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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #3

Terceira parte da análise a Petals For Armor. Podem ler as partes anteriores aqui e aqui

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Vamos agora começar a falar sobre a terceira parte do álbum, a tal que representa a fase da borboleta. Esta é a parte mais homogénea das três – tirando Watch Me While I Bloom, todas as faixas são canções de amor, todas sequelas maduras a The Only Exception, de uma forma ou de outra. Não surpreende que estas músicas tenham sido lançadas todas de uma vez, com o resto do álbum. São muito parecidas umas com as outras, talvez até demasiado parecidas, não fazia sentido individualizá-las.

 

Suponho que o elefante na sala seja o novo amor na vida de Hayley, depois do divórcio. Não se sabe se é o mesmo referido em Sudden Desire e Why We Ever – se ela conseguiu reparar a relação que sabotou – ou se é outro homem. Pessoalmente inclino-me para a primeira hipótese, mas é um mero palpite, não tenho nada em que me basear. 

 

Hayley tem explicado muito sobre as músicas deste álbum, mas não revelou a identidade do seu novo companheiro. Não tem essa obrigação. A filosofia Petals For Armor é muito bonita e tal, mas quando envolve outra pessoa o caso muda de figura (aqui entre nós, já é um bocadinho questionável não conhecermos a perspetiva do ex no que toca ao casamento falhado). 

 

Quase toda a gente diz que é o Taylor. Eu sinceramente espero que não. Em parte porque, da última vez que ela namorou um companheiro de banda, a coisa correu mal (é certo que Hayley e Taylor já não são adolescentes… mas mesmo assim).

 

Enfim. Quando Hayley e o namorado estiverem para aí virados (isto se não tiverem acabado entretanto), logo anunciam a relação. Eu pessoalmente não tenho pressa em saber.

 

 

Pure Love, que abre a terceira parte, parece uma resposta direta aos erros cometidos aquando de Why We Ever (isto é, segundo o contexto dado por Hayley). Uma vez mais, musicalmente é guiada pelo baixo e pela bateria, com um ritmo interessante. Quando começam os vocais começa também o teclado (é Hayley quem o toca, pelo menos uma parte. Gosto em particular das notas claras no refrão, a condizer com os agudos (menos polidos, sobretudo nos últimos refrões) de Hayley.

 

A letra de Pure Love é essencialmente a filosofia Petals For Armor aplicada ao romance. Essencialmente, para fazer o seu amor resultar, Hayley teve de aprender a deixar cair os muros, a ser vulnerável, a ser forte em vez de impermeável, como vimos antes. Hayley está disposta a fazer a sua parte para que a relação resulte (“I give a little, you give a little”).

 

No refrão, Hayley fala em ser “experimental”. Segundo ela, é no sentido de descobrir como é ter uma relação adulta e saudável – a primeira da sua vida – ultrapassando o seu medo de intimidade. Também admitiu que pode ser interpretado no sentido sexual, mesmo não tendo sido essa a sua intenção quando escreveu a letra – iria em linha com o tema de Sudden Desire, na minha opinião.

 

Quase todas as músicas desta parte do álbum andam à volta deste tema. Fazem-me lembrar o casal Emma e Hook em Once Upon a Time. Não foi por acaso que me lembrei dela, entre outras personagens, quando Hayley apresentou a filosofia Petals For Armor. Lá está, o romance Captain Swan foi apenas a faceta romântica da coisa – foi, aliás, o último muro a cair.

 

Taken é muito parecida com Pure Love, parecendo quase uma continuação desta última. A instrumentação é praticamente a mesma: baixo, percussão, teclados (ainda que estes últimos só apareçam no refrão). Tem no entanto notas de guitarra que lhe dão um toque de blues – eu gosto. A melodia é mais grave, sem os agudos de Pure Love.

 

 

Mesmo a letra acaba por entrar em territórios parecidos, de uma forma mais vaga até. Fala sobre acreditar de novo no amor, estar disposta a arriscar, tornar oficial: Hayley já não está o mercado. Acrescenta pouco a um álbum que já tem Pure Love e Crystal Clear.

 

Não me interpretem mal, eu gosto de Taken – gosto do ritmo e das influências de blues. No entanto, se tivesse de retirar uma faixa a Petals For Armor, retirava esta – na minha opinião, seria a única em que não se notaria a falta.

 

Sugar on the Rim é uma das músicas mais divertidas e experimentais de todo o álbum. Está entre as minhas preferidas. Claras influências disco nos sintetizadores, os vocais meio artificiais repetindo “sugar on the rim”, o tom algo sexy. Definitivamente nada compatível com o que os Paramore fariam.

 

O título da música vem de uma técnica de preparação de cocktails, em que se fixa açúcar na borda no copo para enfeitar ou alterar o sabor de uma bebida. Brian uma vez fez isso com uma margarita durante um almoço com Hayley (com margaritas é mais comum usar-se sal), dando a ideia para esta canção. 

 

Esse açúcar na borda do copo serve de metáfora (bem… comparação, se quisermos ser rigorosos) para o amor, a alegria que contrabalança com a infelicidade. Ao contrário do Rose Colored Boy, não ignora o lado negro da vida – pelo contrário, Hayley fala em brincar com as sombras, diz que não tem medo do escuro. As coisas boas são suficientes para aguentar as coisas más – no final, doce é o sabor que fica nos lábios (pode também ser uma referência ao amargo em Leave it Alone).

 

 

Por outro lado, Hayley revelou que esta canção também é dedicada à comunidade gay. Suponho que seja por causa do “rimming” (vão ao Google… não em público, atenção!). Mas também a parte da vergonha e de viver escondido é algo com que, infelizmente, muitos da comunidade LGBT se poderão identificar.

 

É um conceito original e uma música muito gira. Se algum dia Hayley conseguir levar este álbum aos palcos, Sugar on the Rim será um ponto alto.

 

Watch Me While I Bloom é a única música nesta parte do álbum que não é uma canção de amor. Funciona um pouco como uma sequela a Rose/Violet/Lotus/Iris no sentido em que usa de novo metáforas florais – sobretudo na parte do “I myself was a wilted woman (...) forgot my roots, now watch me bloom”

 

É sobretudo a canção de vitória de Hayley, que depois dos anos mais difíceis da sua vida, voltou a ser quem era, sente emoções boas de novo. Uma Tell Me It’s Okay mais madura. Hayley está pronta para sair do seu casulo, para desabrochar, para mostrar um novo lado de si mesma. 

 

A música começa precisamente com “How lucky I feel to be in my body again” – aquilo que falámos antes sobre contacto com o próprio corpo. Por outro lado, ninguém me convence que o verso “Big invisible spark” não é uma referência a Let the Flames Begin, Part II e em particular Last Hope.

