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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Lorde – Solar Power (2021) #2

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Segunda parte da análise a Solar Power. Podem ler a primeira parte aqui. Como poderão ler, a primeira parte desta análise terminou com uma canção de amor. Esta vai começar com outra canção de amor, ainda que menos convencional. Pelo menos no que toca ao seu destinatário: o seu cãozinho Pearl, entretanto falecido. 

 

Tenho de confessar que gosto desta música mais do que devia, mais do que esta merece – por motivos óbvios. Musicalmente, tem problemas semelhantes a The Man with the Axe: a instrumentação é minimalista no mau sentido, sem presença. Os vocais são um bocadinho melhores em Big Star, mas não muito – o refrão sobretudo precisa desesperadamente de intensidade.

 

A sorte de Big Star é que o assunto da letra apela diretamente ao meu coração – e ao de muitas pessoas, aposto. Quando Lorde compôs a música, Pearl ainda estava vivo. Ela referiu inclusivamente ter o cãozinho aos seus pés enquanto ela estava ao piano.

 

A letra fala de muitas coisas que se aplicam a mim como dona da Jane: os nossos cães sendo melhores pessoas do que nós mesmos, dando-nos uma nova razão para apreciar o ar livre, ponderando os prós e contras na hora de viajar, ou mesmo de sair à noite. Pela parte prática de saber quanto tempo conseguem ficar sozinhos em casa e de arranjar quem tome conta deles, mas também porque teremos saudades deles. O refrão é basicamente o meu Instagram. 

 

De notar que a letra usa uma linguagem simplista, inocente, o que faz sentido. É assim que falamos com os nossos cães, como se fossem crianças pequenas. 

 

Não era suposto esta ser uma música triste. Passou a sê-lo depois de Pearl ter falecido. O verso “I’ve got so much to tell you and not enough time to do it” dói particularmente. Lorde diz que ainda hoje sente saudades de Pearl (se bem me recordo, estará a fazer dois anos desde a morte dele nesta altura). Eu compreendo. Aliás, nem posso pensar nisto demasiado a fundo sem que me venham lágrimas aos olhos.

 

*pausa para sessão de festinhas à Jane*

 

 

Olhemos agora para a outra faixa extra. Hold No Grudge, uma das minhas preferidas. Tem uma sonoridade algo diferente do resto do álbum: usa a tal guitarra Fender, alguma guitarra acústica mas, ao contrário do resto do álbum, a percussão é eletrónica. Não são as mesmas batidas fortes de Pure Heroine e algumas músicas de Melodrama. São mais discretas, mas são uma alternativa agradável às múltiplas faixas sem percussão no resto de Solar Power. Gosto muito dos vocais, sobretudo os backvocals no segundo refrão e no fim da música.

 

Em termos de letra, é uma música de separação – de uma relação que, aparentemente, terá terminado há alguns anos. Lorde invoca recordações felizes, contrastando com o presente: já não se recorda de como o amado cantava, já não se recorda do aniversário dele e ele agora namora com outra.

 

Lorde não leva nada disso a mal, no entanto – um contraste claro com Melodrama, sobretudo Hard Feelings. Pontos para o amadurecimento, até porque é possível que esta seja a mesma relação explorada no segundo álbum. Lorde não o odeia, perdoa-lhe e deseja que ele seja feliz. Ella soa particularmente terna no refrão e nos versos finais. 

 

Hold No Grudge merecia fazer parte da edição padrão. Era assim que a maioria de Solar Power devia ser.

 

Falemos agora sobre músicas que fazem comentário social. Começando por Fallen Fruit. Esta é das melhores músicas da segunda categoria em termos de instrumental: não tem percussão, mas tem duas guitarras, a Fender e a acústica, com o tal tom psicadélico que referi antes. Em termos de vocais, é uma das melhores, um belo exemplo de Lorde harmonizando consigo mesma. 

 

A única coisa de que não gosto é de uma espécie de apito que soa de vez em quando. Irrita um bocadinho.

 

 

A letra tem uma mensagem ambientalista, acusando as gerações anteriores à nossa de terem arruinado o planeta para os seus filhos e netos. A Terra é comparada a fruta caída – algo com um prazo de validade curto, obviamente. 

 

Era inevitável este tema surgir num álbum (que se diz) inspirado pela natureza, sobretudo depois de Lorde ter estado na Antárctida. Ella admite que não é uma ativista climática, que não tem autoridade para andar por aí a pregar. No entanto, está a fazer um esforço para reduzir a sua pegada ecológica. Trocando o lançamento de CDs por “music boxes” de cartão com códigos para download, planeando uma digressão mais pequena e amiga do ambiente, entre outras coisas.

 

As próximas duas músicas de que vamos falar pertencem à segunda categoria, mas deixam muito a desejar em termos de qualidade. Uma delas é Dominoes.

 

Na semana em que saiu o álbum, esta era uma das músicas em torno da qual se estava a criar algum hype. Na altura fiquei com a ideia de que iam lançar um videoclipe para Dominoes durante a madrugada de sexta-feira, 20 de agosto. De tal forma que dormi mal nessa noite, com a excitação. No entanto, de manhã vi que o vídeo era apenas uma apresentação com Jack Antonoff na guitarra. E quando a ouvi, tive a mesma reação que tive quando saiu a primeira versão de Find Me Here:

 

– ...só isto?

 

 

Dominoes é uma faixa curtinha, guiada apenas pela guitarra Fender. Tem um tom mais animado do que as outras músicas da segunda categoria, mas isso acaba por se virar contra si mesma. Mais ainda do que músicas como Big Star e The Man with the Axe, Dominoes pede um instrumental mais completo.

 

Um elemento nesta música de mau gosto, na minha opinião, são sirenes. Consta que esta música foi gravada no estúdio Electric Lady, em Nova Iorque, num verão em que houveram vários protestos – ou seja, é possível que tenha sido em 2020, embora ela não o tenha confirmado preto no branco. Se foi de facto no verão no ano passado, terá coincidido com os protestos do Black Lives Matter. Ella deixou a porta do estúdio aberta para que os microfones captassem “o som do verão”.

 

Sou a única que acha isto uma falta de noção gritante? Ainda se a música em si fosse inspirada, direta ou indiretamente, pelo que estava a acontecer… Mais do que as queixas sobre o peso da fama, isto é coisa mesmo à menina branca e privilegiada: tratando um movimento contra a violência policial, algo que mata seres humanos, como um pormenor engraçado para incluir numa música. Estou surpreendida por não ter havido mais polémica em torno disto.

 

Enfim, passemos à letra. Dominoes fala sobre um sujeito que não presta, mas que se vai esquivando às críticas embarcando em correntes, como por exemplo a dos hippies nos anos 60. Do género “eu já não sou a mesma pessoa que magoou a minha ex. Agora estou numa de “new age”, de “peace and love”, planto flores e tudo!”

 

Este é um tema recorrente em Solar Power – ou pelo menos é o que Lorde diz, que na prática não é bem assim. Ella revelou que tem encontrado paralelismos entre a cultura hippie dos anos 60 e 70, de fugir ao mundo moderno e abraçar a natureza e a paz, e alguns movimentos dos dias de hoje. O cottagecore (assumo eu) e a cultura de wellness, como veremos já de seguida. 

 

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O videoclipe de Solar Power parece explorar esse conceito: uma comunidade que vive na praia, aparentemente sem nenhuma das tecnologias do mundo moderno. Lorde tinha referido que o álbum decorre todo numa ilha, que inclui essa praia. Tenho andado desapontada por ainda não termos visto esses videoclipes, tirando Mood Ring – que decorre num cenário diferente, embora não seja difícil imaginar que fique nessa mesma ilha.

 

Ainda dentro deste assunto, temos Leader of A New Regime. A letra pinta um cenário pós-apocalíptico em que a narradora – que será uma avatar da própria Lorde – foge para uma comunidade onde estarão os últimos sobreviventes. Um pouco como aconteceu nos anos 60, a situação está caótica devido ao consumo de drogas e à falta de autoridade em geral. Procura-se, lá está, alguém que lidere esta nova sociedade.

 

Este até seria um conceito interessante se fosse explorado como deve ser. Voltamos a ter uma música demasiado curta – é a mais curta do álbum, só um minuto e meio, ridículo.  Voltamos a ter instrumentação escassa – só guitarra e vocais. Para ser justa, é de novo Lorde harmonizando consigo mesma, criando um efeito psicadélico que condiz com o tema.

 

O facto de, nesta parte do álbum, ser a quarta música neste estilo, com os mesmos problemas, não ajuda. É um alívio quando, depois, ouvimos as primeiras notas de Mood Ring. Finalmente, alguma vida neste álbum!

 

Mood Ring é uma das minhas preferidas neste álbum. Começando pela sonoridade: um tema da primeira categoria, combinando elementos mais etéreos – os vocais de Lorde, sobretudo – com a bateria e as guitarras acústicas. Um pouco como uma colaboração entre Enya e Natalie Imbruglia.

 

 

No que toca a letra, Mood Ring é daquelas músicas que se pode aplicar a múltiplas situações. Segundo Lorde, é uma sátira. A narradora é uma personagem ficcional, diferente de Ella, mais velha, que pinta o cabelo de loiro, será um bocadinho Karen (“the whole world is letting me down”) e tem dinheiro para gastar. Lorde admite que partilha algumas características com esta personagem – e, de facto, pode-se discutir onde é que Ella acaba e a narradora começa. Ao mesmo tempo, apesar de ser uma sátira, Lorde diz sentir compaixão pela personagem que criou.

