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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Pérolas escondidas de Bryan Adams #2

Segunda parte da minha lista de músicas menos conhecidas de Bryan Adams mas que mereciam mais atenção. Podem ler a primeira parte aqui

 

Ontem ficámos com Victim of Love. Agora vamos saltar mais de dez anos e vários álbuns até On a Day Like Today para falar de... 

 

 

  • Fearless & Lie to Me (& Before the Night is Over)

 

 

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On A Day Like Today é um dos meus álbums preferidos de Bryan Adams pura e simplesmente porque tem muitas músicas de que gosto. Já escrevi sobre How Do Ya Feel Tonight. Também gosto imenso de C’mon C’mon C’mon – soa a uma sequela à mensagem esperançosa da faixa anterior.

 

Durante muitos anos tive uma obsessão pela faixa-título. Já arrefeceu um bocadinho, mas faz parte da minha playlist da Seleção (à semelhança de Here I Am) e ainda hoje gosto bastante dela. Cloud Number 9 está numa situação semelhante: o meu eu aos treze/catorze anos ficava de coração derretido com a versão Chicane Mix dessa música, incluída em The Best of Me. 

 

E estas são apenas algumas. Hoje, no entanto, queria chamar a atenção para duas músicas neste álbum que abordam o tema de traições, que contam a história segundo personagens diferentes do triângulo amoroso.

 

Tecnicamente este álbum tem três músicas sobre o assunto. No entanto, Before the Night is Over é, na minha opinião, a menos interessante. Consideremo-la uma menção honrosa. 

 

Before the Night is Over tem várias semelhanças com One Night Love Affair – conforme apontaram há relativamente pouco tempo no grupo de fãs de Bryan Adams no Facebook. Tanto em termos instrumentais como temáticos – ao ponto de, segundo pessoas desse grupo, Bryan ter tocado um medley das duas durante a digressão de On a Day Like Today (não encontrei provas disso na Internet, no entanto).

 

 

(Um aparte só para dizer que, no concerto deste vídeo, só tinham o Keith Scott a tocar guitarra, Bryan ficou com o baixo e... não gosto. Como disse Vallance numa entrevista que li há imenso tempo, fica um buraco na música quando Keith faz um solo.)

 

Como vimos antes, One Night Love Affair fala sobre um caso de uma noite só com consequências inesperadas para o narrador. Before the Night is Over também se foca numa aventura romântica, aparentemente também de uma única noite (embora não seja muito certo). Desta feita, ambas as partes estão comprometidas com outras pessoas: um quadrado amoroso, portanto. Aqui o narrador sabe perfeitamente que está a cometer uma transgressão mas não se importa – o proibido faz parte do apelo.

 

É uma música gira, mas as outras duas de que vos vou falar são melhores, a meu ver. À semelhança de outras canções de Bryan, tem uma sequência de guitarra elétrica que lhe serve de imagem de marca – neste caso, uma série de três acordes no fim de cada verso das estâncias e no início de cada verso do refrão.

 

A letra de Fearless é narrada pelo “outro” – o homem com quem o interesse romântico está a trair o companheiro oficial. O narrador que que a sua amada deixe o parceiro romântico e se junte oficialmente a ele. 

 

Desde que ouvi esta música pela primeira vez não consigo evitar imaginar um videoclipe a partir das imagens pintadas pela letra (talvez um bocadinho literais, admito). Ela acordando na cama com o narrador, no início da primeira estância. Vestindo-se e preparando-se para sair enquanto o narrador pede-lhe que fique. Na segunda estância estão ambos no carro do narrador, parados em frente da casa dela. O narrador tenta dissuadi-la de entrar em casa, tenta convencê-la a deixar o companheiro, mesmo no caminho até à porta da frente. O narrador decide mesmo confrontar o seu rival, lá está, “sem medo”.

 

 

No fim, a questão fica no ar. Quem irá ela escolher? Na letra de Fearless, o narrador parece convencido que a amada o prefere ao companheiro, mas só ouvimos a história da perspetiva dele. Será ele capaz de ver as coisas como são?

 

Mesmo que a mulher decida deixar o companheiro para se juntar ao narrador, eu não poria as mãos no fogo por essa relação a longo prazo. Sobretudo se ela se mostra tão relutante em deixar o parceiro oficial… Costuma-se dizer que, se ele(a) traiu contigo, é provável que, mais cedo ou mais tarde, te traia. Talvez seja assim que ele(a) lida com problemas na relação.

 

Por sua vez, Lie to Me conta a história da perspetiva do homem que está a ser traído… mas que não quer enfrentar essa realidade. Pelo menos não por agora.

 

Musicalmente, Lie to Me tem um tom relativamente grave e intimista, a condizer com a vulnerabilidade da letra. Faz lembrar outra música do álbum, Inside Out, embora esta última tenha uma sonoridade um pouco mais etérea. Por sua vez, o início da melodia nas estâncias faz lembrar Cloud Number 9. 

 

Na letra de Lie to Me, o narrador percebe que a companheira está a traí-lo, que a relação está com problemas, mas não quer confrontá-la (nem a si mesmo) com a verdade. Não se sente com forças para isso.

 

É uma situação bastante triste, na verdade. Como já referi antes, é parecida com a True Love dos Coldplay. É possível que hajam muitas pessoas que se conseguem identificar com esta letra, que até tenham feito o mesmo em circunstâncias parecidas: insistirem numa relação sem futuro só mesmo porque era confortável, servia de consolo, tinham medo de ficar sozinhos. 

 

 

Voltando ao cenário anterior, do videoclipe, seria cruel se o outro escolhesse este preciso momento para confrontar o seu rival. Por outro lado, não estou a ver a mentira aguentar muito mais tempo.

 

Suponho que a moral da história seja: sejam fiéis aos vossos parceiros. Ninguém gosta de triângulos amorosos em ficção e muito menos na vida real. 

 

 

  • Not Romeo Not Juliet

 

 

O álbum Room Service, lançado em 2004, tem valor sentimental para mim porque foi o primeiro álbum de estúdio de Bryan cujo lançamento testemunhei. Depois de algumas semanas ouvindo Open Road na rádio, comprei o CD no dia em que saiu – o mesmo dia em que comecei o décimo ano numa escola nova. Nos primeiros meses, o álbum serviu-me de consolo enquanto eu me tentava adaptar a uma nova realidade. 

 

Músicas como, lá está, Open Road, This Side of Paradise, Flying, Room Service, sempre me agradaram. Tive uma fase, nos primeiros tempos com o álbum, em que andei obcecada com I Was Only Dreamin’. She’s a Little Too Good For Me é hilariante. 

 

Ainda hoje gosto muito de East Side Story. Até há bem pouco tempo considerava-a uma antecessora de You’re Beautiful, de James Blunt – a mesma história de “homem atraído por uma mulher que vê nos transportes”, com a diferença de que a música de Bryan decorre num autocarro e a de James decorre no metro… até descobrir o verdadeiro significado de You’re Beautiful

 

Agora que penso nisso, acho que gosto mesmo de todas as músicas deste álbum. Às tantas será mesmo o meu preferido de Bryan.

 

 

Curiosamente, a canção sobre a qual vou escrever agora terá sido a que demorou mais tempo a cativar-me – cerca de meia dúzia de anos. Not Romeo Not Juliet tem um ritmo midtempo que me recorda músicas como Complicated e Hand In My Pocket. O seu ponto de destaque, no entanto, é a letra.

 

Not Romeo Not Juliet assemelha-se a Victim of Love no sentido em que a letra aborda o tema do amor de uma maneira atípica para Bryan – neste caso tem uma visão mais prática e realista, sobretudo quando comparada com as várias canções românticas idílicas na discografia do cantor. 

 

Esta canção conta a história duas personagens cínicas, endurecidas pela vida, infelizes, que se juntam só mesmo para fazerem companhia um ao outro. Para não terem de ser infelizes sozinhos. Não admitem, sequer, que seja amor. Veem-se a si mesmo como simplesmente duas pessoas juntas, sem expectativas, sem pressões. A ver no que dá.

 

O narrador defende que o amor nunca é perfeito, ao contrário do que muitas vezes se pensa. Nunca se tem a certeza absoluta. Pelo menos não se não houver um esforço nesse sentido. (“We’re nothing unless we try”)

 

O título da música vem da frase “We’re not Romeo, we’re not Juliet”... mas haverá alguém que queira ser Romeu e Julieta? Dois adolescentes que arruinaram as suas próprias vidas para se casarem e acabaram mortos? Só pessoas que nunca leram ou viram a peça, que pensam que Love Story é uma adaptação fidedigna. 

 

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Para sermos justos, não parece haver consenso sobre se Romeu e Julieta é uma épica história de amor ou uma fábula. Eu mesma não consigo decidir-me. Se a intenção de Shakespeare era avisar acerca da irracionalidade das paixões adolescentes, porque incluiu a reconciliação das famílias no fim da história – dando a entender que, ao menos, surgiu uma coisa boa da tragédia? 

 

Será a moral da história para os pais? Avisá-los para as consequências dos seus ódios e mesquinhezes, de forçar as filhas a casarem (no caso de Capuleto)?

 

E com isto desviei-me imenso do assunto do texto. Isto tudo para dizer que os protagonistas de Not Romeo Not Juliet não são adolescentes ingénuos, imaturos emocionalmente, longe disso. São adultos com experiência de vida, de sofrimento, que não são conduzidos exclusivamente por emoções. Ou seja, é provável que tenham um final mais feliz que Romeu e Julieta.

 

 

  • The Way of the World

 

 

Em termos sentimentais, 11 está numa situação parecida à de Room Service. Foi apenas o segundo álbum de Bryan cujo lançamento acompanhei, três anos e meio após o disco anterior (na altura era muito tempo). No ano anterior tinha descoberto que era possível acompanhar a atividade de artistas através da Internet (foi na altura que descobri os sites de fãs de Avril Lavigne). Assim, nas semanas antes de o álbum sair, li várias entrevistas e declarações, fiquei a par do essencial.

 

11 era para ser um álbum acústico. No entanto, depois de Bryan fazer uma pausa nos trabalhos deste disco para ir em digressão, este decidiu que não queria deixar o rock de fora. Desse modo, manteve a base acústica, mas incorporou mais guitarras elétricas do que o previsto. Ainda assim, Bryan passaria os anos seguintes dando concertos estilo Bare Bones. O disco recebeu o nome de 11 pura e simplesmente porque era o décimo-primeiro álbum de estúdio e Bryan não teve imaginação para mais. 

 

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O álbum foi também marcado pelo regresso da parceria com Jim Vallance, após cerca de quinze anos sem colaborarem – ele e Bryan zangaram-se no início dos anos 90 e, segundo o que li, não foi bonito, foi parecido com um divórcio. 

 

Havemos de regressar a Vallance. Para já, dizer que me lembro de ouvir I Thought I’d Seen Everything semanas antes de o álbum sair (foi lançado como single no dia em que fiz dezoito anos, mas só a descobri dias mais tarde). Ainda hoje gosto muito dessa música. Já escrevi sobre She’s Got a Way. Broken Wings é uma que tem sobrevivido ao teste do tempo, é uma canção de amor não muito original mas reconfortante.

 

A música de que falamos hoje é uma das minhas preferidas em 11 e nem sequer faz parte do alinhamento padrão. Para encaixar no conceito do título, este álbum só podia ter onze faixas, logo, algumas tiveram de ficar de fora. Por sinal, entre essas encontram-se duas das minhas preferidas.

 

Com Way of the World foi particularmente cruel. Esta encontrava-se entre as prévias publicadas no site de Bryan antes do lançamento de 11 e cativou-me logo. Mas depois o álbum saiu sem Way of the World. Antes da edição Deluxe, lançada mais de seis meses depous, seria um exclusivo do iTunes – que eu, na altura, não sabia usar. Não que isso tenha atrapalhado durante muito tempo pois acabei por sacá-la.

 

Way of the World foi uma das três canções que Bryan co-compôs com Vallance. Na altura, não podendo estar no mesmo sítio, iam enviando ficheiros áudio por e-mail um ao outro. Vallance publicou no seu site o demo instrumental a partir do qual Bryan e Gretchen Peters, também co-compositora, desenvolveram a música.

 

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Gosto imenso desta demo – quase mais do que da versão final. Vale a pena ouvi-la. 

 

Way of the World tem uma sonoridade diferente do resto do álbum – talvez tenha sido por isso que tenha ficado de fora da edição-padrão. Existe algo de atmosférico, de dramático, nas guitarras elétricas – daí a ter incluído durante muitos anos na playlist que ouvia enquanto escrevia cenas de ação. Como o próprio Vallance assinala no seu site, a bateria, o solo de guitarra depois da terceira parte, os violinos são elementos de destaque.

 

A letra condiz com o dramatismo do acompanhamento musical. Way of the World, como o título dá a entender, fala sobre a face sombria do mundo, com alusões a guerra e poluição. 

