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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – She Couldn't

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O primeiro álbum de estúdio dos Linkin Park, Hybrid Theory, vai completar vinte anos desde a sua edição a 24 de outubro. Para assinalar este marco, a banda vai lançar uma edição especial que inclui, mas não se limita a, um livro de fotografias inéditas, transmissões em vídeo de concertos, demos de canções conhecidas, faixas inéditas. Em jeito de aperitivo para o que aí vem, a banda lançou uma dessas faixas, She Couldn’t, na passada quinta-feira, dia 13 de agosto.

 

She Couldn’t foi uma das primeiras canções que os Linkin Park compuseram já com o falecido Chester Bennington na banda. O primeiro vocalista da versão beta da banda, chamada Xero, era Mark Wakefield, que chegou a colaborar na composição de canções como Runaway e A Place for My Head. Aparentemente, She Couldn't foi posta de parte relativamente cedo – nem sequer faz parte do EP Hybrid Theory. 

 

No verão de 2009, alguém pôs à venda no eBay um CD com demos dos Linkin Park, incluindo esta canção. Consta que era uma versão de fraca qualidade, cheia de estática.

 

Confesso que, até agora, nunca me tinha interessado muito muito por material suplementar dos Linkin Park. Nem mesmo por álbuns de remixes, como Reanimation e Collision Course, tirando um caso ou outro, como New Divide e A Light that Never Comes. Os álbuns de estúdio sempre foram o meu maior ponto de interesse. Só há relativamente pouco tempo é que conheci My December e há ainda menos High Voltage. Ainda assim, já tinha dado com o título She Couldn’t algumas vezes no Twitter.

 

Imagino a alegria para esses fãs poderem ouvir a música com boa qualidade ao fim de onze anos. 

 

 

Boa qualidade é como quem diz… continua a ser uma demo, a qualidade não é espetacular. A voz de Chester soa um pouco baixa no início das estâncias. Para este lançamento, eles pegaram naquilo que tinham e melhoraram o mais que puderam. No entanto, como referido acima, She Couldn’t deve ter sido descartada numa fase precoce do processo, a banda nunca se deu ao trabalho de gravar uma versão melhor. Não podiam regravar os vocais agora por… motivos óbvios.

 

She Couldn’t é uma música muito suave. Não tem guitarras pesadas, ao contrário de todo o Hybrid Theory. A instrumentação consiste essencialmente em sintetizadores, baixo, notas discretas de guitarra, Joe Hahn arranhando discos. É uma faixa longa, com cinco minutos de duração, foca-se no instrumental. Soa a música de fundo no bom sentido: ajuda a criar uma atmosfera particular, um “mood”, com o seu tom melancólico, muito Linkin Park.

 

A voz de Chester nem sempre se ouve bem, como comentei acima, mas mesmo assim ele teve oportunidade de exibir os seus dotes vocálicos nalguns momentos, sobretudo durante a segunda estância. A música repete várias vezes um excerto da música de The High & Mighty, B-Boy Document 99 – é uma das imagens de marca de She Couldn’t (ao ponto de se tornar um bocadinho repetitiva). Temos alguns versos de rap de Mike Shinoda no mesmo tom do sample – de tal forma que, no início, não percebi que era um sample, pensava que era a voz do Mike, talvez com alguns efeitos.

 

O narrador de She Couldn’t está a consolar uma pessoa, um amigo, que perdeu alguém, uma “ela”. Não se percebe ao certo como ou porque se deu a perda. Partes da letra dão a entender que ela morreu – "The sunlight's shinning on her now", "The sunlight's crying for her now". Outras partes não encaixam bem na teoria, nomeadamente os sentimentos de culpa do amigo do narrador. A menos que tenha sido suicídio…

 

O mais certo é eles terem sabido desde o início que a relação não podia durar muito. Numa determinada data, ela teria de ir para outro lugar, por compromissos profissionais ou assim. Talvez isto tenha sido um romance de verão que se tornou mais intenso do que o esperado. 

 

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Em todo o caso, o narrador de She Couldn't estende uma mão ao seu amigo, ao ouvinte. A propósito do lançamento desta música, Mike referiu que She Couldn't funcionou como um indício de direções futuras da banda, do seu lado mais gentil. "O verso 'You're not alone' cantado suavemente lembra-me que, apesar de nos termos estreado com uma canção que grita 'Shut up!' (cala-te), aquilo que a maior parte dos fãs acabaram por descobrir foi que empatia e comunidade eram também uma parte integral do ADN dos Linkin Park."

 

Essa empatia e comunidade são aquilo que nos tem sustentado nestes últimos três anos. 

 

Em suma, não estando entre as melhores dos Linkin Park, She Couldn't é uma música gira, uma pérola escondida que nos permite imaginar um álbum de estreia diferente. 

 

Se foi bem excluída de Hybrid Theory? Sim e não. Por um lado, o álbum padrão é intenso, é rápido, mesmo os momentos mais pausados, como Crawling e Pushing Me Away têm guitarras pesadas. Nesse sentido, She Couldn't seria um grande outlier.

 

Por outro lado, tal como referi acima, a música tem aquele tom melancólico que caracteriza o estilo dos Linkin Park, sobretudo em início de carreira. Se o Hybrid Theory fosse diferente, um pouco mais variado, incluísse músicas mais calmas como My December (uma faixa com algumas parecenças com esta), She Couldn't teria de ser uma delas. 

 

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Hei de voltar a esta questão em breve. Tenho estado a trabalhar numa análise a Hybrid Theory, para ser publicada no dia 24 de outubro – o dia do vigésimo aniversário. Sim, ainda faltam dois meses, mas vocês sabem que eu trabalho devagar. Ainda por cima, em setembro e outubro vamos ter um total de cinco jogos da Seleção. Haverão alturas em que estarei ocupada com o meu outro blogue. Por um lado vai ser bom, estou cheia de saudades da Turma das Quinas. Por outro, este blogue será um bocadinho prejudicado. É melhor adiantar trabalho. 

 

De qualquer forma, fico contente por já termos She Couldn't. Deu-me uma desculpa para não deixar o estaminé ao abandono durante demasiado tempo, para deixar um cheirinho da análise maior, ao álbum inteiro. 

 

A minha ideia será focar-me mais no alinhamento padrão de Hybrid Theory, visto serem essas as músicas que conheço melhor. No entanto, como a edição especial será editada a 9 de outubro, devo incluir algumas impressões sobre as inéditas que lançarem. Nada de muito detalhado, em princípio.

 

Em relação aqui ao blogue, para que este não fique parado durante muito tempo, estou a pensar fazer algo que não faço há muito tempo: responder a uma tag. A última que fiz foi esta. Só para variar um bocadinho. 

 

Uma vez mais, obrigada por lerem. Até à próxima!

Músicas Ao Calhas – All too Well

Ninguém vai acreditar que foi por mero acaso que resolvi escrever sobre Taylor Swift agora, ninguém vai acreditar que já planeava fazê-lo há algum tempo. Vão achar que quis aproveitar-me do interesse aumentado em Taylor a propósito do álbum folklore, lançado há pouco mais de uma semana. 

 

Acreditem ou não, eu já estava a escrever o primeiro rascunho deste texto quando Taylor anunciou o álbum literalmente na véspera do dia em que saiu. Como é que eu ia adivinhar? A mulher costuma demorar pelo menos dois anos entre álbuns!

 

Bem, agora já está. Vou aproveitar-me do interesse aumentando em Taylor, mesmo não tendo sido essa a minha intenção. 

 

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Taylor Swift é uma cantautora que dispensa apresentações. É a primeira vez que lhe dedico um texto neste blogue, mas a verdade é que tenho acompanhado a carreira dela assim ao de longe desde 2014/2015. Talvez mesmo antes, mais foi só em 2014 que comecei a ouvir ativamente músicas dela. Os singles de 1989 basicamente, como Blank Space e Out of the Woods. Com o passar dos anos, sobretudo desde que comecei a usar o Spotify com frequência, fui acrescentando mais músicas dela às minhas playlists, aqui e ali.

 

Durante anos não quis admitir que Taylor Swift era uma cantora do meu nicho musical. Mas a verdade é que ela ia aparecendo em várias listas de mais tocadas no Spotify. Quem é que eu queria enganar?

 

Era só uma questão de tempo até escrever sobre ela aqui. 

 

Ainda assim, não sou de todo uma enorme fã de Taylor (uma Swiftie, uma stan ou o que quer que os miúdos fixes lhe chamem por estes dias). Sou uma fã muito casual, muito superficial. Não conheço assim tão bem a discografia dela. Só tenho ouvido músicas soltas, acho que nunca cheguei a ouvir um álbum dela do princípio ao fim – quero fazê-lo com folklore, no entanto.

 

Na mesma linha, no que toca à sua repercussão mediática, aos dramas com ex-namorados, com outras celebridades… em geral, não ligo muito, tenho ter uma posição neutra.

 

Tirando no caso do Kanye. Que se lixe o Kanye, o homem é uma besta. Eu sei que ele tem tido problemas com a sua doença bipolar, mas isso não serve de desculpa para todas as coisas que tem feito.

 

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Voltando a Taylor, por um lado sim, acredito que seja difícil passar o fim da adolescência e toda a idade adulta, em particular a sua vida amorosa, debaixo do escrutínio impiedoso dos holofotes. Também admito que, se ela fosse um homem, a sua vida seria mais fácil.

 

Por outro lado, nenhuma dessas dificuldades, nenhum dos lados negros da fama a impediram de se tornar uma das maiores estrelas pop da atualidade, uma das mulheres mais poderosas e influentes dos Estados Unidos, se não for do mundo. Não precisa que tenhamos pena dela, na minha opinião. Além de que, não apenas como celebridade, também como compositora, como letrista, tem maior controlo sobre a narrativa do que outras personagens da sua história. 

 

Em todo o caso, sei reconhecer boa música quando a oiço e é por isso que estou aqui. All too Well é considerada, de maneira quase unânime, uma das melhores canções de Taylor Swift, se não for a melhor. Como (ainda) não conheço assim tão bem a discografia dela, não posso dizer que seja, de facto, a número um. Mas é uma das melhores entre aquelas que conheço. 

 

É sem dúvida uma das melhores baladas que conheço. Baladas a sério, mesmo power ballads, daquelas que arrebatam. Sempre gostei deste estilo de música, duas das minhas canções preferidas de todos os tempos – I’m With You e Last Hope – são power ballads. All too Well está ao mesmo nível.

