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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Digimon Frontier #5 – Dando o corpo ao manifesto

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Mais do que nas temporadas anteriores, o grupo de Fronteira é o que melhor se encaixa no tropo da “Five Man Band” – grupo de cinco. Takuya é o líder, Kouji é o “lancer” – o típico segundo na liderança, muitas vezes a antítese do líder. Izumi é a rapariga, geralmente o coração do grupo. Kouichi é o sexto ranger

 

Só Tomoki e Junpei é que não se encaixam muito bem na fórmula. Superficialmente, poder-se-á dizer que Junpei é o tanque/músculo, mas apenas porque tem a aparência de um miúdo grande. Na prática, não desempenha um papel particularmente defensivo ou mais físico que os demais. Por outro lado, existem algumas variantes a este tropo que incluem “a criança” – Tomoki encaixa-se perfeitamente neste papel.

 

A principal categoria que fica por preencher é “o cérebro”/o inteligente. Aliás, este é o primeiro elenco de heróis em Digimon que não possui um “cérebro”: uma personagem com mais inclinação tecnológica e/ou que se destaque pelos seus conhecimentos ou pela sua capacidade de resolver problemas. O mais parecido que temos com isso é o Bokomon. 

 

O que me leva às mascotes de Fronteira. Tenho de dizer, depois do Culumon, que para além de adorável é um herói subvalorizado de Tamers, Bokomon e Neemon foram uma desilusão. O segundo só está lá para tentar ser engraçado (sublinhe-se “tentar”) e para ser maltratado pelo primeiro. Bokomon sempre tem um pouco mais que fazer, não que seja uma grande melhoria: está lá sobretudo para debitar informação. Também passa uma data de episódios grávido com o DigiOvo do Seraphimon. Uma vez mais, suponho que era para ser engraçado – não é. Mesmo que tivesse, acho que ainda faltará uns anos à audiência-alvo para compreender as piadas. 

 

Ao menos é fofinho vê-lo como papá-mamã do Patamon, depois deste nascer. 

 

Por outro lado, admito que, depois do episódio 13 de Ghost Game, custou um bocadinho ver Bokomon quando retomei a maratona de Fronteira. 

 

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Mas regressemos aos miúdos humanos. Tenho de dizer que, como elenco, este é o mais fraquinho até ao momento. Não que não goste dos miúdos, mas estes são menos interessantes e, sobretudo, menos desenvolvidos que noutros universos. 

 

Começando com os seus passados – um de vários aspetos em que Fronteira rompe com outras temporadas. Com uma única exceção – ou melhor, duas – os miúdos tiveram todos vidas estáveis e normais, sem grande drama. Tendo em conta que a ficção em geral adora infâncias infelizes e pais imperfeitos – e as outras temporadas de Digimon são infames por isso – isto é uma desvantagem.

 

É claro que, na vida real, nada disto tem piada. Eu, aliás, gosto de pensar que fãs de Digimon se tornam melhores pais – o anime está cheio de personagens afetadas negativamente pelas suas famílias.

 

Não sei se isso acontece na prática, no entanto. Não há por aí ninguém disposto a fazer um estudo observacional?

 

Dito isto, admito que, a partir de certa altura, Digimon tenha exagerado. Não convém esquecer que a audiência-alvo são crianças. Uma coisa é termos mais divorciados e rebeldias (pré)adolescentes. Outra coisa é termos mães ou irmãos mortos. Faz sentido que, numa temporada que se queria mais leve do que Tamers, os digiguionistas tenham decidido diminuir os dramas familiares (com uma notável exceção).

 

Além disso, como diz Adam Pulver, outro crítico de Digimon, não existirão muitos miúdos identificando-se com uma personagem procurando seguir as pisadas de um irmão que morreu, mas existirão uns quantos identificando-se com personagens com dificuldades em fazer amigos. 

 

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Esse, aliás, é o denominador comum a quase todos os Escolhidos. Temos uma miúda filha de emigrantes com dificuldade em integrar-se. Temos um miúdo um bocadinho mimado demais e vítima de bullying. Um rapaz que prefere agir sozinho. Temos… o Junpei. Kouichi é mais difícil de avaliar, mas ele parece ser tímido. Só Takuya é que não revela tendências anti-sociais – pelo contrário, como vimos acima, encaixa-se no estereótipo do líder extrovertido e impaciente.

 

Ainda assim, esse podia ter sido um dos temas desta temporada: um grupo de misfits, de anti-sociais, que têm de aprender a lidar uns com os outros para poderem sobreviver. Infelizmente não exploram muito esse aspeto, tirando no arco do Sephirotmon

 

Chegou a altura de falarmos sobre o óbvio: é a primeira (e única vez) que o elenco humano não tem companheiros Digimon. São as próprias Crianças Escolhidas a digievoluir e a lutar.

 

Ora, apesar de isto poder ser considerado um sacrilégio, não é necessariamente uma coisa má por si só. Pode-se argumentar que os miúdos de Fronteira fazem mais que os heróis de outras temporadas – meros treinadores de bancada. Sobretudo os do universo de Adventure, cuja única intervenção nos combates é desbloquear as digievoluções – os Digimon é que fazem o trabalho sujo. 

 

Universos como Tamers e Ghost Game tentam contrariar esta limitação pondo os miúdos a orientar os ataques dos seus Digimon, de uma forma ou de outra. E depois temos o Reboot de Adventure, em que os miúdos estão quase sempre montados nos seus Digimon durante os combates. O que é fixe… até ao momento em que os miúdos, inevitavelmente, levam com ataques em cima mas raramente sofrem danos. Assim não vale!

 

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Por seu lado, Takuya e os outros não têm ninguém que os proteja. O que não lhes serve de impedimento. Por muitas falhas que possamos apontar ao grupo de Fronteira, há que dar-lhes crédito: eles dão o corpo ao manifesto. Logo desde o primeiro episódio, por um mundo que, dez minutos antes, não sabiam que existia. E como vimos antes, eles perdem muitos combates – fisicamente. Usando palavras mais brejeiras: eles levam porrada. Repetidamente. E mesmo assim levantam-se de novo, continuam a lutar.

 

Além disso, não sei se alguém alimentava alguma fantasia de se tornar e lutar como um Digimon mas, se existia, pode vê-lo em Fronteira. 

 

Dito isto, tenho algumas críticas a fazer ao conceito. Nomeadamente à natureza das digievoluções.

 

Até aqui, noutros universos, as digievoluções estavam associadas sobretudo a fatores internos, psicológicos e/ou afetivos. Em Adventure, era crescimento pessoal, ligado às virtudes dos Cartões. Em 02, eram as ligações entre as Crianças Escolhidas. Em Tamers, eram as ligações entre humano e Digimon.

 

Em Fronteira, no entanto, os fatores são externos. Os miúdos herdam os espíritos dos Dez Guerreiros Lendários, que representam um elemento ou, possivelmente, uma zona do Mundo Digital. Os miúdos só precisam de encontrar os respetivos espíritos, Humanos e Animais. Mais tarde, os espíritos Híbridos são obtidos via DigiOvo do Seraphimon Ex Machina; o KaiserGreymon e o MagnaGarurumon são obtidos via sacrifício da Ophanimon; o Susanoomon é obtido via sacrifício de Kouichi. 

 

É como se os miúdos estivessem apenas a vestir um fato com super-poderes (como o Tony Stark/Homem de Ferro(?) ou Devi Morris e a sua Lady Gray) ou, quanto muito, a ser possuídos por uma entidade externa. Quase naada é exigido aos miúdos em termos de introspeção. As únicas exceções são as digievoluções de Kouichi e, se quisermos ser generosos, a última aparição de Susanoomon. Isto torna-se um problema ainda mais grave para mim porque digievoluções catalisadas por desenvolvimento das personagens foi sempre uma das minhas partes preferidas de Digimon. E como os miúdos não precisam de crescer como pessoas para digievoluir, o desenvolvimento deles em Fronteira é reduzido, sobretudo quando comparado com as temporadas anteriores. 

 

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Além disso, praticamente todas as vantagens de miúdos digievoluindo eles mesmos são anuladas na última grande parte da temporada – quando Izumi, Junpei, Tomoki e Kouichi têm de abdicar dos seus espíritos para que Takuya e Kouji desbloqueiem o nível Extremo. Kouichi, ainda por cima, tinha acabado de conseguir as suas digievoluções não corrompidas – quase não teve oportunidade de usá-las. 