 

Regra geral, quando Bryan tenta sair da sua bolha habitual de amor/sexo para abordar temas mais… digamos, interventivos, a coisa não resulta muito bem. É essa uma das falhas de Into the Fire. Way of the World será uma das exceções. Existem alguns momentos algo simplistas, como por exemplo “We got a lot of dirty water, we got a lot of dirty air” mas, no geral, não ficou má.

 

O narrador revela o desejo de mudar o mundo, mas ao mesmo tempo manifesta o desejo de arranjar um cantinho para si, para a sua guitarra e a sua família, longe disto tudo. Não sei como é com vocês, mas devo confessar que, nos tempos que correm, me identifico cada vez mais com esta incoerência.

 

 

E pronto. Foram uma mão-cheia de músicas mais obscuras de Bryan Adams que achei por bem destacar. Gostava de um dia escrever uma sequela a este texto, mas não sei se consigo encontrar muitas mais faixas pouco conhecidas de que goste tanto como destas. Tenho de dar mais tempo de antena aos CDs de Bryan, a ver se descubro mais pérolas escondidas.

 

Antes de nos despedirmos, queria falar um pouco sobre os meus planos para o blogue a curto/médio prazo. Suponho que tenha de falar sobre o elefante na sala: o três vezes maldito COVID-19. O vírus que me tem tirado uma grande parte das coisas que trazem alegria à minha vida. Cancelou-me o concerto de Avril Lavigne, em Zurique (e parte de mim acha que é castigo divino pelas críticas que lhe tenho feito). Cancelou-me o Euro 2020. Mesmo coisas menores como idas ao cinema, raides e outros eventos do Pokémon Go, a natação, passeios longos com a minha cadela, idas ao café. 

 

Não sou estúpida. Mais: sou farmacêutica, profissional de saúde. Sei perfeitamente porque é que estas medidas tiveram de ser tomadas. Concordo com elas, talvez devessem ter sido tomadas mais cedo. Mas não tenho de gostar.

 

Está visto que sou menos introvertida do que pensava. Consigo viver em isolamento, até mesmo disfrutar dele. Não me faltam maneiras de me entreter. No entanto, não quero viver exclusivamente assim.

 

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A escrita, na verdade, é uma das poucas coisas que o COVID-19 não me pode tirar. Suponho que agora terei mais tempo… Não estou de quarentena, mas comecei a trabalhar menos horas esta semana. Vou tentar dar prioridade à escrita e não a outras atividades, como ver vídeos no YouTube ou jogar Sims – embora possa abrir uma exceção para as maratonas de Digimon em PT-PT na página do Odaiba Memorial Day em Portugal (provavelmente uma das melhores coisas deste período de isolamento).

 

Vou aproveitar e escrever textos que ando a adiar há algum tempo – pelo menos até encontrar maneira de ver Kizuna, o filme de Digimon Adventure, ou até Petals For Armor sair por completo. Da maneira como as coisas estão, não dá para fazer grandes planos – vive-se uma semana de cada vez, quando não for um dia de cada vez. Vou escrevendo para me manter sã, entretida, quiçá também para entreter outras pessoas. 

 

Até se resolver este imbróglio.

 

Devia ser nesta parte que eu deixava uma mensagem inspiradora de esperança. Há uns anos talvez o fizesse – neste momento não estou nessa onda. Apenas peço para lavarem as mãos, ficarem em casa, não serem bestas, protegerem-se a vocês mesmos e aos demais (uma das coisas que tenho aprendido com esta pandemia é que o mundo está cheio de bestas). Mais cedo ou mais tarde isto há de passar.

Pérolas escondidas de Bryan Adams #1

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Este é um texto que queria ter publicado há meses – uns dias antes do concerto de Bryan Adams, em dezembro do ano passado (sobre o qual escrevi aqui). Este no entanto revelou-se mais comprido e trabalhoso do que esperava (de tal forma que acabei por decidir publicá-lo em duas partes). Quando dei por mim, faltava uma semana para o concerto e eu ainda nem ia a meio do primeiro rascunho. 

 

Acabei por decidi deixar o texto de lado e começar a trabalhar noutros, mais urgentes. Só agora é que consegui regressar a este. Não vou aproveitar o interesse aumentado em Bryan Adams a propósito dos seus concertos em Portugal, paciência. Não quero esperar pela próxima passagem de Bryan por terras lusas. 

 

Mas sobre que é este texto? Passo a explicar. Penso que é do conhecimento geral que Bryan Adams é um cantor muito popular no nosso país. Eu não fujo à regra – é o meu cantor masculino preferido. Bryan possui um vasto catálogo de êxitos, pelo qual muitos artistas morreriam para obter. Durante muito tempo, aliás, quase só conhecia esses êxitos (de compilações como The Best of Me e Anthology) e um ou outro álbum dos mais recentes. 

 

Hoje no entanto não quero escrever sobre os Summer of 69 desta vida. Pelo contrário, vamos falar sobre as músicas menos conhecidas, que não são incluídas nos álbuns de Greatest Hits mas que, na minha opinião, são tão boas como os êxitos. As subvalorizadas. As pérolas escondidas. Algumas delas nem sequer são singles, uma delas nem sequer faz parte da edição padrão do respetivo álbum. 

 

Nesta lista vou seguir uma ordem cronológica (ainda que o primeiro caso fuja um bocadinho à regra). Como penso já ter referido antes aqui no blogue, acabei por adquirir a maior parte dos CDs de Bryan em 2010, quando estes começaram a sair em fascículos. Ainda não exclui por completo a hipótese de, um dia, analisar pelo menos alguns desses álbuns aqui no blogue. No entanto, vou deixar alguns apontamentos sobre eles caso alguma das suas músicas apareça nesta lista. 

 

Assim, sem mais delongas, começamos por…

 

 

  • Don’t Ya Say It

 

 

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Bryan Adams não foi um sucesso instantâneo – esse só começou com o terceiro álbum Cuts Like a Knife. No que toca ao seu primeiro álbum, homónimo, que completou quarenta anos (!) há pouco tempo, isso dever-se-á ao facto de… o álbum não ser grande coisa. O próprio Bryan descreveu o seu disco de estreia como uma manta de retalhos de estilos musicais, admitindo que ninguém sabia ao certo o que estava a fazer e que ele precisou de tocar ao vivo para descobrir a sua identidade musical. 

 

Além que Bryan tinha apenas dezoito, dezanove anos quando gravou este disco. Eu e a minha irmã costumamos brincar dizendo que ele ainda não tinha atravessado a puberdade. A sua voz ainda estava longe de ter o característico timbre rouco – este só começaria a aparecer dois álbuns mais tarde.

 

Confesso que, apesar e ter o CD, foram pouquíssimas as vezes que o ouvi do princípio ao fim. As únicas músicas que oiço com alguma frequência são Remember, que foi incluída no Anthology (Bryan cantou-a no concerto de Lisboa), Hidin’ From Love (a mais gira do álbum na minha opinião) e esta. 

 

Don’t Ya Say It é muito diferente do resto da discografia de Bryan. Com elementos dançantes, mesmo da disco pop que dominaria os anos 80 e que ainda hoje adoramos. A letra não é nada por aí além – pouquíssimas letras de Bryan o são. Fala apenas sobre um interesse amoroso que não consegue retribuir os sentimentos do narrador, logo, este coloca-lhe os patins (a letra da música não usa pronomes especificando o género, mas os interesses românticos de Bryan costumam ser mulheres. Por uma questão de facilidade, vamos adotar essa regra neste texto).

 

Na verdade, Don’t Ya Say It figura nesta lista mais por causa do cover que a cantora portuguesa Aurea gravou para o seu primeiro álbum, homónimo (uma coincidência engraçada), editado em 2010. Gosto um bocadinho mais da versão dela. 

 

 

Não que esta seja radicalmente diferente da versão original. No fundo, fez um arranjo moderno de um tema com trinta anos, na altura. O tema de Bryan é muito anos 80, mas não necessariamente no bom sentido. Aqueles sintetizadores soam demasiado artificias, como uma versão de karaoke barata. O solo de saxofone está bem sacado, no entanto.

 

Por sua vez, a versão de Aurea está melhor produzida, com mais influências soul, com uma maior participação do saxofone – embora o solo seja de teclado. E, claro, o desempenho vocal de Aurea é irrepreensível. 

 

Esta música está associada a um momento feliz. Na altura em que descobri este cover, enviei um tweet a Bryan perguntando-lhe a sua opinião… e ele respondeu. Eu, claro, na tenra idade de… quase vinte e dois anos, reagi como uma autência fan girl.

 

Ah… quando o Twitter não era um campo minado… 

 

  • Tonight

 

Esta é capaz de ser uma das minhas preferidas nesta lista, mesmo de toda a discografia de Bryan.

 

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A primeira vez que me lembro de ouvir Tonight na rádio foi em 2006, algures durante a Primavera. Naquela altura tinha comprado a compilação Anthology há relativamente pouco tempo. Andava a ouvir temas como Cuts Like a Knife, Somebody, It’s Only Love, Heat of the Night, All I Want is You, rendendo-me à maioria.

 

Tonight é diferente desses temas em termos musicais, como veremos adiante, e mais uma vez a voz dele ainda não era aquilo que é hoje. No entanto, nas primeiras vezes que ouvi, lembro-me de haver qualquer coisa que reconheci como sendo de Bryan. 

 

Ora, esse período coincidiu com a contagem decrescente para o Mundial 2006. Na altura, a EMI desafiou cinco jogadores da Equipa das Quinas – Costinha, Luís Figo, Maniche, Nuno Gomes e Ricardo – a fazerem eles mesmos uma seleção de músicas cada um. Podem ler a lista completa aqui (foi o único sítio da Internet onde encontrei a lista). Consta que a própria Seleção ouvia estas compilações no autocarro, durante o Mundial.

 

Nota-se mesmo que isto aconteceu a meio dos anos 2000, com temas como Don’t Cha, Don’t Phunk With My Heart, Love Generation, Pon de Replay e Fuck It (I Don’t Want You Back) – que é feito deste gajo? 

 

A lista do Costinha, no entanto, inclui vários temas rock dos anos 80, incluindo Tonight. Na altura fiquei naturalmente contente por haver pelo menos um jogador das Quinas que gostava também de Bryan Adams. Ainda hoje me interrogo se foi por esta escolha de Costinha que, nos meses seguintes, apanhei Tonight várias vezes na rádio.

 

 

Talvez não. Hoje em dia ainda passa de vez em quando na m80.

 

Naquele tempo ainda não sabia sacar músicas, quer legalmente quer ilegalmente – nem acho que a minha Internet desse para tal. Tinha um leitor de mp3 mas só albergava faixas retiradas de CDs. 

 

As novas gerações não conhecem as dificuldades desses tempos: ouvir uma canção na rádio, ficar obcecada com ela, deixar a rádio ligada durante horas só para poder apanhá-la de novo. Algumas até passavam pelo menos uma vez por dia. Outras eram tão raras como Shinies em Pokémon.

 

Houveram muitos CDs que comprei so mesmo por causa daquela música que captou a minha atenção. Nalguns casos eu depois não ligava ao resto do álbum, mas também foi assim que descobri alguns que, hoje, estão entre os meus artistas ou bandas preferidos. Por exemplo, Within Temptation.

 

Com Tonight, acabei também por comprar o CD You Want It You Got It. Infelizmene, o resto do álbum não me impressionou por aí além. Só agora é que começo a dar uma oportunidade a uma música ou outra – daí que, desta vez, não falarei muito sobre ele.

 

Mas esta introdução já vai longa, vamos falar sobre a música em si. A letra é simples. A sua mensagem é essencialmente “não estamos a ir a lado nenhum com esta discussão, vamos fazer uma pausa e dormir sobre o assunto”. Cumpre o seu papel. 

 

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Na verdade, interessa-me mais falar sobre o arranjo musical. Um dos aspetos mais interessantes em Tonight, aquilo que a torna tão rara tanto na discografia de Bryan como na música rock em geral (tanto quanto conheço, atenção) é o facto de ser guiada pelo baixo. Não existe guitarra rítmica tocando acordes de apoio à melodia, apenas uma guitarra tocando pontualmente uma nota ou outra, um acorde ou outro.

 

Peço desculpa por voltar mais uma vez ao passado, mas a nostalgia é um dos fatores que me atrai para a música. Como penso ter referido aqui antes, aos quinze anos comecei a aprender a tocar guitarra. Ao voltar a estudar música pela primeira vez desde o meu sexto ano, o meu ouvido ficou treinado para melhor distinguir e apreciar cada instrumento. Ainda hoje uso essa capacidade nas minhas análises a música.

 

É por isso que, apesar de ter aprendido a apreciar música eletrónica, continuo a preferir instrumentos a sério. São das minhas partes preferidas em música.

 

Nesse aspeto Tonight foi um objeto de estudo interessante. Quando tinha dezassete anos e já tinha o CD You Want It You Got It, lembro-me de estar a conversar com o meu irmão e um amigo dele sobre o papel da guitarra baixo em música (algo que eu mesma ainda estava a tentar compreender). Lembro-me de pôr Tonight a tocar precisamente para dar um exemplo de uma música com o baixo em destaque – e de compararmos com Holiday, dos Green Day, em que o baixo segue o mesmo padrão da guitarra rítmica (é mais fácil de reparar nos primeiros compassos depois do solo de guitarra. 