 

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All too Well, aliás, é um caso bastante raro, se não for único, entre as power ballads no sentido em que não assenta em grandes notas agudas para arrebatar. I’m With You caracteriza-se muito pelos agudos. Last Hope nem tanto, mais nos pré-refrões, mas estão lá. Mesmo aquelas baladas universalmente aclamadas, como I Don’t Want to Miss a Thing, Total Eclipse of the Heart, Always, My Heart Will Go On, I Will Always Love You, todas elas assentam em grandes agudos. 

 

É, de resto, uma técnica muito usada em música: cantar os últimos refrões uma oitava acima, acrescentar uns quantos backvocals mais agudos, mesmo elevar o tom da música. A própria Taylor já usou este último truque com grande eficácia em Love Story. 

 

All too Well, no entanto, só tem um único verso agudo. Não precisa de mais. Taylor sob controlo total, transmitindo bem as emoções da música através da sua voz. Na verdade, no que diz respeito a vocais, prefiro versões ao vivo, em particular a lindíssima apresentação nos Grammys de 2014. A voz soa menos polida, mais crua – numa versão de estúdio não dava, mas ao vivo funciona e, para ser sincera, leva-me às lágrimas. 

 

O acompanhamento musical contribui para o arrebatamento da canção em partes iguais à voz. Começa relativamente minimalista, só com um par de guitarras (ou piano, no caso das versões ao vivo), ganhando novas camadas ao longo da faixa. All too Well é feita de crescendos atrás de crescendos, de crescendos sobre crescendos, clímaxes sobre clímaxes. Por volta dos três minutos e quarenta a intensidade diminui por instantes, mas não tarda a crescer de novo. Culmina no último refrão antes de diminuir de novo para o final. 

 

É uma montanha-russa de emoções.

 

 

Falemos então sobre a letra. Resumidamente, All too Well fala sobre uma relação falhada, à semelhança de oito em cada dez músicas de Taylor. Esta terminou de forma amarga, só que a narradora não consegue esquecer os bons momentos, continua presa a esse passado. 

 

Penso que já referi aqui no blogue que Taylor Swift é uma das melhores compositoras, uma das melhores letristas da actualidade, na minha opinião. Dá para ver um pouco disso aqui, várias das coisas que ela faz bem. 

 

Uma delas é a forma como conta histórias ao longo das músicas. All too Well, por exemplo, conta a história da relação que falhou, do princípio ao fim – como veremos melhor adiante. 

 

Outra coisa que Taylor faz bem é dar pormenores, reais ou ficcionados, que tornam as histórias muito mais tangíveis. Como as camisas em xadrez nesta música, os aviões de papel em Out of the Woods, os Old Fashioned em Getaway Car, a Cornelia Street da música com o mesmo nome. Por um lado, suspeita-se que esses pormenores sirvam de pistas para a audiência brincar aos detetives, tentando descobrir de quem Taylor está a falar (não estou a tecer juízos de valor, eu compreendo o apelo).

 

Por outro, esses pormenores também servem para fazer um bocadinho de “show, don’t tell”. Vou roubar um exemplo ao Pop Song Professor e referir New Year’s Day: em vez de dizer apenas que quer estar lá nos bons e nos maus momentos, a narradora diz que quer estar nas festas, nas doze badaladas à meia-noite, mas que também estará lá na manhã seguinte, arrumando a casa com o amado.

 

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Temos exemplos disso em All too Well. Começando pelo lenço (ou cachecol? A tradução dá para os dois lados…) na primeira estância, que, tal como a própria canção o confirma mais tarde, simboliza a esperança e inocência do início da relação. 

 

Consta que foram chatear a irmã do Jake Gyllenhaal (o ex de Taylor que, supostamente, terá inspirado All too Well) a perguntar por esse lenço. Ela não sabia do que estavam a falar. Provavelmente é ficcional.

 

A parte entre a estância refere-se, então, à fase de lua de mel, em que o casal se divertia, em que ele não conseguia tirar os olhos dela (“You almost ran a red ‘cause you were looking over at me” – nada mais romântico do que uma quase contra-ordenação muito grave), em que tudo parecia perfeito, destinado (“Autumn leaves falling down like pieces into place”). 

 

De notar as pausas da narrativa – nos pré-refrões, em que a narradora assegura que sabe que aquilo tudo é passado e ainda está a tentar aceitá-lo. 

 

Na parte seguinte, depois do primeiro refrão, temos a narradora descobrindo acerca da infância do amado, falando com a mãe dele, vendo fotografias. Sabemos que a relação já vai além da excitação inicial – ninguém conhece a família do parceiro romântico, fazendo perguntas sobre a sua meninice, se não está a pensar a longo prazo. A própria letra resume-o bem: “You tell me about your past thinking your future was me”.

 

Temos também uma breve referência a um momento de intimidade, a meio da noite: “We're dancing round the kitchen in the refrigerator light”.

 

 

Aquele que será, porventura, o maior clímax da música corresponde ao momento da separação. A letra refere problemas de comunicação, expetativas diferentes mas, segundo a narradora, a culpa é sobretudo dele. Nesta fase da sua carreira, quase todas as músicas de Taylor sobre relações falhadas colocavam a culpa no ex – Back to December será uma das poucas exceções. Foi só a partir de 1989 que ela começou a admitir culpas no cartório.

 

Uma vez mais, não estou aqui para tecer juízos de valor. Faz parte do crescimento.

 

De qualquer forma, segundo All too Well, esta separação incluiu uma chamada telefónica cheia de palavras desnecessariamente duras, supostamente honestas, que a magoaram profundamente. A ser verdade, não se faz.

 

A parte seguinte, depois da acalmia, ocorre já algum tempo depois do fim. Ela ainda está a fazer o luto, ainda não conseguiu reencontrar-se consigo mesma. Estão naquela fase em que devolvem as coisas que ficaram na casa um do outro.

 

Mas – plot twist – ele não devolveu o tal lenço. Ele também ainda não desligou por completo. No ano passado, aquando do lançamento de Lover, foi revelada uma das primeiras versões do último refrão, rezando “There we are again, you’re crying on the phone/Realized you lost the one real thing you’ve ever known”. Partindo do princípio que estes versos são verídicos, já foi tarde, agora já não dá para voltar atrás.

 

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É uma canção extraordinária, de facto. Tem cinco minutos e meio de duração – talvez seja por isso que nunca foi lançada como single – mas acho que ninguém lhe cortaria um segundo que fosse. 

 

Reza a lenda, aliás, que existe uma versão de All too Well com dez minutos de duração. No entanto, daquilo que descobri nas internetes, essa versão não era mais do que um primeiro rascunho sem filtros, um longo desabafo à guitarra. Taylor admitiu que demorou algum tempo a editar tal monstro, a reduzir às partes essenciais. Tanto quanto percebo, ao contrário do que uma parte dos fãs acredita, Taylor nunca chegou a gravar uma versão com dez minutos, ou mais, de duração.

 

E, para ser sincera, não acho que essa versão faça falta. A versão final utiliza com mestria os seus cinco minutos e meio de duração. Uma versão com o dobro ou o triplo da duração provavelmente divagaria na letra, não teria os mesmos crescendos e clímaxes. All too Well está perfeita como está.

 

Taylor afirmou que a canção tem tido duas vidas. A primeira como seu desabafo, como catarse sua. A segunda vinda do feedback dos fãs, que lhe gritam a música de volta nos concertos (a sério, vejam o vídeo abaixo, uma pessoa fica com pele de galinha), que fazem tatuagens com a letra. 

 

É ao mesmo tempo o risco e a excitação de expressões artísticas como a música: depois de lançadas no mundo já não pertencem exclusivamente ao artista, ganham uma personalidade nova. Para o pior e, pelo menos deste caso, para o melhor. All too Well tem recebido a apreciação que merece. Eu mesma só conheço esta canção há relativamente pouco tempo, mas já me imagino de lágrimas nos olhos cantando-a aos berros num concerto.

 

 

Sei perfeitamente que não sou, nem de longe nem de perto, a primeira pessoa a elogiar All too Well (e não serei decerto a última). Mesmo a maior parte destas opiniões não são propriamente originais. Mas a verdade é que este blogue também funciona um pouco como um diário de bordo das minhas paixões. Se descubro alguma coisa de que gosto a sério, mesmo que seja com algum atraso, escrevo sobre ela aqui.

 

Talvez volte a escrever sobre a música de Taylor no futuro. Existe pelo menos mais uma canção que merece uma entrada de Músicas Ao Calhas, mas não vou escrevê-la já já – são planos a médio prazo.

 

Por agora, se não se importam, vou ouvir folklore como deve ser, para ver se é essa Coca-Cola toda.

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #3

Terceira parte da análise a Petals For Armor. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui

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Vamos agora começar a falar sobre a terceira parte do álbum, a tal que representa a fase da borboleta. Esta é a parte mais homogénea das três – tirando Watch Me While I Bloom, todas as faixas são canções de amor, todas sequelas maduras a The Only Exception, de uma forma ou de outra. Não surpreende que estas músicas tenham sido lançadas todas de uma vez, com o resto do álbum. São muito parecidas umas com as outras, talvez até demasiado parecidas, não fazia sentido individualizá-las.

 

Suponho que o elefante na sala seja o novo amor na vida de Hayley, depois do divórcio. Não se sabe se é o mesmo referido em Sudden Desire e Why We Ever – se ela conseguiu reparar a relação que sabotou – ou se é outro homem. Pessoalmente inclino-me para a primeira hipótese, mas é um mero palpite, não tenho nada em que me basear. 

 

Hayley tem explicado muito sobre as músicas deste álbum, mas não revelou a identidade do seu novo companheiro. Não tem essa obrigação. A filosofia Petals For Armor é muito bonita e tal, mas quando envolve outra pessoa o caso muda de figura (aqui entre nós, já é um bocadinho questionável não conhecermos a perspetiva do ex no que toca ao casamento falhado). 

 

Quase toda a gente diz que é o Taylor. Eu sinceramente espero que não. Em parte porque, da última vez que ela namorou um companheiro de banda, a coisa correu mal (é certo que Hayley e Taylor já não são adolescentes… mas mesmo assim).

 

Enfim. Quando Hayley e o namorado estiverem para aí virados (isto se não tiverem acabado entretanto), logo anunciam a relação. Eu pessoalmente não tenho pressa em saber.

 

 

Pure Love, que abre a terceira parte, parece uma resposta direta aos erros cometidos aquando de Why We Ever (isto é, segundo o contexto dado por Hayley). Uma vez mais, musicalmente é guiada pelo baixo e pela bateria, com um ritmo interessante. Quando começam os vocais começa também o teclado (é Hayley quem o toca, pelo menos uma parte. Gosto em particular das notas claras no refrão, a condizer com os agudos (menos polidos, sobretudo nos últimos refrões) de Hayley.