 

É um tropo recorrente em Digimon os níveis Extremos estarem reservados para os dois rapazes “protagonistas” do grupo. Nunca gostei muito disso. Ainda assim, as outras personagens continuavam a contribuir para os combates, por pouco que fosse, mesmo com digievoluções de nível inferior. Mas impedi-los completamente de digievoluir? Demasiado mau.

 

Ainda se tolerava se estivéssemos a falar apenas dos combates importantes com o Cherubimon e o Lucemon. Mas a situação arrasta-se por todo o arco dos Cavaleiros Reais. É possível que os miúdos tivessem conseguido derrotá-los mais cedo se Izumi e os outros tivessem podido lutar também. Uma pessoa pergunta-se porque é que os outros quatro sequer permanecem no Mundo Digital.

 

Dito isto tudo, o grupo de Fronteira tem uma qualidade redentora – e eu só me apercebi dela ao trabalhar neste preciso texto. Durante muito tempo desvalorizei estes miúdos, pelas razões listadas acima e também pelas motivações deles ao responderem ao apelo da Ophanimon. Com as devidas exceções, estas vão de “não tinha mais nada que fazer” a “eh, pode ser giro”. Nem sequer tínhamos lugares-comuns como curiosidade, insatisfação com a vida atual, desejo de aventura. Motivações como estas não chegavam, nem de longe nem de perto, para sustentar uma temporada inteira levando porrada. 

 

No entanto, olhando mais de perto… estes podem ser os motivos para eles terem embarcado nos Trailmon, mas não são os motivos para se terem envolvido nas lutas e encontrado os espíritos digitais. Takuya desbloqueia o Agnimon enquanto tenta proteger um Tomoki em descontrolo emocional ​​– um miúdo que acabara de conhecer. Kouji desbloqueia o Wolfmon enquanto tenta proteger Tomoki e Junpei – Kouji, que prefere agir sozinho e, uma vez mais, mal conhecia aqueles dois bacanos. Tomoki desbloqueia o Chackmon para ajudar Agnimon num combate. Por fim, vários episódios mais tarde, Takuya regressa brevemente ao Mundo dos Humanos, mas escolhe voltar para o Mundo Digital precisamente por causa dos amigos.

 

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Eu podia continuar. Estes miúdos podem deixar muito a desejar em termos de passado, desenvolvimento e mesmo personalidade em geral, mas merecem crédito por isto: desde muito cedo começam a proteger-se uns aos outros e, sobretudo, sai-lhes tudo do pêlo. Pelo menos em termos da luta em si.

 

E ficamos por aqui hoje. Na próxima parte, começamos a falar sobre cada miúdo individualmente. Desta vez, não garanto que cada miúdo tenha um texto só para si. Nem todos têm pano para tanta manga – e aqueles que têm não será necessariamente por bons motivos. 

 

Em todo o caso, obrigada pela vossa visita. Continuem por aí. 

Digimon Frontier #4 – Capitães de Abril, trindade pouco santa e o sexo dos anjos

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Um dos aspetos mais interessantes de Fronteira diz respeito à História do Mundo Digital: mais desenvolvida e rica que qualquer outra até agora. Com a exceção dos Cavaleiros Reais, todos os vilões em Fronteira foram figuras importantes em termos políticos no passado do Mundo Digital. Power Players, como dizem os anglo-saxónicos (não existe uma boa tradução para este termo). Mesmo os Power Players que consideramos bons da fita tomam algumas decisões questionáveis. 

 

Não é possível falar dos vilões de Fronteira sem falarmos do passado do Mundo Digital e não é possível falarmos do passado do Mundo Digital sem falarmos dos vilões.

 

Assim, no início, existiam duas facções em guerra no Mundo Digital. De um lado tínhamos Digimon de tipo Humano, com características mais humanóides. Do outro, tínhamos Digimon de tipo Animal, com características mais animalescas e/ou monstruosas. Não falo apenas de características físicas – é dado a entender que os Digimon de tipo Humano são mais “civilizados”. De tal maneira que, quando os miúdos desbloqueiam as formas Animais, quase todos têm dificuldades em controlar os instintos mais violentos destas formas. 

 

A tradução literal do termo devia ser Digimon tipo Besta. No entanto, como esta palavra é usada como um insulto em português, não admira que tenham preferido dizer Animal. 

 

Consta que este era um conceito planeado para 02, mais especificamente para as Armodigievoluções. Por exemplo, o Flamedramon seria a forma Humana do Veemon, o Raidramon seria a forma Animal e o Sagittarimon seria a forma Híbrida. A ideia, no entanto, foi rejeitada – tendo sido usada dois anos mais tarde, em Fronteira.

 

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Durante os eventos de Frontier, no entanto, não vemos nenhum vestígio desta rivalidade. A única exeção é o filme Revival of the Ancient Digimon (Ressurreição do Digimon Antigo?). É possível que as tensões se tenham desvanecido com o tempo – só as vemos no filme porque este se passa numa ilha isolada do resto do Mundo Digital. 

 

Não é realista, infelizmente. Como todos sabemos, na vida real este tipo de preconceitos têm a mania de permanecer mais tempo do que deviam.

 

Por um lado, tenho pena que o tema não tenha sido explorado mais a fundo. Por outro, admito que, a menos que fosse escrito com muito cuidado, poderíamos entrar em territórios… “problemáticos”, como se diz hoje. É o que por vezes acontece com outros casos de racismo fantástico, quando se começam a tecer comparações com a vida real. 

 

No meio desta guerra civil, surgiu Lucemon, que pôs termo ao conflito e assumiu o governo do Mundo Digital. Este no entanto acabou por descambar para a tirania. Nisto surgiram os Dez Guerreiros Lendários, quais Capitães de Abril, que derrubaram a ditadora e a prenderam na zona da Escuridão. 

 

A política dos Guerreiros Lendários é fascinante. A narrativa dos Guerreiros Lendários não o refere explicitamente, mas assumo que cada um deles tem uma forma Humana e uma forma Animal (e, no caso de Agnimon e Wolfmon, uma forma Híbrida) precisamente para agradarem a ambas as facções. 

 

Da mesma forma, calculo que cada Guerreiro representa, não apenas um elemento, mas também uma determinada zona do Mundo Digital. O Agnimon representa a zona do Fogo, a Ranamon representa a zona da Água e por aí fora. Mais ou menos como nós elegemos deputados representantes de cada distrito. 

 

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Após a queda de Lucemon, três grandes anjos assumiram o poder: Seraphimon, Ophanimon e Cherubimon. Seraphimon fica encarregue da lei e ordem, Ophanimon da vida e do amor e Cherubimon do conhecimento e da verdade. Pelo meio, Cherubimon ficou com os Espíritos da Terra, da Água, da Madeira, do Metal e da Escuridão – e mais tarde ressuscitá-los-ia como vilões. Mas não nos adiantemos. 

 

Nesta santíssima trindade (quase literal, pois são três anjos) governativa, temos dois Digimon de tipo Humano e apenas um de tipo Animal. Mesmo nas melhores circunstâncias, dificilmente resultaria – e custa a acreditar que ninguém se tenha apercebido disso, dentro do universo. 

 

Além disso, tanto as linhas do Ophanimon como do Seraphimon têm formas Extremas de tipo Animal: a Holydramon e o Goddramon. Elas não podiam ter sido usadas para equilibrar um pouco o sistema?

 

Cherubimon, como Digimon de tipo Animal, não se revê nos valores Humanos defendidos pelos outros dois. Talvez Cherubimon devesse ter tido uma mente mais aberta aos pontos de vista dos outros, mas estes dois também não lidam com o problema da melhor maneira. Ophanimon diz que ela e Seraphimon conversavam a sós para tentarem compreender a perspetiva de Cherubimon. Não acredito nela. Se queriam compreendê-lo, não deviam, sei lá, falar com Cherubimon diretamente, ouvir as opiniões dele? 