 

Para quem estiver interessado na questão, o baixo serve para ligar a parte rítmica da música à parte melódica, para dar profundidade ao som. Se removerem o baixo de músicas conhecidas – como, por exemplo, Ain’t it Fun – dá para notar a diferença.

 

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E faz confusão.

 

Hoje daria como exemplo de faixas com prevalência do baixo músicas da primeira parte de Petals for Armor, em particular canções como Leave it Alone (como vimos aqui) e Sudden Desire. Dá para perceber que foram co-compostas por um baixista, Joey Howard. Muita da personalidade destas canções, mesmo de Simmer até certo ponto, vem do baixo. Um tom intimista, sombrio, depressivo no caso de Leave it alone, erótico no caso de Sudden Desire.

 

E estou a desviar-me outra vez. Isto tudo foi para dizer que o baixo é um óbvio destaque em Tonight. A guitarra elétrica também brilha, mesmo sendo escassa – ou talvez precisamente por isso. Os outros instrumentos na música são apenas a bateria e um órgão ainda mais discreto que a guitarra. 

 

É uma instrumentação relativamente minimalista, mas resulta. Todos os instrumentos cumprem o seu papel, destacam-se de uma maneira ou de outra, não é preciso acrescentar mais nada.

 

No canal de YouTube de Bryan temos um vídeo de uma apresentação ao vivo de Tonight no concerto da Amnistia Internacional em 1986. Como poderão ver (e ouvir), de início é apenas Bryan com uma guitarra elétrica. Também resulta. 

 

 

Jim Vallance, co-compositor de Tonight, aponta no site para as semelhanças entre esta música e o tema dos Outfield, Your Love. E de facto existem parecenças "lisonjeadoras", como escreve Vallance: a guitarra elétrica durante o refrão, o destaque para a palavra “Tonight”.

 

Não é algo que me incomode, para ser sincera. E se, tanto quanto sei, ninguém processou os Outfield por plágio, assumo que o mesmo se passa com Bryan e com a sua equipa. Eu até gosto muito de Your Love – pode ser parecida com Tonight nalgumas coisas, mas também tem muitos méritos por si própria.

 

E não sou a única, curiosamente. Your Love também faz parte da compilação de Costinha.

 

Em suma, Tonight estará entre as minhas canções preferidas de Bryan Adams. Como referi aqui, uns dias antes do concerto de dezembro último no Altice Arena, deixei um comentário nas redes sociais pedindo que Tonight fosse incluída na setlist

 

O meu desejo foi realizado. Tocaram-na de maneira muito parecida à versão do álbum – é possível que fosse a primeira vez em algum tempo que a tocavam ao vivo, não terão tido tempo para inventar. Destaco o momento em que a atenção se voltou brevemente para o baixista Solomon Walker, após o segundo refrão.

 

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Foi um belo momento, um de muitos nessa noite. É sempre assim quando Bryan dá concertos. 

 

 

  • Take me Back

 

 

Esta é uma faixa do terceiro álbum de estúdio de Bryan, Cuts Like a Knife. À terceira foi de vez: este foi o álbum com que Bryan começou finalmente a ter sucesso visível – embora tenha sido o álbum seguinte, Reckless, a catapultá-lo para a estratosfera, a dar-lhe o estatuto de lenda. Dois dos singles, Cuts Like a Knife e Straight From the Heart são clássicos e presença obrigatória nas setlists.

 

Curiosamente, em maio Bryan vai dar três concertos em Londres, no Royal Albert Hall. Em cada um dos concertos, tocará um álbum por completo – juntamente com os outros êxitos. No dia 11, tocará Cuts Like a Knife. No dia 12, tocará Into the Fire (?!). No dia 13, tocará Waking Up the Neighbours. 

 

Isto é, se o Coronavírus não os cancelar entretanto… 

 

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Pessoalmente gosto bastante de Cuts Like a Knife enquanto álbum. Tem um estilo consistente, talvez demasiado homogéneo nalguns momentos – praticamente todas as canções são sobre amor, sem grande originalidade mas gosto de quase todas as músicas. O tema-título é um ponto alto em concertos, sobretudo com a parte dos “Na na na…”. Gosto da versão original de Straight From the Heart, mas adoro a versão acústica que Bryan tem tocado nos últimos anos – sobretudo esta

 

Por outro lado, também gosto de This Time – a versão do álbum Live At Sydney Opera House, estilo Bare Bones, com um homem do público gritando dois versos no início, é hilariante. Sobre The Best Was Yet to Come será provavelmente incluída numa eventual sequela a este texto. Músicas como The Only One, a versão original de I’m Ready e What’s It Gonna Be são agradáveis ao ouvido.

 

No entanto, queria destacar Take Me Back – mais uma vez, menos pela letra, mais pelo instrumental. Esta é outra faixa em que o baixo ocupa um lugar de destaque, se bem que não tanto como Tonight.

 

Take Me Back começou com uma demo composta por Jim Vallance em 1980, uma coisa muito básica. Podem ouvi-la no site deste último. Na altura Bryan mostrou-se vagamente interessado. No entanto só a gravou um par de anos mais tarde, nos trabalhos para o álbum Cuts Like a Knife, desenvolvendo-a, dando-lhe personalidade. 

 

A música arranca num tom grave, algo tenso, mal controlado. Quando soam os vocais da primeira estância, as guitarras como que contém-se, só se elevando quando os vocais pausam. Precisamente como se a trela fosse aliviada momentaneamente, antes de ser encurtada de novo.

 

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Gosto imenso do refrão, dos vocais de apoio uma oitava acima do tom principal – um elemento que já veio da demo de Vallance. É uma pena só ouvirmos o refrão duas vezes – é o único defeito que temo a apontar à canção. 

 

Depois do segundo refrão, a energia da música é finalmente libertada, com acordes sonoros de guitarra elétrica e os vocais “Ah won’t you take me back!”. Esta parte não veio da demo, foi Bryan a compô-la. 

 

Na terceira parte da música, no entanto, regressa-se à contenção. É agora que o baixo se destaca, conduzindo a música, enquanto o órgão e sobretudo a guitarra elétrica vão brincando, improvisando discretamente. Repete-se a primeira estância num tom falado.

 

Era nesta parte que, nos primeiros anos após a edição de Cuts Like a Knife, Bryan começava a falar para o público. Monólogos politicamente incorretos, segundo Vallance no seu site. Dá para ouvir um aqui (não me parece assim tão politicamente incorreto… se calhar era segundo os critérios dos anos 80). Segundo o livrinho que veio com o fascículo deste CD, Bryan socorria-se desta canção muitas vezes para cativar públicos mais difíceis. 

 

Em suma, não sendo uma música extraordinária, Take Me Back é uma música interessante, invulgar, sobretudo dentro da discografia de Bryan. Talvez a peça da próxima vez que ele der um concerto por cá. 

 

 

  • Victim of Love

 

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Tirando os mais recentes Get Up! e Shine a Light, o álbum Into the Fire foi o último de Bryan Adams que comprei, em 2015 – foi o único que não consegui comprar em fascículo. Eu já conhecia algumas músicas: o tema-título, Hearts of Fire, Heat of the Night (quando tinha dezasseis, dezassete anos andava obcecada com esta), Victim of Love. 

 

Na altura em que comprei o CD já tinha este blogue. Cheguei a pensar escrever sobre este álbum, mas outros projetos foram-se metendo à frente, este ficou para trás.

 

Talvez um dia escreva sobre Into the Fire. Não tenho grande vontade, para ser sincera, mas não excluo a hipótese por completo. Assim, a única coisa que vou dizer sobre o álbum neste momento é que tem algumas músicas giras mas, no geral… é esquisito.

 

Victim of Love é capaz de ser a melhor música em Into the Fire, sobretudo pela letra, e uma das melhores de toda a discografia de Bryan. É uma canção muito única, muito diferente de todas as outras do cantor. Quase todas no álbum Into the Fire o são, na verdade. 

 

Victim of Love é a única neste álbum, tirando Hearts on Fire, que fala de amor – o que é raríssimo na discografia de Bryan. E mesmo assim fala de amor de uma maneira completamente diferente – tanto dentro da música de Bryan como da maioria das canções de amor e separação, tanto quanto conheço.

 

 

Esta balada tem uma letra e um tom extremamente melancólicos, quase “emo”, invulgares para Bryan. Fala sobre desgostos amorosos, relações falhadas, sem culpar nenhuma das partes do casal – pois ambos sofrem no rescaldo (“Doesn’t matter who was right or wrong. When the fire’s over, when the magic’s gone, You pick up the pieces, do the best you can.”). Nem sempre as relações resultam – faz parte da vida, faz parte do crescimento. A letra coloca a culpa no amor em si, chama-lhes, lá está, “vítimas do amor”. 

 

Ainda assim, a música deixa uma discreta nota de esperança, dizendo que não é o fim do mundo. Mesmo que doa ao princípio, uma pessoa pode sempre tentar de novo. “It knocks you down but you try again.” “Ain’t nothing you can’t rise above.” O instrumental reflete bem a melancolia da letra, sobretudo com o piano e a guitarra elétrica. 

 

É de facto uma canção que merecia mais destaque. No entanto, tenho de confessar que não pediria esta música num concerto. É demasiado triste, ia destacar-se pela negativa numa setlist cheia de músicas bem mais leves e alegres. Talvez faça mais sentido num concerto de Bare Bones. Ou então no tal concerto de maio com todas as músicas de Into the Fire – muitas têm um tom semelhante, não destoará tanto.

 

Na verdade, Victim Of Love é ótima para uma playlist de consolo após uma separação. “You’re just a victim of love” seria um título perfeito. 

 

As próximas canções também se referem a vítimas do amor, se bem que de uma maneira diferente... mas falamos sobre essas e outras na segunda parte deste texto, amanhã. 

Pokémon: Detetive Pikachu (2019)

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Não estava nos meus planos escrever um texto sobre o filme Detetive Pikachu. Ou melhor, sobre este filme. A minha ideia era deixar algumas impressões sobre ele no meu balanço musical de 2019, a propósito de Carry On e Holding Out for a Hero. As frases, no entanto, transformaram-se em parágrafos, os parágrafos em páginas do meu caderno, fazendo um grande desvio ao assunto do texto. Era evidente que tinha muito a dizer sobre este filme. Fazia mais sentido dedicar-lhe a sua própria publicação, que as pessoas pudessem encontrar com maior ou menos facilidade pesquisando no Google, em vez que enterrá-lo no meio de outro texto.

 

Escolhi publicá-lo hoje, que se assinala o vigésimo-quarto aniversário de Pokémon enquanto franquia (tenho vindo a celebrar estes aniversários desde o inesquecível vigésimo, em 2016). Parece-me adequado dedicar uma publicação à melhor coisa que, a meu ver, aconteceu no último ano (talvez esperassem que eu referisse Sword&Shield, mas os jogos têm estado envolvidos em tanta polémica, começando desde uns meses antes do seu lançamento e continuando até hoje, que me têm alienado da comunidade de fãs). 

 

Um alerta importante: este texto está cheio de spoilers. Leiam-no por vossa conta e risco. Assim, sem mais delongas…

 

À semelhança do que aconteceu com Pokémon Go, um filme live-action era algo que eu sempre desejei, mas só o descobri quando saiu o primeiro trailer. Não vou dizer que nunca tenha pensado nisso… mas nunca o encarei como uma ideia viável. 

 

Em parte porque, tradicionalmente, filmes baseados em videojogos não prestam. Mesmo os baseados em anime não costumam ser grande coisa, tanto quanto sei.  Por exemplo, tanto quanto me lembro, ninguém gostou do filme baseado no Dragon Ball há coisa de dez anos. Também ninguém gostou da adaptação de Death Note do Netflix. 

 

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Por fim, quando víamos na Internet imagens “realistas” de Pokémon, era quase tudo monstruosidades (veja-se a imagem acima). Não havia nada do charme dos desenhos no anime e dos jogos (bem, tirando os da primeira geração).

 

Tudo mudou quando vi o primeiro trailer. Confesso que demorei um bocadinho a habituar-me a estes Pokémon mais “realistas”. À semelhança da maior parte das pessoas, suponho eu – ninguém se tinha apercebido antes que os Pokémon tinham tanto… pêlo. Suponho que faça sentido, no entanto. Mas depois de nos habituarmos, a maior parte dos modelos são bons. Alguns melhores do que outros, claro, mas no geral acho que conseguiram combinar os aspetos mais realistas dos Pokémon (um dos colaboradores foi precisamente o autor das tais fanarts realistas que circulavam pela Internet) com os aspetos mais apelativos dos bonecos que tão bem conhecemos. 