 

No fundo, isto é algo que Lorde sempre fez, sobretudo com Melodrama: comentário a uma determinada tendência enquanto participa na mesma. 

 

Mood Ring pode aplicar-se, assim, a vários movimentos dos dias de hoje. Desde a ditadura do pensamento positivo (já abordada em Fake Happy e Rose Colored Boy), astrologia, certas medicinas alternativas, a cultura de wellness em geral, as Gwyneth Paltrow e Gustavos Santos desta vida, a filosofia do livro “Comer, Orar e Amar”, que estava na moda há coisa de uma década, mesmo o culto do sol e da natureza praticado por Lorde em Solar Power. 

 

Por acaso – ou não – desde que a música saiu, tenho encontrado uns quantos artigos e vídeos sobre estes assuntos – alguns dos quais tenho partilhado na página de Facebook deste blogue. Temos este excelente vídeo do The Take, que desmonta Goop, de Gwyneth Paltrow – embora se tenham esquecido de referir que muitas destas práticas foram apropriadas de culturas asiáticas, africanas e sul-americanas. 

 

Por outro lado, este artigo do The Guardian fala sobre negacionistas e/ou anti-vacinas nestas comunidades de wellness. Inclui a história chocante de uma mulher com cancro da mama terminal, a quem convenceram que a sua doença era culpa dela, porque supostamente reprimiu a sua sexualidade ou uma treta qualquer do género. 

 

Não vou dizer que não compreendo o apelo destas práticas. Pelo menos as coisas mais soft. Acredito que coisas como ioga e meditação possam trazer benefícios. Também compreendo o apelo do tarot, por exemplo, mais pelos simbolismos e referências culturais ​​– afinal de contas, as cartas de tarot terão sido no século XV como cartas de jogo. Só a partir do século XVIII é que começaram a ser usadas como futurologia. Mesmo essa parte, eu encará-lo-ia mais como um exercício de auto-reflexão do que realmente uma leitura do futuro.

 

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Por outro lado, sou uma mulher de ciências e estou numa carreira científica, mas tenho colegas que levam os signos mais a sério do que esperava. Admito que já me tenha influenciado um pouco mas, para mim, acaba por ser o equivalente àqueles testes do Buzzfeed que determinam que personagem de Friends vocês seriam ou assim: algo para entreter ou, quanto muito, para auto-reflexão, mas não para levar demasiado a sério. 

 

Em todo o caso, o denominador comum a praticamente todas estas práticas é o desejo dos participantes de encontrarem um propósito para as suas vidas, controlo sobre aspetos que, muitas vezes, são incontroláveis. É aqui que Lorde se identifica com a narradora de Mood Ring.

 

A narradora, no fundo, sabe que nada daquilo funciona, mas quer desesperadamente que funcione. Quer desesperadamente ver as roupas do rei que vai nu. O anel do humor, que dá o título à música, é um símbolo dessa mentalidade: algo que toda a gente com dois dedos de testa sabe que não funciona, mas toda a gente finge que funciona. Acaba por me lembrar, um pouco, Perfect Places, sobretudo nos versos “Take me to some kind of place”, já que também fala em procurar respostas nos sítios errados.

 

Em suma, Mood Ring é a música mais interessante em Solar Power.

 

Chegamos, finalmente, a Oceanic Feeling, que encerra a edição padrão do álbum. Lorde diz que é a sua preferida, mas apenas porque foi a última a ser composta.

 

De uma maneira estranha, vejo Oceanic Feeling menos como uma canção normal, por si só, mais como banda sonora, música de fundo no bem sentido. Uma “vibe”, como se diz hoje em dia. É pouco provável que a oiça fora do contexto deste álbum ou de uma playlist de verão, como a minha

 

 

Musicalmente, começa minimalista, quase só com vocais de Lorde. Sobretudo nas primeiras vezes que a ouvi, lembrava-me de músicas como Bravado e a reprise de Liability e ficava à espera de batidas à Pure Heroine (o mesmo acontecia com The Path). Aqui, no entanto, ouvem-se cigarras (que Lorde quis incluir no álbum por fazerem parte da banda sonora do verão neozelandês. Também fazem parte do nosso) e, mais tarde, bateria ao vivo.

 

Faz-me lembrar Edge of the Ocean, de Ivy, que acaba por ter um tema semelhante.

 

Oceanic Feeling é uma das poucas músicas neste álbum que se encaixa no conceito de “ode ao sol e à natureza”, que Lorde insiste que é o tema principal. Funciona como uma continuação temática de Solar Power, a música: Lorde fala sobre passar o dia à beira-mar com a sua família, pescando ou mergulhando do Bulli Point (um penhasco na Nova Zelândia), imaginando o pai fazendo o mesmo na sua juventude e os seus futuros filhos, no seu tempo.

 

Voltamos ao tema da renúncia à vida de estrela pop. O batôn preto, símbolo da era de Pure Heroine, esquecido numa gaveta qualquer. Nos últimos versos da música ​​– que me recordam a mensagem de Perfect Places ​​– Lorde refere que ainda não encontrou todas as respostas, mas vai continuar a procurá-las na praia e na natureza. E brinca com a ideia de, um dia, virar definitivamente as costas ao mundo da música.

 

E é isto Solar Power. É o segundo álbum editado este ano por uma cantora que adoro que, não sendo mau, ficou abaixo das minhas expectativas. O caso de Solar Power foi pior pois, ao contrário de Flowers For Vases, um lançamento surpresa, estávamos à espera do terceiro álbum de Lorde há um par de anos.

 

Solar Power, aliás, tem alguns problemas em comum com Flowers For Vases: o minimalismo mal executado, faixas incompletas quase todas de seguida, fazendo com que o álbum se arraste. E Lorde não tem a desculpa de ter criado o álbum completo praticamente sozinha, ao contrário de Hayley Williams. Há quem culpe Jack Antonoff pela produção fraquinha. Eu não sei o suficiente sobre o trabalho dele para opinar, mas não me surpreendia se a era dele estivesse a chegar ao fim.

 

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Em junho e julho não me imaginava dizendo isto, mas o tema Solar Power é um dos meus preferidos e gostava que o resto do álbum fosse mais parecido com ele. Aliás, os singles neste álbum ​​– Solar Power, Stoned at the Nail Salon, Mood Ring ​​– foram bem escolhidos, no sentido em que quase todas as outras estão uns quantos furos abaixo (exceto as faixas extra). 

 

Alguns fãs têm acusado Solar Power de ser um álbum demasiado alegre para o gosto dos demais. Não concordo por dois motivos. Primeiro, ao contrário de muitos, não acho que música alegre seja inerentemente inferior a música triste. O estereótipo do artista torturado, como Van Gogh, é um conceito perigoso (mas isso daria azo a um texto à parte). E, como disse antes, ando com falta de música mais animada.

 

Segundo… este não é um álbum assim tão alegre quanto isso. Não que chegue a ser propriamente pesado ou deprimente mas, lá está, as músicas lentas e incompletas roubam vida a um álbum que se queria animado, de verão.

 

O meu problema não é o estilo nem o conceito de Solar Power. O que eu queria era mais das partes boas e menos das partes más. E queria também aquilo que nos foi prometido: um álbum de celebração do sol, do verão e da natureza, não Lorde queixando-se de ser estrela pop música sim música não.

 

Mas pronto, foi o que tivemos. Entretanto, consta que Lorde tem andado a criar música e tem brincado com a ideia de lançar um álbum em breve. Não teríamos de esperar mais quatro anos pelo próximo. Se realmente vier outro, esse deverá ser mais triste que Solar Power ​​– possivelmente processando mais a fundo a morte de Pearl, algo que não coube no terceiro álbum.

 

Ou então, Lorde pode decidir hibernar outra vez durante dois ou três anos. Não me admirava.

 

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De qualquer forma, espero que o próximo trabalho de Lorde seja um bocadinho melhor, mesmo que fique aquém dos primeiros dois álbuns dela. 

 

E é tudo por hoje. Agora tenho de tratar da análise a Fronteira, mas ainda não terminei a segunda maratona. Esta temporada é bem menos cativante que as anteriores, revê-la tem sido custoso. Vou fazer um esforço a partir de agora, mas ainda assim deve demorar. Obrigada pela vossa visita.

Lorde – Solar Power (2021) #1

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Quatro anos depois do último álbum, mais de dois anos depois de se ter escondido das luzes da ribalta, a cantora neozelandesa Ella Yelich-O’Connor, mais conhecida por Lorde, lançou finalmente o sucessor ao excelente Melodrama no dia 20 de agosto: Solar Power. Nesta altura, os fãs já conheciam três músicas do álbum. Falei sobre a primeira, com o mesmo nome, aqui. Agora vamos falar sobre o álbum inteiro. Como o costume, tenho bastante para dizer, assim, este texto virá em duas partes. Publico a segunda amanhã.

 

Vou dizê-lo já, sem rodeios: Solar Power não chega aos calcanhares nem de Pure Heroine nem de Melodrama. Eu não estava à espera que chegasse – pelo menos não aos de Melodrama. Tinha a esperança de que Lorde fizesse um brilharete pela terceira vez, mas seria sempre difícil.