 

A letra de Pure Love é essencialmente a filosofia Petals For Armor aplicada ao romance. Essencialmente, para fazer o seu amor resultar, Hayley teve de aprender a deixar cair os muros, a ser vulnerável, a ser forte em vez de impermeável, como vimos antes. Hayley está disposta a fazer a sua parte para que a relação resulte (“I give a little, you give a little”).

 

No refrão, Hayley fala em ser “experimental”. Segundo ela, é no sentido de descobrir como é ter uma relação adulta e saudável – a primeira da sua vida – ultrapassando o seu medo de intimidade. Também admitiu que pode ser interpretado no sentido sexual, mesmo não tendo sido essa a sua intenção quando escreveu a letra – iria em linha com o tema de Sudden Desire, na minha opinião.

 

Quase todas as músicas desta parte do álbum andam à volta deste tema. Fazem-me lembrar o casal Emma e Hook em Once Upon a Time. Não foi por acaso que me lembrei dela, entre outras personagens, quando Hayley apresentou a filosofia Petals For Armor. Lá está, o romance Captain Swan foi apenas a faceta romântica da coisa – foi, aliás, o último muro a cair.

 

Taken é muito parecida com Pure Love, parecendo quase uma continuação desta última. A instrumentação é praticamente a mesma: baixo, percussão, teclados (ainda que estes últimos só apareçam no refrão). Tem no entanto notas de guitarra que lhe dão um toque de blues – eu gosto. A melodia é mais grave, sem os agudos de Pure Love.

 

 

Mesmo a letra acaba por entrar em territórios parecidos, de uma forma mais vaga até. Fala sobre acreditar de novo no amor, estar disposta a arriscar, tornar oficial: Hayley já não está o mercado. Acrescenta pouco a um álbum que já tem Pure Love e Crystal Clear.

 

Não me interpretem mal, eu gosto de Taken – gosto do ritmo e das influências de blues. No entanto, se tivesse de retirar uma faixa a Petals For Armor, retirava esta – na minha opinião, seria a única em que não se notaria a falta.

 

Sugar on the Rim é uma das músicas mais divertidas e experimentais de todo o álbum. Está entre as minhas preferidas. Claras influências disco nos sintetizadores, os vocais meio artificiais repetindo “sugar on the rim”, o tom algo sexy. Definitivamente nada compatível com o que os Paramore fariam.

 

O título da música vem de uma técnica de preparação de cocktails, em que se fixa açúcar na borda no copo para enfeitar ou alterar o sabor de uma bebida. Brian uma vez fez isso com uma margarita durante um almoço com Hayley (com margaritas é mais comum usar-se sal), dando a ideia para esta canção. 

 

Esse açúcar na borda do copo serve de metáfora (bem… comparação, se quisermos ser rigorosos) para o amor, a alegria que contrabalança com a infelicidade. Ao contrário do Rose Colored Boy, não ignora o lado negro da vida – pelo contrário, Hayley fala em brincar com as sombras, diz que não tem medo do escuro. As coisas boas são suficientes para aguentar as coisas más – no final, doce é o sabor que fica nos lábios (pode também ser uma referência ao amargo em Leave it Alone).

 

 

Por outro lado, Hayley revelou que esta canção também é dedicada à comunidade gay. Suponho que seja por causa do “rimming” (vão ao Google… não em público, atenção!). Mas também a parte da vergonha e de viver escondido é algo com que, infelizmente, muitos da comunidade LGBT se poderão identificar.

 

É um conceito original e uma música muito gira. Se algum dia Hayley conseguir levar este álbum aos palcos, Sugar on the Rim será um ponto alto.

 

Watch Me While I Bloom é a única música nesta parte do álbum que não é uma canção de amor. Funciona um pouco como uma sequela a Rose/Violet/Lotus/Iris no sentido em que usa de novo metáforas florais – sobretudo na parte do “I myself was a wilted woman (...) forgot my roots, now watch me bloom”

 

É sobretudo a canção de vitória de Hayley, que depois dos anos mais difíceis da sua vida, voltou a ser quem era, sente emoções boas de novo. Uma Tell Me It’s Okay mais madura. Hayley está pronta para sair do seu casulo, para desabrochar, para mostrar um novo lado de si mesma. 

 

A música começa precisamente com “How lucky I feel to be in my body again” – aquilo que falámos antes sobre contacto com o próprio corpo. Por outro lado, ninguém me convence que o verso “Big invisible spark” não é uma referência a Let the Flames Begin, Part II e em particular Last Hope.

 

Hayley tem chamado a atenção para os versos “If you feel like you’re never gonna reach the sky ‘til you pull up your roots, leave your dirt behind, you’ve got a lot to learn”. Temos muito a tentação de esperar que a nossa vida esteja perfeitamente resolvida, com as pontas todas atadas, antes de irmos atrás do que queremos. Ou de achar que o processo é linear, que nunca daremos passos atrás. 

 

 

Ora, a vida não funciona assim. Nunca seremos perfeitos, nunca teremos as respostas todas e não podemos ficar parados por causa disso.

 

Havemos de regressar a essa ideia. 

 

Chegamos finalmente a Crystal Clear, a faixa que encerra Petals For Armor, outra que está entre as minhas favoritas. Esta foi outra das poucas em que Hayley não participou na composição da parte musical. Desta feita foi Taylor quem criou este instrumental, com notas de órgão algo etéreas e batidas à Phil Collins. 

 

Uma vez mais temos uma canção romântica, que fala sobre arriscar de novo, acreditar no amor. Quer-me parecer, no entanto, que quando Hayley promete não ceder ao medo não se refere apenas ao romance – também se pode aplicar a outras áreas da sua vida.

 

O título, aliás, pode também aludir à filosofia Petals For Armor. Crystal Clear, transparência, honestidade, vulnerabilidade.

 

Hayley recorre de novo a metáforas aquáticas para falar de um relacionamento amoroso, desta feita numa luz muito mais positiva – o que condiz com a sonoridade, que faz pensar em águas calmas e transparentes, raios de luz atravessando o subaquático. Ao contrário do romance descrito em Pool, este dá-lhe oxigénio em vez de tirar-lho. Não tem medo de mergulhar até ao fundo porque a água continua transparente. Hayley está a arriscar de novo – pode ser que seja desta. 

 

 
 
 
 
 
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O pormenor delicioso desta canção ocorre na parte final, com versos cantados por Rusty Williams, o avô de Hayley – ela trata-o por “Grandat”. Rusty era um “crooner” quando era jovem (consta que era o nome dado a cantores masculinos que cantavam baladas, como Frank Sinatra por exemplo) e Hayley cresceu ouvindo-o cantando canções de amor compostas por ele mesmo. A sua preferida é uma chamada Friends or Lover. Um dia, Rusty tocou-a ao piano em casa de Taylor. Este gravou-a e, como surpresa para Hayley, incorporou uma parte dos vocais de Rusty em Crystal Clear.

 

O Taylor é um anjo.

 

Ficamos assim a saber a quem Hayley sai. A jovem fala muito sobre os avós, que começaram a namorar aos doze anos e ainda hoje estão juntos (isto é, dentro do possível, foi esta a avó que caiu das escadas e perdeu faculdades). É super amoroso, uma bonita homenagem àquela que será a história de amor preferida de Hayley.

 

E é isto Petals For Armor. Como fomos observando, este álbum começou sombrio e tornou-se gradualmente mais luminoso. Mas não nos deixemos enganar, nenhum destes casos ficou completamente resolvido. Hayley afirmou que a sua vida contiua uma confusão, que ainda passa por cada uma das músicas de Petals For Armor. Ainda sente raiva, luto, medo, dor, amor, tudo. Ainda não tem todas as pontas atadas, ainda tem lições por aprender. “As histórias são infinitas, cada uma delas entrelaçada com dor e esperança”, escreveu ela quando lançou o álbum.

 

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Confesso que foi este o meu erro durante a era do Self-Titled: achar que já sabíamos tudo, que nunca voltaríamos atrás, que de alguma forma tínhamos ficado prontos para enfrentar qualquer coisa. Daí o choque quando Jeremy saiu da banda e com os temas abordados em After Laughter. A vida não é assim tão simples, de facto – e se a atual pandemia provou alguma coisa foi que tudo pode mudar de um momento para o outro, quase sem darmos por isso.

 

Por estranho que pareça depois deste testamento todo, ainda estou a processar o álbum. Gosto de todas as faixas, algumas mais do que de outras, mas não consigo escolher uma única como favorita absoluta. As minhas opiniões estão sempre a mudar. Daqui a uns meses, se calhar, terei novas coisas a dizer sobre este álbum.

 

Posso adiantar desde já, de qualquer forma, que Petals For Armor é um belo trabalho. Em termos musicais, é razoavelmente consistente em termos de instrumentação, conforme assinalado ao longo deste texto, mas é bastante eclético em termos de estilos musicais. Temos pop, new wave, disco, baladas, um bocadinho de rock, um bocadinho de jazz, um bocadinho de blues… Hayley e Taylor tiveram uma oportunidade de sair do território habitual dos Paramore, divertir-se um bocadinho noutros estilos musicais. Eu gosto de músicos multifacetados, que conseguem criar música em vários géneros – até porque eu mesma sou multifacetada, nunca fui de me interessar por uma só coisa.

 

Petals For Armor assemelha-se a álbuns como Melodrama e Post Traumatic no sentido em que as músicas funcionam muito bem como conjunto. O álbum é melhor que apenas o somatório das suas partes: vale tanto pelas músicas individuais como pela história que contam em conjunto. Um capítulo da história de Hayley, que continuará no próximo disco que ela lançar (quer a solo ou, mais provável, juntamente com os Paramore). 

 

Tivemos, aliás, uma combinação de temas novos, com perspectivas diferentes, com temas já recorrentes no cânone dos Paramore e não só. Raiva, luto, desejo, feminilidade no primeiro caso. Amizade, esperança, redenção, desgostos românticos e acreditar de novo no amor no segundo. Há coisas que são clichés por algum motivo – há lições que temos de estar sempre a aprender. 

 

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Devo dizer, ainda, que foi divertido estar a olhar para as metáforas e temas recorrentes deste álbum, mesmo nem todos sendo super originais. E estou grata por Hayley ter dado tantas entrevistas, fornecido tanto material para esta análise. Demoro mais tempo a escrever, escrevo autênticos testamentos – gastei quase noventa páginas A5 com o primeiro rascunho manuscrito (é certo que a minha letra é grande), isto já vai em quase dez mil palavras – mas é uma delícia.