 

Hayley tem chamado a atenção para os versos “If you feel like you’re never gonna reach the sky ‘til you pull up your roots, leave your dirt behind, you’ve got a lot to learn”. Temos muito a tentação de esperar que a nossa vida esteja perfeitamente resolvida, com as pontas todas atadas, antes de irmos atrás do que queremos. Ou de achar que o processo é linear, que nunca daremos passos atrás. 

 

 

Ora, a vida não funciona assim. Nunca seremos perfeitos, nunca teremos as respostas todas e não podemos ficar parados por causa disso.

 

Havemos de regressar a essa ideia. 

 

Chegamos finalmente a Crystal Clear, a faixa que encerra Petals For Armor, outra que está entre as minhas favoritas. Esta foi outra das poucas em que Hayley não participou na composição da parte musical. Desta feita foi Taylor quem criou este instrumental, com notas de órgão algo etéreas e batidas à Phil Collins. 

 

Uma vez mais temos uma canção romântica, que fala sobre arriscar de novo, acreditar no amor. Quer-me parecer, no entanto, que quando Hayley promete não ceder ao medo não se refere apenas ao romance – também se pode aplicar a outras áreas da sua vida.

 

O título, aliás, pode também aludir à filosofia Petals For Armor. Crystal Clear, transparência, honestidade, vulnerabilidade.

 

Hayley recorre de novo a metáforas aquáticas para falar de um relacionamento amoroso, desta feita numa luz muito mais positiva – o que condiz com a sonoridade, que faz pensar em águas calmas e transparentes, raios de luz atravessando o subaquático. Ao contrário do romance descrito em Pool, este dá-lhe oxigénio em vez de tirar-lho. Não tem medo de mergulhar até ao fundo porque a água continua transparente. Hayley está a arriscar de novo – pode ser que seja desta. 

 

 
 
 
 
 
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O pormenor delicioso desta canção ocorre na parte final, com versos cantados por Rusty Williams, o avô de Hayley – ela trata-o por “Grandat”. Rusty era um “crooner” quando era jovem (consta que era o nome dado a cantores masculinos que cantavam baladas, como Frank Sinatra por exemplo) e Hayley cresceu ouvindo-o cantando canções de amor compostas por ele mesmo. A sua preferida é uma chamada Friends or Lover. Um dia, Rusty tocou-a ao piano em casa de Taylor. Este gravou-a e, como surpresa para Hayley, incorporou uma parte dos vocais de Rusty em Crystal Clear.

 

O Taylor é um anjo.

 

Ficamos assim a saber a quem Hayley sai. A jovem fala muito sobre os avós, que começaram a namorar aos doze anos e ainda hoje estão juntos (isto é, dentro do possível, foi esta a avó que caiu das escadas e perdeu faculdades). É super amoroso, uma bonita homenagem àquela que será a história de amor preferida de Hayley.

 

E é isto Petals For Armor. Como fomos observando, este álbum começou sombrio e tornou-se gradualmente mais luminoso. Mas não nos deixemos enganar, nenhum destes casos ficou completamente resolvido. Hayley afirmou que a sua vida contiua uma confusão, que ainda passa por cada uma das músicas de Petals For Armor. Ainda sente raiva, luto, medo, dor, amor, tudo. Ainda não tem todas as pontas atadas, ainda tem lições por aprender. “As histórias são infinitas, cada uma delas entrelaçada com dor e esperança”, escreveu ela quando lançou o álbum.

 

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Confesso que foi este o meu erro durante a era do Self-Titled: achar que já sabíamos tudo, que nunca voltaríamos atrás, que de alguma forma tínhamos ficado prontos para enfrentar qualquer coisa. Daí o choque quando Jeremy saiu da banda e com os temas abordados em After Laughter. A vida não é assim tão simples, de facto – e se a atual pandemia provou alguma coisa foi que tudo pode mudar de um momento para o outro, quase sem darmos por isso.

 

Por estranho que pareça depois deste testamento todo, ainda estou a processar o álbum. Gosto de todas as faixas, algumas mais do que de outras, mas não consigo escolher uma única como favorita absoluta. As minhas opiniões estão sempre a mudar. Daqui a uns meses, se calhar, terei novas coisas a dizer sobre este álbum.

 

Posso adiantar desde já, de qualquer forma, que Petals For Armor é um belo trabalho. Em termos musicais, é razoavelmente consistente em termos de instrumentação, conforme assinalado ao longo deste texto, mas é bastante eclético em termos de estilos musicais. Temos pop, new wave, disco, baladas, um bocadinho de rock, um bocadinho de jazz, um bocadinho de blues… Hayley e Taylor tiveram uma oportunidade de sair do território habitual dos Paramore, divertir-se um bocadinho noutros estilos musicais. Eu gosto de músicos multifacetados, que conseguem criar música em vários géneros – até porque eu mesma sou multifacetada, nunca fui de me interessar por uma só coisa.

 

Petals For Armor assemelha-se a álbuns como Melodrama e Post Traumatic no sentido em que as músicas funcionam muito bem como conjunto. O álbum é melhor que apenas o somatório das suas partes: vale tanto pelas músicas individuais como pela história que contam em conjunto. Um capítulo da história de Hayley, que continuará no próximo disco que ela lançar (quer a solo ou, mais provável, juntamente com os Paramore). 

 

Tivemos, aliás, uma combinação de temas novos, com perspectivas diferentes, com temas já recorrentes no cânone dos Paramore e não só. Raiva, luto, desejo, feminilidade no primeiro caso. Amizade, esperança, redenção, desgostos românticos e acreditar de novo no amor no segundo. Há coisas que são clichés por algum motivo – há lições que temos de estar sempre a aprender. 

 

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Devo dizer, ainda, que foi divertido estar a olhar para as metáforas e temas recorrentes deste álbum, mesmo nem todos sendo super originais. E estou grata por Hayley ter dado tantas entrevistas, fornecido tanto material para esta análise. Demoro mais tempo a escrever, escrevo autênticos testamentos – gastei quase noventa páginas A5 com o primeiro rascunho manuscrito (é certo que a minha letra é grande), isto já vai em quase dez mil palavras – mas é uma delícia.

 

O que acontece agora? O plano de Hayley era ir em digressão, levar Petals For Armor aos palcos, mas isto é 2020, um péssimo ano para planos. Ela tenciona ir em 2021, mas sabe-se lá se será possível – até porque a situação está catastrófica nos Estados Unidos. Não dá para calcular quanto tempo durará a era Petals For Armor – talvez mais um ano, talvez mais dois. Talvez a pausa nos concertos se prolongue tanto que Hayley se canse de esperar e ela e Taylor comecem a trabalhar noutra coisa. 

