Em termos de vocais, Lorde não faz nada de extraordinário, mas canta com a sua típica cadência, com o seu típico tom grave. Por outro lado, temos Clairo e Phoebe Bridgers nos backvocals – faz-me lembrar Roses/Violet/Lotus/Iris, nesse aspeto. 

 

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Tirando algumas particularidades de que vamos falar de seguida, Solar Power é uma música de verão pura e dura – o que pode ser interpretado como um passo atrás, depois da maneira como Lorde explorou a dicotomia verão/inverno, calor/frio em Melodrama. Segundo Ella, Solar Power é sobre a “energia namoradeira” que surge quando o tempo aquece e as roupas se reduzem.

 

Nada de muito original aqui. É basicamente o conceito das temporadas de verão dos Morangos com Açúcar.

 

E na verdade, este é um dos casos em que aquilo que o artista diz sobre a música não bate muito certo com o que a música parece dizer. Existem poucas referências a romance ou sexualidade em Solar Power: só mesmo em “my boy behind me, he’s taking pictures” e “are you coming, my baby?” e mesmo assim.

 

A letra é menos Morangos com Açúcar e mais Eu Gosto é do Verão (se bem que menos tola, no bom sentido). Está cheia de frases pedindo para serem transformadas em legendas do Instagram ou do Tik Tok (algo que tenciono fazer com fotos da minha cadela na praia). Solar Power fala sobre encontrar… bem, os seus sítios perfeitos na praia e sentir as mágoas e as preocupações derretendo com a luz do sol.

 

A narradora, aliás, assume-se um pouco como uma profeta, uma deusa solar ensinando ao povo as maravilhas do verão – “Lead the boys and girls onto the beaches. Come one, come all, I’ll tell you my secrets, I’m kinda like a prettier Jesus”. Suponho que a narradora seja a mesma personagem que Ella descreveu na carta de apresentação do álbum – mais sobre isso já a seguir.

 

O videoclipe explora bem essa ideia, mostrando Lorde na praia, líder de uma espécie de tribo ou seita, vestida de amarelo vivo – em contraste com os tons mais terra, mais discretos dos demais (tendo em conta que Ella sofre de sinestesia, esse pormenor foi cem por cento intencional, não duvidem). Lorde sempre representou esse papel de certa forma na sua música – mais a porta-voz da sua geração do que propriamente um guia, é certo. 

 

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Já que falamos do videoclipe, consta que este foi a introdução ao universo cinemático deste álbum. Se Melodrama decorria todo numa única noite, durante uma festa, Solar Power decorre numa praia – ou pelo menos os videoclipes. Lorde não revelou a praia exata onde decorreram as filmagens por motivos óbvios (e mesmo assim, acho que no Reddit já descobriram). Ella disse para imaginarmos que decorre na nossa praia preferida.

 

Na Meia-Praia de Lagos, portanto. Naquela zona não concessionada, mais perto do pontão, com menos pessoas, onde a Jane pode correr à vontade. 

 

Têm circulado piadas na Internet sobre o facto de Solar Power ter começado com Lorde admitindo que “odeia o frio”, quando uma das poucas coisas que soubemos dela, nos últimos anos, foi a sua viagem à Antártida. Eu acho que faz sentido – depois de tanto tempo num dos lugares mais frios do planeta, qualquer um sairia de lá sedento de calor e de verão. 

 

Em suma, Solar Power está longe de ser a melhor música de Lorde. Não sendo propriamente fútil, não tem grande profundidade e a mensagem não é muito original. Sobretudo se compararmos com Pure Heroine e Melodrama. Quem estava à espera de algo mais intenso e revolucionário, apanhou um balde de água fria. 

 

No entanto, mesmo no seu… não vou dizer “pior”, porque Solar Power não é uma música má, mas pronto, menos bom, Lorde continua acima da média. O tom descontraído sabe bem, sobretudo depois do último ano e meio – a própria Ella revelou que essa foi uma das razões pelas quais lançou a música nesta altura. 

 

Como vi na Internet, aliás, a única música alegre deste ano só podia vir da Nova Zelândia.

 

 

Consta que, de resto, apesar de não deixar de incluir algumas faixas mais sérias e introspectivas, Solar Power deverá ser um álbum no geral alegre e despreocupado. Pelo menos é essa a ideia com que fico. Isso agrada-me. Em parte por aquilo que referi sobre o último ano e meio, mas também porque dois dos álbuns que mais tenho ouvido nos últimos meses são o folklore e o evermore de Taylor Swift. Não me interpretem mal, são excelentes álbuns mas são emocionalmente desgastantes (ele é my tears ricochet, ele é seven, ele é august, ele é illicit affairs, ele é this is me trying, ele é ‘tis the damn season, ele é champagne problems, ele é marjorie…). Um álbum mais leve saber-me-á bem.

 

Este será também um trabalho mais focado na natureza – segundo Lorde, em momentos de “desgosto, luto, profundo amor ou confusão”, o mundo natural é o seu abrigo, é o seu sítio perfeito (não se limita à praia). O heterónimo dela neste ciclo será a personagem que ela descreveu na apresentação do álbum: uma mulher “sexy, brincalhona, selvagem e livre”, com múltiplos amantes, ligada à terra e ao passado, mas ao mesmo tempo moderna e de olhos no futuro.

 

Uma vez mais, nada disto é inédito ou particularmente original. Nos últimos anos estes movimentos de regresso à natureza têm estado na moda. Veja-se, lá está, folklore e evermore, por exemplo, bem como a estética cottage core, mesmo Petals For Armor até certo ponto. O heterónimo de Lorde que descrevi acima, aliás, lembra-me a Mulher Selvagem de Mulheres que Correm com os Lobos. 