 

O que acontece agora? O plano de Hayley era ir em digressão, levar Petals For Armor aos palcos, mas isto é 2020, um péssimo ano para planos. Ela tenciona ir em 2021, mas sabe-se lá se será possível – até porque a situação está catastrófica nos Estados Unidos. Não dá para calcular quanto tempo durará a era Petals For Armor – talvez mais um ano, talvez mais dois. Talvez a pausa nos concertos se prolongue tanto que Hayley se canse de esperar e ela e Taylor comecem a trabalhar noutra coisa. 

 

Já que falamos nisso, Hayley tem deixado pistas em relação à direção tomada no próximo álbum dos Paramore. Para o júbilo de muitos fãs, a jovem admitiu que ela e Taylor têm saudades das guitarras pesadas dos álbuns pré-After Laughter. 

 

Eu devo ser a única fã da banda que não fazia questão de regressar a essa sonoridade. Adoro as músicas antigas deles, claro que adoro, mas fazem parte do passado – tal como o cabelo cor de chama de Hayley. Nunca lhes pediria para voltarem para trás – a uma altura em que, agora sabemos, eles não estavam assim tão felizes. Não quando, hoje em dia, continuam a fazer música de qualidade, melhor até nalguns aspetos.

 

Mas se eles mesmo quiserem regressar a esse estilo não me queixo. O mais certo é adorar à mesma – tenho adorado todos os álbuns até agora… 

 

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Na verdade, mais do que o género musical, estou curiosa em relação à influência de Petals For Armor nos próximos trabalhos dos Paramore. Irá Hayley contribuir para a composição dos instrumentais ou voltará ao hábito antigo de esperar pelo material composto por Taylor e Zac? Por falar em Taylor, irá ele produzir os próximos álbuns sozinho? (Tenho quase a certeza que sim.) Voltarão a compôr com Joey? Irão incorporar estilos de Petals For Armor na música da banda?

 

Eu espero que sim, espero que algumas coisas mudem. Na minha opinião, seria um desperdício não aproveitar o que aprenderam com Petals For Armor para enriquecer o som dos Paramore.

 

Eu, aliás, tenciono escrever em breve sobre All We Know is Falling e Brand New Eyes, os dois álbuns que me faltam analisar. Estes são daqueles textos que ando a adiar há anos mas, pelo menos neste caso, estou contente por ter esperado. Não só porque, como já é habitual no cânone dos Paramore, Petals For Armor fez com que olhasse de maneira diferente para esses álbuns. Mas também Hayley prestou novos testemunhos sobre esses períodos nas múltiplas entrevistas que deu, em particular nesta.

 

Não vou escrever já já sobre esses álbuns. Depois de tanto tempo à volta de Petals For Armor, preciso de uma pausa de tudo o que se relacione com os Paramore.

 

Os meus planos a curto, médio prazo para este blogue ainda estão um bocadinho incertos. Estou a pensar escrever uma entrada de Músicas Ao Calhas, um texto mais rápido e curto que estes últimos dois e, possivelmente, os textos seguintes.

 

É aí que as coisas estão um pouco indefinidas. Já revelei antes que quero escrever sobre Hybrid Theory e Meteora dos Linkin Park em breve. Queria no entanto que o primeiro saísse no dia em que completa vinte anos, ou seja lá para 24 de outubro. Provavelmente começo já a escrever sobre ele em agosto. Sei que o texto vai demorar e, como em setembro e outubro devo estar ocupada com o meu outro blogue (porque, se tudo correr bem, a Seleção irá regressar, fazendo de mim uma mulher feliz), mais vale deixar o trabalho adiantado.

 

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Pelo meio, gostava de escrever sobre o filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna, quando conseguir vê-lo. Tecnicamente já dá para sacar na Internet, mas é uma versão de fraca qualidade, não me atrai. Talvez se surgir uma versão melhor entretanto… mas mesmo assim não sei. Supostamente o filme sairá nos cinemas portugueses a 12 de novembro – se isso se cumprir, eu quero ir ver, mesmo que já tenha visto o filme antes. E talvez espere por essa data para escrever e publicar a análise.

 

É assim que tenho sobrevivido a isto tudo: escrevendo, lendo, vendo Digimon (os episódios da nova versão de Adventure ao domingo e, quando esta esteve em pausa porque Covid, vi Frontier pela primeira vez), jogando Isle of Armor, a expansão de Pokémon Sword&Shield, recordando antigos jogos da Seleção Nacional, sobretudo no Euro 2016. Sempre foi mais ou menos assim, agora ainda mais. Como sempre, obrigada por lerem e por me aturarem. Até à próxima!

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #2

Segunda parte da análise a Petals For Armor. Podem ler a primeira parte aqui

 

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Hayley referiu que a divisão de Petals For Armor por partes se inspira também no ciclo de vida da borboleta: lagarta, casulo, borboleta. Uma vez mais, está longe de ser uma metáfora super original. Borboletas até têm sido um elemento recorrente no cânone dos Paramore (Brick by Boring Brick, a capa de Brand New Eyes, Part II, Still Into You…). Petals for Armor explora a sua simbologia mais comum: metamorfose. A trilogia de vídeos Simmer/Leave it Alone/Cinnamon parece inspirar-se nesse conceito. 

 

Falo sobre isto nesta fase da análise porquê? Porque a segunda parte de Petals For Armor corresponde à fase do casulo, a fase mais importante segundo Hayley – porque é quando ocorre a maior transformação. 

 

E de facto, tirando My Friend, todas as músicas da segunda parte de Petals For Armor representam transformação, mudança, de uma forma ou de outra. Dead Horse e Why We Ever ilustram etapas fulcrais na recuperação psicológica de Hayley, como veremos adiante. Por sua vez, Over Yet é uma canção motivacional, apelando à mudança. Por fim, um dos temas de Roses/Violet/Lotus/Iris é crescer e desabrochar. 

 

Falemos então sobre Dead Horse. Hayley foi dando pistas sobre esta música durante semanas, dizendo que estava com medo de lançá-la. Em parte por ser uma música mais pop, por ter medo que se tornasse a sua Hollaback Girl. Em parte porque traz partes negras do seu passado para a luz, é mesquinha tanto para o seu ex-marido como para si mesma. É a primeira da segunda parte da tracklist, mas foi a última a ser lançada. 

 

O instrumental de Dead Horse foi composto por Daniel James. Esta foi uma das poucas canções em Petals For Armor em que Hayley não participou na criação do instrumental – como costumava acontecer com os Paramore, o instrumental foi-lhe “dado”, ela “só” teve de compôr a letra e a melodia. 

 

A faixa, aliás, começa com uma mensagem de voz de Hayley para Daniel, quando lhe enviou os rascunhos em áudio – que foram partilhados no Instagram da jovem. Aparentemente atrasou-se no envio porque esteve deprimida. Fora desse contexto, no entanto, não é difícil ouvir a canção e imaginar que é um pedido de desculpas ao ex pelo que vai ouvir já de seguida.

 

 

Dead Horse tem uma sonoridade algo tropical, com notas de xilofone e batidas dançantes. Faz lembrar o estilo de After Laughter, embora se note que não foi Taylor a compôr este instrumental. Durante os trabalhos desse álbum, Hayley refilava por Taylor só lhe enviar música alegre quando ela se sentia na fossa. No entanto, nestas entrevistas Hayley admitiu que dançar enquanto cantava sobre temas difíceis a ajudava, tinha efeito terapêutico. O mesmo acontece com Dead Horse. 

 

Para falarmos da primeira estância, precisamos de falar sobre o elemento que falta: água. Hayley referiu em entrevista que este sempre foi um tema recorrente nos seus sonhos e pesadelos, daí ter composto algumas canções há volta do tema. Há uma referência breve em Proof, mas o maior exemplo é Pool. 

 

Esta é uma canção de After Laughter, mas Hayley, começou a trazê-la à baila em diversas entrevistas  – de forma algo inesperada na altura mas, depois de ouvirmos Dead Horse, fez sentido. Hayley revelou que Taylor compôs o – fantástico – instrumental, mas esta só conseguiu criar letras e melodias um ano depois. 

 

A jovem queria por força criar uma canção de amor, algo que provasse que o que ela e o ex-marido tinham era verdadeiro, que o casamento fora uma boa ideia. Aquilo que saiu foi uma música em que ela compara a relação a uma onda indomável, um mar agitado em que ela se está a afogar, mas em que ela insiste em mergulhar, à espera de um resultado diferente. E vocês sabem o que se diz de pessoas que fazem o mesmo outra e outra vez, à espera de resultados diferentes…

 

Para ser sincera, Pool é ainda uma das minhas preferidas em After Laughter e, antes disto, nunca me parecera assim tão sombria. A minha interpretação da água é diferente da de Hayley. A água é o meu elemento, representa liberdade, mistério, misticismo. Para mim o subaquático, mar agitado q.b., uma onda indomável, representam excitação, não perigo ou sofrimento. 

 

Mas, lá está, é a minha opinião, compreendo que nem todos vejam assim. 

 

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A primeira estância de Dead Horse é, assim, toda ela uma referência a Pool. A relação é de novo comparada a um afogamento, mas numa luz muito menos positiva. Da primeira vez que ouvi a música, os versos “Held my breath for a decade, dyed my hair blue to match my lips” deixaram-me de olhos arregalados durante o resto da faixa. Credo, Hayley… 

 

Quem não perceber, que vá ao Google e pesquise cianose.

 

A expressão “beat it like a dead horse” refere-se a insistir em algo que já não vai a lado nenhum. Como um casamento. A expressão “I sang along to a silly little song”  e suas variantes podem aludir a várias faixas antigas de Hayley. Toda a gente concorda que se refere às várias canções de amor que a jovem dedicou ao ex-marido – The Only Exception, Proof, Still Into You… – mas a mim também me recorda Stop This Song (Lovesick Melody), em que uma atração romântica e comparada a uma canção irresistível. 

 

Na segunda estância, então, sai a verdade feia: “I was the other woman first”. Hayley começou a andar com o ex quando este ainda estava casado com a primeira mulher, Sherri DuPree. 

 

Para ser sincera, ponho muito menos culpas em Hayley do que no ex. As facetas mais misóginas da nossa sociedade gostam de falar na “outra”, na mulher provocante que seduz um homem para o pecado mas, por amor de Deus, Hayley era uma miúda! Legalmente já era adulta, tinha dezoito ou dezanove anos, mas na prática gente dessa idade ainda mal deixou a adolescência.