 

Já que falamos nisso, Hayley tem deixado pistas em relação à direção tomada no próximo álbum dos Paramore. Para o júbilo de muitos fãs, a jovem admitiu que ela e Taylor têm saudades das guitarras pesadas dos álbuns pré-After Laughter. 

 

Eu devo ser a única fã da banda que não fazia questão de regressar a essa sonoridade. Adoro as músicas antigas deles, claro que adoro, mas fazem parte do passado – tal como o cabelo cor de chama de Hayley. Nunca lhes pediria para voltarem para trás – a uma altura em que, agora sabemos, eles não estavam assim tão felizes. Não quando, hoje em dia, continuam a fazer música de qualidade, melhor até nalguns aspetos.

 

Mas se eles mesmo quiserem regressar a esse estilo não me queixo. O mais certo é adorar à mesma – tenho adorado todos os álbuns até agora… 

 

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Na verdade, mais do que o género musical, estou curiosa em relação à influência de Petals For Armor nos próximos trabalhos dos Paramore. Irá Hayley contribuir para a composição dos instrumentais ou voltará ao hábito antigo de esperar pelo material composto por Taylor e Zac? Por falar em Taylor, irá ele produzir os próximos álbuns sozinho? (Tenho quase a certeza que sim.) Voltarão a compôr com Joey? Irão incorporar estilos de Petals For Armor na música da banda?

 

Eu espero que sim, espero que algumas coisas mudem. Na minha opinião, seria um desperdício não aproveitar o que aprenderam com Petals For Armor para enriquecer o som dos Paramore.

 

Eu, aliás, tenciono escrever em breve sobre All We Know is Falling e Brand New Eyes, os dois álbuns que me faltam analisar. Estes são daqueles textos que ando a adiar há anos mas, pelo menos neste caso, estou contente por ter esperado. Não só porque, como já é habitual no cânone dos Paramore, Petals For Armor fez com que olhasse de maneira diferente para esses álbuns. Mas também Hayley prestou novos testemunhos sobre esses períodos nas múltiplas entrevistas que deu, em particular nesta.

 

Não vou escrever já já sobre esses álbuns. Depois de tanto tempo à volta de Petals For Armor, preciso de uma pausa de tudo o que se relacione com os Paramore.

 

Os meus planos a curto, médio prazo para este blogue ainda estão um bocadinho incertos. Estou a pensar escrever uma entrada de Músicas Ao Calhas, um texto mais rápido e curto que estes últimos dois e, possivelmente, os textos seguintes.

 

É aí que as coisas estão um pouco indefinidas. Já revelei antes que quero escrever sobre Hybrid Theory e Meteora dos Linkin Park em breve. Queria no entanto que o primeiro saísse no dia em que completa vinte anos, ou seja lá para 24 de outubro. Provavelmente começo já a escrever sobre ele em agosto. Sei que o texto vai demorar e, como em setembro e outubro devo estar ocupada com o meu outro blogue (porque, se tudo correr bem, a Seleção irá regressar, fazendo de mim uma mulher feliz), mais vale deixar o trabalho adiantado.

 

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Pelo meio, gostava de escrever sobre o filme Digimon Adventure: Last Evolution Kizuna, quando conseguir vê-lo. Tecnicamente já dá para sacar na Internet, mas é uma versão de fraca qualidade, não me atrai. Talvez se surgir uma versão melhor entretanto… mas mesmo assim não sei. Supostamente o filme sairá nos cinemas portugueses a 12 de novembro – se isso se cumprir, eu quero ir ver, mesmo que já tenha visto o filme antes. E talvez espere por essa data para escrever e publicar a análise.

 

É assim que tenho sobrevivido a isto tudo: escrevendo, lendo, vendo Digimon (os episódios da nova versão de Adventure ao domingo e, quando esta esteve em pausa porque Covid, vi Frontier pela primeira vez), jogando Isle of Armor, a expansão de Pokémon Sword&Shield, recordando antigos jogos da Seleção Nacional, sobretudo no Euro 2016. Sempre foi mais ou menos assim, agora ainda mais. Como sempre, obrigada por lerem e por me aturarem. Até à próxima!

Hayley Williams – Petals For Armor (2020) #1

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Hayley Williams, mais conhecida como vocalista dos Paramore, lançou no passado dia 8 de maio o seu primeiro álbum a solo, intitulado Petals For Armor.

 

Este álbum foi lançado três anos quase certinhos depois do último álbum dos Paramore, After Laughter. Como vimos na altura, este álbum fala sobre o que acontece quando a batata quente explode nas nossas mãos – aspetos da vida de quem lida com problemas de saúde mental ou que, pura e simplesmente, passa por… bem, tempos difíceis (desculpem-me, eu sei que é a terceira vez, não torno a repetir). 

 

Por incrível que pareça agora em retrospetiva, durante os trabalhos de After Laughter e mesmo durante quase todo o ciclo do álbum, Hayley nunca admitiu preto no branco, nem sequer a si mesma, que sofria de depressão. Deixava pistas numa entrevista ou outra, mas hesitava em chamar-lhe pelo nome – em parte para evitar títulos clickbait, em parte porque ainda não fora diagnosticada oficialmente. 

 

Hoje a jovem admite que estava em negação, a reprimir questões, emoções (sobretudo raiva) com que mais tarde teria de lidar. As letras de After Laughter foram apenas dos primeiros sinais.

 

Aliás, antes do lançamento de Petals For Armor, estive a ouvir todos os álbuns dos Paramore, em jeito de preparação. Reparei que After Laughter fala, de facto, de dor, de tristeza, mas não sobre as causas de tais emoções – tirando músicas como Forgiveness (que mesmo assim é muito vaga, falando apenas de ter sido magoada e não conseguir perdoar) e Tell Me How. 

 

Sabendo o que sabemos agora, dá para ver que After Laughter – ou seja, Hayley – não estava a contar a história toda. Foi apenas o começo.

 

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Praticamente toda a era After Laughter foi difícil para Hayley. Esta anunciou o divórcio de Chad Gilbert depois de apenas um ano de casamento poucas semanas após o lançamento do álbum. A certa altura, Hayley deixou de comer, começou a beber em excesso como auto-medicação para a sua depressão (e eu acho que também terá tido o seu quê de rebeldia à adolescente, pois o ex-marido é “straight edge”, não bebe álcool), deixou mesmo de ter ciclo menstrual.

 

Uma coisa boa dessa fase má foi que os seus amigos – membros oficiais da banda, membros acompanhantes, equipa técnica (é esse o termo?) em torno da banda – se uniu protetoramente em torno de Hayley, tomou conta dela. 