 

Tudo isto faz sentido como resposta ao mundo atual: cada vez mais tecnológico e, claro, com uma pandemia. Solar Power, aliás, fala mesmo em atirar o telemóvel para a água – e Lorde já veio avisar que não vai voltar para as redes sociais. 

 

Como li algures – ironicamente na Internet – há dez anos vínhamos para as internetes para fugir ao mundo real. Agora fugimos para o mundo real para escapar às internetes.

 

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Solar Power sai então a 20 de agosto – um tudo nada demasiado perto do fim do verão para o meu gosto, se é um álbum estival. Bem, eu este ano também não vou ter férias de verão, só posso desfrutar da época ao fim-de-semana, por isso…

 

Fica para o ano. 

 

Estou a fazer por não elevar demasiado as minhas expectativas para este álbum. É muito difícil que Solar Power seja melhor que Melodrama ou Pure Heroine. Consta que esse terá sido um dos motivos para Ella ter demorado tanto tempo a cozinhar este trabalho. Eu pelo menos não levarei a mal se não conseguir atingir o mesmo nível estratosférico – parecendo que não, a miúda é humana!

 

Dito isto, continua a ser Lorde. Não baixo assim tanto a fasquia. 

 

É possível que Ella lance outro single antes de 20 de agosto. Há rumores de que Stoned at the Nail Salon poderá sair nos próximos dias. Deveria ter esperado? Deveria ter escrito sobre as duas músicas no mesmo texto? Talvez, mas não me apeteceu ficar à espera: o blogue já estava parado há muito tempo. Além disso, aqui o estaminé faz nove anos hoje, queria assinalá-lo com um texto novo.

 

Logo vejo se escrevo sobre Stoned at the Nail Salon ou sobre qualquer outro single que venha a ser lançado antes do álbum. Em princípio não o farei: quero começar a trabalhar noutros projetos e escrever sobre outras coisas no próximo texto deste blogue. Posso desde já adiantar que este será um texto de Músicas Ao Calhas sobre uma personagem recorrente aqui no estaminé. Não quero ter pressa com este (já tenho stress que chegue noutras áreas da minha vida), mas não devo demorar muito. 

 

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Um brinde rápido a este blogue, um dos orgulhos da minha vida – e um agradecimento a todos os que o têm visitado. Encerro este texto com uma pequena playlist baseada em Solar Power – que poderá vir a crescer com o tempo. Agora que acabaram de ler, se tiverem possibilidades para isso, ide aproveitar o sol... mas não se esqueçam do protetor solar!

 

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #2

Segunda parte da minha análise a Flowers For Vases. Podem ler a primeira parte aqui.

 

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Na altura do lançamento de Flowers For Vases, Wait On não era uma música completamente desconhecida. Hayley já a tinha tocado em junho do ano passado, num vídeo do Instagram (se a memória não me falha). Como poderão ver (e ouvir), é uma versão incompleta, ainda em composição. 

 

Musicalmente é muito simples, baseada apenas em arpejos de guitarra acústica – faz lembrar um pouco In the Mourning, na verdade – e um ou outro efeito mais etéreo. A letra parece falar de várias coisas. A narradora começa por lamentar estar sempre à espera do seu amado, como se a vida dela girasse à volta dele. 

 

O refrão, no entanto, usa a metáfora do céu, que mesmo estando por vezes coberto de nuvens e, de vez em quando, precise de deixar a chuva cair, não desaba. Mantém-se firme sobre as nossas cabeças.

 

Isto é uma variante ao conceito de Petals For Armor, sobre o qual já escrevi várias vezes aqui no blogue – nem sempre a propósito de Hayley. A jovem está ainda a aprender a ser forte, a sentir as coisas e a não deixar que estas a destruam. A resistir à tentação de se tornar impermeável. Hayley chegou a citar Dolly Parton, dizendo que não quer endurecer o coração, mas que procura fortalecer os músculos à volta desse órgão.

 

Ninguém disse que era fácil ser-se forte.

 

 

No contexto de Wait On, suponho que as emoções com que a narradora está a lidar sejam as saudades do amado, que está longe dela. Na última estância, Hayley usa a metáfora de um pássaro que guardou as suas penas para que o amado pudesse usá-las no cabelo – e saber que ela estará sempre com ele.

 

Segue-se KYRH, sigla para Keep You Right Here. Flowers For Vases tem duas siglas como títulos – sem necessidade, na minha opinião. Qual é a piada? 

 

Esta faixa é praticamente um interlúdio – num álbum de faixas já de si muito curtas. Um interlúdio num álbum de interlúdios. Musicalmente, é uma balada guiada pelo piano, com notas de guitarra e um tom etéreo. Agradável, mas não muito original. 

 

A letra é curta, fala apenas de manter alguém à distância certa. Esse acaba por ser um tema recorrente em Flowers For Vases: procurar um equilíbrio entre dar espaço a um ente querido e as saudades que sentimos deles. 

 

Nessa linha, falemos sobre HYD. Devo dizer que, pelo menos em termos musicais, esta é uma das que menos gosto em Flowers For Vases. É demasiado lenta para o meu gosto, falta-lhe intensidade, vida. Uma vez mais, temos guitarra acústica, piano, elementos atmosféricos mas, nesta fase do álbum, já começa a cansar.

 

A letra ao menos é interessante, talvez das mais interessantes em Flowers For Vases. Para mim, HYD é a maior prova de que Taylor é o misterioso amante de Hayley. As pistas estão todas lá, sobretudo na segunda estância.

 

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Começando por “many storms have come and, if not for you, I’d have been struck down, disappeared at sea”. Hayley e Taylor já passaram por muito juntos, tanto no que toca às crises da banda como nas suas vidas pessoais. Por estes dias, já é do conhecimento geral que 2015 foi um dos piores anos da vida de Hayley – Jeremy deixou os Paramore, o ex tê-la-á traído poucos meses antes da data inicial do casamento deles. No entanto, Hayley chegou a afirmar que passaria por tudo outra vez só mesmo porque, no meio disto tudo, Taylor deu provas da sua amizade. 