 

Por sua vez, o ex já tinha vinte e seis anos, era um homem feito, casado, experiente – enquanto que, para Hayley, conforme referido acima, aquela seria provavelmente a primeira ou quando muito a segunda relação a sério. Acham mesmo que a iniciativa partiu dela?

 

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Hayley assume que estava numa posição vulnerável na altura em que começou a andar com o, agora, ex-marido. Ela e Josh tinham terminado a relação há pouco tempo e os Paramore enquanto banda estavam em guerra. Hayley sentia-se sozinha, provavelmente com a auto-estima em baixo, quando um músico como ela, mais velho, começou a mostrar interesse por ela, ela foi na cantiga.

 

Não quero com isto dizer que Hayley está isenta de culpas. Ela podia ser ainda nova, mas já tinha idade suficiente para saber o que estava a fazer, ao envolver-se com um homem casado. Não é a primeira a cometer este erro, não será a última. Eu mesma não posso garantir a cem por cento que dessa água não beberei – às vezes a paixão e o desejo falam demasiado alto. Mas não deixa de ser um erro, algo que magos profundamente as partes envolvidas. 

 

Hayley tem dado a entender que esteve muito tempo em negação, enterrando bem a fundo essa vergonha ("Held my breath for a decade"): o facto de ter roubado o marido a outra mulher. Tentou racionalizar a coisa, justificar o que fizera a Sherri, dizendo a si mesma e a toda a gente que o ex era o amor da vida dela, a sua… a sua única exceção. 

 

Mesmo quando a coisa começou a descambar, mesmo quando ele começou a trair Hayley (ainda há pouco tempo vimos que, regra geral, se ele ou ela traiu alguém contigo, mais cedo ou mais tarde vai trair-te também), ela insistiu, manteve o noivado, manteve o casamento. Hayley queria, ao mesmo tempo, imitar o casamento vitalício dos seus avós e queria evitar aqueles que, aos seus olhos, tinham sido os erros dos pais. Ao contrário deles, ela conseguiria manter um casamento, em vez desistir à primeira dificuldade. 

 

Ai Hayley, Hayley… 

 

O estado em que ela ficou nestes últimos anos não surpreende tendo em conta os sonhos de que teve de acordar, aquilo que teve de admitir a si mesma e ao mundo inteiro. Pode ter sido essa a batata quente a que After Laughter parece aludir, o piano que caiu em cima dela, conforme referiu no texto que escreveu há dois anos. Não admira que, hoje em dia, Hayley não queira nem ouvir falar de Misery Business (e aqui entre nós, quando descobri que a rapariga a quem a música chama p*ta tinha treze ou catorze anos nos eventos que inspiraram a letra… yep, cancelem Misery Business). 

 

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Sim, as botas que Hayley enche de cimento no videoclipe são as mesmas que usou no casório. Ela mesma o confirmou.

 

Há que dar crédito à Hayley – não é toda a gente que admite erros deste calibre assim, preto no branco. Faz parte da filosofia Petals For Armor: mostrar as partes feias. Deitar cá para fora a raiva, a vergonha, a mesquinhez para, depois, seguir em frente. 

 

Felizmente, consta que Hayley a certa altura entrou em contacto com Sherri e pediu-lhe desculpa. Continuo a achar que o maior culpado é o ex – que ainda por cima já arranjou uma terceira noiva, uma mulher ainda mais nova que Hayley. 

 

Em todo o caso, Dead Horse termina com "And now you get another song". Que seja a última. 

 

Não há muito a dizer sobre My Friend. Musicalmente, está dentro do estilo da maior parte do álbum: notas de guitarra, baixo e bateria leve nas estâncias, teclados no refrão. A letra é uma homenagem a Brian, melhor amigo de Hayley, seu esteticista e co-fundador de Good Dye Young. Conforme Hayley referiu quando lançou a música, eles conhecem-se desde o fim da adolescência, acompanharam-se um ao outro durante muitos altos e baixos (ambos se divorciaram no mesmo ano), são unha e carne. 

 

My Friend está longe de ser um grande destaque em Petals For Armor, mas não deixa de ser uma música bonita. É a World’s On Fire deste álbum – a música que homenageia as pessoas que ajudaram na recuperação emocional descrita em Petals For Armor. 

 

Over Yet é algo diferente da generalidade das músicas em Petals for Armor. É conduzida pelo baio, como várias outras, mas tem um ritmo mais rápido, uma sonoridade algo new wave, à anos 80 e 90 – não muito diferente de algumas faixas de After Laughter. É uma música estival – não admira, tendo em conta que Hayley a compôs, juntamente com Joey e Stephanie Marziano durante uma curta escapadinha de verão – muito gira, com uma mensagem de otimismo e motivação…

 

 

...que não tem nada a ver com o que tem vindo de Hayley nos últimos anos.

 

Lembro-me de ter estranhado logo no dia em que saiu. A letra parece ter sido escrita do ponto de vista do Rose Colored Boy, com o tom otimista irritante de que Hayley se queixava em After Laughter. Diz essencialmente “what doesn’t kill you makes you stronger”

 

Cheguei a perguntar-me se Hayley tinha sido raptada e Over Yet era a maneira que arranjara de pedir ajuda. 

 

Hayley revelaria mais tarde que, de facto, estranhara a letra otimista que lhe estava a sair da caneta. Para terminá-la teve de se imaginar na pele (pele é como quem diz…) de uma instrutora de aeróbica num universo distópico futurista que, a meio da canção, perde a pele revelando ser um robô (podia ser uma personagem de Sonic Underground). De uma maneira paradoxal, para escrever esta letra luminosa, Hayley teve de aceder a uma parte bastante sombria de si mesma.

 

Eu confesso que, de início, não adorei a letra. Em parte por causa do timing: saiu no início de abril, em pleno estado de emergência. It’s the right time to come alive? Qual quê! Aquela ela a altura perfeita para não nos levantarmos da cama – para quê, se nem sequer podíamos sair de casa? Mesmo quando Hayley publicou um vídeo de aeróbica (com o cabelo pintando de laranja. Não me parece que tenha sido coincidência), não me entusiasmei – para ser justa, apanhou-me num mau dia.

 

No dia seguinte, no entanto, lá experimentei fazer os exercícios do vídeo. Durante todo o mês de abril e parte do mês de maio fiz este vídeo quase todos os dias, para compensar pela falta de natação e de longos passeios a pé.

 

 

Este sim é o tipo de exercício, de dança, que está dentro das minhas capacidades. Não digo que fizesse todos os passos na perfeição, mas ao menos mexia-me. De início fazia os exercícios de calças de ganga porque nem sequer tinha calas de fato de treino – como nunca fui de ir ao ginásio, nunca tinham feito falta. Além disso, nunca gostei de leggings e, parva como sou, não me lembrei de calças de pijama. Eventualmente comprei um par online.

 

O vídeo de Over Yet tornou-se, assim, parte da minha rotina durante o estado de emergência. Infelizmente, quando retomei o horário normal do trabalho, deixei de ter tempo – e, sejamos sinceros, energia – para fazer o vídeo. Eu na verdade devia retomar esse hábito… mas está demasiado calor. Em todo o caso, fez com que me afeiçoasse à música. 

 

Como referido acima, Hayley alega que a mensagem de Over Yet não é completamente honesta, insinuando mesmo que é uma paródia. O que é estranho, tendo em conta o conceito deste álbum. 

 

Além disso, a letra não me parece tão pouco genuína quanto isso. Pode aproximar-se perigosamente do cliché, mas incorpora o estilo de escrita de Hayley, dando-lhe um carácter próprio. Frases como “make it a friend”, “get out of your head” (um conceito familiar em saúde mental) e, sobretudo “for every darkened part of me, there’s a light I can see, both belong, both are me”). 

 

Não é a primeira vez que refiro aqui, aliás, que Hayley tem dentro de si partes cínicas e partes sonhadoras e isso nota-se na música dela. Ela pode racionalizar como quiser mas a letra de Over Yet veio de algum lado.

 

E não há mal nenhum nisso. Às vezes precisamos mesmo de uma música motivadora, mesmo que não muito original, para nos dar energia. Ou, pelo menos, para fazermos aeróbica em confinamento. 

 

 

Num álbum chamado Petals For Armor, era de esperar pelo menos uma canção sobre flores. Essa é Roses/Violet/Lotus/Iris. De início não achei grande piada ao título comprido – não teria sido melhor chamar-lhe Flowers ou Garden? Mas acabei por me habituar – sobretudo depois de decorarmos a letra do refrão. 

 

Musicalmente temos de novo a prevalência do baixo, mas também temos guitarra acústica e violinos delicados. A mim soa-me um pouco a música de fundo, à banda sonora de um documentário sobre a Primavera – o que até condiz com a letra. Confesso que precisei de algum tempo para tomar-lhe o gosto. A faixa conta com a participação das cantoras Julien Baker, Phoebe Bridger e Lucy Dacus, que formam o grupo boygenius. 

 

Roses/Violet/Lotus/Iris usa flores como metáfora para feminilidade e resiliência, força e vulnerabilidade em simultâneo. Uma analogia que, a própria Hayley admite, é tão velha como o tempo. Flores representam a jornada emocional de Hayley, de “mulher murcha”, abrindo caminho através da terra até desabrochar à superfície. Flores crescem a ritmos diferentes, sem se prejudicarem umas às outras, por vezes com a ajuda uma das outras.

 

O lótus em particular, referido no refrão, cresce em lama ou em águas estagnadas. Daí que, em várias culturas, simbolize beleza interior, pureza, renascimento, visto ser capaz de se alhear do ambiente feio e hostil onde nasce e desabrochar à superfície com grande beleza. 

 

Flores silvestres em geral, que adoro ver nos campos, sobretudo durante a primavera, nascem onde querem, quando querem, segundo as suas próprias regras. A papoila vermelha, a minha flor preferida, livre para crescer num campo qualquer. 

 

Roses/Violet/Lotus/Iris possui, assim, uma mensagem feminista sobre resiliência, rebeldia e solidariedade feminina. Um dos temas recorrentes nas entrevistas disse respeito à misoginia que teve de enfrentar ao longo de toda a sua carreira. 

 

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Ao mesmo tempo, nem sempre terá tido as melhores relações com outras mulheres. Veja-se a misoginia internalizada de Misery Business e também a história contada em Dead Horse. Uma das coisas que Hayley aprendeu nos últimos anos foi, então, a abraçar a sua própria feminilidade e a cultivar amizades com outras mulheres. Roses/Violet/Roses/Iris é uma homenagem a isso.