 

Eventualmente a saúde mental de Hayley melhorou um pouco. De qualquer forma, só quando o ciclo de After Laughter terminou é que a jovem começou a lidar a sério com os problemas que adiara durante meses, mesmo anos. Foi nessa altura que Hayley foi finalmente diagnosticada com depressão e stress pós-traumático, chegando mesmo a ser internada durante um breve período. 

 

Durante os tratamentos psicológicos, Hayley foi encorajada a compôr música para fins terapêuticos, apesar de os Paramore estarem em pausa por decisão conjunta. De início, Hayley queria pura e simplesmente lançar as músicas no Spotify sob um pseudónimo (duvido que resultasse, a voz dela é demasiado reconhecível), mas isso não faria justiça ao material. Daí Petals For Armor.

 

As primeiras músicas deste projeto foram lançadas no início d-e 2020 (parece que foi há anos). Na altura, analisei as primeiras duas, Simmer e Leave it Alone. Numa boa parte desse texto escrevi longamente sobre os anos anteriores a Petals For Armos em jeito de contexto. 

 

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Desde que publiquei essa análise, no entanto, Hayley deu muitas – mesmo muitas – entrevistas sobre os últimos anos, fornecendo muitos mais pormenores. Em vez de estar a reescrever a introdução da análise com base nessas entrevistas, só mencionarei essas informações quando estas forem relevantes para a análise das músicas. 

 

Até foi bom, por um lado, ter escrito esse texto antes dessas entrevistas todas. Permitiu-me o exercício de fazer as minhas próprias interpretações, com apenas o artigo no L’odet e pouco mais em que me basear e, mais tarde, ver onde tinha acertado ou não. 

 

Na verdade, Hayley lançou mais três músicas – Cinnamon, Creepin’ e Sudden Desire – poucos dias após eu publicar a minha análise. Anunciou também que o álbum sairia em três tranches (podia ter avisado logo que saiu Simmer, eu teria esperado pela primeira parte toda antes de escrever). A ideia era lançar a primeira parte no inverno (e assim aconteceu), a segunda no início da primavera, a terceira no dia 8 de maio (dia do lançamento oficial do álbum), perto do verão.

 

No entanto, o Coronavirus mexeu com esses planos – como mexeu com os planos de toda a gente para este ano. Numa altura em que ficou toda a gente em confinamento, Hayley decidiu lançar as músicas da segunda parte de Petals For Armor individualmente, mais ou menos uma por semana. A terceira parte, por sua vez, saiu toda no dia 8, à mesma.

 

Acabou por ser melhor assim. As músicas que iam saindo foram um bom consolo, um bom entretenimento durante o estado de emergência, uma altura em que praticamente não acontecia nada que não fosse Covid. Esperei pelo lançamento do álbum antes de escrever sobre as músicas, dando tempo a mim mesma para ir apreciando a espera.

 

Por outro lado, todas as entrevistas, todas as informações que Hayley forneceu sobre as quinze faixas deste álbum deram-me imensa matéria-prima para esta análise. Daí eu ter demorado tanto a escrevê-la, daí esta ter chegado às dez mil palavras. Assim, resolvi dividi-la em três partes – tal como Hayley fez com este álbum. Esta é a primeira parte, as outras duas saem amanhã e depois.

 

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Esta maneira de lançar o álbum fez-me lembrar o que aconteceu com Post Traumatic, de Mike Shinoda. Mike também começou por lançar três músicas no início de 2018, perto do fim de janeiro. Ao longo dos meses seguintes foi lançando outras, concluindo com o álbum completo em junho. O objetivo era criar uma ilusão de tempo real com o lançamento das canções. A própria tracklist segue uma ordem mais ou menos cronológica. 

 

O mesmo aconteceu com Petals for Armor. Também aqui as faixas estão organizadas por ordem cronológica. Hayley procurou lançá-las mais ou menos na mesma altura em que as compusera, no ano passado. As partes, aliás, correspondem todas a uma estação do ano. A primeira ao inverno (daí, como vimos acima, as músicas terem saído em finais de janeiro, princípios de fevereiro), a segunda à primavera, a terceira ao verão. 

 

O pior foi que 2020 não está a ser de todo o melhor ano para esse modelo. A primavera devia ser uma altura de maior leveza, mais luz, de esperança após os rigores do inverno. Só que, este ano, coincidiu com a chegada do Coronavírus a Portugal. Naquela que costuma ser a minha altura preferida do ano, com mais vontade de sair de casa – dias mais compridos, tempo mais quente, flores silvestres em todo o lado – tivemos de ficar em confinamento. 

 

Mais sobre isso adiante. 

 

Uma coincidência engraçada é o facto de os vocalistas das minhas três bandas preferidas da atualidade lançaram álbuns a solo como forma de lidar com momentos difíceis das suas vidas. Sharon den Adel, vocalista dos Within Temptation, criou My Indigo quando o pai adoeceu (acabando por falecer). Mike Shinoda criou Post Traumatic enquanto se tentava adaptar à vida sem o seu melhor amigo e co-vocalista dos Linkin Park, Chester Bennington (e tenho vindo a descobrir que várias das canções desse álbum se aplicam à pandemia, nomeadamente Nothing Makes Sense, Promises I Can’t Keep e World’s On Fire). E agora Hayley criou Petals For Armor após anos em depressão. Os três sentiram necessidade de se separarem das respectivas bandas para estes projetos em específico. 

 

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Os motivos são diferentes em cada um dos casos, contudo. My Indigo tem uma sonoridade bastante diferente da discografia de Within Temptation, tirando um elemento ou outro. Post Traumatic não está muito muito longe do território dos Linkin Park mas, para além de ser muito mais pessoal que o costume com a música da banda, foi criado no primeiro ano após a morte de Chester – demasiado cedo para os Linkin Park voltarem ao ativo. 

 

Os motivos de Hayley para lançar um álbum a solo são um híbrido dos dois acima. Se por um lado as letras dos Paramore foram sempre escritas por Hayley, segundo o seu ponto de vista, em termos musicais existe em Petals For Armor uma certa simplicidade e experimentalismo que talvez não ficasse bem na discografia da banda. Para começar, a maior parte dos vocais são baixos – algo que já tinha acontecido nos momentos mais vulneráveis de After Laughter. Hayley admitiu que não aquecia a voz antes das gravações e isso nota-se em vários dos agudos – Hayley soa mais rouca que o habitual.

 

Em termos de instrumentais, tirando um caso ou outro, estas músicas também não ficariam bem num álbum dos Paramore. A maior parte das faixas de Petals For Armor tem carácter próprio, distinto umas das outras, mas existem instrumentos comuns à quase todas. Nomeadamente a prevalência do baixo – já que muitas das músicas foram co-compostas por Joey Howard, baixista acompanhante. Havemos de ver com maior detalhe adiante. 