 

Depois, temos “I know it’s hard for you to take a compliment”. Taylor não gosta de elogios. Existem ocasiões, em entrevistas ou em palco – como por exemplo no vídeo que acabei de referir – em que Hayley se prepara para dizer bem de Taylor, vira-se para ele e diz algo do género:

 

– Vais detestar esta parte…

 

Por fim, “my life began the day you came in it”. Hayley tem dito que considera que só nasceu verdadeiramente quando ela e a mãe vieram viver para Nashville, quando ela conheceu os futuros membros os Paramore (havemos de regressar a essa ideia). Um desses futuros membros? Taylor. Ele só se juntou oficialmente à banda durante o ciclo de Riot!, vários anos depois dos restantes, mas ele e Hayley compuseram juntos desde início – músicas como Conspiracy e a B-side Oh Star. 

 

Dá para perceber um bocadinho porque é que Hayley se apaixonou por ele, mesmo que muitos anos depois. 

 

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Segundo a letra de HYD, no entanto, eles terão estado separados. Talvez ainda estejam. Assumindo que é sobre Taylor, este parece estar a sofrer de depressão (“And it that dark little place you have made, you’d swear all these pretty clouds are grey”) e sentiu a necessidade de deixá-la.

 

A narradora não reage muito bem, fica magoada, quase ressentida – porque, como acabámos de ver, quando Hayley passou pelo mesmo, ela não o afastou, ele esteve lá, terá mesmo sido fulcral para a sua sobrevivência (havemos de regressar a esta ideia já a seguir). Além disso, há que recordar que Hayley tem problemas de abandono, derivados do divórcio dos pais, conforme admitiu numa das entrevistas a Zane Lowe.

 

Como acontece com Over Those Hills, se bem que em circunstâncias muito diferentes, a narradora pergunta-se como estará o amado. Se ele ainda a ama, se ele está a conseguir ultrapassar a sua depressão. Ela acredita que sim.

 

Existe uma parte confusa perto do fim, em que se fala de uma criança. Não sei se ela está a falar do seu cão, se está a falar da sua criança interior, como em Simmer, se eles tiveram um filho sem dizer nada a ninguém (ligeiramente menos provável). Infelizmente, no que toca a Flowers For Vases, não tenho respostas para todas as perguntas – até porque Hayley falou muito pouco sobre estas músicas. 

 

Fica à interpretação de cada um.

 

Queria falar agora sobre Find Me Here. Esta é uma versão diferente da lançada no EP Self-Serenades, mais longa, mais completa. Continua curta, mesmo assim – apenas vinte segundos mais longa que a primeira versão, ainda parece um interlúdio. Musicalmente, pegou nas partes boas da primeira versão e melhorou-as ainda mais – nomeadamente os vocais à Simon & Garfunkel. 

 

 

Em termos de letra, para Flowers For Vases, Hayley acrescentou uma estância que não chega a sê-lo – são apenas dois versos – e uma variante ao refrão. Acaba por manter a mesma mensagem da versão de Self-Serenades, com uma pequena extensão: tal como ela sempre amará a outra pessoa, mesmo que este não possa estar com ela, o amado também sempre a amará. Mesmo separados, nenhum deles estará sozinho.

 

Esta mensagem tem ainda maior impacto no contexto de Flowers For Vases – parece ser uma resposta direta a Wait On e HYD. Dá para ver a jornada feita por Hayley desde lidar mal com a separação até aceitá-la. Suponho que uma das lições que Hayley aprendeu durante 2020 foi que cada um lida com os seus problemas de saúde mental de maneira diferente. Para alguns, como ela, a presença dos entes queridos é importante. Outros, como possivelmente Taylor, precisam de fazê-los sozinhos. Há que procurar um equilíbrio, mesmo que seja difícil. 

 

Nesse aspeto, talvez não tenha sido assim tão boa ideia ter lançado Find Me Here no Self-Serenades. Mais valia ter esperado por Flowers For Vases. Enfim. 

 

Com tudo isto em consideração, e apesar de continuar a achar que a faixa é curta demais, Find Me Here está entre as minhas preferidas neste álbum. 

 

Voltando um bocadinho atrás na tracklist, Inordinary é uma das preferidas de Hayley. Parece ter sido inspirada por aspetos do passado dela de que falou em entrevistas sobre Petals For Armor. Hayley admitiu que a primeira parte da canção é sobre uma coisa e a segunda parte é sobre outra, o contexto muda. 

 

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Assim, na primeira parte da música, Hayley recorda os primórdios dos Paramore. Os tempos em que ela conheceu os futuros membros da banda, Taylor incluído, em que tentou fazer deles a família que desejava ter tido em criança. E, claro, em que aprendeu a tocar guitarra, a compôr música, em que tinha sonhos e ambições que não cabiam numa vida comum em Nashville. 

 

Na segunda parte, por outro lado, Hayley recua ligeiramente no tempo, recordando o momento em que ela e a mãe fugiram do Mississipi e do companheiro abusivo da última. A narradora diz sentir saudades desses tempos, do sabor da liberdade, da relativa paz e normalidade da sua vida. Ao contrário da primeira parte, que valoriza o incomum, a segunda parte valoriza o comum. 

 

Posso estar enganada, mas a ideia que tenho é que só há relativamente pouco tempo é que Hayley aprendeu a dar valor a esta decisão da sua mãe. Havemos de regressar a este assunto quando finalmente escrever sobre All We Know Is Falling. Em todo o caso, é por causa dos dois eventos descritos em Inordinary – a fuga para Nashville, conhecer Taylor, Josh e os outros – que Hayley diz que a sua vida começou no sétimo ano. 