 

Segundo Hayley, Why We Ever reflete um ponto de viragem na sua vida. Conforme Sudden Desire dera a entender, Hayley entrara noutra relação após o seu divórcio. Até estaria a correr bem mas, segundo o que consigo deduzir das declarações de Hayley, o seu medo de ser magoada de novo levou a que sabotasse a relação – magoando o parceiro, ironicamente.

 

Uma coisa é Hayley sofrer por causa do seu passado, pelos múltiplos divórcios dos pais, pela falta de estabilidade na infância, pela relação tóxica que durou uma década. Outra coisa é quando outras pessoas, entes queridos de Hayley, saem magoados. 

 

Terá sido nesta altura que Hayley percebeu que os seus traumas, o seu medo de abandono, afetavam todas as suas relações, nem sequer apenas as românticas (eu pergunto-me mesmo se terão contribuído, pelo menos em parte, para os múltiplos conflitos nos Paramore). Atraía pessoas tóxicas e alienava pessoas boas. Estava na altura de mudar isso, de Hayley tomar responsabilidade pela sua própria saúde mental, identificar os seus maus hábitos e tentar mudá-los, aprender a amar melhor. 

 

Isto é tudo muito bonito (não estou a ser irónica), mas se ouvíssemos a música por si só, sem contexto, não chegávamos ao significado oficial. Why We Ever parece apenas sobre uma relação falhada, sobre saudades e arrependimento, em que a narradora quer uma oportunidade para pedir desculpa e consertar as coisas. Tudo muito vago – o que é uma pena. Se Why We Ever refletisse a história por detrás dela como deve ser, teria uma letra muito diferente. 

 

 

Musicalmente, Why We Ever é conduzida pelo teclado, a que mais tarde se junta o baixo, a bateria e notas de guitarra. Terá sido a primeira música que Hayley gravou sozinha em sua casa, usando o ProTools e equipamento que comprou em finais de 2018 – embora a primeira tentativa não tenha saído grande coisa. Dá para ver vídeos dessa experiência no seu Instagram

 

A mim recorda-me o cover de Nineteen, de Tegan e Sara, que Hayley gravou em 2017. Esta é uma versão minimalista, apenas com sintetizadores e voz. Tem um tom mais intimista e vulnerável que a versão original, parecido ao de Why We Ever.


Em retrospetiva, não admira que Hayley tenha gravado este cover naquela altura. A jovem teria, de facto, dezanove anos no início da relação com o, agora, ex-marido. E este cover saiu poucos meses após o anúncio do divórcio. Pergunto-me a quem se dirige o verso que Hayley acrescentou, “Could you blame me?”. Ao ex, a Sherri ou a si mesma?

 

E com isto chegámos ao fim da segunda parte de Petals For Armor, ou seja, ficamos por aqui hoje. Regressem amanhã para a terceira parte. 

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Hayley Williams, mais conhecida como vocalista dos Paramore, lançou no passado dia 8 de maio o seu primeiro álbum a solo, intitulado Petals For Armor.

 

Este álbum foi lançado três anos quase certinhos depois do último álbum dos Paramore, After Laughter. Como vimos na altura, este álbum fala sobre o que acontece quando a batata quente explode nas nossas mãos – aspetos da vida de quem lida com problemas de saúde mental ou que, pura e simplesmente, passa por… bem, tempos difíceis (desculpem-me, eu sei que é a terceira vez, não torno a repetir). 

 

Por incrível que pareça agora em retrospetiva, durante os trabalhos de After Laughter e mesmo durante quase todo o ciclo do álbum, Hayley nunca admitiu preto no branco, nem sequer a si mesma, que sofria de depressão. Deixava pistas numa entrevista ou outra, mas hesitava em chamar-lhe pelo nome – em parte para evitar títulos clickbait, em parte porque ainda não fora diagnosticada oficialmente. 

 

Hoje a jovem admite que estava em negação, a reprimir questões, emoções (sobretudo raiva) com que mais tarde teria de lidar. As letras de After Laughter foram apenas dos primeiros sinais.

 

Aliás, antes do lançamento de Petals For Armor, estive a ouvir todos os álbuns dos Paramore, em jeito de preparação. Reparei que After Laughter fala, de facto, de dor, de tristeza, mas não sobre as causas de tais emoções – tirando músicas como Forgiveness (que mesmo assim é muito vaga, falando apenas de ter sido magoada e não conseguir perdoar) e Tell Me How. 

 

Sabendo o que sabemos agora, dá para ver que After Laughter – ou seja, Hayley – não estava a contar a história toda. Foi apenas o começo.

 

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Praticamente toda a era After Laughter foi difícil para Hayley. Esta anunciou o divórcio de Chad Gilbert depois de apenas um ano de casamento poucas semanas após o lançamento do álbum. A certa altura, Hayley deixou de comer, começou a beber em excesso como auto-medicação para a sua depressão (e eu acho que também terá tido o seu quê de rebeldia à adolescente, pois o ex-marido é “straight edge”, não bebe álcool), deixou mesmo de ter ciclo menstrual.

 

Uma coisa boa dessa fase má foi que os seus amigos – membros oficiais da banda, membros acompanhantes, equipa técnica (é esse o termo?) em torno da banda – se uniu protetoramente em torno de Hayley, tomou conta dela. 

 

Eventualmente a saúde mental de Hayley melhorou um pouco. De qualquer forma, só quando o ciclo de After Laughter terminou é que a jovem começou a lidar a sério com os problemas que adiara durante meses, mesmo anos. Foi nessa altura que Hayley foi finalmente diagnosticada com depressão e stress pós-traumático, chegando mesmo a ser internada durante um breve período. 

 

Durante os tratamentos psicológicos, Hayley foi encorajada a compôr música para fins terapêuticos, apesar de os Paramore estarem em pausa por decisão conjunta. De início, Hayley queria pura e simplesmente lançar as músicas no Spotify sob um pseudónimo (duvido que resultasse, a voz dela é demasiado reconhecível), mas isso não faria justiça ao material. Daí Petals For Armor.

 

As primeiras músicas deste projeto foram lançadas no início d-e 2020 (parece que foi há anos). Na altura, analisei as primeiras duas, Simmer e Leave it Alone. Numa boa parte desse texto escrevi longamente sobre os anos anteriores a Petals For Armos em jeito de contexto. 

 

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Desde que publiquei essa análise, no entanto, Hayley deu muitas – mesmo muitas – entrevistas sobre os últimos anos, fornecendo muitos mais pormenores. Em vez de estar a reescrever a introdução da análise com base nessas entrevistas, só mencionarei essas informações quando estas forem relevantes para a análise das músicas. 

 

Até foi bom, por um lado, ter escrito esse texto antes dessas entrevistas todas. Permitiu-me o exercício de fazer as minhas próprias interpretações, com apenas o artigo no L’odet e pouco mais em que me basear e, mais tarde, ver onde tinha acertado ou não. 

 

Na verdade, Hayley lançou mais três músicas – Cinnamon, Creepin’ e Sudden Desire – poucos dias após eu publicar a minha análise. Anunciou também que o álbum sairia em três tranches (podia ter avisado logo que saiu Simmer, eu teria esperado pela primeira parte toda antes de escrever). A ideia era lançar a primeira parte no inverno (e assim aconteceu), a segunda no início da primavera, a terceira no dia 8 de maio (dia do lançamento oficial do álbum), perto do verão.

 

No entanto, o Coronavirus mexeu com esses planos – como mexeu com os planos de toda a gente para este ano. Numa altura em que ficou toda a gente em confinamento, Hayley decidiu lançar as músicas da segunda parte de Petals For Armor individualmente, mais ou menos uma por semana. A terceira parte, por sua vez, saiu toda no dia 8, à mesma.

 

Acabou por ser melhor assim. As músicas que iam saindo foram um bom consolo, um bom entretenimento durante o estado de emergência, uma altura em que praticamente não acontecia nada que não fosse Covid. Esperei pelo lançamento do álbum antes de escrever sobre as músicas, dando tempo a mim mesma para ir apreciando a espera.

 

Por outro lado, todas as entrevistas, todas as informações que Hayley forneceu sobre as quinze faixas deste álbum deram-me imensa matéria-prima para esta análise. Daí eu ter demorado tanto a escrevê-la, daí esta ter chegado às dez mil palavras. Assim, resolvi dividi-la em três partes – tal como Hayley fez com este álbum. Esta é a primeira parte, as outras duas saem amanhã e depois.

 

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Esta maneira de lançar o álbum fez-me lembrar o que aconteceu com Post Traumatic, de Mike Shinoda. Mike também começou por lançar três músicas no início de 2018, perto do fim de janeiro. Ao longo dos meses seguintes foi lançando outras, concluindo com o álbum completo em junho. O objetivo era criar uma ilusão de tempo real com o lançamento das canções. A própria tracklist segue uma ordem mais ou menos cronológica. 

 

O mesmo aconteceu com Petals for Armor. Também aqui as faixas estão organizadas por ordem cronológica. Hayley procurou lançá-las mais ou menos na mesma altura em que as compusera, no ano passado. As partes, aliás, correspondem todas a uma estação do ano. A primeira ao inverno (daí, como vimos acima, as músicas terem saído em finais de janeiro, princípios de fevereiro), a segunda à primavera, a terceira ao verão. 

 

O pior foi que 2020 não está a ser de todo o melhor ano para esse modelo. A primavera devia ser uma altura de maior leveza, mais luz, de esperança após os rigores do inverno. Só que, este ano, coincidiu com a chegada do Coronavírus a Portugal. Naquela que costuma ser a minha altura preferida do ano, com mais vontade de sair de casa – dias mais compridos, tempo mais quente, flores silvestres em todo o lado – tivemos de ficar em confinamento. 

 

Mais sobre isso adiante. 

 

Uma coincidência engraçada é o facto de os vocalistas das minhas três bandas preferidas da atualidade lançaram álbuns a solo como forma de lidar com momentos difíceis das suas vidas. Sharon den Adel, vocalista dos Within Temptation, criou My Indigo quando o pai adoeceu (acabando por falecer). Mike Shinoda criou Post Traumatic enquanto se tentava adaptar à vida sem o seu melhor amigo e co-vocalista dos Linkin Park, Chester Bennington (e tenho vindo a descobrir que várias das canções desse álbum se aplicam à pandemia, nomeadamente Nothing Makes Sense, Promises I Can’t Keep e World’s On Fire). E agora Hayley criou Petals For Armor após anos em depressão. Os três sentiram necessidade de se separarem das respectivas bandas para estes projetos em específico. 