 

Além de que alguns dos temas abordados em Petals For Armor, como sexualidade e feminilidade, talvez não se encaixassem muito bem na discografia de uma banda com dois homens. 

 

Por outro lado, apesar de isto ser tecnicamente um projeto a solo de Hayley, os seus companheiros de banda não ficaram de fora. Taylor co-compôs várias faixas – apesar de Hayley ter contribuído mais do que antes para o instrumental – e produziu o álbum todo. Zac contribuiu menos mas sempre tocou bateria nalgumas faixas e realizou o vídeo de Dead Horse. 

 

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No outro dia dei com um meme que troçava das pessoas que acham que os Paramore são só Hayley. Eu ri-me em duplicado porque nem sequer Hayley a solo é apenas Hayley. Por outro lado, li algumas críticas a Petals For Armor dizendo coisas como “Hayley Williams liberta-se das restrições dos seus companheiros de banda” – só prova que o autor não fez o trabalho de casa. Como reza esta entrevista, Hayley está a solo, mas nunca sozinha.

 

Petals For Armor, na verdade, é um álbum de estreias, não apenas para Hayley. É o primeiro álbum a solo dela, é o primeiro em que é creditada na instrumentação, mas também é o primeiro álbum produzido a solo por Taylor. É também o primeiro em que Joey Howard compôs. E essa simplicidade e relativa ingenuidade dá carácter a Petals For Armor.

 

Como vimos acima, este álbum está dividido em três partes e um dos temas dessa divisão são estações. Hayley também afirmou que a divisão também se relaciona com elementos: a primeira parte representa o fogo, a segunda representa a terra, a terceira representa a água.

 

Com a primeira parte concordo, e explicá-lo-ei adiante. Com as outras não. A meu ver, a água e sobretudo a terra aparecem um pouco por todo o álbum, não se limitam apenas à segunda e terceiras partes.

 

O segundo, aliás, relaciona-se com os principais temas de Petals For Armor. Flores que emergem da semente, abrem caminho através da terra para florescerem à superfície. A definição de feminilidade segundo Hayley: mãos na terra, coisas ao mesmo tempo nojentas e belas, como menstruar e dar à luz.

 

Não é uma metáfora propriamente original, a própria Hayley admite-o. A figura da Mãe Terra, Mãe Natureza está presente em muitas culturas. 

 

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Na minha opinião, a imagem das mãos na terra também significa contacto com o próprio corpo. Na cultura judaico-cristã tenta-se fazer uma separação entre o corpo e a mente, mas estarão assim tão desligados um do outro? Afinal de contas, vários problemas de saúde mental, como depressão, estão ou podem estar relacionados com desequilíbrios químicos e/ou hormonais. 

 

Uma das lições, aliás, que Hayley aprendeu, conforme explica nesta entrevista, nestes últimos anos foi que os nossos corpos não mentem. A entrevistadora deu um exemplo de um amigo que percebeu que já não estava apaixonado pelo seu parceiro quando deixou de gostar do cheiro dele. 

 

O que, a mim, me recordam os primeiros meses com a minha Jane, por estranha que seja a comparação. Quem tenha lido este texto saberá que não foi um vínculo instantâneo, que as primeiras semanas não foram fáceis. No entanto, lembro-me que, na altura em que comecei a afeiçoar-me a ela, comecei a gostar do cheiro da cabeça dela, da textura do seu pêlo.

 

Por outro lado, Hayley revelou sofrer de dores de estômago constantes durante imenso tempo. Há uns anos referiu em entrevista ter surtos de acne durante as piores crises dos Paramore. E, como já referimos antes, a perda do seu ciclo menstrual por causa do stress do casamento.

 

Existem várias referências a contacto com o corpo em Petals For Armor. Em Simmer, Hayley fala sobre sentir o rubor da raiva no rosto. Em Cinnamon fala sobre tomar o pequeno-almoço nua. Em My Friend, o amigo em questão (Brian, o esteticista de Hayley e co-fundador da Good Dye Young) viu-a “de todos os lados”. Em Roses/Violet/Lotus/Iris promete não comparar o seu corpo, a sua beleza, com os dos demais (sobretudo os das demais). 

 

Também aborda o lado sexual do contacto com o próprio corpo: veja-se Sudden Desire e a cena da banheira e das ostras no videoclipe de Cinnamon.

 

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Por fim, não é por acaso que Watch Me While I Bloom, o mais parecido com uma canção de vitória em Petals For Armor, abre com "How lucky I feel to be in my body again". 

 

Mas falemos então sobre a primeira parte do álbum. Durante algum tempo não tive a certeza sobre qual das músicas abriria o álbum: Simmer ou Leave it Alone. Acabou por ser Simmer, o que faz sentido: pela introdução com o som de perigo, os fôlegos simbolizando alívio de tensão, a poderosa primeira frase: "Rage is a quiet thing".

 

Como referido antes, escrevi sobre Simmer na altura em que saiu. Fico feliz por ter acertado nas minhas interpretações no que toca à raiva no feminino. E, de certa forma, na parte de a segunda estância ser difícil para Hayley. Esta revelou em entrevistas que quando tentou gravar estes versos pela primeira vez teve de interromper a meio. 

 

Simmer de resto adequa-se ao ano em que saiu, sobretudo pelos protestos do #BlackLivesMatter. Não tenham dúvidas, estes resultam de raiva que borbulhou durante anos, mesmo décadas, até finalmente servir de combustível a estas manifestações. E já teve o efeito de, entre outras coisas, pôr a sociedade portuguesa a falar sobre racismo como nunca falara antes. Não é suficiente, mas é um começo. 

 

 

Continuo a gostar imenso de Simmer, acho que é uma das melhores em Petals For Armor. Quando uma pessoa pensar em raiva, o mais certo é pensar em algo exuberante, barulhento, agressivo. No entanto, por vezes uma raiva explosiva, que se pode confrontar diretamente, assusta menos que uma raiva controlada, que borbulha sob a superfície – porque pode entrar em erupção a qualquer momento. Simmer representa bem essa ideia, com a instrumentação relativamente minimalista e os vocais contidos, magnéticos, de Hayley.

 

Além disso, esta música ensinou-me uma maneira de lidar com a raiva e seus derivados (irritação, impaciência): respirar fundo e sussurrar para mim mesma “simmer simmer simmer simmer simmer… Simmer simmer simmer simmer simmer”, como no vídeo de interlúdio. Tendo em conta o número de covidiotas com que tive de lidar ao longo dos últimos meses, o truque veio em boa altura.

 

Em relação a Leave it Alone, as minhas opiniões não mudaram. Depois de ter de ouvi-la em loop para escrever sobre ela, durante muito tempo não quis ouvi-la pelos motivos que expliquei nessa análise. Em minha defesa, a própria Hayley admite que nem sempre lhe é fácil ouvir Leave it Alone – é uma música pesada em termos de emoções.