 

Não surpreende que, a partir de certa altura, Cherubimon tenha começado a desconfiar dos companheiros. Eu simpatizei com a solidão e isolamento dele (Alexa, toca Conspiracy, dos Paramore) – a posição ideal para ser corrompido por Lucemon. Nada nos garante que Cherubimon seja cem por cento inocente nesta história: acredito que uma parte de si quisesse vingança. Aquando dos eventos de Frontier, já estava perdido. O seu único aspeto redentor é o facto de ter evitado ao máximo matar tanto Seraphimon como Ophanimon. 

 

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Ao mesmo tempo, uma vez mais, a resposta de Ophanimon ao problema – enviar um apelo a crianças no Mundo dos Humanos, que ainda não foi influenciado por Cherubimon – é questionável. Seraphimon não concorda, como é revelado no episódio 13. Para começar, entregar o destino de um mundo inteiro a crianças é daquelas coisas que nunca aconteceriam na vida real – mas, lá está, isto é uma história para crianças, elas têm de ser as protagonistas. 

 

Ophanimon diz que só crianças com “coração puro” é que responderiam ao apelo – mas, como descobrimos mais à frente na temporada, os antigos bullies de Tomoki também vieram para o Mundo Digital. Mesmo as motivações iniciais dos nossos protagonistas não são propriamente nobres, como veremos na próxima parte da análise. 

 

Além disso, independentemente das intenções deles… o grupo que incluiu os bullies de Tomoki não recebeu nenhum espírito, andaram pura e simplesmente a passar pelo Mundo Digital, obrigando um Angemon a fazer de guarda-costas/ama-seca. Quem nos garante que não houveram outras crianças para além destes – crianças que, se calhar, não tiveram a proteção? Ou que ainda estavam no Mundo Digital quando os Cavaleiros Reais o destruíram por completo? Podem não ter conseguido regressar ao Mundo dos Humanos a tempo. Podem ter acontecido tragédias.

 

Por fim, não foi bonito Ophanimon tentando apelar ao lado bom de Cherubimon… apenas para recuperar os dispositivos e os espíritos digitais que este roubara. Foi necessário, admito, e talvez ela até estive a ser sincera quando pediu desculpa ao antigo amigo. Mas vendo-a apunhalando Cherubimon pelas costas, ainda suspeito mais que não terá sido a primeira vez que o faz. Ophanimon pode ser um anjo, mas está longe de ser uma santinha. 

 

Recuemos um pouco na cronologia e falemos sobre os Guerreiros Lendários corrompidos pelo Cherubimon. Este até é um grupo relativamente interessante de vilões. Para começar, estes chegam a roubar os dispositivos e/ou os espíritos digitais aos protagonistas, impedindo-os de digievoluírem. É estranho que isto só se tenha tornado prática na quarta temporada de Digimon enquanto anime. Antes disto só o Apocalymon – e mesmo assim, os Escolhidos de Adventure contornaram o problema com relativa facilidade. 

 

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Falando individualmente, o Grottlemon não é dos mais interessantes. O Arbormon passa a vida a debitar provérbios e lições para as criancinhas da audiência – o que, OK, é uma cena, suponho eu. 

 

A Ranamon é essencialmente a femme fatale para Izumi, a menina boazinha. Ela até mostra alguma astúcia ao usar o seu sex appeal para convencer os seus minions a fazerem o seu trabalho sujo. No entanto, toda a gente, incluindo ela própria, só se interessa pela sua beleza – ou falta dela, quando está sob a forma de Calamaramon. Na mesma linha, Ranamon fixa-se em Izumi apenas porque acha que esta é mais bonita do que ela. Ao ponto de, a certa altura, lhe dar literalmente uma maçã envenenada. 

 

Pontos para a subtileza.

 

O Mercuremon é dos mais competentes do grupo, ainda que com uma queda para o dramático. Afinal de contas, ele é a mão por detrás de um dos arcos mais psicológicos em Fronteira. Além disso, devo admitir que achei o episódio em que ele se transforma em BlackSeraphimon bastante assustador, da primeira vez que o vi. Nada como um órgão e uma igreja sinistra para causar arrepios. Por fim, mesmo depois de perder o espírito humano do metal, os miúdos são obrigados a pensar fora da caixa – e Takuya é obrigado a usar as suas capacidades de liderança – para derrotá-lo sob a forma de Sephirotmon. 

 

Sobra o Duskmon… mas sobre ele falamos noutra ocasião.

 

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Passando aos Cavaleiros Reais, não tenho muito a dizer sobre o Dynasmon, mas o LordKnightmon é um caso… curioso. Ele é aquilo a que os anglo-saxónicos chamam um “queer-coded villain” – um vilão com características estereotipicamente não cis/hetero. Este vídeo – e os outros, citados no fim – explica melhor o conceito, as suas origens, a forma como, a partir de certa altura, teve o efeito oposto ao desejado inicialmente, entre outros aspetos.

 

LordKnightmon encaixa-se no perfil. Um Digimon cor-de-rosa, que de vez em quando aparece com uma rosa na mão, basicamente o arquétipo de um homossexual. Não sei se em 2002 isso corrompeu a inocência de muitas criancinhas, mas a mim não me aqueceu nem arrefeceu. Eu na verdade nem falaria muito sobre ele se não tivesse sabido que, na dobragem americana, ele aparece como fêmea. Não lhe chamam LordKnightmon, claro, chamam-lhe Crusadermon. Infelizmente não fico surpreendida. 

 

Para sermos justos, falar de sexos e géneros em Digimon daria azo a um texto por si só – e eu não seria a melhor pessoa para escrevê-lo. Oficialmente, os Digimon não têm sexo pois não se reproduzem de forma sexuada – o género é uma história diferente. Como a língua japonesa tem termos de género neutro, os digiguionistas não precisam de atribuir género a todos os Digimon. No entanto, na hora de traduzir para línguas como o português, em que usamos o “o” e o “a” para tudo, a coisa complica-se. E aparecem casos como a Renamon, com uma voz claramente masculina na dobragem alemã. Ou a Tailmon, que, nas dobragens portuguesas, ora é referida como “ele”, ora é referida como “ela”, tanto quanto me recordo. 

 

Tudo isto para dizer que, por princípio, estas alterações no género não terão necessariamente intenções duvidosas. Mesmo o próprio LordKnightmon aparece como macho nas versões originais de Fronteira e, segundo o que vi na Internet, em Savers/Data Squad, mas em Cyber Sleuth/Hackers Memory aparece como fêmea. Mas falando deste LordKnightmon em específico, acho que isto foi um ato de censura da parte dos dobradores americanos. Claro que foi. Eles ainda hoje têm horror a falar de homossexualidade às crianças. 

 

Não que nós estejamos muito melhor nesse aspeto. Vejam os papás que não deixam os filhinhos inocentes frequentar as aulas de Cidadania e Desenvolvimento.

 

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Pode-se debater se, em termos de expressões de género e sexualidade não cis/hetero, é preferível representação vilanesca ou nenhuma representação. Não faço parte da comunidade LGBTQ+, logo, a minha opinião vale o que vale, estão à vontade para discordar. No entanto, tendo em conta que, como dizem no vídeo que referi acima, vários queer-coded villains, sobretudo dos filmes da Disney dos anos 90, são hoje personagens muito populares – quer por pessoas da comunidade LGBTQ+, quer por pessoas cis/hetero – a escolha é óbvia. Vilões ou não, as pessoas da comunidade LGBTQ+, como quaisquer outras, têm o direito a existir, a serem elas mesmas, a verem pessoas como elas no ecrã!

 

Havemos de regressar a este tema. Para já, à parte o que acabámos de discutir, os Cavaleiros Reais não são particularmente memoráveis – tirando o facto de estarem associados ao pior arco da temporada. No entanto, têm alguns aspetos curiosos. 

 

Para começar, são bons lutadores e estrategas – pudera. À primeira vista são meros paus mandados da Lucemon, que lhes prometeu uma viagem até ao Mundo dos Humanos. Quando Lucemon regressa à vida, no entanto, esta dá a entender que não pretende cumprir a sua parte do acordo. A lealdade deles vacila e isso leva a que sejam derrotados por Takuya e Kouji – que, ainda por cima, estavam em crescendo. Um twist interessante. 

 

Eu digo que Takuya e Kouji os derrotam, mas, na verdade, Lucemon mete-se à última hora para dar o golpe final e absorver os dados dos dois Cavaleiros Reais. É com esses dados que digievolui para Lucemon Falldown Mode. 