 

Ainda assim, esperava algo um pouco melhor do que isto. 

 

Comecemos pela sonoridade. Alguns fãs não gostaram do corte com o som mais eletrónico e a percussão dos álbuns anteriores, sobretudo do primeiro. Eu pessoalmente não me importo, mas existem músicas melhor conseguidas do que outras.

 

Eu dividiria as faixas de Solar Power em dois grupos. Na primeira categoria temos números folk pop, guiados por guitarras acústicas à Natalie Imbruglia com bateria ao vivo. Na segunda categoria temos músicas sem percussão, guiadas por uma guitarra Fender Jaguar tocada como se fosse uma guitarra acústica, focadas nos vocais, muitas vezes com um tom sonhador e vagamente psicadélico, à anos 60 e 70. Nem todas as faixas se encaixam perfeitamente nestas categorias, mas por uma questão de simplicidade vou recorrer várias vezes a estas designações. 

 

 

Vou, aliás, começar por uma música com características de ambos os grupos: The Path, que também abre o álbum e é uma das minhas preferidas. Esta começa com a guitarra Fender e Lorde harmonizando consigo mesma nos vocais. Mais tarde entra a bateria, depois a guitarra acústica e a música ganha uma nova vida. 

 

Antes de falarmos da letra, devo referir uma das minhas principais críticas a Solar Power. O facto de este não ser o que nos foi prometido. Lorde descreve Solar Power como um álbum de celebração do sol e da natureza, mas isso só se aplica a três canções no máximo. Daquilo que eu oiço, mais do que outra coisa, Solar Power é Lorde dizendo que não quer ser uma estrela pop.

 

Nesse aspeto, The Path é uma boa introdução àquele que é o principal tema de Solar Power. Funciona, aliás, como a Idle Worship de Lorde, ainda que menos sombria e ressentida. “If you’re looking for a saviour, well that’s not me”. Refere ainda que tem “pesadelos com flashes de câmaras”, que fugiu a tudo para o sol e para a natureza e não atende chamadas “da editora ou da rádio”. 

 

Outra música que explora a fuga à fama é California. A letra descreve o estilo de vida de Hollywood: o luxo, a bebida, as pessoas bonitas, muitas delas antigas crianças-prodígio, mas também a falta de privacidade e os juízos de valor – tendo sido isso que a fez fugir para o sol da sua terra. Noutra música, The Man with The Axe, Lorde refere ansiedade só de pensar em concertos – ao ponto de ter tido um ataque de pânico aquando de uma atuação perante a família real norueguesa.



É curioso estas músicas terem saído nesta altura, quando ser uma estrela pop, sobretudo no feminino, nunca teve tão pouco apelo. Veja-se o que aconteceu com duas das maiores cantoras dos últimos vinte anos. Britney Spears foi praticamente escravizada pelo próprio pai e só agora é que conseguiu recuperar o controlo sobre a sua própria vida. Taylor Swift, por comparação, teve mais sorte. Mas ainda assim, para além do habitual escrutínio e falta de privacidade, perdeu os direitos da sua própria música, estando agora a regravar os seus primeiros álbuns. 

 

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Depois temos Billie Eilish, cujo álbum mais recente descreve o lado negro dessa vida, com paparazzi, stalkers, relações tóxicas e pressões externas em relação ao seu visual. E, claro, a Internet, as redes sociais agravam ainda mais estes problemas. Não surpreende que, não apenas Lorde, mas também qualquer artista com popularidade e juízo só use as respectivas contas para assuntos oficiais, como lançamentos de projetos. Taylor Swift, Billie Eilish, Beyoncé, mesmo Hayley Williams. 

 

Além disso, mesmo os fãs hoje em dia são um campo minado. Posso estar enganada, mas, da minha experiência dos últimos anos, as comunidades de fãs online estão piores agora. Vão muito a extremos: os artistas ou são Deus na Terra ou são cancelados. Os stans – ninguém percebeu que a música do Eminem é uma chamada de atenção – veneram automaticamente tudo o que o artista produz, sem sentido crítico, e quem não o faça corre o risco de ser ostracizado. Nunca aconteceu comigo, felizmente, mas também já não sou muito ativa nestas comunidades. Mas já vi acontecer com Jon, um dos meus YouTubers preferidos, que faz crítica musical – só porque ele, como eu, não gostou muito de Flowers For Vases!

 

Há um certo tipo de comentário que me faz comichão. Pessoas que escrevem coisas como “esta música curou-me a depressão”. Das duas uma, ou estão a trivializar a saúde mental, ou estão a ser sinceros, o que é preocupante.

 

Contra mim falo, pois eu não era muito diferente aqui há uma década, mais coisa menos coisa. Colocava quase todo o sentido da minha vida no álbum seguinte de Avril Lavigne. E embora não me arrependa de ter feito parte – e ainda faço, de certa forma – dessa comunidade… eu exagerei um bocadinho no tempo que lhe dediquei. Hoje em dia os meus interesses são muito mais diversificados e tenho uma relação muito mais saudável com cada um deles. Tenho pena que isso não tenha acontecido mais cedo.

 

Em todo o caso, esta mentalidade coloca os artistas numa posição difícil – o que nos leva de volta a The Path.

 

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Lorde chegou a dizer que tem dinheiro suficiente para se sustentar para o resto da sua vida. Pontos para a honestidade – é uma das poucas figuras públicas que o admite com todas as letras, apesar de nós, simples mortais, sabermos que muitas estão numa situação semelhante. Ella regressou porque continua a gostar de fazer música, mas esta não é a sua vida real. São umas férias estranhas da vida que leva na Nova Zelândia, com a família e os amigos, onde as pessoas não a reconhecem na rua e os paparazzi são praticamente inexistentes. 

 

E sinceramente? Quem não faria o mesmo se estivesse no lugar dela? Quem não passaria os seus dias a nadar, a pescar, a passear na praia, a jardinar, tendo possibilidades para isso? Aliás, é mais ou menos o que muitos estão a optar fazer em países como os Estados Unidos na chamada Grande Demissão. O trabalho não é tudo na vida!

 

E no entanto…

 

Para uma artista que diz estar farta da vida de estrela pop, Lorde faz bastantes referências a momentos marcantes da sua vida de estrela pop neste álbum. The Path refere um dos Met Galas em que participou (sou a única aqui que não percebe o propósito do Met Gala?). California refere o Grammy que ganhou com Royals. The Man With the Axe refere as “centenas de vestidos” e “quadros emoldurados” que Lorde possui. Helen of Troy refere os Grammys de 2018, em que Lorde foi a única nomeada para álbum do ano que não pôde atuar em palco.

 

É como se dissesse:

 

– Olhem para mim, ser famosa é horrível! Estive nesta festa de pessoas ricas, ganhei este prémio, tenho montes de coisas bonitas mas ah! Não gosto nada!

 

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Por outras palavras, é um bocado “pobre menina rica”, um bocado falta de noção. A própria Lorde admitiu que fala de uma posição de privilégio… mas estará assim tão consciente desse privilégio?

 

Uma das mensagens de Lorde tem pregado, aliás, tem me dado um certo mal-estar. A citação que tem repetido, de “como passamos os nossos dias é como passamos as nossas vidas”, a “arte de não fazer nenhum”, menos redes sociais e Netflix e mais ar livre. 

 

Eu percebo a intenção, mas… Lorde acha que todos conseguimos escolher como passamos os nossos dias e as nossas vidas? É fácil para Ella fugir a tudo e passar os dias  na praia. Vive na Nova Zelândia – país infame pelas suas paisagens e por ter sido dos melhores a lidar com o Coronavírus – e pode dar-se ao luxo de escolher quando trabalha.

 

Não tenho nada contra a maneira como Lorde passa os seus dias. Nem sequer me queixarei se ela decidir hibernar de novo durante anos, antes de lançar mais música. Mas ela tem de ter um pouco mais consideração por quem não pode fazer o mesmo. 

 

E em defesa de Lorde… ela tem dúvidas. Talvez as referências todas sejam um reflexo disso mesmo, da sua ambivalência. California, que como vimos critica o estilo de vida de Hollywood, não deixa de incluir a frase “But everytime I smell tequila, the garden grows out in my mind again”. Mas o maior exemplo disso é Stoned at the Nail Salon. 

 

Esta é outra das minhas preferidas neste álbum. Não sei se é considerada o segundo single oficial, mas foi a segunda música que ouvimos, quase um mês antes do resto do álbum.

 

 

Na minha opinião, Stoned at the Nail Salon é a melhor das músicas da segunda categoria e uma das melhores letras neste álbum. Funciona como uma sequela a Ribs – embora Lorde refira outra como sequela a esse tema – ao refletir sobre a passagem do tempo, o envelhecimento, a nossa própria mortalidade. Ao mesmo tempo, uma vez mais, fala sobre a necessidade de deixar a vida de estrela pop para trás… mas questiona-se se essa é a decisão certa. 