 

No entanto, ouvindo-a no contexto do álbum não deprime tanto. 

 

Nesse sentido, o lançamento de Cinnamon, poucos dias depois de concluir a minha análise, veio mesmo a calhar: o sabor doce e amadeirado da canela para contrabalançar com a amargura deixada na língua por Leave it Alone. 

 

Cinnamon é uma das minhas preferidas em Petals For Armor, deliciosamente esquisita – com uma letra que fala de coisas deliciosamente esquisitas e um videoclipe deliciosamente esquisito. Esta crítica descreveu-o de forma soberba: é como se tivesse sido composta do ponto de vista da velhota com cinco gatos (embora Hayley pareça gostar mais de cães). 

 

 

Segundo Hayley, Cinnamon começou com ela brincando na bateria de Taylor. A jovem, aliás, toca vários instrumentos nesta: guitarra, teclados, parte da bateria. É este último instrumento que, de resto, conduz a música: os outros pura e simplesmente vão-se juntando.

 

É um exemplo da simplicidade e ingenuidade que referimos acima, de que Hayley falara na nota de apresentação de Petals For Armor.

 

Em termos de letra, Cinnamon é uma ode à casa de Hayley. A mesma que estava infestada de morcegos, tal como amplamente comentei na análise a Simmer e Leave it Alone. Fiquei aliviada por saber que Hayley pagou a uma empresa para se livrar dos morcegos (dez mil dólares, o que não é nada barato mas, meu Deus… morcegos numa casa!). Eventualmente Hayley começou a decorá-la a seu gosto a pouco e pouco, e a casa tornou-se o seu refúgio.

 

Não admira que Hayley esteja tão apegada à sua casa, tendo em conta que, em criança, nunca teve uma morada fixa. Pais divorciados quando ela era muito pequena. Anos mais tarde ela e a mãe tiveram de fugir do companheiro desta: mudaram-se do Mississipi para Franklin, viveram em hotéis, numa caravana, em casas de amigos, num apartamento com móveis doados. 

 

Entretanto, Hayley juntou-se aos Paramore, passou os últimos anos da sua adolescência em digressão. Mesmo quando arranjara as suas próprias casas, era já tendo em consideração o, agora, ex-marido. 

 

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Esta é a primeira casa que é verdadeiramente sua. Onde é livre para exprimir o seu lado feminino, o seu lado estranho, para acender as luzes todas, para andar nua. Um pouco como Party For One, de Carly Rae Jepsen – Cinnamon é também um hino de introvertidos.

 

A letra de Cinnamon faz também referência a Alf, o cão de Hayley, que também faz vezes de psicólogo. Queria tirar uns parágrafos para falar da coisinha peluda de Hayley. No momento mais doloroso da primeira entrevista com Zane Lowe, a jovem revelou que o motivo pelo qual ela não sucumbiu à depressão foi porque sabia que Alf ficaria à espera que ela regressasse a casa. 

 

Não vou dizer que não compreendo. Quem tem cão – ou mesmo quem conheça a história do Hachiko – compreende. Pode parecer algo frio falar de um animal antes de falar dos seus pais, dos seus avós, de Taylor, Brian, Zac, etc, mas acho que consigo perceber o raciocínio toldado pela depressão de Hayley. Os seus entes queridos humanos conseguiriam compreender o que acontecera, racionalizar, seguir em frente.

 

O que é um disparate. Se eu ainda não consegui aceitar o que aconteceu a Chester e nem sequer conhecia o homem… Mas pronto, depressão.

 

Alf, por sua vez, nunca saberia o que acontecera, ficaria sempre à espera. 

 

Nunca tive pensamentos suicidas assim tão graves, felizmente, mas posso testemunhar que ter um cão, como a minha Jane, dá motivo para viver. E de facto dão bons psicólogos. Ainda há uns tempos estava eu a chorar – stress do trabalho e do Coronavírus – e a Jane deixou-me abraçá-la (algo que nem sempre deixa).

 

*pausa para sessão de festinhas à Jane*

 

 

Regressando à casa em si, Hayley assume mesmo que esta é uma metáfora de si mesma. Assustadora, cheia de morcegos, despida em 2017, melhorando ao longo dos anos seguintes, ganhando carácter e beleza à sua maneira.

 

O videoclipe reflete essa metáfora: o último da trilogia que inclui Simmer e Leave it Alone. Hayley emerge do casulo e explora a casa onde fora parar. Uma casa habitada por figuras sem rosto – personificações da própria casa, da mobília, da decoração. Mesmo dos demónios de Hayley, dos seus lados esquisitos, da sua feminilidade. Como acontecera na vida real com a casa verdadeira, de início Hayley teve medo, mas começa a rever-se nas estranhas figuras e decide ficar.

 

O momento mais inesperado do vídeo de Cinnamon é a coreografia. Hayley alega que esta é a primeira vez que dança oficialmente desde que teve aulas de hip-hop antes de se juntar aos Paramore. No entanto, fãs que foram aos concertos da digressão de After Laughter não ficaram surpreendidos, garantem que Hayley sempre soube dançar.

 

Confesso que esta parte está além das minhas capacidades. Também tive aulas de hip-hop, mais ou menos na mesma idade que Hayley. Não tinha jeito absolutamente nenhum para aquilo. Gosto de dançar, mas à parva, sem coreografia – ou então coreografias muito simples, muito básicas, estilo… aeróbica (mais sobre isso adiante).

 

A música seguinte no álbum é Creepin’. À semelhança de muitas neste álbum, é conduzida pelo baixo. Hayley toca guitarra, teclado, mas a faixa conta também com a participação de Mike Weiss, guitarrista dos MewithoutYou, a banda preferida de Hayley. A faixa tem um tom sombrio mas também vagamente dançante. 

 

 

A letra fala sobre vampiros de energia. Para quem não sabe (eu não sabia), vampiros de energia são pessoas tóxicas, egoístas, egocêntricas, que sugam a felicidade, a energia emocional, das pessoas que as rodeiam. Tais pessoas são incapazes de empatia, o mundo gira à volta delas, deixam os demais exaustos só de lidar com elas. 

 

Não sei se alguma vez conheci pessoas que se encaixem perfeitamente nesta definição, mas conheci parecidas – colegas de escola ou de faculdade, utentes da farmácia… Uma delas nem sequer posso descrever como má pessoa, mas exigia sempre atenção, metia-se em conversas e assuntos que não lhe diziam respeito, nunca percebia quando não era desejada, fazia-se sempre de vítima. 