 

Hão de reparar que tenho usado o género feminino para me referir a Lucemon. Isto deve-se ao facto de, na dobragem portuguesa, Lucemon aparecer como fêmea. Daquilo que consegui averiguar, na maior parte das dobragens isso não acontece. Geralmente é uma mulher quem lhe dá a voz quando está na forma normal, com a aparência de uma criança, mas depois de digievoluir passa a ter dobrada por um homem. E é sempre referida como “ele”. A nossa dobragem (e possivelmente a espanhola, na qual a nossa se baseia?) é a exceção, com uma mulher – Patrícia Andrade, segundo esta wiki – dobrando ambas as formas (possivelmente por falta de orçamento) e referindo-se a Lucemon como “ela”.

 

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Sinto-me hipócrita, admito. Critico a dobragem americana por ter mudado o género a LordKnightmon, mas gostei de ver (e ouvir) Lucemon como fêmea na dobragem portuguesa. Sobretudo porque Patrícia Andrade fez um excelente trabalho com a voz de Lucemon – uma voz de bruxa, que funciona surpreendentemente bem. 

 

Reforço que vocês estão à vontade para discordar do que digo. Mas acho que estes dois casos são diferentes. É certo que, em Cyber Sleuth, existe uma LordKnightmon fêmea mas, na dobragem japonesa, este tem uma voz masculina. Além disso, tem “Lord” no nome, que significa “senhor” e é usado como título nobre masculino. Tudo isto me dá a entender que, pelo menos em Fronteira, a intenção original era que este fosse um Digimon macho. 

 

No que toca a Lucemon, no entanto, existe mais ambiguidade . O “Luce” em Lucemon vem muito provavelmente de Lúcifer, um anjo caído que eventualmente se tornou no Diabo. Canonicamente anjos não têm sexo – é daí que vem a expressão “discutir o sexo dos anjos” – mas pelo menos os anjos mais conhecidos parecem ser do género masculino: Miguel, Gabriel, Lúcifer… No modo normal, Lucemon parece uma criança pré-pubescente, sem características sexuais secundárias. Pode ser um menino, pode ser uma menina. Não é preto no branco. Funcionaria bem com qualquer género, mesmo género não binário. 

 

Mas lá está, talvez eu esteja errada – tanto em relação a Lucemon como a LordKnightmon. Talvez não existam respostas cem por cento certas nem cem por cento erradas aqui. Isto é, tirando aquelas que negam direitos a pessoas com base na sua orientação sexual e expressão de género, claro. Em todo o caso, acho importante irmos continuando a falar sobre esta questão. 

 

Tirando isto tudo de que falei, como principal vilã da temporada… Lucemon não é nada de extraordinário. Não tem grande profundidade. Não tenho muito a dizer sobre ela.

 

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Como puderam ver ao longo deste texto, Fronteira até tem vilões interessantes. No entanto, na prática, na realidade micro de cada episódio, todos os confrontos são típicos conflitos “bons contra os maus” – como qualquer desenho animado do Canal Panda. Descobrir o passado do Cherubimon não altera nada na narrativa. Os miúdos queriam derrotá-lo antes de ouvirem a história dele. Depois de a ouvirem, continuam a querer derrotá-lo – e assim fazem. A única exceção é o que acontece com o Duskmon – mas sobre ele falamos noutra altura.

 

Esta é uma das minhas maiores frustrações com Fronteira. Na próxima parte da análise vamos começar a falar de outro aspeto que gera frustrações: o elenco de heróis. 



 

Esta foi a tricentésima publicação deste blogue. Talvez devesse ter feito algo de especial, mas não deu. Não me importo que o número redondo tenha sido atingido com este texto, que me deu um bocadinho mais gozo a escrever do que o costume. Guardo a celebração para o décimo aniversário deste blogue, em julho.

 

Para já, deixo um agradecimento pelas vossas visitas. Continuem por aí.

Digimon Frontier #3 – Os problemas aparecem já aqui...

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Nas minhas análises às temporadas de Digimon, esta é a parte em que olho para a lista de episódios e tento dividir o enredo em partes e/ou arcos. Quando me sentei para fazê-lo com Fronteira, no entanto, senti algumas dificuldades. 

 

Por um lado, porque a temporada tem vários fillers. Por estes dias já aprendi a gostar de fillers, mas a verdade é que estes baralham estas contas. Por outro lado, nalgumas alturas da temporada temos várias linhas narrativas em simultâneo, alternando no tempo de antena. Isso acontece porque Kouji, volta e meia, resolve separar-se do grupo e lidar sozinho com os seus próprios problemas. Mas também temos os Guerreiros Lendários, que algumas vezes agem em conjunto, algumas vezes agem individualmente. Podemos ver um exemplo destes dois aspetos nos episódios em Kouji está a lidar com o Duskmon enquanto os amigos tentam derrotar o Sephirotmon. 

 

Assim, acabei por dividir Fronteira em três grandes partes e, depois, cada uma em partes mais pequenas, sobretudo a segunda (vou chamar-lhes “arcos” só por uma questão de distinção). Poder-se-á argumentar que a minha divisão segue a típica estrutura em três atos/arcos, mas este é um conceito mais ocidental – e aplicável mais a filmes do que a séries de múltiplos episódios.

 

A primeira parte vai desde o primeiro episódio ao décimo-nono. Esta, por sua vez, divide-se em três arcos. O primeiro – chamemos-lhe 1.1 – vai do primeiro episódio ao sexto. Aqui, os miúdos escolhem responder ao chamamento da Ophanimon, que esta fez a uma data de gente, e apanham os Trailmon para o Mundo Digital. Depois de chegarem, descobrem acerca dos Espíritos Humanos e recebem instruções para irem ter ao castelo do Digimon Sagrado. 

 

É algo que acontece muito em Fronteira: os Escolhidos andam de um lado para o outro a mando da Ophanimon. Mas isso é conversa para outra parte da análise.

 

O episódio 6 marca um ponto de viragem. Para começar, somos apresentados ao primeiro vilão recorrente, o Grottemon. Aprendemos que alguns dos Guerreiros Lendários renascidos estão do lado dos “maus” e que existem Espíritos Animais. Kouji, que até esta altura agira sobretudo por conta própria, junta-se oficialmente ao grupo. Os Escolhidos sofrem a sua primeira derrota.

 

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Este é outro aspeto característico da temporada: os heróis perdem muitas vezes. Não é muito comum em Digimon, da minha experiência. Havemos de regressar a esta ideia.

 

O segundo arco – ou parte 1.2 – vai desde o episódio 7 ao episódio 13. Esta parte inclui alguns fillers, mas nela Takuya e Kouji ganham os seus Espíritos Animais. 

 

Eu se calhar devia ter esticado o 1.2 até ao episódio 19, mas eu tive de colocar uma quebra no episódio 13. Já percebi que em Digimon os episódios 13 são quase sempre marcantes. Até Ghost Game seguiu essa tradição. 

 

No caso de Fronteira, neste episódio os miúdos chegam ao castelo do Seraphimon. Este acorda daquela espécie de coma em que estava mergulhado, explica parte da história do Mundo Digital… apenas para ser derrotado pelo Mercuremon dez minutos depois, revertendo à forma de DigiOvo.

 

Muito sofre a família digievolutiva do Patamon. 

 

O último arco da terceira parte – 1.3 – vai do episódio 14 ao episódio 19. Mais alguns fillers e os outros três Escolhidos ganhando os seus Espíritos Animais. 

 

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O episódio 20 é outro ponto de viragem na narrativa – ainda mais significativo que o do episódio 6 – daí tê-lo escolhido como o início da segunda parte. A partir daqui, o tom torna-se menos descontraído e um pouco mais sombrio. Em parte literalmente, pois é quando entramos no Continente da Escuridão, que discutimos no texto anterior. É também quando conhecemos o Duskmon, o adversário mais difícil e implacável até ao momento e um dos mais importantes da temporada, como discutiremos nesta análise. 

 

O arco 2.1 vai, assim, do episódio 20 ao 23, quando os miúdos enfrentam o Duskmon pela primeira vez. É aqui que ocorre o meu twist preferido em Fronteira. Takuya e Kouji discordam em relação à melhor maneira de enfrentar o Duskmon. O primeiro deseja um ataque direto, baseando-se na vantagem numérica e nos méritos conjuntos do grupo. O segundo sabe que o Duskmon está longe do alcance deles e deseja evitá-lo. No fim, Kouji diz que, por ele, Takuya pode morrer enfrentando o Duskmon, se é isso que ele quer, desde que deixe Kouji e os outros de fora das consequências.