 

Tenho uma teoria no que diz respeito à discografia de Lorde, à luz de Solar Power. Pure Heroine representa a vida mais calma, terra-à-terra, por vezes entediante que Lorde levava na Nova Zelândia em miúda, antes de lançar música. Melodrama, por sua vez, como toda a gente sabe, representa um estilo de vida mais intenso e frágil, de excessos e hedonismo – Lorde nunca o associou, preto no branco, ao estilo de vida do mundo da música, mas penso que se pode fazer esse paralelismo.

 

De uma maneira engraçada, em Solar Power, Lorde está a renegar Melodrama e a voltar a Pure Heroine. Em Royals, ela dizia que não queria saber das jóias, dos hotéis, etc – embora não deixasse de fantasiar com Cadillacs e com a realeza. Em California, ela já experimentou as jóias e os hotéis, mas fartou-se. Em Still Sane, Lorde receava entrar no mundo da música. Em Bravado, estava disposta a engolir esses medos para poder perseguir as suas ambições. Músicas como The Path e The Man with the Axe indicam que essas ambições já não valem o esforço. 

 

Regressando a Stoned At the Nail Salon, a segunda estância é uma referência bastante clara a Melodrama. Alguns fãs viram um paralelismo na primeira frase (“Got a memory of waiting in your bed wearing only my earrings”) com The Louvre (“Half of my wardrobe is on your bedroom floor”) e Lorde confirmou que estes se referem à mesma canção. 

 

Por outro lado, o verso “We’d go dancing all over the landmines under our town” parece-me uma referência a Homemade Dynamite. Stoned at the Nail Salon (e também Secrets From a Girl (Who’s Seen it All)) coloca um ponto final definitivo capítulo da vida de Ella – embora esta admita que ainda nutre sentimentos pelo amado em questão. 

 

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Na verdade, soa um pouco mais como se Lorde estivesse a tentar convencer-se a si mesma que, de facto, está na hora de abrandar, de assentar. É um daqueles casos de, como a própria Ella diz “the grass is always greener on the other side” – esta expressão não tem uma equivalente em português. Só mesmo a canção do António Variações “Estou bem aonde eu não estou, porque eu só quero ir aonde eu não vou”. É uma coisa muito humana, eu mesma sou culpada disto.

 

Ou então, como diz a letra, isto pode ser apenas Lorde ganzada. Não sei se é para levarmos o título da música à letra – acho que ambas as hipóteses são válidas. Podem ser simples devaneios existenciais, ou se calhar Ella costuma fumar um charro enquanto lhe arranjam as unhas. Houve quem tenha imaginado a cena

 

Gosto muito da sonoridade de Stoned at the Nail Salon. A interpretação de Lorde lembra-me Joan Baez em certos momentos – também gosto dos vocais em coro. A instrumentação é simples, mas resultou bem (pena não poder dizer o mesmo de outras músicas da segunda categoria neste álbum…). Gosto das notas de guitarra que soam de vez em quando – por exemplo, depois do primeiro refrão – dando à música um tom sonhador que condiz com a letra. 

 

Obviamente.

 

Já fui falando aqui e além sobre a letra de California, falta falar sobre a sonoridade. Esta até é interessante: parecida com muitas da segunda categoria, embora tenha percussão, umas notas de piano aqui e ali, aquelas notas de guitarra sonhadoras como em Stoned at the Nail Salon. Ainda assim, não chega para me entusiasmar.

 

Para encerrar o tema da fama em Solar Power, falemos sobre Helen of Troy, uma faixa que não faz parte da edição-padrão do álbum. 

 

 

Mas devia fazer. Ambas as faixas extra deviam fazer. 

 

Instrumentalmente, não tenho muito a dizer. Inclui-se na segunda categoria, não é das melhores, mas evita a maior parte das falhas desse grupo. Não soa incompleta ou enfadonha, como outras que veremos adiante.

 

Sendo uma faixa extra, Lorde nunca falou sobre ela até agora – tanto quanto sei, pelo menos. Não existe nenhuma interpretação “oficial” da letra. Para mim, Helen of Troy é sobre o poder disruptor do estatuto de Lorde como celebridade – tanto para ela como para os demais. 

 

Como vimos antes, a letra começa por referir a nega que recebeu nos Grammys. Dá a entender, de seguida, que virou as coisas a essa vida, pelo menos em parte, por causa de indignidades como essa. Refere também ocasiões em que Lorde concentra as atenções em si mesma, mesmo sem o desejar, dando azo a ciúmes e ressentimentos. Lá está, cidades viradas do avesso por causa dela, como Helena de Tróia. 

 

Existe espaço em Helen of Troy para Lorde dar conselhos a si mesma: para não descarregar nos demais, para não ser demasiado dura consigo mesma. E falando sobre isso…

 

Lorde tem falado de Secrets From a Girl (Who’s Seen it All) como uma sequela a Ribs – ao ponto de ter pegado em dois acordes dessa música e trocado a ordem, para criar este tema novo. Mais: Secrets é uma carta da Ella atual à versão de si que escreveu a letra Ribs.

 

 

Temos novamente uma referência aos temas de Melodrama – para dizer que Lorde já não comete os excessos de antes (“Dancing with my girls, then having two drinks and leaving”) e encorajando o seu eu passado a fazer o mesmo. A outra estância, por outro lado, é toda ela uma referência à morte de Pearl, o cão de Lorde. Ella terá escrito esta letra pouco depois da perda e, nesta parte, tenta consolar-se a si mesma. 

 

Musicalmente, é uma música da primeira categoria. Tem momentos mais minimalistas, mas depois surgem as guitarras acústicas e as baterias, criando um som luminoso. Exatamente aquilo que esperaríamos de um álbum inspirado pelo sol. 

 

Ainda assim, não consigo gostar muito de Secrets. Compreendo a intenção, até encontro alguma sabedoria na letra – o verso “everybody wants the best for you, but you gotta want it for yourself” aplica-se demasiado bem à minha vida – mas soa um bocadinho lamechas, sobretudo para Lorde. Suponho que seja inevitável em qualquer forma de carta ao nosso eu do passado – quando eu mesma o fiz, também saiu lamechas. 

 

Na verdade, eu até era capaz de gostar da música se cortassem a narração de Robyn, na parte final. Esforça-se um bocadinho de mais para entrar na moda da saúde mental dos últimos anos. Muitos fãs têm comentado que, se era para ter Robyn na música, que fosse um dueto a sério, cantado. Eu não conheço o trabalho da cantora, não posso opinar, mas se resultasse em algo melhor…

 

Outra música de que não gosto é The Man with the Axe, sobretudo por causa da sonoridade. Lorde referiu que este tema começou por ser um poema – mais valia que ela o tivesse declamado. A maneira como ela o cantou é uma seca. É outra música da segunda categoria, quase só com guitarra, mas os vocais são demasiado graves e lentos, sem nada que cative o ouvinte. 

 

 

Esta música precisa de intensidade, de vida: vocais mais fortes e um tudo nada mais rápidos e instrumentação mais completa, reforçando os discretos elementos de jazz e blues que noto. 

 

Ao menos a letra é semi-interessante. Tirando os aspetos que já fomos referindo, sobre a sua vida de estrela pop, The Man with the Axe é uma canção de amor para o atual parceiro (possivelmente noivo) de Lorde. A letra confirma que é um homem bastante mais velho – segundo os rumores já estará na casa dos quarenta. 

 

A mim faz-me confusão, confesso. Depois do divórcio de Hayley e das múltiplas situações que terão inspirado Your Power, de Billie Eilish, romances entre mulheres jovens e homens muito mais velhos fazem soar alarmes. Ella, ainda por cima, é apenas um ano mais velha que a minha irmã e eu não estou a ver a minha irmã namorando ninguém com quarenta anos ou mais.

 

Aliás, nem eu me vejo a mim própria namorando ninguém com quarenta anos ou mais. E já tenho trinta e um.

 

Dito isto, conheço casais com uma grande diferença de idade do homem para a mulher e que funcionam. Costuma-se dizer que as mulheres amadurecem mais depressa – eu tenho as minhas dúvidas. Acho que, na verdade, a sociedade é muito mais indulgente para rapazes e homens do que para raparigas e mulheres. 

 

No caso específico de Lorde, ela sempre se caracterizou por ser madura para a idade (ao ponto de ter circulado uma teoria da conspiração que defendia que Ella, na verdade, está na casa dos quarenta). Além disso, recentemente, a jovem queixou-se que a fama obrigou-a a crescer demasiado depressa. Diz mesmo que os amigos a veem hoje como uma mãe ou mesmo como uma avó. 

 

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Nesse aspeto, faz sentido que ela prefira uma relação com alguém mais velho.

 

Enfim, se resulta com ela…  Só espero que, daqui a uns anos, Lorde não esteja a cantar a sua versão de Your Power.

 

Muito bem, ficamos por aqui para já. Amanhã continuo. Obrigada pela vossa visita.

Músicas Ao Calhas – I Want What I Want e Break It So Good

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Hoje trago de volta uma personagem recorrente no cânone deste blogue e mesmo das Músicas Ao Calhas. Nem sequer é a primeira vez que escrevo sobre B-sides do álbum mais recente de Avril Lavigne. Ao contrário de Bright, que saiu mais de um ano depois de Head Above Water – na altura certa, como escrevi na altura – as músicas sobre as quais vou escrever neste texto surgiram na Internet no mesmo dia em que o álbum foi editado oficialmente. Não foram as únicas mas, como já tinha referido antes, foram as únicas de que gostei. Falo de I Want What I Want, um cover de Lauren Christy, e Break it So Good. 