 

Outra é uma utente da farmácia, tão egoísta, tão tóxica, que eu e as minhas colegas suspeitamos que afastou toda a gente da sua vida. Nós somos as únicas que a aturamos porque não podemos dizer-lhe “não” – por enquanto. 

 

Eu na verdade tenho vindo a aperceber-me, nestes últimos meses, que os verdadeiros vampiros de energia são as redes sociais, nomeadamente o Twitter e o Facebook. Esses sim, sugam a energia e a vontade de viver de nós, com tanto sensacionalismo e discussões estúpidas (embora hajam alturas piores do que outras). Nos tempos mortos tenho tentado trocar essas redes pelo Kindle e pelo TV Tropes. 

 

Em Creepin’, Hayley usa imagens vampirescas para dizer que ela e os seus já não se deixam afetar pela toxicidade (“We bleed holy water”, “I’m a moon in daylight”). No refrão diz que basta baixar a guarda por um bocadinho para o vampiro cravar os dentes e não largar mais. E se o bicho quer sugar parte dela, que sugue as recordações do ex-marido. 

 

É uma música gira, mas não está entre as minhas preferidas.

 

 

Uma que está, no entanto, é Sudden Desire. Esta é outra conduzida pelo baixo, num tom intimista que ganha intensidade no refrão, acompanhando os vocais impressionantes de Hayley. Na altura em que esta música saiu, era a primeira vez em muito tempo que ouvíamos Hayley a atingir tais agudos – After Laughter teve poucos momentos assim, infelizmente, embora seja compreensível porquê.

 

A meu ver, Sudden Desire é o equivalente a Simmer mas para outro pecado capital segundo o cristianismo: a luxúria. Esta no entanto é diferente da raiva. Toda a gente sabe que o cristianismo sempre teve uma relação complicada com a sexualidade. 

 

Durante séculos a Igreja pregou que o sexo fora do casamento era pecado (isto apesar de terem havido papas sexualmente ativos durante o seu pontificado, um rei português cuja amante preferida era uma freira e, pior de tudo, inúmeros praticantes de pedofilia no seio da Igreja). A nossa sociedade é cada vez mais laica, o que é uma coisa boa, mas ainda não conseguimos libertar-nos por completo de tais crenças.

 

Pegando de novo no conceito de contacto com o próprio corpo, eu penso que este desconforto da Igreja com o erótico poderá ter a ver com a separação do corpo e da mente. Acho também que, na prática, a diabolização da sexualidade serviu, sobretudo, para manter as mulheres sob controlo, para reprimir a sua libido, de modo a que os homens não tivessem dúvidas sobre a paternidade dos seus filhos. 

 

E isto nem sequer é um exclusivo do cristianismo. Vejamos a mutilação genital feminina, que afeta 200 milhões de mulheres e meninas no mundo inteiro.

 

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Admito que não sou a melhor pessoa para escrever sobre libertação sexual ou mesmo sobre sexo, ponto. Em todo o caso, na minha opinião, no que toca ao erótico, o importante é haver respeito, consentimento das partes envolvidas e maturidade para lidar com as consequências – sejam elas biológicas (gravidez no caso de pénis-em-vagina, doenças sexualmente transmissíveis, etc) ou emocionais.

 

Sudden Desire parece, aliás, falar sobre isso: sobre o desejo físico e sobre o medo das consequências emocionais. Hayley começou a namorar com o, agora, ex-marido quando tinha dezoito ou dezanove anos. Provavelmente foi o seu primeiro parceiro sexual, ou um dos primeiros. Como se sabe agora, essa relação não era das mais saudáveis e Hayley admitiu, sem dar pormenores, que isso afetou a maneira como olhava para o seu corpo, para os seus desejos.

 

Depois do divórcio, Hayley chegou a achar que ficaria celibatária até ao fim dos seus dias. No entanto, o seu corpo continuava a ter necessidades. Ela conheceu alguém, desejava-o – o que, ao mesmo tempo, excitava-a e aterrorizava-a porque, da última vez que se envolvera sexualmente com alguém, queimara-se. 

 

A linguagem que Hayley usa é particularmente violenta: "Your fingerprints on my skin, a painful reminder" 

 

A letra usa um elefante como metáfora. Confesso que, da primeira vez que a ouvi falar de segurar um elegante com a mão, passou-me pela cabeça uma imagem mais… explícita. No entanto, deverá ser uma metáfora para a luxúria em geral. 

 

É interessante o facto de Hayley não se referir à sexualidade como uma serpente, como na mitologia judaico-cristã, com como um qualquer animal selvagem, feroz. Em vez disso descreve-a como um gigante gentil, amigável, sem malícia, que não sabe a força que tem. Da mesma forma, fala de andar de mãos dadas com ele, ouvir o que ele tem para dizer, em vez de reprimi-lo por completo ou de ser dominada por ele (“Better to walk beside it than underneath”).

 

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Gosto imenso desta música, tanto pela sonoridade como pela forma diferente como fala sobre sexualidade.

 

Sudden Desire encerra a primeira parte de Petals For Armor. Como referido acima, o elemento que representa esta secção é o fogo. Simmer e Sudden Desire são óbvias – o fogo é uma metáfora comum para raiva e desejo sexual. Em relação a Cinnamon, canela, a especiaria que dá o título à música, se ingerida durante o tempo frio, produz uma sensação de calor (embora também produza o efeito contrário: induzindo uma sensação de frescura durante o tempo quente). No que toca a Creepin’, que fala sobre vampiros de energia e usa metáforas vampirescas, o sol é uma conhecida fraqueza dos vampiros. Mesmo o próprio fogo pode ser usado contra vampiros nalguns cânones.

 

Por hoje ficamos por aqui. Acho que faz sentido fazermos a divisão da análise coincidindo com a divisão oficial do álbum. Hoje foi a primeira parte, amanhã será a segunda e, no domingo, a terceira.

 

Acabo de me aperceber que se completam hoje oito anos desde que estreei este blogue. Oito anos.... Eu sabia que já tinha começado há algum tempo mas oito anos... 

 

Muito orgulhosa do que tenho feito até agora com este blogue. Calha bem estar a publicar a primeira parte desta análise hoje – um texto que andava a preparar há semanas, que ansiava partilhar com vocês desde fevereiro ou março. 

 

Fica aqui uma palavra de agradecimento pelo vosso apoio e companhia ao longo destes anos. Quero continuar a publicar bons textos neste blogue, mesmo que estes demorem um bocado. A muitos anos de blogue! Amanhã há mais!

 

Linkin Park – One More Light (2017) #2

Segunda parte da minha análise a One More Light. Podem ler a primeira parte aqui.

 

ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico aconselho-vos a não o lerem. 

 

Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!