 

À medida que o tempo passava e mais trailers iam saindo, o meu entusiasmo crescia. No entanto, tentava ser cautelosa, mantendo as minhas expectativas no mínimo. Pela parte que me tocava, Detetive Pikachu não precisava de ser um filme extraordinário (e não o é). Só precisava de ser um típico filme de Hollywood… mas com Pokémon. Só precisava de não ser uma porcaria.

 

E o filme não é uma porcaria, longe disso. Foi uma jogada inteligente terem baseado o filme num spin-off menos conhecido, em vez de basearem nos jogos principais ou no anime. Na minha opinião, criarem uma típica história de um treinador de Pokémon não traria nada de novo aos fãs da franquia e poderia ser alienante para as pessoas de fora. 

 

Em vez disso, Detetive Pikachu colhe inspirações em filmes de detetives noir. É mais sombrio que o anime e que a maior parte dos jogos, mas acho que não ao ponto de traumatizar criancinhas. Eu pelo menos há anos que desejava uma história em Pokémon que não tivesse o tom paternalista e ultra-infantil do anime.

 

(Talvez devesse ler Pokémon Adventures…)

 

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Algo de que só me apercebi há relativamente pouco tempo diz respeito às semelhanças entre Detetive Pikachu e Zootopia (um filme de que gosto muito). Em primeiro lugar, centra-se numa cidade aparentemente utópica, onde em teoria criaturas fofinhas podem viver em paz. Na prática é uma fachada. Durante o decurso do filme a máscara acaba por cair mas, no fim, o elenco compromete-se a honrar o espírito da cidade. 

 

Em segundo, ambos são filmes de detetives/”buddy cops”. Um dos protagonistas nasceu numa terra pequena e vem de comboio para a tal cidade. Um dos protagonistas é um cínico, que em criança até tinha crenças que coadunavam mais ou menos com o espírito da cidade, mas a vida encarregou-se de destruí-las (o flashback da infância de Nick ainda hoje me parte o coração). 

 

O enredo centra-se no desaparecimento de um pai. Um dos elementos importantes do caso é uma substância que desperta os instintos selvagens e violentos das tais criaturas fofinhas. Existe um primeiro falso vilão mas, no fim, descobre-se que o verdadeiro vilão é uma figura de autoridade que os protagonistas consideravam um aliado.

 

Para ser sincera, a história é capaz de ser o aspeto mais fraquinho do fime. Pelo menos a parte relacionada com o vilão. Que o Presidente Howard Clifford quisesse transportar-se para o corpo do Mewtwo até faz sentido – quem nunca? Mas qual é a vantagem de obrigar o resto do povo a fazer o mesmo com os seus Pokémon? Não se percebe.

 

A força do filme está nos outros aspetos. O Detetive Pikachu em si é irresístivel: uma versão do Deadpool adequada a menores de 16, com toda a fofura que sempre caracterizou a mascote, captada na perfeição pelo filme. Justice Smith fez um bom trabalho dando vida a todas as facetas de Tim – e para nós, fãs, é bom saber que o ator gosta de Pokémon, à semelhança de Kathryn Newton, que dá vida a Lucy.

 

 

Esta, aliás, é adorável e merecia mais tempo de antena. Tem um par de cenas, como a acima, em que se esforça, de forma hilariante, por passar a imagem de jornalista intrépida. No entanto, na segunda metade do filme, tirando um momento ou outro, existe apenas para dar apoio a Tim.

 

Outra das falhas do filme, aliás, é ter pouquíssimas personagens femininas. Mal passa o teste de Bechdel. O que é uma pena quando Pokémon sempre fez por apelar tanto a rapazes como a raparigas. 

 

Outro ponto forte do filme, talvez a maior força do mesmo, é o respeito, mesmo o carinho com que trata a franquia. Um fã de Pokémon encontrará inúmeras referências e pormenores fantásticos – basta pesquisarem “Detective Pikachu Easter Eggs” no Google ou no YouTube para saberem do que estou a falar. 

 

Por outro lado, o filme não mostra demasiada reverência para com a franquia. Pelo contrário, Detetive Pikachu teve imaginação para explorar lados menos convencionais de Pokémon que conhecemos tão bem (não sei se isso veio do jogo Detetive Pikachu ou se dos próprios guionistas do filme). Um exemplo disso é o que fizeram com o Mr. Mime – que, segundo o que consta, esteve muito perto de não aparecer em Detetive Pikachu. 

 

Mr. Mime é um Pokémon com uma reputação… estranha na comunidade de fãs. Há muita gente que não se sente muito à vontade com Pokémon humanóides. Somando isso a doses variáveis de coulrofobia e não admira que Mr. Mime tenha fama de palhaço assustador. (E depois há toda aquela teoria de que Mr. Mime seria o pai de Ash. O que é estúpido. A mãe dele só conheceu o seu Mr. Mime no episódio 64 do anime, já Ash tinha pelo menos dez anos. Este pessoal nunca estudou Biologia?)

 

 

Eu nunca adorei o Mr. Mime, mas nunca o achei assim tão desconcertante. Não quando temos o Drowzee e o Hypno na mesma geração. Mas compreendo que algumas pessoas adorem odiá-lo.

 

Consta que, de início, a Pokémon Company não estava muito entusiasmada com a ideia de um Mr. Mime “realista” – porque, lá está, o resultado final poderia causar pesadelos. O realizador Rob Letterman teve de pedir autorização diretamente a Tsunekazu Ishihara, o presidente atual da empresa, para que o Pokémon aparecesse no filme.

 

Felizmente acabaram por aceitar. Ainda bem. Não sei como foi com vocês, mas a cena do interrogatório ao Mr. Mime fez-me gostar mais do Pokémon. Mantiveram as características desconcertantes, mas carregaram na parte de palhaço mimo. O resultado final foi uma das cenas mais engraçadas de todo Detetive Pikachu.

 

De mãos dadas com o carinho pela franquia está o facto de o filme ter coração e não se envergonhar disso (estou a olhar para ti, primeira metade de Bokura No Mirai!). Falo sobretudo na jornada emocional de Tim para fazer as pazes com o seu pai. 

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O que me leva à grande reviravolta e fonte de confusão do filme: o facto de a personalidade do Detetive Pikachu ser na verdade um híbrido das mentes de Harry e do seu Pikachu. Eu sinto-me dividida em relação a este desenvolvimento. Por um lado, faz algum sentido. E é certamente comovente, à sua maneira, que o pai de Tim tenha estado lá desde o início. 

 

Por outro lado… é esquisito. É muito esquisito.

 

A pergunta que se coloca é com é que Tim não reconheceu a voz do pai saindo do Pikachu. Eu até consigo arranjar uma explicação, mais ou menos. No anime sempre existiram Pokémon com a habilidade de falar telepaticamente com humanos. Muitas vezes era explicado com “poderes psíquicos” (ex: Mewtwo) ou com aura (ex: Lucario). Talvez Tim soubesse disso e pensasse que o seu subconsciente estava a associar o seu pai com o seu Pikachu. Afinal de contas, ele de início pensou que a voz do Detetive Pikachu era uma alucinação.

 

Enfim, é só uma teoria, um bocadinho rebuscada. Na prática, se Tim tivesse perguntado logo desde início porque é que o Detetive Pikachu estava a falar com a voz do pai, a audiência adivinhava logo o twist final. 

 

O maior problema deste twist é que, agora, será quase impossível fazerem uma sequela com o Detetive Pikachu. Segundo o que percebi (e posso estar enganada), a personalidade do Detetive Pikachu era um híbrido das personalidades de Harry e do seu Pikachu, juntamente com amnésia. Depois de conhecermos a verdade, não dá para voltar atrás.

 

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Mesmo que, por um motivo ou outro (e não consigo pensar em nenhum motivo plausível), a mente de Harry fosse de novo inserida no corpo do Pikachu, com amnésia e tudo, Tim saberia a verdade e as interações entre ambos seriam completamente diferentes. Mesmo que Tim também fosse afetado por amnésia ou a história envolvesse personagens que não soubessem a verdade… a audiência saberia. Não seria a mesma coisa. 

 

É por este motivo que me sinto dividida com este twist de Harry ter estado desde o início no corpo do Detetive Pikachu. Por esse motivo e porque, na minha opinião, tira um bocadinho de piada à personagem. 

 

Um dos atrativos da língua atrevida do Detetive Pikachu era o facto de ser um Pokémon, um Pikachu – uma figura adorável, símbolo de uma franquia, herói das nossas infâncias – metendo-se com Tim por causa da sua tentativa falhada de namoriscar com Lucy. saber que, afinal, existia uma mente humana pelo menos em parte por detrás daquelas palavras tira algum impacto. 

 

Acho que a jornada emocional do filme também poderia ter resultado se o Detetive Pikachu fosse apenas o companheiro Pokémon de Harry. Pai e filho fazendo as pazes através do Pikachu do primeiro… Até porque exploraria sobre o qual tenho tido curiosidade nos últimos anos: como é que um Pokémon reage quando o seu treinador/parceiro humano tem filhos. Ficam com ciúmes? Veem a criança como um irmão? Ou como uma espécie de sobrinho ou irmão mais novo que ajudam a criar?

 

Ainda assim, não tenho razões de queixas da forma como o filme explora a relação entre Tim e o seu pai. Uma das coisas de que me tenho vindo a aperceber nos últimos anos é que daddy ou mommy issues dão pano para mangas em termos de drama em ficção. Detetive Pikachu não foge à regra. 

 

 

O filme, aliás, traça um paralelismo curioso, ainda que algo forçado, entre a relação de Tim com Harry e a relação de Tim com os Pokémon em geral. O jovem sente que o pai o trocou pelos Pokémon – o que faria sentido se Harry o tivesse deixado para se tornar um treinador ou um líder de ginásio. Harry no entanto é detetive, o seu trabalho não parece assim tão relacionado com Pokémon – tirando o facto de exercer em Rhyme City, com a sua política menos convencional em relação às criaturas.

 

Pode ter mais a ver com o facto de a mãe ter morrido no dia em que, segundo o que o filme dá a entender, Tim iria receber o seu primeiro Pokémon. Não sei, podia ter sido explicado um bocadinho melhor.

 

A cena acima em que Tim e o Pikachu pensam que Harry morreu mesmo é uma das minhas preferidas em todo o filme. Tim arrependido por não ter vindo viver com o pai anos antes, quando este pediu. O Pikachu consolando-o com palavras que, sem sombra de dúvidas, vêm de Harry.

 

E, claro, a cena final já com Harry, em que Tim decide ficar em Rhyme City, em vez de regressar a casa. A atuação de Justice e sobretudo de Ryan transmitem as emoções do momento na perfeição. Tão pouco tempo depois de Deadpool, acho que ninguém estava à espera de ver Ryan Reynolds no papel de pai. 

 

É uma história bonita, de amor familiar e de perdão. Está longe de ser original, claro, mas foi bem executada, tornando este filme, como alguns têm dito nas internetes, “melhor do que tem direito a ser”. E como o próprio Ryan Reynolds disse, são temas universais, “wholesome”, que sabem bem de vez em quando nos dias conturbados de hoje.

 

 

Queria falar agora sobre aspetos mais secundários do filme de que gostei. Sei que vai contra o espírito de Rhyme City, mas eu gostei da cena na arena de combate. 

 

Que querem? Um dos maiores apelos de Pokémon para mim continuam a ser as batalhas. #Sorrynotsorry. Embora, claro, não tenha nada contra Rhyme City para os Pokémon e humanos que não gostem desta vertente.

 

Sebastian, que gere (?) esta arena e que dará a pista seguinte é o típico durão deste género de filmes, com os músculos, as tatuagens, o histórico de Internet questionável, mas depois salta para a arena quando sente que o seu Charizard corre perigo, chamando-lhe “my baby”. Preocupa-se muito com o seu “baby” mas usa-o em combates ilegais...  Gostei desse pormenor, dando alguma profundidade a uma personagem secundária, quando um guionista mais preguiçoso não teria ido além do estereótipo. 

 

De referir também que, apesar de, tanto quanto se sabe, Tim nunca ter chegado a ser treinador, ele não é nenhum ignorante no que toca a Pokémon. Os conselhos que dá ao Pikachu antes do combate com o Charizard são um exemplo disso – e é bonito quando, mais à frente no filme, o Pikachu recorda-se desses conselhos (já aí vamos).

 

Por outro lado, quando Sebastian liberta acidentalmente quantidades industriais do gás R, forma-se um caos com pormenores hilariantes. Começando com os Loudred tocando dubstep, acabando com o Pikachu evoluindo um Magikarp com um pontapé (pontos para a referência).

 

Por fim, a cara de “Oh crap!” do Charizard só por si valeu o preço dos dois bilhetes.

 

 

Outra parte muito bem sacada foi o jardim dos Torterra – os Torterra gigantescos que acabaram por se fundir (e confundir) com a paisagem. Detetive Pikachu levou as inspirações da tartaruga continental quase à letra e foi espetacular. O Torterra é um dos meus Pokémon preferidos de Sinnoh precisamente por causa desse conceito.