 

Lauren é, aliás, o denominador comum a estas duas músicas: foi ela que cantou o original da primeira e contribui com vocais para a segunda. Qualquer fã razoavelmente bem informado de Avril saberá que Lauren fazia parte do The Matrix – a equipa por detrás da co-composição de uma grande parte do Let Go, nomeadamente o triunvirato Complicated, Sk8er Boi e I’m With You. Anos mais tarde, Lauren tornaria a colaborar com Avril durante os trabalhos de Head Above Water. 

 

Antes de fazer parte do The Matrix, no entanto, Lauren teve uma relativamente curta carreira a solo. I Want What I Want faz parte de Breed, o seu segundo álbum – e o último antes de desistir da carreira a solo e formar o The Matrix. 

 

A versão original tem aquele som pop rock dos anos 90, início dos anos 2000 que eu sempre adorei. Sinto mesmo que é o meu género musical primordial, sobretudo quando cantado no feminino. Além disso, as semelhanças com as músicas de Let Go são evidentes.

 

Desse modo, ouvir Avril cantando I Want What I Want bate certo. A versão da canadiana tem uma roupagem mais moderna, melhor que a original, na minha opinião. Eu ainda assim gostava que fosse menos eletrónica – mas lá está, é apenas uma demo. Se fosse para ser lançada oficialmente, a qualidade seria melhor.

 

 

Também gosto mais da interpretação de Avril – e nem sequer falo apenas da interpretação vocal. Gosto mais das vozes de apoio na versão de Avril, em particular os “and I want, and I want, and I want” no refrão. Para além disso, Avril alterou a terceira parte da música – para melhor, na minha opinião.

 

Entretanto, enquanto escrevia este texto, descobri uma outra versão de I Want What I Want, cantada por Tata Young, uma cantora tailandesa. Esta é mais parecida com o original – é como se tivessem aplicado um filtro pop na versão de Lauren. Continuo a gostar mais da versão de Avril, mas esta não é má. Tata tem uma voz bonita.

 

Ora, Break it So Good é uma música bastante diferente. Esta também é uma demo, ainda menos polida que I Want What I Want. Tem um instrumental minimalista e algo sombrio, apenas piano (?), batida e sintetizadores. É como se fosse uma Give You What You Like mais eletrónica. 

 

Um pormenor estranho é o facto de Avril só cantar o refrão. Lauren canta as estâncias, com algum auto-tune (para a sua voz soar mais parecida com a de Avril?). É possível que esta canção tenha sido composta e gravada numa fase má da Doença de Lyme. Avril poderá ter conseguido gravar o refrão, mas depois pode não se ter sentido suficientemente bem para cantar as estâncias, logo, Lauren tomou o lugar dela. Se quisessem incluí-la em Head Above Water, gravariam uma nova versão, cantada a solo por Avril. 

 

De qualquer forma, a verdade é que, na minha opinião, esta produção minimalista, imperfeita, resulta. Break it So Good ficou com um tom intimista, sombrio e estranhamente sexy. Para lançarem oficialmente esta música teriam de manter o instrumental mais ou menos assim. 

 

 

Por outro lado, o carácter também vem da letra, uma das partes mais interessantes de Break it So Good. Esta aborda uma relação que já se percebeu que não vai durar. No entanto, a narradora está disposta a aceitar o antigo amante (assumindo que se trata de um homem), não porque acredite na relação, mas porque se quer vingar dele (“Imma break your heart but I’ll break it so good/(...)/Do to you what you do to me”). 

 

É bem possível que estejamos a falar da mesma relação abordada em I Fell In Love with the Devil e sobretudo Tell Me It’s Over. Compare-se os versos desta última – “you come and you leave” – com os de Break it So Good – “maybe I’ll come and go, a taste of your own medicine”. Um amante que brinca com os sentimentos dela, que lhe vira as costas, mas que volta e meia diz que quer regressar para ela (“Come and whisper you miss me”, “you say you still adore me, you’re still kind of a mess”). Ao contrário de Devil e Tell Me It’s Over, a narradora não se limita ao papel de vítima, quer derrotar o amante no jogo dele. 

 

Segundo a minha teoria, Avril não incluiu Break it So Good em Head Above Water porque esta canção não se encaixa na narrativa de I Fell In Love With the Devil e Tell Me It’s Over. Sobretudo na altura em que andava a promover a primeira, Avril tentou vender-se como a vítima de uma relação tóxica, tendo tido de ganhar forças para sair dela (ainda que nenhuma dessas músicas sustentem bem esta última parte. Só esticando muito.)

 

Break it So Good, por seu lado, é uma resposta menos politicamente correta, mesmo menos moralmente correta, a uma relação tóxica. Uma resposta de que Avril talvez não se orgulhe, que talvez lhe tenha saído pela culatra se de facto a tentou. Mas não deixaria de ser uma resposta humana, uma perspetiva mais única, provando que Avril também não fora propriamente uma santinha na relação. 

 

Acaba por ser este o meu problema com Avril nos últimos anos. A partir de certa altura deixou de parecer genuína, esconde-se atrás de clichés e superficialidades. Em retrospetiva, uma parte de mim acha que ela se aproveitou da “moda” do feminismo e das relações tóxicas para promover I Fell In Love With the Devil, Tell Me It’s Over e Dumb Blonde. Da mesma forma, nos últimos meses parece estar a aproveitar-se da nostalgia pelo pop punk dos anos 2000 – juntamente com Mod Sun, Machine Gun Kelly e Travis Barker – para se tornar relevante de novo, preparando o lançamento do seu sétimo álbum.

 

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Quando é que eu me tornei tão cínica em relação à minha cantora preferida?

 

Já que falamos nisso… sim, Avril terá um álbum pronto a ser editado, radicalmente diferente de Head Above Water e mesmo das músicas de que falámos aqui. Mesmo à moda dela, a mulher anda a acenar-nos com este lançamento desde finais do ano passado e, até agora, nada. 

 

Para ser sincera, as minhas expectativas estão em mínimos históricos para este álbum. Não tenho pressa em ouvi-lo. Preocupa-me mais a digressão europeia, adiada desde o início da pandemia. A equipa de Avril se calhar está à espera deste novo ciclo de álbum antes de confirmar as datas. 

 

A ser verdade, é melhor esperarmos sentados.

 

Numa nota menos cética… não deixará de ser um álbum da Avril. Terá quase de certeza pelo menos uma mão-cheia de músicas de que gostarei, mesmo que não adore todas. 

 

Para já, por estes dias já só penso em ouvir Solar Power, o álbum novo de Lorde. Sai já esta sexta-feira. A sua análise deverá ser o próximo texto deste blogue. Noutras notícias musicais do meu nicho, Bryan Adams deverá lançar um single em outubro – na altura decido se escrevo sobre ele. 

 

Entretanto, já comecei a rever e a anotar Digimon Frontier, desta feita dobrado em português. Neste momento vou para o episódio 14. Dentro de algumas semanas já devo estar pronta para escrever sobre essa temporada.


É mais ou menos este o plano para os próximos tempos. Obrigada pela vossa visita, como o costume. Visitem a página de Facebook deste blogue.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Solar Power

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No passado dia 10 de junho houve um eclipse solar – que infelizmente mal se viu em território português. A cantora neozelandesa Ella Yelich-O'Connor, mais conhecida pelo seu nome artístico Lorde, aproveitou a ocasião para lançar Solar Power, o primeiro single do seu terceiro álbum de estúdio com o mesmo nome, que sairá a 20 de agosto.

 

Solar Power sucede a Melodrama, que saiu em 2017. Este é um álbum que, já na altura em que escrevi sobre ele, reconheci ser espetacular e o tempo só o melhorou. Dois, três, quatro anos após o seu lançamento e continuo a descobrir significados novos – mas não tantos como a autora desde excelente vídeo. Melodrama não se saiu grande coisa em termos comerciais, mas ganhou um culto de seguidores devotos, nos quais me incluo.

 

Por sua vez, Melodrama sucedia a Pure Heroine. Pessoalmente, gosto menos e compreendo menos este álbum, mas todos concordam que é também excelente e francamente revolucionário.

 

Ou seja, a fasquia está altíssima para Solar Power. Mais sobre isso adiante.

 

O primeiro single do álbum com o mesmo nome não se encaixaria nem em Pure Heroine e Melodrama. Dá para notar, no entanto, as impressões digitais de Lorde.

 

 

Uma das novidades é o facto de ser conduzida pela guitarra acústica. É apenas a segunda canção de Lorde conduzida por esse instrumento – a primeira foi The Louvre. Em entrevista ao The Guardian, Ella confessou que, durante os trabalhos de Pure Heroine, não achava as guitarras fixes. Eram demasiado “meio dos anos 2000” para o seu gosto, mais adequadas a serem cantadas à volta de uma fogueira, num acampamento.

 

Nisso não éramos parecidas.

 

Os acordes que guiam Solar Power nas estâncias têm um tom grave e contido – que se obtém quando se prende ligeiramente as cordas no braço na guitarra e só se toca as de alumínio. No refrão, as cordas de nylon soltam-se, emitindo um som mais luminoso.