 

Mais tarde, quando executam o plano de Takuya, este dá para o torto. No entanto, no momento em que Agnimon fica à mercê de Duskmon, Garummon não aguenta e atira-se para a frente do ataque de Duskmon, provavelmente salvando a vida a Takuya. O Duskmon tem uma reação estranha quando Garummon “desdigivolui” para Kouji e lança trevas em seu redor. Abalado pelo que aconteceu e pelos seus erros, Takuya apanha um Dark Trailmon para regressar ao Mundo dos Humanos. 

 

Havemos de falar melhor sobre este twist mais adiante na análise. Para já, importa referir apenas que Takuya passa apenas um episódio no Mundo dos Humanos – este é o equivalente ao célebre episódio 21 de Adventure. No episódio seguinte, Takuya regressa ao Mundo Digital e reencontra os amigos. 

 

Se pudesse dar um título ao arco seguinte, 2.2, chamar-lhe ia “introdução de Letterbom”, a música dos Green Day: “Nobody likes you, everyone left you, they’re all out without you, having fun”. Os miúdos vão parar às diferentes zonas do Sephirotmon, separados do resto do grupo, com vários adversários que procuram usar as tendências anti-sociais dos Escolhidos contra eles mesmos.

 

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Devo dizer que esta temporada é a única em que os vilões podem jogar essa cartada. Noutro universo, a resposta dos miúdos seria:

 

– Ninguém gosta de mim? Uma ova! Tenho o meu companheiro Digimon!

 

Por outro lado, acaba por ser semelhante ao que o PicoDevimon fez ao elenco de Adventure, ainda que… menos eficaz.

 

Esta parte é das poucas, se não a única, que explora a psicologia do seu elenco – o que, para mim, sempre foi o grande ponto forte de Digimon enquanto anime. É uma evolução algo estranha de episódio para episódio. Passamos de questões relativamente leves, como dificuldade em fazer amigos, para algo tão complexo como o passado de Kouji – apenas a ponta do icebergue nesta altura, mas já de si uma mudança vertiginosa. 

 

Mas isso é assunto para outra parte da análise. Para já, referir que, por alturas do episódio 29, Takuya e Kouji já desbloquearam os respetivos espíritos híbridos via DigiOvo do Patamon Ex Machina. Sephirotmon é finalmente derrotado. 

 

Do episódio 30 ao 33 lidamos com o drama entre Kouji e Kouichi. Do episódio 34 ao 37 lidamos com o Cherubimon. De notar que cada um destes dois arcos – 2.3 e 2.4 – inclui um filler estranho. No 2.3 é o tal do Trailmon moribundo, no 2.4 é um lidando com um IceDevimon que fora prisioneiro do Cherubimon. 

 

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Este último aceita-se melhor pois sempre dá uma oportunidade aos miúdos que não Takuya e Kouji para fazerem alguma coisa. Nesta altura, Izumi, Tomoki, Junpei e Kouichi já tinham abdicado das suas digievoluções para que Takuya e Kouji conseguissem desbloquear os seus níveis Extremos. Havemos de falar melhor sobre isso, claro.

 

Com a derrota do Cherubimon no episódio 37 – até agora o principal vilão da temporada – encerramos a segunda parte. A terceira parte começa no episódio 38 quando descobrimos que, surpresa surpresa, o verdadeiro vilão é Lucemon. Os Cavaleiros Reais – o Dynasmon e o LordKnightmon – vão a mando dela recolher DigiCódigo para que ela o use para regressar à vida. 

 

Só divido a terceira parte em dois arcos: 3.1 e 3.2. O primeiro destes é o infame arco dos Cavaleiros Reais – até eu tinha ouvido uma coisa ou outra sobre este antes de conhecer Fronteira. Um dos grandes motivos da menor popularidade da temporada. Basicamente, neste arco os heróis perdem todos os combates contra os Cavaleiros Reais. Estes literalmente roubam o Mundo Digital debaixo dos pés do elenco, desalojando – e eventualmente matando – inúmeros Digimon no processo. 

 

Eu talvez tolerasse melhor estas derrotas se Fronteira aproveitasse a oportunidade para desenvolver as personagens. Afinal de contas, como referi acima, isto não acontece muitas vezes em Digimon. No entanto, Fronteira nem sequer faz isso. Pelo contrário, os Escolhidos não reconhecem a gravidade de praticamente nenhuma destas derrotas. Cada episódio termina num tom otimista e infantil: o que conta é a intenção, da próxima vez ganhamos. Isto enquanto o Mundo Digital se vai desfazendo em pó. 

 

Nesta altura, até o Ted Lasso lhes diria para terem noção. 

 

Como se isso não bastasse, nesta fase, com muito poucas exceções, só Takuya e Kouji é que combatem. 

 

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Nas temporadas anteriores, os últimos arcos eram os melhores. Em Fronteira, tirando, vá lá, os três últimos episódios (o arco 3.2, de que falaremos já a seguir), acontece o oposto. E tendo em conta que esta é a reta final da temporada, a última impressão, não admira que muitos não gostem de Fronteira. 

 

As únicas coisas que posso dizer a favor do arco dos Cavaleiros Reais é que, ao menos, os heróis vão aprendendo qualquer coisa com cada derrota. Takuya e Kouji vão aguentando mais tempo em combate de cada vez, até finalmente vencerem (se bem que o mérito não é todo deles… mas não nos adiantemos). Além disso, ao contrário do que aconteceu com o arco do BlackWarGreymon e as Pedras Sagradas em 02 (outro em que os heróis perdem muitas vezes), os eventos deste arco eram necessários para a narrativa. Lucemon tinha obter o DigiCódigo para que os Escolhidos lutassem com ela no fim. 

 

Ainda assim, tudo isto podia ter sido alcançado com muito menos episódios e com um tom mais adequado. 

 

Finalmente, o último arco, o 3.2, compreende os três últimos episódios, em que se enfrenta a Lucemon e esta é finalmente derrotada. O Mundo Digital é reconstruído, os Digimon renascem, os miúdos regressam a casa e todos vivem felizes para sempre. Frontier, aliás, tem um final mais feliz que as suas antecessoras. Não é necessariamente uma coisa boa… mas estou a adiantar-me.

 

E era isto o que queria dizer sobre o enredo de Fronteira. Como podem ver, as falhas da temporada aparecem já aqui. Depois desta, vou mudar um pouco a fórmula habitual destas análises e falar sobre as origens do Mundo Digital e os vilões desta temporada. Vai ser giro. Continuem por aí… 

 

Digimon Frontier #2 – Salvando o Mundo Digital, literalmente

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Antes de falarmos sobre a versão de Fronteira do Mundo Digital, queria assinalar algo. Esta é a primeira temporada de Digimon a passar pouquíssimo tempo no Mundo dos Humanos (vou tentar usar este termo em vez de “Mundo Real”). Parte do primeiro episódio, o notável episódio 21 e os últimos. 

 

Isto não é necessariamente um defeito, mas existem possibilidades que se perdem. Não conhecemos as famílias nem os amigos dos Escolhidos tirando em flashbacks – algo a que havemos de regressar mais tarde – e não temos aqueles elementos de slice of life de que gostava tanto em 02 (sobretudo em miúda) e Tamers. A única altura em que o Mundo dos Humanos se torna relevante é mesmo no fim, quando os vilões já tinham destruído o Mundo Digital. Literalmente.

 

Um aspeto curioso desta versão do Mundo Digital é o Digicódigo. Essencialmente o material genético dos Digimon, dos lugares em si, do próprio corpo dos Escolhidos – sublinhe-se “corpo”. É um caso de simplicidade que funciona, de menos que é mais. Pode-se argumentar que, a partir de certa altura, o Mundo Digital de Adventure se tornou demasiado complexo – uma consequência natural de múltiplas sequelas. Cada história nova nesse universo tinha de introduzir novas regras, que levassem a novos conflitos… mas isso daria azo a um texto por si só. 