 

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Os motivos são diferentes em cada um dos casos, contudo. My Indigo tem uma sonoridade bastante diferente da discografia de Within Temptation, tirando um elemento ou outro. Post Traumatic não está muito muito longe do território dos Linkin Park mas, para além de ser muito mais pessoal que o costume com a música da banda, foi criado no primeiro ano após a morte de Chester – demasiado cedo para os Linkin Park voltarem ao ativo. 

 

Os motivos de Hayley para lançar um álbum a solo são um híbrido dos dois acima. Se por um lado as letras dos Paramore foram sempre escritas por Hayley, segundo o seu ponto de vista, em termos musicais existe em Petals For Armor uma certa simplicidade e experimentalismo que talvez não ficasse bem na discografia da banda. Para começar, a maior parte dos vocais são baixos – algo que já tinha acontecido nos momentos mais vulneráveis de After Laughter. Hayley admitiu que não aquecia a voz antes das gravações e isso nota-se em vários dos agudos – Hayley soa mais rouca que o habitual.

 

Em termos de instrumentais, tirando um caso ou outro, estas músicas também não ficariam bem num álbum dos Paramore. A maior parte das faixas de Petals For Armor tem carácter próprio, distinto umas das outras, mas existem instrumentos comuns à quase todas. Nomeadamente a prevalência do baixo – já que muitas das músicas foram co-compostas por Joey Howard, baixista acompanhante. Havemos de ver com maior detalhe adiante. 

 

Além de que alguns dos temas abordados em Petals For Armor, como sexualidade e feminilidade, talvez não se encaixassem muito bem na discografia de uma banda com dois homens. 

 

Por outro lado, apesar de isto ser tecnicamente um projeto a solo de Hayley, os seus companheiros de banda não ficaram de fora. Taylor co-compôs várias faixas – apesar de Hayley ter contribuído mais do que antes para o instrumental – e produziu o álbum todo. Zac contribuiu menos mas sempre tocou bateria nalgumas faixas e realizou o vídeo de Dead Horse. 

 

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No outro dia dei com um meme que troçava das pessoas que acham que os Paramore são só Hayley. Eu ri-me em duplicado porque nem sequer Hayley a solo é apenas Hayley. Por outro lado, li algumas críticas a Petals For Armor dizendo coisas como “Hayley Williams liberta-se das restrições dos seus companheiros de banda” – só prova que o autor não fez o trabalho de casa. Como reza esta entrevista, Hayley está a solo, mas nunca sozinha.

 

Petals For Armor, na verdade, é um álbum de estreias, não apenas para Hayley. É o primeiro álbum a solo dela, é o primeiro em que é creditada na instrumentação, mas também é o primeiro álbum produzido a solo por Taylor. É também o primeiro em que Joey Howard compôs. E essa simplicidade e relativa ingenuidade dá carácter a Petals For Armor.

 

Como vimos acima, este álbum está dividido em três partes e um dos temas dessa divisão são estações. Hayley também afirmou que a divisão também se relaciona com elementos: a primeira parte representa o fogo, a segunda representa a terra, a terceira representa a água.

 

Com a primeira parte concordo, e explicá-lo-ei adiante. Com as outras não. A meu ver, a água e sobretudo a terra aparecem um pouco por todo o álbum, não se limitam apenas à segunda e terceiras partes.

 

O segundo, aliás, relaciona-se com os principais temas de Petals For Armor. Flores que emergem da semente, abrem caminho através da terra para florescerem à superfície. A definição de feminilidade segundo Hayley: mãos na terra, coisas ao mesmo tempo nojentas e belas, como menstruar e dar à luz.

 

Não é uma metáfora propriamente original, a própria Hayley admite-o. A figura da Mãe Terra, Mãe Natureza está presente em muitas culturas. 

 

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Na minha opinião, a imagem das mãos na terra também significa contacto com o próprio corpo. Na cultura judaico-cristã tenta-se fazer uma separação entre o corpo e a mente, mas estarão assim tão desligados um do outro? Afinal de contas, vários problemas de saúde mental, como depressão, estão ou podem estar relacionados com desequilíbrios químicos e/ou hormonais. 

 

Uma das lições, aliás, que Hayley aprendeu, conforme explica nesta entrevista, nestes últimos anos foi que os nossos corpos não mentem. A entrevistadora deu um exemplo de um amigo que percebeu que já não estava apaixonado pelo seu parceiro quando deixou de gostar do cheiro dele. 

 

O que, a mim, me recordam os primeiros meses com a minha Jane, por estranha que seja a comparação. Quem tenha lido este texto saberá que não foi um vínculo instantâneo, que as primeiras semanas não foram fáceis. No entanto, lembro-me que, na altura em que comecei a afeiçoar-me a ela, comecei a gostar do cheiro da cabeça dela, da textura do seu pêlo.

 

Por outro lado, Hayley revelou sofrer de dores de estômago constantes durante imenso tempo. Há uns anos referiu em entrevista ter surtos de acne durante as piores crises dos Paramore. E, como já referimos antes, a perda do seu ciclo menstrual por causa do stress do casamento.

 

Existem várias referências a contacto com o corpo em Petals For Armor. Em Simmer, Hayley fala sobre sentir o rubor da raiva no rosto. Em Cinnamon fala sobre tomar o pequeno-almoço nua. Em My Friend, o amigo em questão (Brian, o esteticista de Hayley e co-fundador da Good Dye Young) viu-a “de todos os lados”. Em Roses/Violet/Lotus/Iris promete não comparar o seu corpo, a sua beleza, com os dos demais (sobretudo os das demais). 

 

Também aborda o lado sexual do contacto com o próprio corpo: veja-se Sudden Desire e a cena da banheira e das ostras no videoclipe de Cinnamon.

 

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Por fim, não é por acaso que Watch Me While I Bloom, o mais parecido com uma canção de vitória em Petals For Armor, abre com "How lucky I feel to be in my body again". 

 

Mas falemos então sobre a primeira parte do álbum. Durante algum tempo não tive a certeza sobre qual das músicas abriria o álbum: Simmer ou Leave it Alone. Acabou por ser Simmer, o que faz sentido: pela introdução com o som de perigo, os fôlegos simbolizando alívio de tensão, a poderosa primeira frase: "Rage is a quiet thing".

 

Como referido antes, escrevi sobre Simmer na altura em que saiu. Fico feliz por ter acertado nas minhas interpretações no que toca à raiva no feminino. E, de certa forma, na parte de a segunda estância ser difícil para Hayley. Esta revelou em entrevistas que quando tentou gravar estes versos pela primeira vez teve de interromper a meio. 

 

Simmer de resto adequa-se ao ano em que saiu, sobretudo pelos protestos do #BlackLivesMatter. Não tenham dúvidas, estes resultam de raiva que borbulhou durante anos, mesmo décadas, até finalmente servir de combustível a estas manifestações. E já teve o efeito de, entre outras coisas, pôr a sociedade portuguesa a falar sobre racismo como nunca falara antes. Não é suficiente, mas é um começo. 

 

 

Continuo a gostar imenso de Simmer, acho que é uma das melhores em Petals For Armor. Quando uma pessoa pensar em raiva, o mais certo é pensar em algo exuberante, barulhento, agressivo. No entanto, por vezes uma raiva explosiva, que se pode confrontar diretamente, assusta menos que uma raiva controlada, que borbulha sob a superfície – porque pode entrar em erupção a qualquer momento. Simmer representa bem essa ideia, com a instrumentação relativamente minimalista e os vocais contidos, magnéticos, de Hayley.

 

Além disso, esta música ensinou-me uma maneira de lidar com a raiva e seus derivados (irritação, impaciência): respirar fundo e sussurrar para mim mesma “simmer simmer simmer simmer simmer… Simmer simmer simmer simmer simmer”, como no vídeo de interlúdio. Tendo em conta o número de covidiotas com que tive de lidar ao longo dos últimos meses, o truque veio em boa altura.

 

Em relação a Leave it Alone, as minhas opiniões não mudaram. Depois de ter de ouvi-la em loop para escrever sobre ela, durante muito tempo não quis ouvi-la pelos motivos que expliquei nessa análise. Em minha defesa, a própria Hayley admite que nem sempre lhe é fácil ouvir Leave it Alone – é uma música pesada em termos de emoções.

 

No entanto, ouvindo-a no contexto do álbum não deprime tanto. 

 

Nesse sentido, o lançamento de Cinnamon, poucos dias depois de concluir a minha análise, veio mesmo a calhar: o sabor doce e amadeirado da canela para contrabalançar com a amargura deixada na língua por Leave it Alone. 

 

Cinnamon é uma das minhas preferidas em Petals For Armor, deliciosamente esquisita – com uma letra que fala de coisas deliciosamente esquisitas e um videoclipe deliciosamente esquisito. Esta crítica descreveu-o de forma soberba: é como se tivesse sido composta do ponto de vista da velhota com cinco gatos (embora Hayley pareça gostar mais de cães). 

 

 

Segundo Hayley, Cinnamon começou com ela brincando na bateria de Taylor. A jovem, aliás, toca vários instrumentos nesta: guitarra, teclados, parte da bateria. É este último instrumento que, de resto, conduz a música: os outros pura e simplesmente vão-se juntando.

 

É um exemplo da simplicidade e ingenuidade que referimos acima, de que Hayley falara na nota de apresentação de Petals For Armor.

 

Em termos de letra, Cinnamon é uma ode à casa de Hayley. A mesma que estava infestada de morcegos, tal como amplamente comentei na análise a Simmer e Leave it Alone. Fiquei aliviada por saber que Hayley pagou a uma empresa para se livrar dos morcegos (dez mil dólares, o que não é nada barato mas, meu Deus… morcegos numa casa!). Eventualmente Hayley começou a decorá-la a seu gosto a pouco e pouco, e a casa tornou-se o seu refúgio.

 

Não admira que Hayley esteja tão apegada à sua casa, tendo em conta que, em criança, nunca teve uma morada fixa. Pais divorciados quando ela era muito pequena. Anos mais tarde ela e a mãe tiveram de fugir do companheiro desta: mudaram-se do Mississipi para Franklin, viveram em hotéis, numa caravana, em casas de amigos, num apartamento com móveis doados. 

 

Entretanto, Hayley juntou-se aos Paramore, passou os últimos anos da sua adolescência em digressão. Mesmo quando arranjara as suas próprias casas, era já tendo em consideração o, agora, ex-marido. 

 

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Esta é a primeira casa que é verdadeiramente sua. Onde é livre para exprimir o seu lado feminino, o seu lado estranho, para acender as luzes todas, para andar nua. Um pouco como Party For One, de Carly Rae Jepsen – Cinnamon é também um hino de introvertidos.