 

Eu falo em refrão mas, para ser rigorosa, Solar Power não tem um refrão convencional. A melodia é semelhante, mas a letra é diferente. Depois do segundo refrão, a música explode para um som ainda mais luminoso, mesmo tropical, que se adequa à letra. 

 

Muitos têm-na comparado a Freedom, de George Michael. Eu concordo que é parecida, mas não tanto como algumas pessoas parecem achar. Pelo menos não ao ponto de ter pensado que era um “sample”. De qualquer forma, os herdeiros do falecido cantor já deram a benção a Lorde e a Solar Power.

 

Em termos de vocais, Lorde não faz nada de extraordinário, mas canta com a sua típica cadência, com o seu típico tom grave. Por outro lado, temos Clairo e Phoebe Bridgers nos backvocals – faz-me lembrar Roses/Violet/Lotus/Iris, nesse aspeto. 

 

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Tirando algumas particularidades de que vamos falar de seguida, Solar Power é uma música de verão pura e dura – o que pode ser interpretado como um passo atrás, depois da maneira como Lorde explorou a dicotomia verão/inverno, calor/frio em Melodrama. Segundo Ella, Solar Power é sobre a “energia namoradeira” que surge quando o tempo aquece e as roupas se reduzem.

 

Nada de muito original aqui. É basicamente o conceito das temporadas de verão dos Morangos com Açúcar.

 

E na verdade, este é um dos casos em que aquilo que o artista diz sobre a música não bate muito certo com o que a música parece dizer. Existem poucas referências a romance ou sexualidade em Solar Power: só mesmo em “my boy behind me, he’s taking pictures” e “are you coming, my baby?” e mesmo assim.

 

A letra é menos Morangos com Açúcar e mais Eu Gosto é do Verão (se bem que menos tola, no bom sentido). Está cheia de frases pedindo para serem transformadas em legendas do Instagram ou do Tik Tok (algo que tenciono fazer com fotos da minha cadela na praia). Solar Power fala sobre encontrar… bem, os seus sítios perfeitos na praia e sentir as mágoas e as preocupações derretendo com a luz do sol.

 

A narradora, aliás, assume-se um pouco como uma profeta, uma deusa solar ensinando ao povo as maravilhas do verão – “Lead the boys and girls onto the beaches. Come one, come all, I’ll tell you my secrets, I’m kinda like a prettier Jesus”. Suponho que a narradora seja a mesma personagem que Ella descreveu na carta de apresentação do álbum – mais sobre isso já a seguir.

 

O videoclipe explora bem essa ideia, mostrando Lorde na praia, líder de uma espécie de tribo ou seita, vestida de amarelo vivo – em contraste com os tons mais terra, mais discretos dos demais (tendo em conta que Ella sofre de sinestesia, esse pormenor foi cem por cento intencional, não duvidem). Lorde sempre representou esse papel de certa forma na sua música – mais a porta-voz da sua geração do que propriamente um guia, é certo. 

 

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Já que falamos do videoclipe, consta que este foi a introdução ao universo cinemático deste álbum. Se Melodrama decorria todo numa única noite, durante uma festa, Solar Power decorre numa praia – ou pelo menos os videoclipes. Lorde não revelou a praia exata onde decorreram as filmagens por motivos óbvios (e mesmo assim, acho que no Reddit já descobriram). Ella disse para imaginarmos que decorre na nossa praia preferida.

 

Na Meia-Praia de Lagos, portanto. Naquela zona não concessionada, mais perto do pontão, com menos pessoas, onde a Jane pode correr à vontade. 

 

Têm circulado piadas na Internet sobre o facto de Solar Power ter começado com Lorde admitindo que “odeia o frio”, quando uma das poucas coisas que soubemos dela, nos últimos anos, foi a sua viagem à Antártida. Eu acho que faz sentido – depois de tanto tempo num dos lugares mais frios do planeta, qualquer um sairia de lá sedento de calor e de verão. 

 

Em suma, Solar Power está longe de ser a melhor música de Lorde. Não sendo propriamente fútil, não tem grande profundidade e a mensagem não é muito original. Sobretudo se compararmos com Pure Heroine e Melodrama. Quem estava à espera de algo mais intenso e revolucionário, apanhou um balde de água fria. 

 

No entanto, mesmo no seu… não vou dizer “pior”, porque Solar Power não é uma música má, mas pronto, menos bom, Lorde continua acima da média. O tom descontraído sabe bem, sobretudo depois do último ano e meio – a própria Ella revelou que essa foi uma das razões pelas quais lançou a música nesta altura. 

 

Como vi na Internet, aliás, a única música alegre deste ano só podia vir da Nova Zelândia.

 

 

Consta que, de resto, apesar de não deixar de incluir algumas faixas mais sérias e introspectivas, Solar Power deverá ser um álbum no geral alegre e despreocupado. Pelo menos é essa a ideia com que fico. Isso agrada-me. Em parte por aquilo que referi sobre o último ano e meio, mas também porque dois dos álbuns que mais tenho ouvido nos últimos meses são o folklore e o evermore de Taylor Swift. Não me interpretem mal, são excelentes álbuns mas são emocionalmente desgastantes (ele é my tears ricochet, ele é seven, ele é august, ele é illicit affairs, ele é this is me trying, ele é ‘tis the damn season, ele é champagne problems, ele é marjorie…). Um álbum mais leve saber-me-á bem.

 

Este será também um trabalho mais focado na natureza – segundo Lorde, em momentos de “desgosto, luto, profundo amor ou confusão”, o mundo natural é o seu abrigo, é o seu sítio perfeito (não se limita à praia). O heterónimo dela neste ciclo será a personagem que ela descreveu na apresentação do álbum: uma mulher “sexy, brincalhona, selvagem e livre”, com múltiplos amantes, ligada à terra e ao passado, mas ao mesmo tempo moderna e de olhos no futuro.

 

Uma vez mais, nada disto é inédito ou particularmente original. Nos últimos anos estes movimentos de regresso à natureza têm estado na moda. Veja-se, lá está, folklore e evermore, por exemplo, bem como a estética cottage core, mesmo Petals For Armor até certo ponto. O heterónimo de Lorde que descrevi acima, aliás, lembra-me a Mulher Selvagem de Mulheres que Correm com os Lobos. 

 

Tudo isto faz sentido como resposta ao mundo atual: cada vez mais tecnológico e, claro, com uma pandemia. Solar Power, aliás, fala mesmo em atirar o telemóvel para a água – e Lorde já veio avisar que não vai voltar para as redes sociais. 

 

Como li algures – ironicamente na Internet – há dez anos vínhamos para as internetes para fugir ao mundo real. Agora fugimos para o mundo real para escapar às internetes.

 

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Solar Power sai então a 20 de agosto – um tudo nada demasiado perto do fim do verão para o meu gosto, se é um álbum estival. Bem, eu este ano também não vou ter férias de verão, só posso desfrutar da época ao fim-de-semana, por isso…

 

Fica para o ano. 

 

Estou a fazer por não elevar demasiado as minhas expectativas para este álbum. É muito difícil que Solar Power seja melhor que Melodrama ou Pure Heroine. Consta que esse terá sido um dos motivos para Ella ter demorado tanto tempo a cozinhar este trabalho. Eu pelo menos não levarei a mal se não conseguir atingir o mesmo nível estratosférico – parecendo que não, a miúda é humana!

 

Dito isto, continua a ser Lorde. Não baixo assim tanto a fasquia. 

 

É possível que Ella lance outro single antes de 20 de agosto. Há rumores de que Stoned at the Nail Salon poderá sair nos próximos dias. Deveria ter esperado? Deveria ter escrito sobre as duas músicas no mesmo texto? Talvez, mas não me apeteceu ficar à espera: o blogue já estava parado há muito tempo. Além disso, aqui o estaminé faz nove anos hoje, queria assinalá-lo com um texto novo.

 

Logo vejo se escrevo sobre Stoned at the Nail Salon ou sobre qualquer outro single que venha a ser lançado antes do álbum. Em princípio não o farei: quero começar a trabalhar noutros projetos e escrever sobre outras coisas no próximo texto deste blogue. Posso desde já adiantar que este será um texto de Músicas Ao Calhas sobre uma personagem recorrente aqui no estaminé. Não quero ter pressa com este (já tenho stress que chegue noutras áreas da minha vida), mas não devo demorar muito. 

 

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Um brinde rápido a este blogue, um dos orgulhos da minha vida – e um agradecimento a todos os que o têm visitado. Encerro este texto com uma pequena playlist baseada em Solar Power – que poderá vir a crescer com o tempo. Agora que acabaram de ler, se tiverem possibilidades para isso, ide aproveitar o sol... mas não se esqueçam do protetor solar!

 

Paramore – All We Know Is Falling (2005) #2

Segunda parte da minha análise a All We Know Is Falling. Podem ler a primeira parte aqui.

 

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Here We Go Again é outro clássico dos Paramore, outro destaque em All We Know is Falling. À semelhança de Conspiracy, à primeira vista parece referir-se a conflitos entre os membros da banda, nomeadamente aquando da partida de Jeremy – sendo também aplicável a crises posteriores. “Cá vamos nós outra vez” é certamente aquilo que nós, fãs, pensamos sempre que aparece o mais leve indício de problemas nos Paramore. 