 

Apesar das minhas reservas em relação às motivações de Howard Clifford enquanto vilão, gostei da interpretação de Bill Nighy – que, segundo consta, tornou-se um fã de Pokémon ao entrar neste filme. Gostei também do papel do Mewtwo na história: dos paralelismos com o primeiro filme do anime e ainda mais do facto de não ser o vilão. 

 

Outro dos destaques do filme é o combate entre o Mewtwo-possuído-por-Howard e o Detetive Pikachu. Em particular o facto de o último ter usado o Volt Tackle – tanto por seguir o conselho de Tim como porque, dos ataques característicos do Pikachu, é o meu preferido, sobretudo no anime.

 

Queria deixar uma palavra rápida para a banda sonora do filme. Não sendo nada por aí além, gosto das notas eletrónicas em temas como este que me recordam a banda sonora dos jogos. E, claro, a deliciosa sequência dos créditos, com desenhos de Ken Sugimori de todo o elenco no estilo do anime e das artes oficiais dos jogos, com um remix do tema principal da franquia com o estilo da banda sonora do filme.

 

 

Valha-me Hélix, já não bastava o Ryan Reynolds cantando Gotta Catch’em All. Eles sabem exatamente como fazer-me comer da mão deles… 

 

Em suma, como podem calcular, gosto mesmo muito deste filme. Tanto quanto sei, a maior parte da comunidade de fãs também gostou. Agora que penso isso, é capaz de ter sido o último momento relativamente pacífico na comunidade. Cerca de um mês depois descobriu-se acerca da remoção da National Dex em Pokémon Sword&Shield e caiu Kanto e a Trindade… mas não quero falar sobre isso hoje. 

 

Detetive Pikachu foi o único filme até agora que vi duas vezes no cinema. Primeiro com pessoas do meu grupo de Raids de Pokémon Go, depois com a minha irmã e um amigo dela. E agora comprei-o no YouTube – em parte para poder escrever este texto, mas sobretudo porque quero apoiar este filme dentro das minhas possibilidades. Porque não quero que seja o único.

 

Pois é, já se falam em sequelas – ou pelo menos em outros filmes neste universo. Uma sequela direta com o próprio Detetive Pikachu será difícil, como vimos acima. Mas não faltam ideias.

 

O que se lê nas internetes é que existem planos para fazer um filme baseado na jornada de Red, em Pokémon Red e Blue… mas a ideia não me entusiasma. Afinal de contas, esta é uma história que já foi contada ad nauseaum, em dois remakes dos jogos da primeira geração (um deles há menos de dois anos) e em Pokémon Origins (de que não gosto por aí além). 

 

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É certo que o mainstream ainda não conhece a história. Talvez o público até aprecie… mas eu não queria mesmo.

 

Não quando existem melhores ideias, na minha opinião. Outras histórias baseadas nos jogos: a história de N, por exemplo, ou Zinnia. Ou então, se quiserem continuar na onda dos filmes noir, podiam colocar Lucy como protagonista. Lucy investigando uma história para uma reportagem, acompanhada pelo seu Psyduck. Tim e Harry podiam aparecer, mas num papel mais secundário. Looker podia entrar na história!

 

Em alternativa, podiam pegar em qualquer outro conceito típico de Hollywood e desenvolvê-lo no universo de Pokémon. Um filme de espionagem, por exemplo, estilo Missão Impossível ou James Bond. Uma comédia romântica – centrada em dois treinadores rivais mas apaixonados. O próprio Ryan Reynolds deu uma excelente ideia numa entrevista: um filme tipo Indiana Jones. Não falta mitologia e Pokémon Lendários para servir de inspiração.

 

Há esperanças de que daqui nasça um universo cinemático inteiro. Talvez um dos poucos ainda não monopolizado pela Disney. E espero que ninguém os deixe deitar as garras a Pokémon. A acontecer, não será de um dia para o outro, demorará meia dúzia de anos… mas acho que valerá a pena esperar. 

 

Com tudo isto, se vos apetece celebrar o aniversário de Pokémon enquanto franquia, verem o filme Detetive Pikachu é uma boa forma de o fazerem. De resto, ficam votos de que Pokémon continue a crescer, a criar conteúdo de qualidade, que os Dexxers vão dar banho a um Skunktank arranjem formas mais produtivas de passar o seu tempo. A mais vinte e quatro anos!

Músicas Não Tão Ao Calhas – Simmer & Leave it Alone

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No passado dia 22 de Janeiro, Hayley Williams, vocalista dos Paramore, lançou Simmer, o primeiro single do seu projeto lateral a solo, o álbum Petals For Armor. Pouco mais de uma semana depois, no dia 30, lançou o segundo single Leave it Alone.

 

Simmer saiu exatamente sete anos depois do lançamento de Now, o primeiro single do álbum Self-titled, o quarto dos Paramore. Não sei se foi intencional ou se foi mera coincidência. Em todo o caso, à semelhança de muitos fãs, eu adorei o pormenor. 

 

No meu caso foi extra especial porque Now foi a primeira Música Não Tão Ao Calhas – uma rubrica deste blogue onde, como sabem, analisamos canções recém-lançadas dos artistas do meu nicho. Na maioria das vezes, são primeiros singles de álbuns novos. 

 

No caso de Hayley Williams, este é o terceiro primeiro single que analisamos nesta rubrica. Os primeiros dois – Now e Hard Times – foram assinados pela banda Paramore. Simmer é o primeiro sob do nome Hayley Williams. 

 

No entanto, mesmo quando integrada nos Paramore, é Hayley quem escreve as letras, inspirada pelas suas próprias experiências. Ao mesmo tempo, apesar de este ser oficialmente um projeto a solo, Taylor York, guitarrista e co-compositor dos Paramore, colaborou com Hayley em Petals For Armor. Não tenho a certeza absoluta de que Zac Farro, o baterista dos Paramore, também tenha colaborado neste projeto, mas é possível. 

 

Tendo tudo isto em conta, na minha mente, Petals For Armor faz parte do mesmo cânone que os álbuns da banda. São capítulos da mesma história. E não sei se isso acontece com outros fãs dos Paramore, mas a história contada na música deles acaba por ser um espelho da minha. Aprendo lições de vida com ela. Se isso acontece por projeções minhas ou porque, de facto, o nosso mundo não é assim tão grande e acabamos todos por passar mais ou menos pelo mesmo, não sei. Mas é o que sinto há anos. 

 

À semelhança do que aconteceu com Hard Times, antes de podermos falar sobre Simmer, temos de falar sobre... bem, como chegámos aqui. 

 

 

A era de After Laughter terminou em setembro de 2018. Desde essa altura, os Paramore poucos sinais de vida deram. A partir de certa altura, os fãs começaram a ficar impacientes, mas eu estava tranquila. No que toca a esta banda, “no news is good news”. Tudo o que não seja a perda de membros é bom. No caso de isso acontecer (algo que achava pouco provável, mas já me enganei antes a este respeito), eles avisavam-nos. 

 

Entretanto, que os deixassem desfrutar da paz e estabilidade que não tiveram durante muito tempo. Hayley em particular.

 

Conforme comentámos na altura, nos anos anteriores a After Laughter, a vocalista dos Paramore passou por… bem, vou voltar a usar o trocadilho, tempos difíceis. Tempos esses que coincidiram com o início da era. Com o passar do tempo depois do lançamento do álbum, o estado psicológico de Hayley melhoraria. No entanto, a jovem só teve oportunidade para trabalhar nos assuntos mal resolvidos que acumulara ao regressar a casa, depois de encerrar o ciclo de AL.

 

No verão de 2017, Hayley anunciou o divórcio de Chad Gilbert, dos New Found Glory. Durante muito tempo, a jovem não disse nada sobre esse assunto em particular, tirando uma pista ou outra. 

 

Não que tivesse a obrigação de fazê-lo, como é evidente. Se Hayley tivesse mantido o silêncio sobre o assunto até agora, estava no seu direito. 

 

No entanto, em março do ano passado, a jovem deu uma extensa entrevista à revista online L’Odet dando alguns pormenores. Nomeadamente que ignorou instintos e sinais de alerta praticamente desde o início da relação (que ainda durou quase uma década), que mesmo no dia do casamento se sentia mal no vestido de noiva, que nunca chegou a passar pelo período de lua-de-mel. 

 

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Ainda antes do anúncio da separação, quando Hayley revelou pela primeira vez que se fora abaixo depois de Jeremy ter saído da banda, eu já tinha achado estranho ela ter-se casado quando supostamente estava com sintomas de depressão. Por algum motivo se diz para não se tomar decisões importantes quando sentimos emoções fortes. Não me surpreendeu descobrir que Hayley se casou ignorando os seus instintos.

 

É uma entrevista muito interessante, recomendo. Hayley fala sobre coisas que, tanto quanto sei, nunca falara antes, pelo menos não desta forma. Sobre, por exemplo, crescer com pais divorciados – algo que eu, filha de um casal estável e feliz há mais de trinta anos, nunca tive de experienciar. 

 

A parte que mais me impressionou, pela negativa, foi quando Hayley descreveu os tempos imediatamente a seguir à separação – que coincidiram com o início do ciclo de After Laughter. Nesta altura, por motivos que não foram bem explicados, Hayley estava a viver numa casa infestada com… morcegos.

 

Morcegos! Fucking morcegos! E uma espécie de carraças de morcegos. Eu não queria acreditar, ainda não acredito. Eu preferia viver no meu carro. Valha-me Deus, eu quase preferia viver na rua!

 

Porque é que Taylor, Zac, Brian e as outras pessoas na vida de Hayley a deixaram viver assim? Sem lhe oferecerem um sofá em casa deles ou algo do género. É certo que só conheço a parte que Hayley contou da história. Quero assumir que, a certa altura, os outros tenham intervindo e tirado Hayley daquela casa – se a jovem não tiver decidido fazê-lo por si mesma. 

 

 

Agora vejo que este deve ter sido um dos maiores sintomas de depressão que Hayley manifestou, tanto quanto sei. Ninguém psicologicamente saudável vive numa casa com morcegos quando tem dinheiro para, no mínimo, contratar uma empresa para se livrar da infestação. Depois de falar disto, referir ideação suicida é quase redundante.

 

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que estive perto de perder duas das minhas pessoas preferidas do mundo da música por suicídio. Perder Chester já foi difícil que chegue. Perder Hayley – que, ainda por cima, em Leave it Alone fala de brincar com uma forca – possivelmente no mesmo ano, da mesma forma, seria insuportável.

 

Além de que existem imensas pessoas que eu sei que nunca recuperariam – amigos próximos dela e também fãs. E com o histórico da banda nos anos anteriores... Não! Não de todo! Nem quero pensar mais nisso.

 

O que interessa é que Hayley sobreviveu e parece mais feliz, agora. Como referi antes, a jovem tem passado o último ano e meio lidando com as questões que a abateram no passado. Tem andado em acompanhamento psicológico intensivo e outros tratamentos, alguns convencionais, outros menos. Como por exemplo uma espécie de massagista craniosacral.

 

Foi durante uma sessão com ela que aconteceu algo especial. Citando a entrevista a L’Odet, “Tive uma visão de muitas flores nascendo do meu corpo. O meu lado cínico interpretou-o como ‘Bem, a única maneira de isso acontecer é se morreres, estiveres enterrada e alguém lá tiver colocado flores bonitas’”.

 

Uma pausa só para dizer… credo! Sonha com flores e isto é a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Ela bem tinha avisado sobre a sua mente, em Rose Colored Boy… 

 

 

Enfim, continuando…

 

Mas depois este novo lado a que nunca tinha acedido apareceu, afastou-o e disse: ‘Não. Isto és tu. Isto é o agora. É o que está a acontecer agora e é à volta disto que tens estado a escavar neste último ano. Esta beleza e feminilidade e nova força que vai sair de ti.’ E escolhi agarrar-me a isso.

 

(...) Desde essa altura tenho colhido imensas flores para a minha casa. Mantenho-as junto a mim para me recordarem que estou a avançar para feminilidade e força e depois feminilidade e solidão o poder de ser auto-suficiente mas também de ser suave e aberta.”

 

Poucos dias após Hayley anunciar que ia embarcar num projeto, numa altura em que a expressão Petals For Armor andava a circular entre os fãs mas ainda não tivera confirmação oficial, calhou reler esta entrevista. Esta parte chamou-me a atenção. Seria daqui que viria o suposto nome do projeto lateral? 

 

Em entrevista à BBC, Hayley confirmou as origens do nome Petals For Armor, voltando a falar da mesma visão. “Apercebi-me naquele momento que havia muito a tentar crescer de dentro para fora de mim e que isso ia doer. E acho que, para mim, é uma espécie de filosofia de vida tentar ser suave num mundo mesmo mesmo duro. Sentir dor, sentir tudo, deixar tudo vir e deitar para fora algo que possa redimir de isso tudo, mesmo que de início seja feio.”

 

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“(...) Eu sentia que a melhor maneira de me proteger era ser vulnerável e aceitar sentir imensa dor certas vezes e sentir imensa alegria certas vezes. Enquanto me mantiver suave e aberta para deixar estas coisas entrar e sair de mim conseguirei sobreviver mais facilmente ao mundo, em vez de me manter dura e sempre de punhos em riste.”