 

Os Escolhidos passam grande parte de Fronteira a capturar o Digicódigo de antagonistas e a purificá-lo. E os vilões – em particular os Cavaleiros Reais nos últimos episódios – procuram roubar esse Digicódigo para alimentar Lucemon na sua tentativa de regresso à vida. Salvar o Mundo Digital ganha um sentido literal – as ações dos vilões fazem com que a terra literalmente se desintegre debaixo dos pés do elenco. 

 

Em Fronteira, aliás, o Mundo Digital chega a ser completamente obliterado. Literalmente desaparece, todos os Digimon morrem, o que infelizmente não é tratado com a devida seriedade. É certo que, depois de derrotados os maus da fita e recuperados os dados, reconstrói-se tudo de novo, mas mesmo assim. Só temos um momento relativamente breve de desespero no último episódio… mas isso é assunto para outra parte da análise.

 

Além disso, sim, o Mundo Digital é reconstruído, todos os Digimon renascem mas… eles renascem como Bebés. Ou quanto muito no nível Infantil. Ainda levará algum tempo até as coisas regressarem à normalidade – ou talvez se estabeleça um novo normal. 

 

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Outro elemento característico de Fronteira diz respeito aos Trailmon, cujas linhas percorrem todo o Mundo Digital. Sempre gostei de comboios e os Trailmon são engraçados. Acho fixe que a porta de entrada para o Mundo Digital seja numa estação de comboios. Gostei daquele episódio filler dedicado a uma corrida entre Trailmon – era inevitável. 

 

Não gostei tanto do outro filler que envolve um Trailmon. Para começar, surge numa altura em que o foco está no drama entre Kouji e Kouichi, em pleno Continente da Escuridão (mais sobre isso já a seguir). Se tínhamos de ter um filler nesta altura, teria de ser uma coisa leve, algo que aliviasse de uma das partes mais sombrias da temporada. 

 

O que é que os digiguionistas de Fronteira escolheram, de todos os enredos possíveis? Puseram metade do elenco a prestar cuidados paliativos a um Trailmon. Para além de deprimente, não vai a lado nenhum pois o raio do Trailmon nem sequer morre!

 

Fronteira às vezes é bizarro.

 

Em teoria, o mundo Digital de Fronteira tem zonas diferentes para cada elemento – uma zona para o fogo, a água, o vento, etc. Na prática, a ideia não tem grande expressão. Nas poucas zonas elementares que visitamos, o elemento que representam é um mero aspeto estético – se é mais do que isso, a narrativa não se foca nele. Os cenários são cenários como quaisquer outros, no geral. 

 

A única zona explorada mais a fundo é o Continente da Escuridão, mas aí temos o problema oposto: passamos demasiado tempo lá. Quase vinte episódios, sempre sob céu noturno, literalmente na sombra. Já tinha sido cansativo em Bokura No Mirai, aqui é ainda pior. 

 

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À parte isto tudo, gostei de algumas localizações por onde a história passa, o ligeiro worldbuilding, mesmo que contribua pouco para o enredo. A escola com a professora Togemon e os bebés todos. O mercado de Akita, com cameos de múltiplos Digimon de temporadas anteriores. Os castelos de Ophanimon (incluindo a biblioteca) e Seraphimon. As luas. Este Mundo Digital tem três luas e nós visitamo-las!

 

Além de que o episódio em que eles estão presos na lua e experimentando diferentes formas de regressar à “Terra” é hilariante. Por outro lado, a pobre Della Duck demorou mais de dez anos a escapar da lua, quem ri por última aqui…?


Por falar de episódios, no próximo texto iremos analisar o enredo de Fronteira. Como o costume, obrigada pela vossa visita. Até à próxima!

Mais pérolas escondidas de Bryan Adams

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Quando Bryan Adams atuou pela última vez em terras lusas, no final de 2019, compilei uma lista de músicas dele que mereciam mais atenção – tanta quanto os Summer of ‘69 desta vida. Só publiquei o texto uns meses depois dos concertos porque sou péssima a gerir o meu tempo. 

 

Agora, pouco mais de dois anos depois, Bryan está de volta a Portugal. Irá dar um concerto em Gondomar no dia 29 de janeiro e um em Lisboa, no dia 30 – é a esse que vou. Daqui a uns meses, no dia 15 de julho, Bryan atuará no Festival Marés Vivas. 

 

Eu pensava que tinha deixado a promessa de publicar uma sequela às “Pérolas escondidas” quando Bryan regressasse depois de 2019. No entanto, quando fui dar uma vista de olhos a esse texto, não encontro essa promessa em lado nenhum. 

 

Onde fui buscar essa ideia?

 

Passando à frente daquilo que eu espero que não sejam sintomas de demência, com promessa ou sem promessa, o regresso de Bryan é um bom pretexto para desenterrar mais algumas pérolas escondidas da sua discografia. Não tenho tantas como da última vez. As primeiras duas são apenas menções honrosas, aliás (opalas escondidas?). Mas não deixa de valer a pena trazê-las à luz.



 

  • Menções honrosas: I Still Miss You… a Little Bit e Hidin’ From Love

 

 

 

 

Eu na verdade já desenterrei I Still Miss You… a Little Bit há muito tempo, quando escrevi sobre o álbum Bare Bones. Este é um texto muito antigo, um dos primeiros que publiquei aqui – escrito uns meses antes de ter criado o blogue. 

 

Por norma, não gosto de reler nem de referir os meus primeiros textos. Já lá vão quase dez anos, mais ainda nalguns casos. Na minha opinião, a minha escrita melhorou significativamente desde essa altura e não consigo olhar para esses textos sem ter vontade de reescrever tudo (o texto sobre Bare Bones não está muito mau, apesar de tudo). Não os apago do blogue. Mesmo que hoje não esteja satisfeita com eles, foi por escrevê-los – esses e muitos outros – que cheguei ao nível em que estou agora. Mas não os promovo da maneira que faço com textos mais recentes. Assim, de seguida irei repetir algumas coisas de que já falei nessa análise.

 

Como era a norma em Bare Bones, os únicos instrumentos são o piano e a guitarra acústica – com as palmas do público marcando o ritmo. O tom é saltitante e divertido, o que condiz com a letra. Destaque para o momento em que Gary Breit, o pianista, se entusiasma durante o solo. 

 

A letra, então, descreve uma relação que falhou porque a amada não lhe conseguia ser fiel. Ao ponto de trazer outro homem para a cama com eles. 

 

Como já escrevi antes, para mim I Still Miss You… a Little Bit conta a história de What the Hell, de Avril Lavigne, do ponto de vista do homem. Até porque as músicas foram lançadas com poucos meses de intervalo. 

 

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Por outro lado, às vezes gosto de imaginar um videoclipe para esta música com Keith Scott – o guitarrista de Bryan – fazendo de rival amoroso do narrador. Keith aparecendo na cama com Bryan e a mulher… Seria hilariante.

 

Às vezes tenho saudades da era Bare Bones e tenho pena por não ter ido a nenhum concerto nesse conceito. Mas também em Portugal seria sempre difícil – eram em salas mais pequenas, os bilhetes esgotariam num abrir e fechar de olhos. 

 

Agora recuemos trinta anos, para o álbum de estreia de Bryan, homónimo. Como vimos antes, este álbum deixa muito a desejar. Tanto o próprio Bryan como Jim Vallance – o principal co-compositor de Bryan nos primeiros dez anos da sua carreira – concordam. Só gosto verdadeiramente de três músicas neste álbum – e Hidin’ From Love é a minha preferida.

 

A letra é algo vaga – o que não é invulgar com Bryan. Fala sobre um interesse romântico que não se quer comprometer, que não quer avançar na relação. Arranja desculpas, mas a verdade é que ela tem medo do amor, está a esconder-se dele.

 

Sinto-me atacada.

 

Num álbum que Bryan descreve como uma coleção de demos, Hidin’ From Love não é má em termos de instrumental. Eu pelo menos gosto da guitarra elétrica.

 

 

Ainda assim, existe outra versão da música. Em 2020, durante o confinamento, Bryan foi publicando vídeos de si mesmo cantando músicas suas. Regra geral, usava os instrumentais oficiais e cantava por cima deles.

 

Para Hidin’ From Love, no entanto, ele gravou um novo instrumental – porque claramente não estava satisfeito com a versão do álbum. E esta versão é de facto melhor, carregando mais nas influências rock de álbuns posteriores. Só é pena ter deixado o solo de guitarra original de fora.