 

No entanto, a sua história de origem é ainda mais indefinida que a de Conspiracy. Supostamente Here We Go Again foi uma das músicas que cativou as editoras, juntamente com Hallelujah (suponho que o seu tom otimista não encaixasse neste álbum, daí ter sido guardada para Riot!). Ou seja, terá sido composta antes de Jeremy se ter ido embora – a partida dele não terá sido inspiração para a letra. 

 

Em todo o caso, a letra de Here We Go Again aplica-se facilmente a qualquer corte de relações, seja entre amigos, amantes, familiares – no que toca a isso, Hayley não terá falta de exemplos em que se basear, coitada.

 

Começa por falar em palavras duras, ditas no calor do momento. Uma pessoa acaba por se arrepender e tenta retirar o que disse, mas nem sempre é possível. O mal já está feito. Dá-se mesmo a entender que tais palavras levaram ao fim da relação. 

 

No refrão, a narradora diz que está satisfeita com a separação – ou pelo menos aprendeu a viver com ela. Por outro lado, na segunda estância põe-se a pensar no que teria acontecido se o relacionamento não tivesse terminado. É uma reação tipicamente humana – vemos Hayley explorando ideias semelhantes em Flowers For Vases, por exemplo. E aposto que não existe nenhum fã mais hardcore dos Paramore que nunca tenha tentado imaginar o percurso da banda caso Zac e Josh não tivessem saído em 2010, e/ou se Jeremy não tivesse saído em 2015.

 

Musicalmente, não há muito a dizer. Não existe nenhum elemento de grande destaque no instrumental, mas no seu todo é bastante sólido. Evita as armadilhas em que outras músicas deste álbum caem. 

 

 

Por outro lado, quando tocada ao vivo torna-se interessante, pois no fim da música põem-se a brincar com excertos de outras músicas. Eles experimentaram vários no ciclo de All We Know is Falling e um fã deu-se ao trabalho de compilar no vídeo acima. 

 

Pequeno aparte só para a delícia de ver quatro cabeças abanando com sincronia perfeita. 

 

Falemos sobre alguns destes outros, então. O de Sk8er Boi era alegadamente para responder a uns armados em engraçados que chamavam Avril à Hayley. De todos os nomes que terão chamado à jovem (entre os quais “tiny hot topic bitch), este não estará entre os piores. Mas compreendo a irritação: naquela altura qualquer rapariga cantando por cima de guitarras era um clone da Avril. 

 

A própria Avril será um clone da Avril, segundo consta...

 

De que estávamos a falar? Ah, certo, Here We Go Again. 

 

Um dos encerramentos mais engraçados, na minha opinião, é com Incomplete dos Backstreet Boys – uma música que ficou em 2005, em termos de memória colectiva. Uma rara ocasião em que Josh e Hayley harmonizam nos vocais (deviam tê-lo feito mais vezes) e com um screamo bem sacado.

 

 

Eventualmente decidiram tornar o outro com One Armed Scissor, de At the Drive-in, o definitivo. E de facto é o que melhor se encaixa em termos de letra. Gosto em particular do verso “I write to remember” – quem também é escritor sabe do que falo.

 

Never Let This Go é outra que, à primeira vista, podia ser sobre a partida de Jeremy, mas é pouco provável que o seja. Hayley terá dito certa vez que é sobre quando o amor corre mal.

 

O que não esclarece muito. 

 

Devo dizer que Never Let This Go é a de que menos gosto em All We Know is Falling. Instrumentalmente, tirando as notas introdutórias, que me recordam Decode e I Caught Myself, não é nada de especial. A letra também deixa muito a desejar – muito curta, vaga, cheia de clichés emo. Eles têm bem melhor, conseguem fazer bem melhor. 

 

Admito que Whoa está longe de ser a melhor música dos Paramore. O refrão é demasiado cliché, quase reproduzindo o chamado Millenial Whoop, um truque barato para cativar o ouvinte, sobretudo ao vivo… mas resulta. É o tipo de música que agrada ao meu eu de quinze, dezasseis anos.

 

Por outro lado, a introdução está bem sacada, com aqueles acordes de guitarra pesados mas dançantes.

 

 

Uma vez mais, a letra não é nada de especial. Parece falar sobre a banda, faz o ponto da situação no caminho para a glória. Não dá para ter a certeza, é demasiado vaga. Em todo o caso, é a faixa mais alegre num álbum bastante (emo) melancólico.

 

Regressando a esse registo, falemos sobre Emergency, o segundo single deste álbum e, na minha opinião, a melhor em All We Know is Falling e uma das melhores dos Paramore – merecia muito mais apreciação. 

 

Em termos de musicalidade, é a melhor em All We Know is Falling: como que a duas vozes, com o instrumental a acompanhar, os riffs acelerando e abrandando, o ligeiro crescendo imediatamente antes do refrão.

 

Queria no entanto destacar a letra. Hayley baseou-se nas suas experiências com os múltiplos divórcios dos seus pais e na ideia que tinha do amor em geral. É fascinante examiná-la agora, após Petals For Armor. Após a própria Hayley ter passado por um divórcio. Até porque, a meu ver, as opiniões que Hayley exprime em Emergency são uma das razões pelas quais se manteve tanto tempo numa relação tóxica.

 

Em defesa dela, estas eram opiniões populares nos anos 2000. O número de divórcios estava em alta, diziam, porque as pessoas não se queriam comprometer a longo prazo, além da fase de lua-de-mel. Desistiam à primeira dificuldade, não percebiam que os casamentos exigiam esforço (“So you give up every chance you get, just to feel new again”).

 

Existe verdade nestas ideias, mas estas ignoram um princípio importante: antes só que mal acompanhado.

 

 

Hayley chega a acusar os pais de não saberem o que é o amor (“And you do your best to show me love, but you don’t know what love is”), mas hoje fica claro que eles sabiam mais do que ela. Por estes dias, Hayley fala em traumas geracionais, em como ela e a mãe fugiram com companheiro abusivo dela ao virem para Franklin – mas saberia a jovem a verdade na altura, quando tinha onze ou doze anos? Talvez ela só o tenha descoberto muito mais tarde e, até lá, pensava que era apenas a mãe a divorciar-se outra vez.

 

E anos mais tarde, quando Hayley ficou noiva e o noivo se envolveu com outra mulher, a jovem casou-se à mesma com ele. Em parte porque, como já tínhamos comentado noutra ocasião, queria mostrar aos pais que ela, ao contrário deles, conseguiria manter uma relação. 

 

Os resultados estão à vista, conforme temos vindo a comentar extensamente neste blogue.

 

A frase mais importante da letra, no entanto, é “No one cares to talk about it”. Quando a toca ao vivo, Hayley acrescenta mesmo “So can we talk about it?”. E a parte mais trieste é que Hayley e a mãe só começaram a falar sobre os divórcios há poucos anos – já depois de a jovem tem passado pelo seu.

 

Compreende-se que Cristi não tenha querido falar sobre isso antes. Não será fácil admitir os seus erros, as suas vergonhas, as armadilhas em que caiu, a uma filha adolescente. Além disso, uma coisa é falar sobre estas coisas com uma miúda de dezasseis anos e falar com uma mulher de trinta.

 

Ainda assim, Hayley podia ter-se poupado a muito sofrimento se os pais tivessem sabido comunicar melhor com ela sobre estes assuntos. Até porque, segundo Hayley, ela e Cristi cometeram os mesmos erros nas suas vidas amorosas: envolveram-se em relações abusivas porque queriam alguém que não as abandonasse. Estavam dispostas a aceitar tudo desde que se sentissem desejadas.

 

 

Tudo isto é compreensível, tudo isto é humano, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Felizmente, nesta altura Cristi está num casamento feliz e Hayley, aparentemente, também estará numa relação saudável (com o Taylor?).

 

Uma última palavra para o chamado Crab Mix, lançado no EP The Summer Tic, em 2006 – em que Josh contribui com screamos. É uma versão fixe. Não vou ao ponto de desejar que tivessem usado esta como versão oficial, mas podiam ter incluído screamo no último refrão, em jeito de elemento-surpresa. 

 

Brighter é outra das minhas preferidas neste álbum. Musicalmente é das mais rápidas em All We Know is Falling. Pontos para a bateria de Zac (recordo que ele tinha treze ou catorze anos quando gravou isto). Também Hayley impressiona com a sua voz – reparem no crescendo antes do refrão, em “that you shine brighter than anyone”.

 

A letra não é muito consistente. Penso que nenhum dos membros da banda alguma vez revelou a inspiração por detrás dela. No entanto, All We Know is Falling é dedicado a Lanie Kealhofer, juntamente com a fase “you shine brighter than anyone”. Lanie era uma amiga de Hayley, de quando ela vivia no Mississipi, que morreu num acidente de barco poucas semanas antes da edição deste álbum. Assim, assume-se que Brighter é sobre a morte dela.

 

Existem partes da letra que se encaixam nessa teoria. Outras, nem tanto – em particular o refrão. Não dá para ter a certeza, por isso. Mas também já lá vão mais de quinze anos. É pouco provável que venhamos a descobrir a verdade.