 

Ora, quem tiver acompanhado o meu blogue nos últimos tempos há de notar algo de familiar neste discurso. Foi mais ou menos o mesmo que escrevi quando analisei Ruki, de Digimon Tamers, comparando-a com personagens de outras histórias, como Emma Swan e Temperance Brennan, também conhecida por Bones

 

Lembram-se da diferença entre ser-se forte e ser-se impermeável? Uma substância impermeável repele todo o tipo de agressões, sem se atingir por elas. Uma substância forte sofre agressões, mas não se deixa destruir por elas. Pessoas impermeáveis, que constroem muros à sua volta e se fecham às emoções até podem conseguir evitar o sofrimento a curto prazo. Mas esses muros também bloqueiam emoções boas, como amor e alegria. 

 

Também me recorda uma das melhores cenas de Anatomia de Grey – a única cena que redime o infame episódio duplo que se segue à morte de Derek. À semelhança do que Hayley admite fazer, Amelia passou toda a sua vida recalcando os seus sentimentos, muitas vezes com a ajuda de drogas. 

 

Nesta cena, Owen faz-lhe ver que ninguém consegue viver assim. A única maneira de sobreviver é permitirmo-nos sentir a dor para depois arrumá-la a um canto; sermos destruídos e reconstruirmo-nos de novo. 

 

 

Para Amelia, como dá para ver no vídeo, de início foi feio, tal como Hayley disse. Feio, doloroso, mas necessário. 

 

Suponho que tenha sido mais ou menos essa a lição que Hayley aprendeu. A ser forte em vez de impermeável. A proteger-se com pétalas em vez de punhos. A jovem admite que tem a tendência de recalcar as suas emoções, de negar o que está a sentir. Se calhar, se estivesse mais em contacto com os seus sentimentos, não se teria casado e teria evitado muito sofrimento.

 

Pode-se argumentar que After Laughter enquanto álbum defende a filosofia de negar sentimentos. Canções como Rose Colored Boy e Fake Happy falam sobre colar sorrisos no rosto, escondendo a infelicidade que se sente. Mesmo o facto de a maior parte das canções ter instrumentais e melodias alegres e letras deprimentes. 

 

Então Hayley começou a lidar mais ativamente com as suas emoções. Como uma das melhores maneiras que ela possui para isso é escrevendo e compondo, começou a criar música. De início foi só para si mesma, sem expectativas ou compromissos. 

 

Só quando já contava meia dúzia de faixas é que percebeu que havia ali qualquer coisa. Taylor em particular encorajou-a a tornar aquilo oficial, em investir a sério no projeto.

 

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E puff! Fez-se o Chocapic Petals For Armor.

 

Por ocasião do seu trigésimo-primeiro aniversário, Hayley largou a bomba numa mensagem publicada nas redes sociais: em janeiro iria lançar música a solo, que criara “com a ajuda de alguns dos seus amigos mais íntimos”.

 

Como seria mais ou menos de esperar, uma parte da comunidade de fãs entrou em pânico. Depois de tudo por que a banda passou, este era o pior pesadelo de muita gente. 

 

Eu, no entanto, nunca acreditei que Hayley se tivesse “vendido” nem que isto significasse o fim dos Paramore enquanto banda – até porque, poucas semanas antes, a banda tinha publicado uma espécie de renovação de votos. 

 

Além disso, Zac lançou o EP The Velvet Face, do seu projeto Half Noise, praticamente em paralelo com After Laughter. Nem Hayley nem Taylor pareceram ter problemas com isso. Pelo contrário, apoiaram desde início, chegaram mesmo a tocar músicas como French Class (uma canção que tenho ouvido algumas vezes nos últimos tempos) em concertos. 

 

Porque não haveriam Zac e Taylor de fazer o mesmo com Petals For Armor? Eu quero, aliás, acreditar que as novelas nos Paramore ficaram na década passada. Que os anos 20 sejam de paz e estabilidade.

 

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Em todo o caso, a maior parte das reservas das pessoas desapareceram depois de Simmer ser lançada. Em parte porque Hayley revelou que o projeto teve a bênção e mesmo a colaboração de Taylor e Zac, em parte porque… tanto Simmer como Leave it Alone são boas músicas.

 

E depois de duas mil palavras só para dar contexto (não tenho remédio), vamos finalmente falar sobre elas. 

 

Simmer começa com um som que faz lembrar um alarme de perigo, que se mantém no fundo durante uma boa parte da faixa. Também se ouvem uns suspiros que funcionam como imagem de marca da canção. 

 

Confesso que demorei a habituar-me a eles. Ainda agora não posso dizer que adore essas partes. Parecem orgasmos ou alguém a morrer. Acho que a intenção era mesmo desconcertar. Ou simbolizar a acumulação e libertação de tensão. 

 

Entretanto, entra a bateria e o baixo, com os sintetizadores discretos no fundo, que se mantém durante as estâncias. No refrão ouve-se uma guitarra elétrica, mas sempre sem assoberbar.

 

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É uma instrumentação bastante minimalista, virando os holofotes para os vocais controlados de Hayley. É um híbrido estranho entre Billie Eilish e o rock de After Laughter, mais baseado em riffs de guitarra do que em acordes pesados.

 

Há quem diga que este é um som completamente diferente daquilo que estamos habituados da parte dos Paramore. No que toca a Leave it Alone talvez, como veremos adiante. Com Simmer, nem por isso, na minha opinião. A mim soa-me a uma evolução natural do estilo de After Laughter, como vimos no parágrafo acima. Não me parece radicalmente diferente de, por exemplo, Idle Worship ou No Friend. 

 

A diferença é que o som de After Laughter é mais pop, mais luminoso, influenciado pelos anos 80. Tanto Simmer como Leave it Alone não douram a pílula, são tão sombrias e cruas como as letras.

 

A de Simmer, então, fala sobre raiva e as dificuldades em contê-la. Segundo a lógica daquilo que falámos acima… não sei muito bem onde é que esta canção se encaixa. Se na, vamos chamar-lhe, “filosofia velha” dos punhos em riste, ou na, vamos chamar-lhe, “filosofia nova”, das pétalas como armadura.

 

Suponho que, para quem viva sempre com muros erguidos à sua volta, a raiva será a única emoção que se permitem sentir. Porque serve de proteção, para manter as pessoas afastadas. Porque muitas vezes é exprimida para disfarçar outras emoções, como medo ou dor. Isso acontece muito em homens que vivem sob as expectativas do patriarcado – que considera a ira a única emoção aceitável no género masculino. 

 

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Há que relembrar, no entanto, que não é por acaso que a ira é considerada um pecado mortal no cânone cristão. Se não for controlada, a raiva é extremamente destrutiva – não é preciso fornecer exemplos.

 

Por outro lado, também se poderia encaixar na filosofia nova. Mesmo tendo em conta todos os aspetos negativos, a raiva não deixa de ser uma emoção. Uma das emoções que, se calhar, Hayley recalcou. Quase toda a gente concorda que reprimir a raiva por completo não é saudável. A longo prazo poderá ser mesmo pior a emenda do soneto.

 

Além de que, se for usada corretamente, em doses terapêuticas, a raiva pode ser um catalisador. Pode dar coragem para mudar uma situação desfavorável. 

 

Voltando a questão do género, não é por acaso que um dos objetivos dos movimentos feministas nos últimos anos (pelo menos nos Estados Unidos) tem sido reclamar o direito das mulheres à raiva. Afinal de contas, a ira é um pecado mais facilmente perdoado no homem que na mulher (não me olhem assim, vocês sabem que é verdade). Uma mulher zangada recebe logo o rótulo de histérica ou de está-com-o-período. Ao patriarcado interessa manter as mulheres submissas e complacentes.

 

Isto tudo para dizer que a raiva tem vantagens e desvantagens, como muitas coisas na vida. Hayley revelou que a ideia inicial para a letra de Simmer era fazer uma reflexão geral sobre a ira. No entanto, na segunda estância acabou por entrar em territórios mais específicos, admitindo que sentiu dificuldades em gravá-la.

 

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Dá para ouvir. Os versos são cantados mais baixos que o resto da canção – não consegui ouvi-los bem da primeira vez. Há uma frase que é deixada incompleta. Como se, de facto, Hayley não se atrevesse a dizê-lo em voz alta, sem filtros.

 

Gostava de tirar alguns parágrafos para olhar para estes versos. Antes de prosseguir, no entanto, quero deixar bem claro que isto é um mero exercício de especulação – duvido que Hayley algum dia confirme ou desminta estas interpretações. É provável que estes versos tenham sido inspirados pelo amplamente comentado acima casamento falhado. Não dá para ter certezas absolutas, lá está, mas acho que todos concordam. 

 

Comecemos por “If I had seen my reflection as something more precious he would’ve never…”. É outra vez a questão dos morcegos. Da mesma maneira como Hayley teria evitado aquela casa se tivesse mais consideração por si mesma, se tivesse a sua auto-estima em níveis normais, não teria prolongado tanto uma relação que não era a adequada.

 

Não quero com isto comparar o ex de Hayley a morcegos… mas se calhar até quero comparar o ex de Hayley a morcegos (se os rumores que li por aí são verdadeiros, ele merece).

 

Faz lembrar a citação do filme As Vantagens de Ser Invisível: “aceitamos o amor que achamos que merecemos”.

 

Os versos que se seguem são particularmente chocantes: “If my child needed protection from a fucker like that man, I’d sooner gut him”. Deixando de parte as tendências homicidas, faz-me lembrar respostas no site Quora escritas por vítimas de relações abusivas (quer por companheiros, quer por familiares). Quando eram só eles(as), aguentavam – achavam que mereciam, até certo ponto. No entanto, quando tiveram filhos, perceberam que não queriam que estes vivessem o mesmo.

 

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Pergunto-me se foi assim que Hayley descobriu que a culpa não era só sua por a relação não ter resultado. Imaginando um filho seu ou, pura e simplesmente, um amigo ou familiar passando pelo mesmo que ela passou, finalmente percebendo que não, ninguém merece aquilo.

 

Há que ter em atenção que estes versos podem não ser cem por cento factuais. Em parte porque, em linha com o tema de Simmer, podem ter sido escritos sob influência da raiva. Além de que estamos apenas a ouvir a versão de Hayley da história.

 

Em todo o caso, a terceira parte da canção apela-nos a, lá está, usarmos pétalas como armadura. Neste contexto, penso que significa que a misericórdia é mais desejável que a raiva – respondendo à pergunta do refrão.

 

Não posso deixar de falar sobre o videoclipe. Começando pelo elefante na sala: Hayley está nua. Mais do que isso, existe algo de cru e visceral na aparência dela. Não usa maquilhagem – ou então tem uma maquilhagem de cara lavada muito convincente – e a iluminação enche o seu rosto de sombras, dando-lhe um ar ligeiramente demoníaco. 

 

A breve cena em que o rosto de Hayley surge sob uma luz vermelha parece representar uma personificação da raiva homicida descrita na letra – a cara interior que está mesmo debaixo da pele. O vídeo, de resto, recorre muito a luzes vermelhas para simbolizar essa ira.

 

 

Mesmo depois de já terem saído duas sequelas a este videoclipe (um interlúdio e o vídeo de Leave it Alone) não parece existir consenso sobre quem é ao certo a figura encapuçada que persegue Hayley – que tem o mesmo rosto que ela. Na minha opinião, é uma personificação do passado de Hayley. A Hayley do presente está em claro modo de fuga ou luta, medo ou raiva. De início foge, mas depois cobre-se de barro para lutar – derrotando a Hayley do passado. 

 

No vídeo de interlúdio, a Hayley-coberta-de-barro aparece com uma expressão clara de “Meu Deus, que fiz eu?”. Agora, em vez de medo ou raiva, reage com compaixão – arrasta o corpo inconsciente da Hayley-do-passado para outra divisão e toma-a nos seus braços. 

 

Não são necessários muitos dedos de testa para compreender o significado: ser-se gentil para consigo mesma, perdoar-se a si mesma. Segundo Hayley, esta foi outra das lições que teve de aprender no último ano e meio – suponho que seja um dos temas de Petals For Armor (mesmo já tendo falado sobre isso de passagem, a propósito de 26).

 

O resto do vídeo mostra a Hayley-do-passado e a Hayley-coberta-de-barro sendo envolvidas num casulo – uma cena um bocadinho sinistra na minha opinião. No fim, vemos uma Hayley diferente abrindo os olhos. Uma Hayley com o rosto coberto de pétalas.

 

O que nos leva a Leave it Alone – que foi lançada no dia 30, quase sem aviso, sem sequer sabermos o nome da música até esta ser lançada.

 

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Da primeira vez que ouvi Leave It Alone não reconheci a voz de Hayley. Não me lembro de alguma vez a ter ouvido cantando desta forma, num tom tão grave. Agora que já a ouvi várias vezes consigo perceber que é mesmo ela – mesmo assim é algo diferente.