 

A letra de Cinnamon faz também referência a Alf, o cão de Hayley, que também faz vezes de psicólogo. Queria tirar uns parágrafos para falar da coisinha peluda de Hayley. No momento mais doloroso da primeira entrevista com Zane Lowe, a jovem revelou que o motivo pelo qual ela não sucumbiu à depressão foi porque sabia que Alf ficaria à espera que ela regressasse a casa. 

 

Não vou dizer que não compreendo. Quem tem cão – ou mesmo quem conheça a história do Hachiko – compreende. Pode parecer algo frio falar de um animal antes de falar dos seus pais, dos seus avós, de Taylor, Brian, Zac, etc, mas acho que consigo perceber o raciocínio toldado pela depressão de Hayley. Os seus entes queridos humanos conseguiriam compreender o que acontecera, racionalizar, seguir em frente.

 

O que é um disparate. Se eu ainda não consegui aceitar o que aconteceu a Chester e nem sequer conhecia o homem… Mas pronto, depressão.

 

Alf, por sua vez, nunca saberia o que acontecera, ficaria sempre à espera. 

 

Nunca tive pensamentos suicidas assim tão graves, felizmente, mas posso testemunhar que ter um cão, como a minha Jane, dá motivo para viver. E de facto dão bons psicólogos. Ainda há uns tempos estava eu a chorar – stress do trabalho e do Coronavírus – e a Jane deixou-me abraçá-la (algo que nem sempre deixa).

 

*pausa para sessão de festinhas à Jane*

 

 

Regressando à casa em si, Hayley assume mesmo que esta é uma metáfora de si mesma. Assustadora, cheia de morcegos, despida em 2017, melhorando ao longo dos anos seguintes, ganhando carácter e beleza à sua maneira.

 

O videoclipe reflete essa metáfora: o último da trilogia que inclui Simmer e Leave it Alone. Hayley emerge do casulo e explora a casa onde fora parar. Uma casa habitada por figuras sem rosto – personificações da própria casa, da mobília, da decoração. Mesmo dos demónios de Hayley, dos seus lados esquisitos, da sua feminilidade. Como acontecera na vida real com a casa verdadeira, de início Hayley teve medo, mas começa a rever-se nas estranhas figuras e decide ficar.

 

O momento mais inesperado do vídeo de Cinnamon é a coreografia. Hayley alega que esta é a primeira vez que dança oficialmente desde que teve aulas de hip-hop antes de se juntar aos Paramore. No entanto, fãs que foram aos concertos da digressão de After Laughter não ficaram surpreendidos, garantem que Hayley sempre soube dançar.

 

Confesso que esta parte está além das minhas capacidades. Também tive aulas de hip-hop, mais ou menos na mesma idade que Hayley. Não tinha jeito absolutamente nenhum para aquilo. Gosto de dançar, mas à parva, sem coreografia – ou então coreografias muito simples, muito básicas, estilo… aeróbica (mais sobre isso adiante).

 

A música seguinte no álbum é Creepin’. À semelhança de muitas neste álbum, é conduzida pelo baixo. Hayley toca guitarra, teclado, mas a faixa conta também com a participação de Mike Weiss, guitarrista dos MewithoutYou, a banda preferida de Hayley. A faixa tem um tom sombrio mas também vagamente dançante. 

 

 

A letra fala sobre vampiros de energia. Para quem não sabe (eu não sabia), vampiros de energia são pessoas tóxicas, egoístas, egocêntricas, que sugam a felicidade, a energia emocional, das pessoas que as rodeiam. Tais pessoas são incapazes de empatia, o mundo gira à volta delas, deixam os demais exaustos só de lidar com elas. 

 

Não sei se alguma vez conheci pessoas que se encaixem perfeitamente nesta definição, mas conheci parecidas – colegas de escola ou de faculdade, utentes da farmácia… Uma delas nem sequer posso descrever como má pessoa, mas exigia sempre atenção, metia-se em conversas e assuntos que não lhe diziam respeito, nunca percebia quando não era desejada, fazia-se sempre de vítima. 

 

Outra é uma utente da farmácia, tão egoísta, tão tóxica, que eu e as minhas colegas suspeitamos que afastou toda a gente da sua vida. Nós somos as únicas que a aturamos porque não podemos dizer-lhe “não” – por enquanto. 

 

Eu na verdade tenho vindo a aperceber-me, nestes últimos meses, que os verdadeiros vampiros de energia são as redes sociais, nomeadamente o Twitter e o Facebook. Esses sim, sugam a energia e a vontade de viver de nós, com tanto sensacionalismo e discussões estúpidas (embora hajam alturas piores do que outras). Nos tempos mortos tenho tentado trocar essas redes pelo Kindle e pelo TV Tropes. 

 

Em Creepin’, Hayley usa imagens vampirescas para dizer que ela e os seus já não se deixam afetar pela toxicidade (“We bleed holy water”, “I’m a moon in daylight”). No refrão diz que basta baixar a guarda por um bocadinho para o vampiro cravar os dentes e não largar mais. E se o bicho quer sugar parte dela, que sugue as recordações do ex-marido. 

 

É uma música gira, mas não está entre as minhas preferidas.

 

 

Uma que está, no entanto, é Sudden Desire. Esta é outra conduzida pelo baixo, num tom intimista que ganha intensidade no refrão, acompanhando os vocais impressionantes de Hayley. Na altura em que esta música saiu, era a primeira vez em muito tempo que ouvíamos Hayley a atingir tais agudos – After Laughter teve poucos momentos assim, infelizmente, embora seja compreensível porquê.

 

A meu ver, Sudden Desire é o equivalente a Simmer mas para outro pecado capital segundo o cristianismo: a luxúria. Esta no entanto é diferente da raiva. Toda a gente sabe que o cristianismo sempre teve uma relação complicada com a sexualidade. 

 

Durante séculos a Igreja pregou que o sexo fora do casamento era pecado (isto apesar de terem havido papas sexualmente ativos durante o seu pontificado, um rei português cuja amante preferida era uma freira e, pior de tudo, inúmeros praticantes de pedofilia no seio da Igreja). A nossa sociedade é cada vez mais laica, o que é uma coisa boa, mas ainda não conseguimos libertar-nos por completo de tais crenças.

 

Pegando de novo no conceito de contacto com o próprio corpo, eu penso que este desconforto da Igreja com o erótico poderá ter a ver com a separação do corpo e da mente. Acho também que, na prática, a diabolização da sexualidade serviu, sobretudo, para manter as mulheres sob controlo, para reprimir a sua libido, de modo a que os homens não tivessem dúvidas sobre a paternidade dos seus filhos. 

 

E isto nem sequer é um exclusivo do cristianismo. Vejamos a mutilação genital feminina, que afeta 200 milhões de mulheres e meninas no mundo inteiro.

 

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Admito que não sou a melhor pessoa para escrever sobre libertação sexual ou mesmo sobre sexo, ponto. Em todo o caso, na minha opinião, no que toca ao erótico, o importante é haver respeito, consentimento das partes envolvidas e maturidade para lidar com as consequências – sejam elas biológicas (gravidez no caso de pénis-em-vagina, doenças sexualmente transmissíveis, etc) ou emocionais.

 

Sudden Desire parece, aliás, falar sobre isso: sobre o desejo físico e sobre o medo das consequências emocionais. Hayley começou a namorar com o, agora, ex-marido quando tinha dezoito ou dezanove anos. Provavelmente foi o seu primeiro parceiro sexual, ou um dos primeiros. Como se sabe agora, essa relação não era das mais saudáveis e Hayley admitiu, sem dar pormenores, que isso afetou a maneira como olhava para o seu corpo, para os seus desejos.

 

Depois do divórcio, Hayley chegou a achar que ficaria celibatária até ao fim dos seus dias. No entanto, o seu corpo continuava a ter necessidades. Ela conheceu alguém, desejava-o – o que, ao mesmo tempo, excitava-a e aterrorizava-a porque, da última vez que se envolvera sexualmente com alguém, queimara-se. 

 

A linguagem que Hayley usa é particularmente violenta: "Your fingerprints on my skin, a painful reminder" 

 

A letra usa um elefante como metáfora. Confesso que, da primeira vez que a ouvi falar de segurar um elegante com a mão, passou-me pela cabeça uma imagem mais… explícita. No entanto, deverá ser uma metáfora para a luxúria em geral. 

 

É interessante o facto de Hayley não se referir à sexualidade como uma serpente, como na mitologia judaico-cristã, com como um qualquer animal selvagem, feroz. Em vez disso descreve-a como um gigante gentil, amigável, sem malícia, que não sabe a força que tem. Da mesma forma, fala de andar de mãos dadas com ele, ouvir o que ele tem para dizer, em vez de reprimi-lo por completo ou de ser dominada por ele (“Better to walk beside it than underneath”).

 

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Gosto imenso desta música, tanto pela sonoridade como pela forma diferente como fala sobre sexualidade.

 

Sudden Desire encerra a primeira parte de Petals For Armor. Como referido acima, o elemento que representa esta secção é o fogo. Simmer e Sudden Desire são óbvias – o fogo é uma metáfora comum para raiva e desejo sexual. Em relação a Cinnamon, canela, a especiaria que dá o título à música, se ingerida durante o tempo frio, produz uma sensação de calor (embora também produza o efeito contrário: induzindo uma sensação de frescura durante o tempo quente). No que toca a Creepin’, que fala sobre vampiros de energia e usa metáforas vampirescas, o sol é uma conhecida fraqueza dos vampiros. Mesmo o próprio fogo pode ser usado contra vampiros nalguns cânones.

 

Por hoje ficamos por aqui. Acho que faz sentido fazermos a divisão da análise coincidindo com a divisão oficial do álbum. Hoje foi a primeira parte, amanhã será a segunda e, no domingo, a terceira.

 

Acabo de me aperceber que se completam hoje oito anos desde que estreei este blogue. Oito anos.... Eu sabia que já tinha começado há algum tempo mas oito anos... 

 

Muito orgulhosa do que tenho feito até agora com este blogue. Calha bem estar a publicar a primeira parte desta análise hoje – um texto que andava a preparar há semanas, que ansiava partilhar com vocês desde fevereiro ou março. 

 

Fica aqui uma palavra de agradecimento pelo vosso apoio e companhia ao longo destes anos. Quero continuar a publicar bons textos neste blogue, mesmo que estes demorem um bocado. A muitos anos de blogue! Amanhã há mais!

 

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