 

 

Em todo o caso, pessoalmente, Brighter é uma das músicas que me faz pensar em Chester Bennington, no que lhe aconteceu (tenho uma playlist delas). “And I’ll wave goodbye watching you shine bright” descreve bem a minha segunda metade de 2017

 

Franklin é uma música mais interessante do que, se calhar, soa à primeira vista, sobretudo em termos de letra. Musicalmente, destaca-se do resto do álbum por ser uma balada com vocais mais suaves, menos gritados, e com um fascinante padrão de bateria. Josh e Hayley cantam juntos no refrão – é uma pena não o terem feito mais vezes quando podiam. Os últimos versos de Franklin, então, soam particularmente bonitos. 

 

Houve uma altura há uns anos em que me perguntava como teria sido se Josh tivesse sido oficialmente co-vocalista dos Paramore. Talvez a banda tivesse tido um percurso mais pacífico. Hoje no entanto, depois de saber mais sobre as origens dos Paramore, acho que nunca resultaria. É possível, até, que fosse esse o plano inicial e que a editora tenha vetado. 

 

Além disso, acho que Hayley e Josh seriam sempre tratados de maneira diferente – por serem de géneros diferentes, por ela ser (na minha opinião mas não só) mais carismática e mais talentosa vocalmente.

 

Mas regressemos a Franklin. A música recebeu o nome da terra onde os membros da banda viviam antes de serem descobertos. No entanto, como veremos de seguida, a letra da música tem uma mensagem bastante universal. Funcionaria com qualquer nome de qualidade – Franklin, Napanee, Massamá.

 

À primeira, a letra de Franklin parece falar apenas sobre ter saudades de casa. Porém, se formos a ver, não é tanto de casa que a narradora tem saudades – é das pessoas que ela e os amigos eram antes de partirem. De tal forma que a narradora admit que regressar não é solução – não é a mesma coisa.

 

 

A mim faz-me pensar em Frodo Baggins regressando ao Shire no final d’O Senhor dos Anéis e percebendo que já não pertence lá. No entanto, não é preciso ter percorrido quilómetros e quilómetros a pé, atravessado reinos em guerra e levado o Anel Um até à cratera de Mordor para se identificar com a letra de Franklin. Nem sequer é preciso ter saído da terra natal.

 

No fundo, a letra de Franklin é sobre crescer. Sobre a maneira como as coisas mudam, as pessoas mudam e não é possível voltarmos a ser quem éramos antes, por muito que o desejemos. 

 

Finalmente, encerrando o álbum, temos My Heart, outro clássico adorado pelos fãs. 

 

Que atire a primeira pedra (see wbat I did there?) quem nunca achou antes que isto era uma canção de amor – de amor romântico, isto é. My Heart é, na verdade, uma carta de amor para Deus.

 

Este é outro aspeto que faz parte do ADN dos Paramore: a fé. Não que alguma vez tenham andado por aí tentando converter os seus fãs. Mesmo as referências ao cristianismo na sua música, tirando, vá lá, o outro de Let the Flames Begin, são discretas. Mas é uma parte da identidade da banda, sobretudo durante os seus primeiros anos. 

 

E, à boa maneira dos Paramore, a certa altura foi fonte de discórdia.

 

 

Nos últimos anos, a banda tem deixado o cristianismo um pouco mais de lado. Numa entrevista recente, aliás, Hayley revelou que hoje questiona muitos dos princípios religiosos que lhe foram impingidos durante a infância e a adolescência. Ainda acredita em Deus, mas não no Deus que lhe ensinaram.

 

Eu compreendo. E aqui entre nós, com o historial do cristianismo no que toca às mulheres, às comunidades LGBTQ+, à pedofilia na Igreja Católica, nenhuma pessoa decente pode levar aquilo demasiado a sério. Nestas alturas, costumo parafrasear o sábio Eli Gold de The Good Wife: a religião é como um medicamento; em doses baixas é terapêutica, em doses altas é tóxica. 

 

Regressando a My Heart, o momento-chave da música é o screamo de Josh na terceira parte. Este é um elemento que não devia resultar – My Heart é uma balada, é uma canção de amor a Deus – mas resulta. Em versões ao vivo, então, soa espetacular – sobretudo quando eles acrescentavam um outro.

 

Infelizmente Josh foi-se embora. Desde então, esta música só é tocada em acústico. Soa bonita à mesma, não me interpretem mal, mas não é a mesma coisa.

 

Na verdade, gosto um pouco mais de My Heart fora do contexto de All We Know is Falling. No álbum é a terceira música seguida neste registo mais sentido. Ainda por cima, a terceira parte da faixa repete a fórmula de Franklin – com o acompanhamento a diminuir de intensidade, Hayley cantando a mesma frase duas ou três vezes, seguindo-se uma “explosão”. 

 

É um dos problemas de All We Know is Falling como um todo. Na primeira metade ficaram as músicas mais rápidas, na segunda ficaram as mais lentas. Teria ajudado se a ordem das faixas fosse diferente? Um bocadinho, talvez, mas acho que não chegaria para mascarar as falhas do álbum. All We Know is Falling é, na minha opinião, demasiado curto, demasiado homogéneo, com muitas arestas por limar em termos de letras e instrumentais. 

 

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Dito isto, All We Know is Falling está numa situação parecida com a de Flowers For Vases: por si só deixa a desejar, mas as falhas aceitam-se para as circunstâncias. 

 

Estamos a falar de adolescentes compondo e gravando um disco! Zac tinha treze ou catorze anos durante os trabalhos de All We Know is Falling! Na idade deles, o meu maior feito fora entrar no Quadro de Honra no nono ano – algo que não me valeu de muito, tirando o orgulho da família (que desapareceria em poucos meses, quando cheguei ao décimo ano e tive dificuldades) e um livro oferecido pela escola (O Que Todas as Raparigas (Exceto eu) Sabem, de Nora Raleigh Baskin. Até gostei.). 

 

E mesmo sendo o pior álbum dos Paramore, está longe de ser mau – ainda que eu tenha demorado anos a apreciar muitas das coisas boas que fui assinalando ao longo desta análise.  Tem músicas que, como vimos, ainda hoje são adoradas pelos fãs – e uma ou duas que, na minha opinião, estão entre as melhores da banda. 

 

O próprio Josh admitiria numa entrevista posterior que o álbum seguinte teria mais energia. E teve. Os Paramore, aliás, são um caso raro no mundo da música em que cada álbum é melhor que o anterior. Pela lógica seria de esperar que fosse sempre assim, mas todos conhecemos artistas ou bandas com excelentes álbuns de estreia e/ou segundos álbuns e que nunca mais conseguiram chegar ao mesmo nível.

 

Se bem que, muitas vezes, estas opiniões são influenciadas por fãs teimosos que fazem birra se os seus artistas ou bandas mudam o seu estilo com o tempo. 

 

No que toca aos Paramore, acho que quase todos concordamos que Riot! É melhor que All We Know is Falling e Brand New Eyes é melhor que Riot!. Pode haver quem argumente que a tendência se mantém com os álbuns seguintes – mas eu acho que os três álbuns mais recentes dos Paramore estão mais ou menos ao mesmo nível. Cada um tem a sua personalidade, qual deles é o melhor depende do gosto de cada um. 

 

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A ver onde é que o sexto álbum dos Paramore se encaixará nesta classificação. Nesta altura, já está mais do que confirmado que a banda já está a trabalhar nisso. No outro dia, Hayley anunciou inclusivamente que vai-se manter afastada das redes sociais para, em parte, escrever letras. 

 

Eu no entanto acho que ainda vai demorar um bocadinho. Aponto para 2022 ou, quanto muito, finais de 2021. Os fãs estão com pressa (e alguns têm sido bastante indelicados nas internetes), mas vocês já sabem que eu lido bem com esperas – sobretudo depois de Hayley ter lançado dois álbuns a solo em menos de um ano. A banda, aliás, faria bem em ter calma e dar tempo à pandemia para passar – se é para lançar música nova, que o façam de um palco.

 

A mim até me dá jeito a pausa já que, depois de escrever sobre Flowers For Vases e All We Know is Falling, fiquei saturada. Preciso de me ausentar no universo Paramore/Hayley Williams. A menos que a banda demore mesmo muito nos trabalhos, só tornarei a escrever sobre os Paramore quando começar o ciclo do sexto álbum. Provavelmente quando lançarem o primeiro single.

 

Isso quer dizer que só escreverei sobre Brand New Eyes depois do sexto disco dos Paramore. Esse não será um texto nada fácil. Em parte por causa dos conflitos na banda, ainda mais complicados que aquando de All We Know is Falling. Em parte porque eu mesma tenho tido uma relação difícil com Brand New Eyes – tanto com as músicas individualmente como com o álbum como um todo. 

 

A prazo mais curto, receio que este blogue vá ficar em pausa durante as próximas semanas, se não forem meses. O Euro 2020 está à porta e vou estar mais ocupada com o meu outro blogue. Depois do Europeu, planeio ver a dobragem portuguesa de Digimon Frontier e começar, finalmente, a escrever sobre essa temporada. A análise não deverá ser tão longa como a de Tamers, mas ainda deverá demorar um pouco.

 

Em todo o caso, continuo à espera de música nova de Bryan Adams e de Avril Lavigne – os meus pais musicais deverão lançar álbuns novos ao mesmo tempo outra vez. A menos que eles me troquem as voltas e lancem os singles em pleno Euro 2020, em princípio teremos as respectivas crónicas de Músicas Não Tão Ao Calhas. 

 

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