 

Musicamlmente, nada a assinalar. É mais uma faixa guiada pela guitarra acústica, acompanhada por piano e efeitos atmosféricos. 

 

Estou sempre a dizer a mesma coisa, não estou? A culpa é deste álbum.

 

Em Inordinary em particular, em dispensava o piano e o resto do acompanhamento, mantinha a faixa só com guitarra e voz. Os outros elementos não acrescentam nada. 

 

 

Ao menos a canção de que vamos falar a seguir tem uma sonoridade um pouco diferente. No Use I Just Do é outra faixa demasiado curta, outra que parece um interlúdio – o que é uma pena, pois eu até estava a gostar. Guiada pelo piano, acompanhada por elementos estranhos – a melhor maneira que encontro para descrever é dizendo que soa-me a uma guitarra distorcida à distância. 

 

Em todo o caso, resulta.

 

Em termos de letra, é simples, é curta, mas transmite bem a mensagem. É uma canção de amor. A narradora ama o seu interesse romântico por quem ele é. Não apenas porque se sente sozinha e precisa de companhia. Por muito que a narradora tente, ele é o único que ela ama. Está fora do seu controlo. 

 

Pena mesmo ser tão curta.

 

Descansos é uma faixa quase instrumental, a penúltima em Flowers For Vases. Inicialmente a música tinha letra, chamava-se Baby in the Bathtub (um título curioso), mas consta que a letra deixou de ser revelante. Assim, Hayley cortou-a e manteve o instrumental e alguns – poucos – vocais sem palavras. A faixa inclui ainda o áudio de vídeos caseiros do primeiro Dia das Bruxas de Hayley. 

 

O instrumental em si é bonito, com notas de guitarra e piano e um tom melancólico, agridoce. Como se, de facto, Hayley estivesse a ver as cassetes da sua infância, sentindo saudades de tempos mais inocentes.

 

 

Falta-nos falar sobre Just a Lover – que muitos especulam ser uma resposta ao excerto do avô de Hayley, incluído por Taylor em Crystal Clear: “friends or lovers, which will it be?” (como é que eu duvidei durante tanto tempo…?). 

 

Instrumentalmente é das mais interessantes em Flowers For Vases. Começando com piano, baixo e bateria, evoluindo mais tarde para uma guitarra elétrica explosiva. 

 

Uma vez mais, é… demasiado… curta! A música pedia mais uma estância antes de trazerem a guitarra elétrica. Além disso, não havia necessidade de manter os vocais introdutórios num volume tão baixo. Para quê? 

 

A letra é algo confusa. Começando pela introdução. Hayley faz uma referência à Wendy de Peter Pan. Numa das entrevistas a propósito de Petals For Armor, Hayley revelou que uma das coisas que viera a descobrir com o(s) seu(s) psicólogo(s) é que tentou fazer dos Paramore a sua família, tentou de fazer de Wendy, de mãezinha do grupo que tomava conta de toda a gente. Não era a atitude mais saudável.

 

Em Just a Lover, Hayley diz mesmo que o amor a transformou em muitas outras pessoas, mas agora é “apenas uma amante”. A minha interpretação é que, agora, Hayley é capaz de amar só porque sim, de maneira pura – não para compensar por uma carência, não apenas porque se sente sozinha e indesejada.

 

Isto pode dizer respeito tanto à sua possível relação com Taylor como à sua relação com os Paramore enquanto banda. 

 

 

A estância seguinte fala, outra vez, dos primórdios dos Paramore. A depois dessa é que se torna confusa. A ideia com que fico é que Hayley se deixou levar pelas metáforas e a mensagem da música perde-se. 

 

Em todo o caso, vejo a última estância como um lamento pelo futuro incerto da banda em termos de pandemia – “I’ll be singing into empty glasses, no more music for the masses”. Há quem diga, no entanto, que os copos vazios são aos tempos em que Hayley tentava afogar a sua depressão com doses copiosas de álcool, durante a era de After Laughter. 

 

Não sei. Just a Lover termina com a narradora dizendo que sabe o que isto era, ou o que fora. Pena não ter partilhado a informação connosco. 

 

E é isto Flowers For Vases. O único álbum até agora do universo musical de Hayley Williams que não adoro. Como fui dando a entender ao longo desta análise, é demasiado homogéneo em termos de sonoridade. 

 

Comparemos com Petals For Armor: quase todas as músicas têm essencialmente os mesmos instrumentos, mas os estilos musicais são muito mais variados e diferentes do que se ouve por aí – sobretudo pelo facto de quase todas serem guiadas pelo baixo, cortesia da colaboração com Joey Howard. 

 

Por sua vez, as músicas de Flowers For Vases soam muito parecidas a quaisquer outras canções acústicas/folk/baladas de piano. Além disso, como também fui assinalando, a maior parte delas é demasiado curta. Acho que li em qualquer lado que várias das músicas deste álbum estiveram incompletas durante muito tempo. Hayley só as terá completado quando decidiu lançá-las. 

 

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Não consigo encontrar a fonte dessa informação, no entanto, estejam à vontade para não acreditarem. Mas não me surpreenderia se fosse verdade. Por esse aspeto e pela falta de variedade em termos de instrumental, Flowers For Vases soa-me a um longo interlúdio ou a um EP. 

 

Talvez devesse ter sido um EP – até porque temos casos de o mesmo tema ser abordado em mais do que uma canção, com poucas alterações. Como vimos antes, as três primeiras músicas falam sobre, ao mesmo tempo, querer e não querer seguir em frente após uma relação falhada. Outras três tentando processar o facto de o amado precisar de espaço. Alguns dos temas já tinham sido (melhor) abordados em Petals For Armor, até. Eu teria cortado músicas como First Thing to Go ou HYD ou KYRH. 