 

Pergunto-me se ele planeia regravar todo o seu primeiro álbum neste estilo, um dia. Se calhar devia tê-lo feito em 2020, a propósito dos quarenta anos de edição.

 

Bem, ainda haverá o quinquagésimo aniversário.

 

 

  • Miss America

 

 

Uma vez mais, escrevo aqui sobre uma B-side do álbum 11. Este não é um mau álbum de todo, mas infelizmente dois dos meus melhores temas não estão incluídos na edição-padrão.

 

Ao contrário do que aconteceu com The Way of the World, só conheci Miss America mesmo quando saiu a versão Deluxe do álbum, algures em novembro de 2008. Infelizmente, parva como sou, perdi o CD, mas ao menos tanto Way of the World como Miss America estão disponíveis no Spotify. 

 

 

Nos primeiros meses após o lançamento dessa versão de 11, andei obcecada com Miss America. Lembro-me inclusivamente de ouvi-la todas as manhãs, na minha aparelhagem-despertador, enquanto fazia a cama. Tinha imensa vontade de lhe fazer uma montagem de vídeos – era o que eu fazia na altura – mas provavelmente nunca conseguiria colocá-la no YouTube, por causa dos direitos de autor.

 

Musicalmente, Miss America segue a fórmula de quase todo o álbum 11. A guitarra acústica no centro, bateria, piano e guitarra elétrica a acompanhar. Gosto imenso destes dois últimos instrumentos nesta música. 

 

Em termos de letra, é basicamente uma versão mais fofinha de Summer of ‘69. Miss America recorda com saudades um romance de verão entre dois adolescentes antes de a vida os separar. A letra inclui pormenores que dão carácter à música, a tornam credível: o facto de ela ser mais velha, de ele preferir vê-la de cabelo solto, de ambos passarem noites a olhar para as estrelas. 

 

A música não explica preto no branco porque é que o narrador se refere ao seu interesse romântico como Miss America ou Miss USA. Eu, no entanto, sempre assumi que era uma alcunha fofinha do narrador para a sua amada: para ele, ela era a mais bonita do país. 

 

Não é por acaso que a primeira vez que referi Miss America aqui no blogue tenha sido quando Avril Lavigne lançou 17. As duas canções são muito parecidas tematicamente. Ainda assim, dou a vantagem a 17. A letra está mais desenvolvida, mais pormenorizada, Avril verteu nela a sua própria personalidade, a sua própria história. 

 

Pena não ter voltado a fazê-lo no álbum seguinte, quando mais se justificava. 

 

E desviei-me um bocadinho. Miss America não deixa de ser uma linda música, uma verdadeira pérola escondida. Não deixem de ouvi-la.



 

  • The Best Was Yet to Come

 

 

 

The Best Was Yet to Come é a última faixa do alinhamento de Cuts Like a Knife, o terceiro álbum de Bryan. É a única balada no disco, à exceção da clássica Straight From the Heart.

 

Esta é muito semelhante a outras baladas dos anos 80 – sobretudo por ser conduzida pelo piano elétrico. Existe até uma história engraçada sobre isso, contada por Jim Vallance, co-compositor da música, no seu site. Na altura dos trabalhos de Cuts Like a Knife, pediram a Vallance que fizesse uma gravação do piano para que servisse de guia para outro tecladista. Assim, Vallance não se preocupou muito com o rigor da sua gravação. 

 

No entanto, mais tarde, Bryan decidiu usar essa gravação na versão final de The Best Was Yet to Come. Vallance entrou em pânico quando descobriu, mas na altura já era tarde demais. Ainda hoje, Vallance não consegue deixar de ouvir os erros na versão final. 

 

Tem piada porque nem eu, nem – penso – a maior parte dos ouvintes consegue ouvir os erros. Não há nada que soe fora de sítio pois não conhecemos a versão certa. Ao serem incluídas no álbum final, as notas erradas de Vallance passaram a ser as notas certas. 

 

Haverá uma lição de vida aqui, suponho eu. Haverão ocasiões em que o melhor é fingir que não se cometeram erros, que fazia tudo parte do plano. Se os outros não souberem o que era o correto, nunca saberão o que está errado.

 

A letra de The Best Was Yet to Come foi inspirada pela história trágica de Dorothy Stratten, assassinada pelo marido com apenas vinte anos, quando estava prestes a vingar-se em Hollywood. Um crime que ainda é discutido hoje, mais de quarenta anos depois. 

 

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Dorothy era de Coquitlam, uma cidade pequena do Canadá. Os americanos e os canadianos têm uma cena por este tropo: pessoas, geralmente mulheres, que vêm de uma terra pequena para as grandes cidades. Dorothy terá conhecido o futuro marido aos dezoito anos: um homem mais velho, um chulo, que lhe prometeu fazer dela uma estrela. 

 

Pode-se dizer que ele cumpriu a promessa, mas na verdade o que ele queria era explorar Dorothy, ganhar dinheiro à custa dela. Veja-se o facto de ele ter feito dela uma coelhinha da Playboy – apesar de, alegadamente, Dorothy não se sentir à vontade com a nudez e o eroticismo desse mundo. 

 

Ao menos permitiu à jovem dar o salto para a representação. Dorothy chegou a participar nalguns episódios televisivos e num par de comédias românticas. 

 

Gosto de pensar que, hoje em dia, se as pessoas vissem uma miúda da idade de Dorothy sendo seduzida por um homem mais velho, soariam alarmes. Sobretudo com eles casando-se, teria a jovem dezoito ou dezanove anos – as pessoas casavam-se assim tão cedo nos anos 70, 80?

 

Ainda assim, para sermos justos, várias pessoas do círculo de Dorothy ter-se-ão apercebido da relação abusiva. A jovem terá tentado fugir do marido várias vezes, ajudada por essas pessoas. Começou inclusivamente uma relação com Peter Bogdanovic, realizador de um dos filmes em que ela entrou. Por sinal, o senhor morreu no início deste ano. 

 

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Esta também me parece uma relação questionável. Bogdanovic tinha o dobro da idade de Dorothy na altura. Por outro lado, ele terá tratado melhor a jovem que a besta do marido. Depois da morte dela, Bogdanovic ter-se-á aproximado da família de Dorothy e tê-los-á ajudado a suportar a perda. Ao ponto de se ter casado com Louise, a irmã mais nova de Dorothy… quase trinta anos mais nova que Bogdanovic (Louise tinha vinte anos quando se casou).

 

Essa sim, ainda me parece mais questionável. Consta que deu polémica na altura e, para ser sincera, não os censuro. Dito isto… o casamento ainda durou doze anos e, mesmo depois do divórcio, tanto Louise como Bogdanovic continuaram a dar-se bem. Não há nada que indique que tenha havido abuso.

 

Suponho que existam nuances nestas coisas. Diferenças de idades não significam necessariamente relações abusivas.

 

Regressando a Dorothy, esta infelizmente foi assassinada pelo marido – que se matou de seguida. A jovem foi explorada e fetichizada tanto em vida como depois da morte – talvez ainda mais depois da morte – inspirando filmes, livros e canções. Não digo que todos esses trabalhos tenham sido explorações da tragédia dela… mas alguns terão sido. O canal de YouTube The Take tem um vídeo muito interessante sobre esta fetichização de vítimas de crimes.

 

The Best Was Yet to Come foi também uma exploração? Talvez. No entanto, a letra não refere o assassinato, nem sequer refere o marido. O carácter vago da letra joga a seu favor – duvido que o ouvinte casual saiba de que fala a música. The Best Was Yet to Come foca-se sobretudo na vida que se perdeu, nos sonhos que ficaram por realizar. 

 

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É daí que vem o título, aliás. O melhor ainda estava para vir.

 

Não se percebe muito bem a quem é dirigida a letra de The Best Was Yet to Come. Existem partes que parecem referir-se a Dorothy – "You had it there and it slipped away, oh you left the song unsung" – e outras que parecem dirigir-se aos seus entes queridos, a eventuais sentimentos de culpa que poderão nutrir – "You can cry yourself to sleep at night, you can't change the things you've done". Falta alguma consistência nesse aspecto. 