 

Instrumentalmente, Leave it Alone é ainda mais minimalista que Simmer. Hayley compô-la com Joey Howard, baixista acompanhante dos Paramore (que também ajudou a compor Simmer), apenas com um baixo e uma caixa de ritmos (foi uma das primeiras a ser composta para Petals For Armor). No outro dia, Joey partilhou o ficheiro de áudio da primeira gravação da música. A versão final não possui muitos mais instrumentos que esta. Para além do baixo e da bateria, só um violoncelo, uns violinos, umas notas de órgão e pouco mais. 

 

Mais uma vez, esta é uma faixa que combina géneros. A mim soa-me a uma mistura de Lana del Rey com indie rock. Algo que serviria de música de fundo a um clube noturno retro, de algures entre os anos 20 e 30. Muitos fãs dizem que parece Radiohead – como conheço mal a banda, vou acreditar neles.

 

Em relação à letra… bem, é pesada. A primeira estância resume-se a “Agora que recuperei a vontade de viver, está toda a gente a morrer à minha volta”.

 

Como se isto não chegasse em termos de ironia, a própria música tira a vontade de viver. Mas estou a adiantar-me.

 

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A segunda estância começa com “You don’t remember my name somedays or that we’re related”. Aponta logo para um familiar com demência. Não surpreendeu, assim, quando poucas horas depois apareceram declarações de Hayley na Internet, revelando que a letra fora inspirada pelo menos em parte por um acidente com a sua avó. Há pouco mais de um ano, a senhora sofreu uma queda, bateu com a cabeça, e desde essa altura começou a sofrer de demência.

 

Pois eu sei o que isso é. Há poucos meses enterrámos o meu avô, depois de ter passado os últimos anos da sua vida sem as faculdades todas (já tinha mais de noventa anos). Ele nunca deixou de me reconhecer como alguém de quem ele gostava mas, lá está, não se lembrava do meu nome nem de que eu era a sua neta. E, segundo a minha avó, depois de eu sair, já não se lembrava de eu ter lá estado.

 

Muitos fãs têm revelado histórias semelhantes a propósito desta música, algumas bem piores. Não é fácil.

 

Leave it Alone é mesmo sobre isso: luto, morte. No caso de Hayley, o acidente com a sua avó aconteceu na pior altura possível – quando estava empenhada em tratar da sua saúde mental. Consta que outras pessoas na vida dela, amigos da família, foram morrendo na mesma altura – da minha experiência, estas coisas acontecem todas ao mesmo tempo, sem cerimónias. 

 

Toda a gente sabe como é perder entes queridos – ou irá descobri-lo mais cedo ou mais tarde. Hayley a certa altura interroga-se se faz sentido amar quando mesmo na melhor das hipóteses um dia a outra pessoa morre. Ou então morremos nós e as pessoas que amamos ficam obrigadas a lidar com tal perda.

 

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Pela parte que me toca, acho preferível amar e mais tarde perder do que não amar de todo. Ficam sempre as recordações, aquele calor no coração de que fala Everglow dos Coldplay. 

 

Além disso, gosto de acreditar que, depois de morrermos, reencontrar-nos-emos todos de uma forma ou de outra, no outro lado. Gosto de acreditar que o meu avô foi pôr a conversa em dia com os meus avós maternos, que morreram antes dele. Que poderemos ver Eusébio jogando com Luís Figo e Cristiano Ronaldo (se já tiverem morrido nessa altura) como se estivessem todos na casa dos vinte. Que quando Mike, Phoenix, Rob e os restantes membros dos Linkin Park morrerem (daqui a várias décadas, espero bem), Chester chamá-los-á para partilharem o palco de novo.

 

Mas estou a desviar-me um bocado.

 

Na terceira parte de Leave it Alone, Hayley aconselha o ouvinte a deixar o amor entrar na sua vida, mas que tenha noção de que não será para sempre. Que esteja preparado para isso.

 

Não há muito a dizer sobre o videoclipe de Leave it Alone. Hayley encontra-se na fase do casulo. Este está a querer abrir, mas a ideia com que fico é que ela ainda não está preparada para sair, pelo menos não por completo.

 

 

Adoro o visual dela no casulo, a maquilhagem com as pétalas. Mas acho que invejo mais o vestido que ela usa na floresta, com a capa azul.

 

E pronto. Foram Simmer e Leave it Alone, a primeira degustação de Petals For Armor. Se estas músicas forem uma amostra representativa, este vai ser um álbum que nos arrasará emocionalmente. A ver se nos preparamos para isso.

 

Ambas as músicas são muito boas, únicas, cruas, poderosas (toma nota, Avril!). No entanto, se tivesse de escolher entre as duas, prefiro Simmer. Não porque ache que seja a melhor música, mais porque… Leave it Alone é um tudo nada demasiado triste para mim. É pesada emocionalmente, deita uma pessoa abaixo. 

 

Não quer dizer que não goste, longe disso. No entanto, por exemplo, enquanto escrevia este texto estive a ouvir Leave it Alone em repetição. Acidentalmente passei-a à frente, para uma música bem mais alegre, e senti-me logo aliviada.

 

Eu compreendo que Hayley não queira dourar a pílula para nós, queira ser honesta, crua, mesmo implacável. Como vimos acima, estas são as partes feias da “filosofia nova”, de deitar muros abaixo e processar emoções.

 

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Dito isto, aqui entre nós que ninguém nos ouve (ou lê), espero que não demore muito até chegarmos às partes bonitas (ou pelo menos menos feias). 

 

Petals for Amor será editado a 8 de maio. Hayley já afirmou que quer ir em digressão para promover este álbum, mas ao que parece ainda está tudo em fase de planeamento. Em relação aos Paramore, por agora, estes continuarão em águas de bacalhau. Segundo o que Hayley deu a entender, quando este ciclo estiver concluído e estiverem na disposição para isso, a banda gravará um novo álbum. 

 

Por outras palavras, os Paramore estão em pausa, mas ainda estão longe de terminar.

 

Por mim tudo bem, não tenho pressa agora que vamos ter Petals For Armor. Obrigada por lerem este looooongo testamento sobre um par de músicas. Continuem por aí.

Música de 2019 #2

Segunda parte da minha retrospetiva musical de 2019. Hoje começamos com...

 

  • Roxette e companhia ilimitada

 

 

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Já estava nos meus planos falar sobre os Roxette neste texto antes de recebermos a notícia da morte de Marie Fredriksson, a vocalista feminina. A sua partida foi uma infeliz coincidência. Assim sendo, estes parágrafos não são exatamente iguais ao que seriam não fosse esta perda. 

 

Já se sabe como é: depois de alguém morrer, temos a tendência de homenagear o defunto de uma forma que nem sempre fazemos quando a pessoa está viva. Um dos motivos pelos quais tenho este blogue é para contrariar essa mania, mostrar a minha apreciação por trabalhos mediáticos enquanto os seus criadores estão vivos – mesmo que seja altamente improvável eles lerem o meu blogue. Mas neste caso não fui a tempo.

 

A verdade é que, embora esteja um bocadinho triste com a morte da senhora, não sabia muito sobre ela. Marie foi diagnosticada com um tumor cerebral em 2002. Apesar de ter sido operada com sucesso, a sua saúde nunca recuperou por completo. Nas últimas digressões ela passava os concertos quase todos sentada, num estado visivelmente fragilizado. Em 2016 finalmente deu-se por vencida e reformou-se as digressões. 

 

É possível que Marie estivesse em sofrimento nesta reta final, que o seu estado de saúde se degradasse cada vez mais a partir de agora. Talvez tenha sido melhor assim.

 

É também triste porque Bryan é apenas um ano mais novo. Nunca teve problemas graves de saúde e, mesmo que a idade se vá notando aqui e ali, ainda não dá sinais de abrandar. Ele diz que é a dieta vegan, mas acho que será sobretudo sorte: conta mais do que se pensa.

 

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Já tinha referido num texto anterior que a música Listen to Your Heart me ajudou a definir o meu gosto musical em miúda. Durante algum tempo foi a única música dos Roxette que ouvia com alguma regularidade. Mais tarde (para aí há dez anos) houve uma altura em que andei obcecada com Sleeping in My Car. Com o passar dos anos, aliás, sobretudo desde que comecei a usar o Spotify, fui continuando a acrescentar canções deles às minhas playlists. Ainda hoje o faço.

 

Muitas dessas músicas estão dentro do estilo de Listen to Your Heart: baladas rock no feminino, emotivas mas confiantes, com personalidade. Fading Like a Flower e Spending My Time são provavelmente as minhas preferidas. Almost Unreal é uma descoberta mais recente e tenho andado um bocadinho viciada. 

 

It Must Have Been Love, o maior êxito dos Roxette, também se encaixa nesse estilo. Está entre as minhas preferidas mas, como tenho andado a explorar outras músicas, tenho-lhe dado menos atenção ultimamente – porque já a conheço bem. Continua a ser uma excelente canção, como escrevem neste artigo. Eu destacaria o piano nesta canção, sobretudo o solo antes dos últimos refrões, em tom mais agudo. 

 

Por outro lado, este ano tenho encontrado músicas dos Roxette que fogem um pouco ao rock mas que não são em nada inferiores às demais. Já conhecia Wish I Could Fly, embora não soubesse que era deles – havia uma altura há muitos anos (quando eu tinha treze ou catorze? Mais tarde?) em que a apanhava várias vezes na rádio. Breathe e Queen of Rain são agradavelmente atmosféricas, com letras a condizer. 

 

Depois, temos músicas sem ser baladas, mais alegres e divertidas. Como referi acima, conheço Sleeping in My Car há muito tempo, embora me tenha cansado um bocadinho dela. Também gosto de Joyride (uma das mágoas da minha vida é não conseguir replicar os assobios) e sobretudo de The Look, ambas com vocais de Per Gessle. Confesso que a maior parte das canções de que gosto dos Roxette são cantadas a solo por Marie, mas os dois fazem uma dupla fixe.

 

 

Bem… faziam.

 

Ainda estou em modo de exploração, na verdade. E vou continuar. Vou continuar a adicionar músicas dos Roxette à fila, se gostar adiciono-as às minhas playlists. Talvez um dia compre um dos CDs: Look Sharp! ou Crash! Boom! Bang! Mesmo que Marie já não esteja entre nós, a musica dela está. E pelo menos da minha parte o legado dela não sofrerá de falta de apreciação. 

 

Existem outros exemplos de pop rock/soft rock no feminino que tenho ouvido nos últimos anos, em particular no passado, se bem que menos que os Roxette. Pat Benatar é um desses casos, bem como Blondie – dá para ver que estes últimos são uma influência importante dos Paramore.

 

Por outro lado, os Cranberries também perderam a sua vocalista, Dolores O'Riordan, vai fazer dois anos daqui a dois dias. Tenho ouvido alguns singles deles, mas gosto muito de um cover de Zombie, dos Bad Wolves. Consta que o plano era Dolores contribuir com vocais para o cover. Infelizmente ela morreu antes de poder gravar. Os Bad Wolves acabaram por gravar o cover à mesma e lançá-lo como homenagem à cantora – os lucros reverteram para os seus filhos.

 

A meu ver, a versão dos Bad Wolves ganhou personalidade própria. Não apenas pela instrumentação mais pesada e atualizações da letra (como por exemplo “It’s the same old theme in 2018”), mas também porque a dor pela perda de Dolores acabou por se entretecer na música, dando-lhe um carácter ainda mais melancólico. O videoclipe contribui ainda mais para esse efeito, como poderão ver abaixo.

 

 

Outra música marcante este ano e que podia também ser incluída nesta secção foi Holding Out For a Hero, de Bonnie Tyler… mas antes tenho de falar sobre outra. 



 

  • Carry On & Holding Out for a Hero

 

 

Vou ser sincera, se as circunstâncias fossem outras, se por exemplo tivesse ouvido esta canção na rádio, esta teria entrado por um ouvido e saído por outro. Não sendo má, tem pouco que a distinga do resto da música mainstream dos últimos anos. Instrumentalmente, é uma espécie de pop tropical, disco tropical, com piano e sintetizadores, com um interregno musical mais ou menos dançante a seguir ao refrão – no caso desta música, uma sequência vagamente dançante com sintetizadores. 

 

Existem canções neste estilo que exploram bem essa fórmula: Stay the Night, This One’s For You, Outside de Calvin Harris (gosto muito desta). Não acho que Carry On seja uma delas. Enquanto as melhores músicas neste estilo conseguem construir um crescendo, aumentando a excitação, culminando com o tal interregno musical, Carry On mantém-se sempre no mesmo nível, não atinge nenhum clímax. 

 

 

Mesmo a letra em si não é nada de especial. Fala sobre amor e saudade, com algumas referências a praia e ao mar que lhe conferem características de música de verão. Pode referir-se a uma relação romântica, pode referir-se a uma relação platónica. Dá a ideia que a letra foi mantida vaga de propósito para que o ouvinte pudesse projetar os seus próprios significados nela. Sou a primeira a admitir que isso tem vantagens – passo a vida a fazê-lo, incluindo com esta canção – mas para um compositor e/ou letrista é o caminho mais fácil.