 

Dito isto tudo… há que recordar que este é um álbum quase cem por cento a solo por Hayley. Ela compô-lo sozinha e tocou todos os instrumentos. Pessoalmente, nunca tinha ouvido falar de nenhum caso assim, mas uma rápida pesquisa no Google mostrou-me que não é assim tão invulgar.

 

Ainda assim, a maior parte dos músicos não consegue criar um álbum sozinho. Precisa de co-compositores, produtores, instrumentistas, etc. Hoje em dia, aliás, muitas músicas do mainstream contam cinco ou seis compositores. Uptown Funk conta para aí uma dúzia deles. Segundo consta, no entanto, foi o equivalente a um trabalho de grupo em que só uma ou duas pessoas trabalham, os outros apenas assinam no fim. Neste caso não foi pela nota, foi pelos lucros da música.

 

Mesmo que um músico não tenha propósitos tão monetários, não deixa de ser difícil fazer um álbum praticamente sem ajuda. Hayley, ainda por cima, é famosa pelas letras e melodias, não pelos instrumentos. Pelo contrário, Petals For Armor foi o primeiro álbum em que ela teve créditos na instrumentação. Ela mesma admitiu que, desde a sua adolescência, 2020 foi o ano em que mais tocou guitarra. Foi a primeira vez em uma década que instalou um kit de bateria na sua casa.

 

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Tendo isto tudo em conta, podemos censurar Hayley por Flowers For Vases não ser uma obra-prima? Eu já acho um grande feito, tendo em conta as circunstâncias, que o álbum tenha uns quantos bons momentos instrumentais!

 

Além disso, concordo com as opiniões de fãs na Internet que dizem que, mais do que qualquer outro, Flowers For Vases é um álbum que Hayley criou só para si mesma, sem grande consideração pela audiência. Terá sido por isso que a promoção foi mínima. 

 

Calhou não fazer muito o meu género, tirando uma música ou outra. Não me imagino a regressar muito a este álbum. Ao contrário do que tem sido a minha prática com artistas de que gosto nos últimos anos, não me vou dar ao trabalho de comprar o CD.

 

E não há mal nenhum nisso. Como a própria Hayley escreveu na mensagem de lançamento, melhor sorte para a próxima.

 

E Hayley parece já mais ou menos pronta para uma próxima. Pintou o cabelo de laranja e, quase cinco anos depois, parece que é para durar – também acho que é a altura certa. Houveram momentos nos anos anteriores, a propósito de iniciativas para a Good Dye Young e assim, em que ela parecia ameaçar regressar ao laranja, mas a ideia não me agradava. Ainda não estávamos lá. Mas agora estamos.

 

Hayley diz também que o seu próximo projeto musical será com os Paramore. Não sei se vão entrar em estúdio já já – tenho as minhas dúvidas, até porque ainda não há fim à vista para a pandemia. Há quem aposte num álbum novo ainda este ano, mas eu acho melhor termos paciência. Não me importo de esperar.

 

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Já conto mais de dez anos como fã dos Paramore. Às vezes ponho-me a ouvir músicas do Singles Club e surpreendo-me com tudo o que mudou desde esses tempos, o quão Hayley e Taylor evoluíram como músicos. Tem sido uma montanha-russa – e note-se que só me juntei à família depois de Zac e Josh terem saído da maneira como saíram. Ainda hoje, passados estes anos todos – mesmo estando os Paramore numa fase tão boa que Hayley pode lançar música a solo sem que se questione o seu compromisso com a banda – continuamos a tentar perceber porque é que a jornada tem sido tão turbulenta.

 

Há umas semanas alguém comentou no Twitter que os Paramore deviam fazer daqueles documentários musicais que estão muito na moda hoje em dia. Hayley admitiu que houveram tentativas. Eu no entanto acho que era preciso, no mínimo, uma série de seis episódios.

 

Hei de escrever sobre isso quando analisar os álbuns All We Know Is Falling e Brand New Eyes. Já não é a primeira vez que falo destes textos, estou sempre a adiar. Ainda assim, quero ver se escrevo sobre o primeiro álbum antes de sair o próximo. 

 

Os próximos tempos aqui no blogue serão algo incertos. Vou começar um emprego novo, mais exigente, que me vai roubar tempo de escrita. Ainda não sei como vou gerir mas, no mínimo, publicações aqui vão ser (ainda) mais espaçadas. Avril Lavigne e Bryan Adams têm dado a entender que irão lançar música a qualquer momento. Talvez consiga escrever sobre esse material novo na rúbrica Músicas Não Tão Ao Calhas, mas não consigo prometer nada. Pode ser que tenha mesmo de deixar o blogue indefinidamente em pausa – espero que não seja necessário. 

 

Obrigada desde já pela vossa compreensão. Saúde, ânimo e até uma próxima. 

Hayley Williams – Flowers For Vases / descansos (2021) #1

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Hayley Williams, mais conhecida como vocalista dos Paramore, estreou-se a solo no ano passado, com o álbum Petals For Armor. Um álbum de que gostei muito, tal como escrevi antes: ao mesmo tempo eclético e consistente, tanto em termos de instrumentação como em termos de temas. Um álbum cheio de simbolismos, que começa sombrio, tornando-se progressivamente mais luminosos.

 

O plano era Hayley ir em digressão depois do lançamento de Petals For Armor – talvez mesmo antes. No entanto, como aconteceu a toda a gente, a pandemia cancelou esses planos. Hayley ainda passou um tempo razoável dando entrevistas online mas, depois de o álbum ter saído, deu por si fechada em casa, sem saber o que fazer. 

 

Acabou por passar muitos desses dias com a sua guitarra. Ia tocando covers acústicos, que depois partilhava nas redes sociais, versões acústicas das músicas de Petals For Armor – como as de Self-Serenades – e também música original, que agora lançou no passado dia 5 de fevereiro, num álbum chamado Flowers For Vases. Hoje vamos falar sobre ele. A análise virá em duas partes – publico a segunda amanhã.