 

De qualquer forma, a frase mais dolorosa é mesmo a última: "What 's so good about goodbye when the best was yet to come?“. 

 

Consta que, anos depois da edição de Cuts Like a Knife, Peter Bogdanovic cruzou-se com Bryan e com Vallance e agradeceu-lhes por The Best Was Yet to Come. Segundo ele, a música foi um grande consolo para a família de Dorothy. The Best Was Yet to Come pode ter sido mais um trabalho explorando uma coisa horrível que aconteceu a uma jovem mulher, mas fê-lo com respeito e consideração. 

 

É uma música linda, mas mesmo muito triste. Recomendo-a a quem não a conheça, mas não é para pedir num concerto. 

 

A próxima música é mais alegre, prometo. 

 

 

  • I Will Always Return

 

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Já me fartei de escrever sobre a banda sonora do filme Spirit Stallion of the Cimarron neste blogue, sobretudo nos seus primeiros anos. É um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos, o disco que me apresentou a Bryan Adams, cheio de pérolas escondidas – incluindo a minha canção preferida

 

É possível que tenha um viés por ter conhecido este álbum num período particularmente formativo, como expliquei no texto sobre Here I Am. Por outro lado… outro dos responsáveis pela banda sonora é Hans Zimmer! Não é por acaso que o homem é considerado uma lenda no que toca a bandas sonoras. 

 

Em Spirit em particular, o protagonista não fala fisicamente – e a narração de Matt Damon é escassa. A música conta uma grande parte da história.

 

Custa a acreditar que este álbum e este filme vão fazer vinte anos.

 

I Will Always Return era uma das poucas faixas neste álbum sobre as quais me faltava escrever. Isto é, tirando as faixas exclusivamente instrumentais. Depois desta, sobram You Can’t Take Me, Get Off My Back e Brothers Under the Sun. Não está nos meus planos escrever sobre elas… mas não vou dizer “nunca”.

 

 

I Will Always Return é a música principal da banda sonora de Spirit. Representa o… bem, o espírito do filme, a principal motivação do protagonista: regressar a casa.

 

No álbum, a primeira versão da música que aparece é um tema soft rock, guiado pela guitarra acústica. Não muito diferente do estilo habitual de Bryan – encaixaria bem em On A Day Like Today. Inclui inclusivamente Robert “Mutt” Lange nos créditos de composição – um colaborador regular de Bryan na altura. A mensagem da letra é essencialmente a mesma das versões da banda sonora, mas com um maior foco no romance.

 

Imagino que esta versão tenha sido gravada para, eventualmente, ser lançada como single nas rádios. Mais uma canção de amor de Bryan Adams. No entanto, Here I Am acabou por ser o single principal do álbum.

 

Não que me queixe.

 

Eu gosto desta versão. Tive um período (quando tinha dezasseis ou dezassete anos, penso eu) em que andava obcecada com ela. No entanto, hoje acho que as versões da banda sonora são melhores. O próprio Bryan parece concordar, como veremos já de seguida.

 

A versão seguinte de I Will Always Return no álbum chama-se oficialmente This Is Where I Belong. No filme esta soa ainda no início, logo depois de Here I Am. Existe algo no seu instrumental que me faz pensar em cavalos a galope. Em comparação com outras versões, esta tem um carácter sereno e reconfortante, o que condiz com a letra. This Is Where I Belong diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre o protagonista, Spirit: ele adora a terra onde nasceu e cresceu.

 

 

Naturalmente, logo a seguir, Spirit é arrancado dela. 

 

Saltando algumas faixas no álbum, damos com Homeland. É a música de abertura do filme, sobre a qual ouvimos o primeiro monólogo de Matt Damon. No fundo é o instrumental da versão final de I Will Always Return, centrada na mesma melodia, ainda que com algumas diferenças. Eu pelo menos sempre a usei para fazer karaoke, ainda que tenha de cantar a primeira estância duas vezes.

 

Eu pura e simplesmente adoro esta instrumentação, estas melodias, aquele piano. Talvez seja o meu viés a falar, mas para mim isto é perfeição musical. Don’t @ me.

 

Gostaria de destacar a sequência final, aquele momento mais eufórico – coincidente com a primeira vez que surgem cavalos no ecrã. É muito semelhante à peça instrumental que soa muito mais à frente, no clímax do filme: o momento em que Spirit salta sobre o precipício para fugir aos soldados. Um momento de exultação, de júbilo. O equivalente musical, mesmo cinemático, ao golo do Éder (salta daí, caralho!). 

 

A versão final de I Will Always Return é igualmente exultante, triunfal – pois soa quando Spirit regressa finalmente a casa. Pode ser semelhante a This Is Where I Belong em termos melódicos, mas o carácter é completamente diferente. TIWIB é serena, IWAR é música de vitória. A interpretação de Bryan começa suave, mas vai ganhando intensidade. Destaque para os agudos, sobretudo na última estância

 

 

Eu não consigo resistir a esta música, sobretudo à parte final. Emociono-me de todas as vezes. É a melhor versão de I Will Always Return e encontra-se facilmente no meu top 10 de músicas de Bryan.

 

Deverá ser por isso que Bryan optou por recriar essa versão – em vez da versão soft rock de que falámos antes – quando tocou I Will Always Return ao vivo nalguns concertos em 2019. Lançou mesmo o áudio dessas apresentações nas plataformas digitais.

 

Esta é aquilo a que gosto de chamar uma versão Bare Bones: apenas piano e guitarra acústica. Guitarra é como quem diz… só a refiro porque Bryan aparece em palco com uma. Na prática mal se ouve.

 

O que em nada diminui a beleza da música. É uma versão reduzida aos melhores instrumentos da versão da banda sonora: o piano e a voz. Continuo a preferir a instrumentação completa, mas I Will Always Return é daquelas músicas que soam bem de qualquer forma.

 

Bryan publicou também uma versão da música em francês: Je Reviendrai Vers Toi. Na preparação deste texto descobri que Bryan também canta na dobragem francesa de Spirit. Já fui dar uma audição e descobri que gosto imenso de Me voilà, a versão francesa de Here I Am – o que é irónico, sendo esta uma canção que associo à Seleção Portuguesa

 

Pois bem, já pedi I Will Always Return para o concerto de domingo, bem como Here I Am. Deixei um comentário numa publicação do Instagram quase duas semanas antes do concerto. Talvez tenha sido demasiado cedo, mas ele falava já nos concertos cá em Portugal e em Espanha… 

 

 

Não será o fim do mundo se Bryan não a tocar, claro que não, mas seria especial se ele o fizesse. Em parte para pagar uma dívida ao meu eu de treze anos, que esperava mais músicas da banda sonora de Spirit no concerto de 2003. 

 

Mas também porque é a música perfeita para celebrar o regresso de Bryan a Portugal e aos palcos depois da pandemia. Nós os fãs somos a casa dele –  e os fãs portugueses são um bocadinho mais do que os outros. Foi duro estarmos separados, tanto para nós como para ele, mas agora estaremos juntos de novo, depois destes dois anos tão difíceis. Como reza I Will Always Return:

 

And now I know it’s true

My every road leads to you

And in the hour of darkness

Your light gets me through!”



E é com esta nota que nos despedimos por hoje. À hora desta publicação ainda não tenho cem por cento de certeza de que os concertos deste fim de semana não serão cancelados. Cá em Portugal não estamos com restrições muito duras. No entanto, bandas como os Måneskin e Bring Me the Horizon cancelaram as suas digressões europeias porque a Europa está demasiado heterogénea em termos de medidas de controlo da pandemia. E eu fiquei com medo.

 

Por outro lado, Bryan tem estado em Madrid na última semana, semana e meia a preparar estes concertos. A digressão vai começar aqui na Península Ibérica, onde as restrições estão mais leves. Mesmo que tenham de cancelar concertos posteriores… bem, eles já estão aqui ao lado. E acho pouco provável que, daqui até ao fim de semana, eles decidam apertar as restrições cá em Portugal. 

 

Em princípio irá mesmo para a frente. Teremos de usar máscara, o que vai chatear um bocadinho, mas paciência. Eu faria sacrifícios bem piores só para poder voltar a concertos como este. 

 

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Se tiverem bilhetes para Lisboa ou para Gondomar, espero que se divirtam muito – com segurança. Vai valer a pena. Obrigada pela vossa visita.

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