 

Como referi antes, se as circunstâncias fossem outras, Carry On ter-me-ia passado ao lado. No entanto, foi a música escolhida para os créditos do filme Pokémon: Detetive Pikachu. Agora, mesmo não tendo sido composta de propósito para este filme (consta que a primeira demo datava de setembro de 2016), faz parte do cânone da franquia – pelo menos na minha mente.

 

Um dia destes hei de escrever sobre este filme aqui no blogue. Posso adiantar desde já que gostei muito, mesmo não tendo sido perfeito.

 

A letra de Carry On podia ser aplicada à relação entre Tim e o Detetive Pikachu. Ainda assim, se me permitem, acho que se aplica ainda melhor a Digimon Tamers. Como disse antes, a letra fala em amor e saudade. As estâncias focam-se na saudade. No refrão, no entanto, o sujeito narrativo reconhece que o ser amado mudou a sua vida, ajudou-o a crescer, e promete seguir em frente por ele. 

 

No fundo, Carry On é um resumo geral, ultra-simplificado, dos voicemails dos Treinadores para os seus Digimon, no CD Drama Message in a Packet

 

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Tendo eu dedicado uma grande parte do meu ano a Tamers e tendo Detetive Pikachu sendo um filme tão marcante, não posso deixar de referir Carry On como uma das músicas de 2019. Mesmo que a canção em si não seja nada por aí além. Às vezes basta um pouco de sentimentalismo – e eu sou extremamente sentimental e lamechas – para elevar uma canção mediana a algo extraordinário. 

 

Falemos agora de Holding Out for a Hero. Esta foi usada no segundo trailer de Detetive Pikachu – depois de Happy Together ter sido usada no primeiro. De início não compreendi a escolha das músicas – e não apreciei muito. Iam lançar um filme de Pokémon, uma franquia com uma forte componente musical, e em vez que usarem essas músicas, iam usar canções pop?

 

No entanto, depois de pesquisar, fiquei a compreender a lógica. Se formos a ver (ou melhor, a ouvir), as duas canções – Happy Together, dos Turtles, e Holding Out for a Hero, de Bonnie Tyler – partilham características com os dois principais temas da franquia. No início dos respetivos trailers, ouvem-se notas discretas desses temas.

 

Happy Together (uma música de que não gosto muito, confesso), usada no primeiro trailer, é muito parecida com o tema principal de Pokémon nos jogos – o tema que ouvimos em quase todos os ecrãs iniciais de quase todas as versões, com variantes, claro. No site TV Tropes alegam que o tema dos The Turtles terá influenciado a música de Pokémon. É possível, mas não encontrei nenhuma fonte que o confirmasse. 

 

Por sua vez, Holding Out for a Hero terá sido escolhida pelas suas semelhanças com Gotta Catch'em All, o primeiro tema de abertura do anime. Ambos se caracterizam pelo piano (ou teclado?) em ritmo acelerado, que entusiasma, que funciona bem como banda sonora de cenas de ação.

 

 

Entre Happy Together e Holding Out for a Hero prefiro a segunda. Não apenas pelos méritos da canção, também porque… eu adoro Gotta Catch'em All. Gosto do tema dos jogos tanto quanto qualquer fã da franquia mas para mim, por muitos defeitos que o anime tenha, o primeiro tema de abertura será sempre a música de Pokémon. Se a oiço quando não estou à espera, derreto como manteiga. Aconteceu neste filme – ouvir o Ryan Reynolds cantando-o a chorar é uma das várias cenas do filme que, por si só, valem o preço do bilhete. Aconteceu com dois dos trailers para Let’s Go – num usaram a versão inglesa, noutro usaram a versão portuguesa. Uma jogada suja porque… resulta. 

 

Holding Out For a Hero fica, agora, associada a dois filmes de que gosto. Detetive Pikachu e Shrek 2: pela célebre cena a que serve de banda sonora. 

 

Por muito que goste da versão original, tenho de admitir que a versão de Shrek 2, interpretada de forma soberba por Jennifer Saunders, é melhor. A instrumentação é mais moderna, com variações para acompanhar os eventos no ecrã. Além de ser uma combinação única de dance music com elementos orquestrais.

 

Suponho que tenha de falar do elefante na sala: a mensagem obsoleta e pouco feminista da canção. Não me incomoda muito. Quando a oiço, gosto de imaginar um videoclipe irónico, mostrando mulheres tomando conta de si mesmas, em diametral oposição à letra. Ou entanto, pura e simplesmente, pessoas salvando-se umas às outras. 

 

Voltaremos a falar sobre Detetive Pikachu em breve, como referi acima. Prossigamos. 

 

 

  • Carly Rae Jepsen

 

 

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Como poderão ler no texto correspondente do ano passado, Carly Rae Jepsen, cantautora canadiana, foi uma artista marcante para mim em 2018. Sobretudo por causa do álbum Emotion, a edição padrão, faixas extra e o EP Side B, lançado um ano mais tarde. Como tal, estava interessada no seu álbum novo Dedicated, lançado em maio de 2019. 

 

Antes de mais nada, devo confessar que demorei alguns meses a dar a atenção devida a Dedicated. Como já referi aqui no blogue, muitas vezes só consigo ouvir um álbum como deve ser sob a forma de CD, no meu carro. Só comprei Dedicated perto do fim do ano.

 

Uma das coisas que me chateou foi o facto de Party for One não fazer parte da edição padrão do álbum – a que comprei em CD. Já com Emotion deixaram várias músicas excelentes de fora… mas este foi o primeiro single. Qual é a lógica? Obrigar toda a gente a compar a versão Deluxe?

 

Ainda preciso de passar mais algum tempo com Dedicated, mas, nesta altura, posso desde já adiantar que gosto da maior parte das músicas. Now That I Found You, Happy Not Knowing, The Sound (gosto muito do pré-refrão), I Want You In My Room (ameninada, engraçada, com um saxofone que me recorda Let’s Get Lost). 

 

Too Much tem uma letra interessante – acho que todos conhecemos alguém assim, incapaz de meio termo, de moderação, que leva tudo ao extremo. A própria Carly, então, já admitiu ser uma romântica incurável. É possível que seja daquelas pessoas que, quando se apaixona, deixa-se levar pelas suas emoções – o que pode levar a que se magoe a si mesma ou a que assuste os demais.

 

 

A minha preferida até agora, no entanto, é Real Love. A sonoridade é semelhante à dance pop dos dias de hoje. Ao contrário de Carry On, no entanto, Real Love executa a fórmula com mestria. Um crescendo constante desde as estâncias, passando pelo pré-refrão, culminando com o último verso do refrão e o interregno dançante.

 

Mas aquilo que destaca Real Love das demais é a sua letra. Real Love exprime o desejo de encontrar amor num mundo cada vez mais degradado, numa altura em que parece que estamos todos em guerra constante uns com os outros (sobretudo na Internet), em que a apatia e a indiferença são uma tentação cada vez mais forte. Deseja-se amor verdadeiro, mesmo que não se saiba ao certo o que isso é.

 

No fundo, é Lesson Learned por outras palavras e noutro estilo musical. Com a diferenca de que na música de My Indigo já se tem amor. Em Real Love ainda se está à procura.

 

Falemos agora dos aspetos de que menos gosto em Dedicated. Os vocais artificiais em várias canções irritam-me – bem como os apitos e algumas escolhas de instrumentos. A sonoridade em geral é um bocadinho  homogénea demais para o meu gosto. 

 

Além de que todas as canções são sobre relações amorosas. Mesmo Party For One, que procura celebrar a solidão, começa como uma “break up song”. É certo que a larga maioria de Emotion também é assim, mas sempre tinha algumas exceções, como Boy Problems, L.A. Hallucinations e, até certo ponto, Making the Most of the Night (que também podia ser aplicada a uma amizade).

 

Aliás, tenho de dizer que numa ocasião, ao fim de algum tempo com Dedicated, fiquei com vontade de ouvir Emotion. Como disse antes, é possível que Dedicated suba na minha consideração no futuro, mas duvido que ultrapasse o seu antecessor. Dedicated pura e simplesmente fica atrás de Emotion. 

 

Para sermos justos, era muito difícil ser melhor.

 

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Pergunto-me se Dedicated terá um side B este ano, como Emotion teve. Aparentemente está nos planos de Carly, se bem que não necessariamente nos mesmos moldes do de Emotion. Afinal, Carly terá composto umas duzentas músicas durante os trabalhos para este álbum. Só estas quinze é que merecem ser ouvidas? Duvido. 

 

Esperemos para ver.

 

E pronto, foi assim 2019 em música para mim. Existem outras canções e/ou artistas que ouvia com regularidade. Não acho que justifiquem uma secção, mas não queria deixar de mencioná-los. 

 

Billie Eilish foi um dos fenómenos deste ano. Há uns meses pus-me a ouvir o álbum dela no Spotify. À primeira não gostei assim muito – só agora é que me estou a habituar ao estilo musical – mas Bury a Friend ficou-me logo na cabeça. Sobretudo a frase que dá título ao álbum “When we all fall asleep, where do we go?”. Também gosto de Bad Guy. Hei de ouvir mais músicas dela.

 

Por outro lado, nos últimos anos tenho andado interessada na música de António Variações. O filme inspirado na vida dele, que saiu no verão passado, reforçou esse interesse. A Canção do Engate é para mim uma das melhores da música portuguesa. Por outro lado, tive uns dias em que andei absolutamente viciada em Anjinho da Guarda. “Ele não, não usa aaaarmaaa… Ele não, não usa a foooorçaaa…”

 

 

Tenho também andado a explorar um bocadinho mais a discografia de Mika, sobretudo os seus dois últimos álbuns – o mais recente lançado este ano. Por fim, os Coldplay lançaram Everyday Life em novembro, mas preciso ainda de passar algum tempo com o álbum. Talvez escreva sobre ele – num texto independente ou no da música de 2020.

 

Como mudámos não apenas de ano como de ano como de década, muita gente tem aproveitado para fazer retrospetivas dos anos 10. Para mim não faz muito sentido. Uma década é demasiado tempo, muitas coisas acontecem, de bom e de mau. Gostos e opiniões mudam, alguns deles de forma radical. Tirando coisas muito gerais, é muito difícil encontrar aspetos que se tenham mantido consistentes ao longo de dez anos.

 

Suponho que possa referir os álbuns que mais me marcaram esta década (ainda que, lá está, estas opiniões não estejam gravadas em pedra): os dois que os Paramore lançaram, em 2013 e 2017, os dois álbuns de Lorde (sobretudo o segundo), Living Things dos Linkin Park, Post Traumatic de Mike Shinoda. Menções honrosas seria Goodbye Lullaby de Avril Lavigne, The Unforgiving e Hydra, dos Within Temptation, Bare Bones de Bryan Adams, My Indigo, Emotion, de Carly Rae Jepsen.

 

Em relação a 2020, teremos o projeto a solo de Hayley Williams, Petals For Armor. A primeira música (ou músicas? Ou o álbum ou EP inteiros?) sairá já este mês, no dia 22 – falaremos sobre isso na altura. 

 

Tirando isso, e possivelmente o side B de Dedicated, não há nada de concreto planeado para sair este ano. Lorde tinha um álbum quase pronto no ano passado, mas entretanto morreu-lhe o cão que adotara no ano anterior. Pearl, que é como se chamava o bichinho, mudara a vida de Ella para melhor, como ela descreve na mensagem que escreveu: “Pearl trouxe uma quantidade imensurável de alegria e propósito para o meu mundo. Amor vibrava à nossa volta. Sentia a minha vida a crescer, inchando de saúde, esta esfera de satisfação brilhando à minha volta, de Pearl, da nossa família”. Supostamente, o seu terceiro álbum refletiria esse estado de espírito. 

 

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No entanto, com a perda de Pearl, isso mudou. Não sou capaz de censurá-la por precisar de tempo para, como ela diz, recalibrar antes de trabalhar no seu álbum novo – quando eu mesma tenho a minha Jane. Eu, aliás, andava contente por Lorde ter "seguido" o meu conselho e arranjado um cão e um gato, como revelara uns meses antes. Ninguém merece…

 

*breve pausa para festinhas à Jane*

 

Assim sendo, a haver álbum este ano, deverá ser mais para o fim. Não me importo de esperar. Se estiver ao nível dos anteriores, até se espera uma década, como a própria Lorde referiu uma vez. 

 

Muito obrigada por terem acompanhado este blogue durante mais um ano. Vou agora tentar despachar os vários textos que tenho atraso, tanto aqui como no meu outro estaminé. Deixo-vos uma playlist com as músicas que se comentaram aqui, bem como as músicas que mais toquei no Spotify este ano (não são um espelho muito muito rigoroso, aviso desde já). A próxima publicação será, provavelmente, a análise a Petals For Armor, o que quer que isso seja – se forem mais do que três ou quatro músicas, devo demorar um bocadinho ainda. Continuem por aí!

 

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