 

De acordo com a nota de lançamento. Flowers For Vases é uma espécie de prequela a Petals For Armor, ou um desvio entre a primeira e a segunda parte desse álbum. Não acho que seja para levar demasiado à letra. Essencialmente, Flowers For Vases lida com assuntos do passado de Hayley que, mesmo depois de Petals For Armor, continuavam mal resolvidos.

 

Penso que já escrevi aqui sobre isso aqui no blogue, mas durante a quarentena, quando deixamos de ter coisas acontecendo na nossa vida, é como se o tempo parasse. Ficamos numa espécie de limbo, em que não temos futuro, quase não temos presente, só nos resta o passado.

 

Pelo menos foi assim que me senti durante o primeiro confinamento – e até estava a trabalhar fora de casa! Nem quero imaginar como terá sido para quem ficou verdadeiramente em isolamento. 

 

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Suponho que Hayley que tenha sentido mais ou menos assim – e que o confinamento tenha feito com que ressurgissem muitas pontas por atar no seu passado. Ao mesmo tempo, Flowers For Vases aborda assuntos que vieram à baila nas múltiplas entrevistas de Hayley para promover o antecessor Petals For Armor – como, por exemplo, o segundo (?) divórcio da sua mãe, a história de origem dos Paramore e o rescaldo do divórcio de Chad Gilbert, em 2017. 

 

De início este álbum era para se chamar descansos, um termo na língua espanhola tirado de Mulheres que Correm com os Lobos. Este é um livro que Hayley referiu várias vezes como uma das inspirações, tanto para Petals For Armor como para Flowers For Vases, e que a tem ajudado muito nos últimos anos. 

 

Eu mesma acabei de lê-lo há poucas semanas. Foi uma leitura demorada, comecei antes do verão, mas em minha defesa a autora admite no próprio texto que não é suposto lê-lo de uma assentada. Ainda preciso de relê-lo pelo menos uma vez antes de formar uma opinião definitiva, mas já tenho uma passagem preferida

 

E com isto desviei-me um bocadinho, falávamos de descansos. Esse é o nome dado àquelas cruzes que vemos à beira da estrada assinalando mortes – geralmente vítimas de acidentes rodoviários. Simbolicamente, descansos representam pequenas tragédias, pequenas mortes que ocorrem ao longo da vida (Lobos apenas refere a vida das mulheres, mas eu acho que se aplica a toda a gente). Sonhos desfeitos e/ou de que se abdicou, caminhos não percorridos, capítulos de vida terminados. 

 

É necessário recordar esses sonhos, esses caminhos, esses capítulos, fazer o luto por eles. Mas ao mesmo tempo é necessário deixá-los para trás, reconhecer que é passo e seguir em frente. 

 

O título final acaba por seguir a mesma lógica. Nos últimos anos – desde a célebre visão das flores nascendo do seu corpo – Hayley habituou-se a ter flores em casa, como símbolos de feminilidade e resiliência, conforme descrito em Roses/Violet/Lotus/Iris. Mesmo flores já murchas. No entanto, certo dia Hayley fartou-se de ver a casa cheia de flores mortas. Assim, quando teve de fazer uma lista de compras, um dos itens era “flores para vasos”.

 

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Meses mais tarde, reencontrou a lista e percebeu que era um bom título para o seu segundo álbum a solo. Deitar flores mortas fora e trazer uma nova vida para a sua casa, para os seus vasos. Faz sentido em associação com o conceito de descansos – embora, na minha opinião, o álbum acabe por se focar mais nas flores mortas. 

 

Incluindo algumas que, como veremos adiante, já estão murchas há muito. Já deviam ter sido deitadas fora há muito tempo, mesmo queimadas!

 

Além disso, gosto que mantenha o tema floral, já vindo do seu antecessor. Petals For Armor, Flowers For Vases. O próximo será Leaves For Tea

 

Um aspeto a ter em conta é que Hayley não se limitou a compôr todas as faixas do álbum a solo. Ela também toca todos os instrumentos. Todos. Teve Daniel James como produtor, Carlos de la Garza nas misturas e pouco mais, mas Flowers For Vases é um projeto praticamente só de Hayley – em contraste com Petals For Armor, em que Hayley era o centro, mas em que esta colaborou com várias pessoas, incluindo colegas dos Paramore. 

 

Nesse aspeto, Flowers For Vases é um exemplo perfeito de um álbum em confinamento, gravado em casa – sujeito a perturbações como o barulho de um avião, como hilariantemente demonstrado em HYD.

 

Em termos musicais, Flowers For Vases é um álbum maioritariamente acústico. A guitarra é o instrumento principal, mas o piano é um participante frequente. Quando se descobriu, no início de 2020, que Hayley ia lançar música a solo, acho que muita gente estava à espera que Petals For Armor tivesse este estilo musical. Flowers For Vases é um álbum minimalista, mas não necessariamente no bom sentido, conforme explicarei mais tarde.

 

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Suponho que deva avisar já: esta não irá ser uma crítica muito favorável. Tenho alguns defeitos a apontar a Flowers For Vases. 

 

Começando pelas três músicas que abrem o álbum. Três músicas relativamente diferentes entre si, mas as letras são sobre o mesmo: a narradora (vamos assumir que é Hayley) está a pensar num antigo amante (vamos assumir que é o ex-marido). Sabe que a relação terminou, que só lhe estava a fazer mal, mas não se sente capaz de eliminar o ex em definitivo da sua vida.

 

Tenho de perguntar: sou a única aqui que está farta de ouvir acerca do ex-marido de Hayley? 

 

Eu percebo que ela ainda cante sobre ele. Parecendo que não, sempre foram quase dez anos com o gajo, quase um terço da vida de Hayley. Não é algo que se esqueça de um dia para o outro. A própria Hayley disse, quando lançou Petals For Armor, que nenhum dos assuntos abordados no álbum ficaram completamente arrumados. Mesmo que as faixas sigam uma ordem cronológica, a progressão não é linear e ainda passa por cada uma das situações descritas nas músicas. Na mesma linha, Flowers For Vases lida com questões mal resolvidas do passado, conforme vimos antes.

 

Dito isto tudo… não sou psicóloga, muito menos sou psicóloga de Hayley… mas será assim tão saudável estar constantemente a pensar naquele gajo? Sinto-me como aquela amiga que já não nos pode ouvir falar do nosso ex, que quando bebemos uns copos nos impede de lhe ligarmos. Ó mulher, esquece o gajo! Ele não te merece, ele ia dando cabo de ti! Ainda por cima, já está casado com outra, a quem há de fazer o mesmo!

 

Mas enfim, Hayley é humana. Suponho que cantar sobre estes sentimentos menos saudáveis faça parte do processo de cura.

 

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Falemos sobre as músicas em si. Começando por My Limb, que foi o primeiro single

 

Primeiro single é como quem diz… Este álbum não teve singles propriamente ditos. Nas semanas anteriores ao lançamento de Flowers For Vases, em que nas redes sociais iam surgindo pistas apontando para um projeto novo, alguns fãs andavam a receber estranhas encomendas de Hayley, contendo braços e pernas soltos de bonecas. Até que, uma semana antes do lançamento do álbum, uma das encomendas incluía um CD com My Limb – mesmo para ser lançado na Internet.

 

Assim, My Limb foi o primeiro single – no sentido em que foi a primeira música que ouvimos de Flowers For Vases – e ao mesmo não o foi – pois não foi oficial. Foi engraçado. Fez-me lembrar o que os Linkin Park fizeram com Wastelands, quando andaram a distribuir CDs com o novo single de The Hunting Party entre o público do Rock in Rio. 

 

Nesta fase, diria que My Limb será a minha canção preferida em Flowers For Vases. Tem um tom sombrio, semelhante ao de Simmer. Algo gótico e dramático. Gosto do piano, das notas de guitarra elétrica no fundo, do ritmo da bateria. O refrão consiste apenas na repetição de “my limb”, mas gosto tanto dos vocais de Hayley que a repetição não me incomoda. 

 

A letra compara uma relação antiga a um braço ou perna doente que precisa de amputação. No entanto, apesar de reconhecer que é necessário, a narradora está ainda tão agarrada ao membro que vai perder, ao ex, que não quer sobreviver à sua perda. 

 

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A língua inglesa tem esta expressão “cut off my nose to spite my face” para se referir a reações exageradas que, em vez de atingirem a pessoa pretendida, acabam por ser auto-destrutivas – Hayley admitiu ter essa tendência e mesmo eu às vezes tenho essa tentação. My Limb parece ser sobre isso.

 

A faixa que se segue no álbum também usa um termo médico como metáfora. A letra fala essencialmente de uma relação que está ligada à máquina, em que o coração já não bate – que está em assístole. Uma vez mais, a narradora sabe, racionalmente, que precisa de desligar a máquina, mas emocionalmente ainda não está preparada para isso (“I can’t get my head to say anything my heart could ever understand”). Refere, de passagem, que precisa de dar prioridade a si mesma em vez de ao outro, mas a verdade é que o outro não “deslarga”, por muito que ela tente. 

 

Vou dizer o que se segue sobre muitas músicas em Flowers For Vases, mas a instrumentação em Asystole não é grande coisa. Esta faixa, ainda assim, não é das piores neste álbum. Gosto da terceira estância, em que o acompanhamento se intensifica enquanto Hayley clama ao amado que reanime a relação. Temos também a conclusão da faixa, com uma sequência de piano estranhamente etérea, que parece um pouco vinda do nada, mas que resulta. 

 

Nestra trilogia inicial, falta falar sobre o tema que, de facto, abre Flowers For Vases, First Thing to Go. A narradora descreve os primeiros passos no processo de deixar um ex para trás. Como reza a letra, ela já mal se lembra da voz dele, ela termina as suas próprias frases.

 

Por outro lado, Hayley admite que não é exatamente dele que sente saudades, antes da imagem que tinha dele. “My altar is full of our love’s delusions”. Ao mesmo tempo, o verso “Why do memories glow the way real moments don’t” faz-me lembrar Supercut, de Lorde – não existem recordações objetivas. Ainda assim, apesar de reconhecer as próprias ilusões, a narradora tem medo de perdê-las. 

 

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A sonoridade é um exemplo de minimalismo no mau sentido. Durante grande parte da canção, temos apenas acordes soltos de guitarra acústica. Só no fim é que surge o piano e a percussão. 

 

Trigger aborda um tema recorrente na discografia de Hayley, tanto a solo como nos Paramore: inseguranças no amor. Começa admitindo que, no que toca ao romance, só tem cantado sobre coisas tristes – não só no que toca às suas próprias relações, mas também aos divórcios dos pais. Assume que, ao menos, serve de inspiração para a sua música. 

 

Na quadra seguinte, confessa que só queria ser amada, o que a levava a aceitar qualquer tipo de amor, mesmo que fosse tóxico. Só mesmo para não ficar sozinha. No refrão, Hayley usa a metáfora da arma e do gatilho para dizer que, nas relações, sente-se sempre numa posição vulnerável. A outra parte tem poder para magoá-la, com ou sem intenção. 

 

Na segunda parte, a narradora refere que o conceito de uma relação saudável é estranho para ela – algo que já tinha explorado em Petals For Armor, sobretudo na terceira parte. Hayley diz ter medo de não se sentir confortável ou de, pelo contrário, tomá-lo como garantido – e admite que já o fez antes.

 

Estará a falar da situação descrita em Why We Ever?

 

Em termos de sonoridade, Trigger começa com uma progressão tipicamente folk, com os arpejos de guitarra acústica e o piano. Pouco original, admito, mas agradável ao ouvido, na minha opinião. O refrão, no entanto, soa incompleto – apenas dois versos repetidos, quando o crescendo nas estâncias pedia algo com mais impacto. E como nem sequer temos uma terceira estância… 

 

 

Em contraste, Over Those Hills é uma das mais interessantes musicalmente em Flowers For Vases. Engraçada, com o riff de guitarra que lhe serve de imagem de marca. Também ajuda o facto de ser uma das mais completas em termos de instrumental – a maneira como a bateria é usada, apenas em certas ocasiões, é inteligente. E inclui um solo de guitarra – algo que nunca pensei ouvir Hayley tocar. 

 

Over Those Hills merecia ser tocada ao vivo, só mesmo para vermos Hayley em palco tocando este solo.

 

Em termos de letra, é sobre o ex-marido outra vez. Iupi… A narradora está a pensar nele, perguntando-se o que andará ele a fazer, se pensará nela, se sentirá saudades.

 

Tendo em conta que o gajo se casou pela terceira vez no ano passado – com uma mulher ainda mais nova que Hayley – tenho as minhas dúvidas.

 

A letra joga com o facto de Hayley tomar anti-depressivos. No Genius especulam que, na terceira estância, o efeito dos comprimidos está a passar e a narradora sente as partes más da relação outra vez. Ao mesmo tempo, admite que a dor faz parte do gozo, o que alude a Pool.

 

Gosto do facto de a primeira estância ter sido cantada num tom grave para, depois, ser cantada uma oitava acima. No entanto, teria ficado melhor se a letra variasse um bocadinho da segunda vez, nem que fosse apenas um verso.

 

 

Good Grief é uma das músicas mais sombrias e deprimentes em Flowers For Vases. Começando pela letra, não consigo perceber quem é o “you”. Se é o ex-marido, se é… outra pessoa.

 

Falemos então sobre o elefante na sala: Hayley está mesmo a namorar com o Taylor, não está? Taylor York, o guitarrista e co-compositor dos Paramore. Já se falava da possibilidade no ano passado, quando saiu Petals For Armor. Como escrevi na altura, não adoro a ideia. Como as pistas ainda eram poucas, pude fechar um pouco os olhos.

 

No entanto, em Flowers For Vases, os sinais estão todos lá. Good Grief nem sequer é o caso mais gritante.

 

Já antes falei das minhas reservas a que Hayley namore outra vez com um colega de banda (tenho a certeza que ela há de ter a minha opinião em consideração). Pensar que Sudden Desire pode ser sobre Taylor deixa-me pouco à vontade… Além disso, faz-me um bocadinho de confusão: eles conhecem-se há quase vinte anos e agora é que se apaixonaram? 

 

É certo que Hayley esteve quase sempre com outras pessoas: com o Josh em adolescente, com o ex-marido durante quase toda a vida adulta. Talvez Taylor já tivesse um fraquinho por ela há algum tempo, apenas teve de esperar pela altura certa. 

 

Por outro lado, lá está, eles são amigos desde miúdos, compreendem-se, apoiam-se, sentem carinho um pelo outro há anos… Talvez funcione. Pessoalmente, não conheço muitos casos de amigos de infância que viram amantes, mas, segundo consta, relações que assentam em amizade costumam correr bem. 

 

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Suponho que ainda não tenham assumido por dois motivos: primeiro, por causa do histórico dos Paramore enquanto banda. Ainda hoje, cinco anos depois de Jeremy sair, Hayley tem de dizer, dia sim dia não, que a banda não se separou. Talvez tenham medo das reações dos fãs e mesmo do mundo da música em geral. 

 

Em segundo, talvez a relação ainda não esteja muito estável. Várias músicas em Flowers For Vases parecem apontar nesse sentido, como veremos adiante. Pode ser que nem sequer estejam a namorar neste momento. Talvez estejam à espera de estarem mais firmes antes de assumirem. Ou então, querem adiar ao máximo a revelação. 

 

Dos três dos Paramore, Taylor é o mais reservado. Estou certa de que, por ele, só se revelará quando não der para esconder mais. Se houver casório ou se tiverem um filho (seriam uns miúdos adoráveis). 

 

Mas regressamos a Good Grief. Dizia eu que não conseguia perceber a quem a canção é dirigida. A letra parece falar do ano do casamento de Hayley e dos trabalhos de After Laughter, bem como do divórcio e do seu rescaldo.

 

Começa por falar de Hayley ter deixado de comer – de ser toda “esqueleto e melodia”. Fala também sobre arrumar as coisas do outro e sentir-se, ao mesmo tempo, triste e feliz com esse passo. Ora, se esses versos dão a entender que o “you” é o ex-marido, os versos em que Hayley pede ao remetente para lhe tocar alguma coisa que ela não cantará parecem apontar para Taylor. Um Taylor triste por vê-la sofrer. 

 

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Também é possível que seja outra vez a metáfora de Stop This Song (Lovesick Melody), como já tinha acontecido em Dead Horse. Não sei. Talvez Hayley nem se tenha preocupado em manter a coerência no que toca a esta letra. 

 

Musicalmente, os vocais em Good Grief têm aquele efeito duplicado que tínhamos ouvido em Find Me Here. Li entretanto que faz lembrar Simon & Garfunkel e sinto-me parva por não ter feito a ligação antes – até a guitarra acústica faz lembrar a icónica dupla! Temos também um tom atmosférico na produção mas, pelo menos no caso de Good Grief, não acrescenta muito. Eu dispensava.

 

E ficamos aqui por hoje. Amanhã continuamos. Obrigada pela vossa visita. 

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