 

 

Falemos, agora, sobre os temas cantados por Chester (isto é, tirando aqueles que analisámos na primeira parte). Começando por Nobody Can Save Me, que abre o álbum. Este é outro caso em que não gosto muito do acompanhamento musical mas gosto da melodia e interpretação. A letra fala de sintomas depressivos, de “soluções falsas” – podem ser toxicodependência ou pura e simplesmente isolamento, solidão – mas de uma forma algo vaga. Um pouco como Battle Symphony. 

 

Uma coisa devo dizer, no entanto: numa das vezes que ouvi esta música nas primeiras semanas, ou meses, após a morte de Chester, senti um nó na garganta ao ouvir o refrão. “Tell me it’s alright. Tell me I’m forgiven tonight”. Como se fosse o próprio Chester a pedir perdão por ter partido.

 

Vou mesmo dizê-lo: o desempenho vocal de Chester é a melhor parte deste álbum. Chester era conhecido sobretudo pelos seus gritos inigualáveis, mas One More Light deixou provado que ele também sabia cantar.

 

Halfway Right é, para além de Heavy, a única música em One More Light em que Chester é creditado como compositor. Dá para notar um pouco na letra que, ao contrário de outras neste álbum, pinta cenários mais ou menos específicos em vez de metáforas vagas. Chester fala de se drogar em adolescente com outros miúdos, de certa noite ter ido tão longe que, quando deu por si, estava ao volante de um carro.

 

Medo…

 

Na segunda parte, a letra fala sobre ignorar os conselhos dos mais velhos – de se rir na altura e, agora, reconhecer que tinham razão. Havemos de regressar a esse tema.

 

 

Em suma, gosto da letra, mas a instrumentação diz-me pouco. Não gosto muito da melodia, apesar de Chester a interpretar bem. Por fim, acho o final demasiado repetitivo.

 

Agora vamos falar sobre aquelas que, na minha opinião, são as melhores músicas do álbum, tanto pela letra como por, ao contrário das restantes, terem uma instrumentação decente, mesmo boa.

 

Talking to Myself é a música mais pesada em todo o One More Light – apesar de poder ser descrita como “apenas” pop rock. Gosto imenso da introdução com as notas de órgão e, depois, a guitarra elétrica e a bateria. 

 

A letra de Talking to Myself tem um conceito interessante. Como vimos antes, foi escrita da perspectiva de Talinda, a esposa de Chester, enquanto o marido passava pelas suas piores fases. Fala da solidão que ela terá sentido, do comportamento alterado dele (consta que é um dos sintomas de toxicodependência), a tendência dele para se isolar das pessoas de quem gosta (um sintoma de depressão), a incapacidade de comunicar.

 

É daí que vem o título da canção. Talking to Myself, falando conosco mesmos, falando para uma parede. 

 

Como vimos antes, não terá sido Chester a escrever esta letra. No entanto, pergunto-me quanto disto terá vindo da própria experiência de Mike, Brad e os outros, que acompanharam os altos e baixos do amigo durante duas décadas.

 

 

Depois de Chester morrer, a canção ganhou um significado adicional, pelo menos para mim. Nós, os fãs, que temos falado e falado sobre Chester desde aquela quinta-feira três vezes maldita. Chorado por ele, gritado por ele, dizendo o quanto o adoramos, as saudades que temos dele… 

 

...e não sabemos se ele nos consegue ouvir. Não sabemos se não estamos, lá está, a falar connosco mesmos, para uma parede, para o vazio.

 

A música de que vamos falar a seguir é a melhor e a mais dolorosa de todo o álbum. One More Light, que também dá o nome ao disco.

 

Musicalmente é perfeita. Minimalista, apenas com órgão, piano, guitarra e pouco mais – contribuindo para o tom intimista, casando bem com a melodia e letra tristes. A interpretação de Chester é igualmente irrepreensível – eu destacaria os vocais agudos de “I do” no fundo, durante o solo. 

 

Agora a letra. One More Light foi inspirada pela morte de Amy Zaret, uma amiga da banda, que morreu em outubro de 2015 após uma curta batalha com um cancro. O co-compositor, Eg White, também tinha perdido um amigo. Suponho que os outros membros dos Linkin Park se terão inspirado em perdas suas – Chester, por exemplo, tinha perdido o padrasto. Poucas coisas são mais universais, infelizmente.

 

A letra descreve bem as diferentes manifestações do luto, sobretudo na segunda parte: a raiva, a sensação de injustiça, o lugar vazio à mesa, os momentos em que a dor vem do nada e tira-nos o tapete debaixo dos pés. O refrão e o título reforçam a ideia de que é apenas uma pessoa entre mil milhões, uma insignificância se olharmos para o planeta como um todo, mas que afeta profundamente as pessoas mais próximas.

 

 

Faz pensar duas vezes sobre coisas como as estatísticas do Coronavírus, por exemplo. “Só” morreram trinta pessoas hoje? Bem, são só trinta famílias, trinta grupos de amigos e conhecidos cujas vidas nunca mais serão as mesmas depois disto. Morrem pessoas todos os dias, sim. Mas é sempre uma grande perda para alguém.

 

Por outro lado, o verso “who cares if one more light goes out? Well I do” foi usado para evitar uma morte por suicídio no ano passado. É apenas um exemplo das vidas que a morte de Chester pode ter salvo, ao inspirar uma mudança de mentalidades sobre a saúde mental.

 

O que me leva à primeira estância da canção. Acreditem ou não, dois ou três dias antes da morte de Chester, estive a ver a apresentação de One More Light no Jimmy Kimmel (abaixo). Se não me engano, foi no dia em que o álbum saiu. A ideia era tocarem Heavy, o primeiro single. No entanto, a banda decidiu tocar One More Light em homenagem a Chris Cornell, um grande amigo de Chester, morrera por suicídio na véspera – fez ontem três anos. Ontem, aliás, saiu uma entrevista inédita de Chester falando sobre Chris.

 

Consta que, nos ensaios, Chester mal conseguia cantar. Mesmo na apresentação ao vivo, em direto, dá para ver que ele (à semelhança dos outros, na verdade) estava à beira das lágrimas. E aquela falha a meio do verso, no último refrão.

 

Dizia eu que, para aí na segunda-feira da semana fatídica, estava eu a ver esta apresentação. A pensar e a anotar no meu caderno que os primeiros versos de One More Light falam de sofrimento invisível aos demais – podia ser sofrimento físico, associado a uma doença como o cancro, podia ser sofrimento psicológico, por depressão, como aquilo que matara Chris Cornell.

 

Ah, se eu soubesse…

 

 

Na quinta-feira seguinte, quando ainda estava a tentar processar a notícia, pus-me a ouvir a música, esta mesma apresentação. Quando chegou à parte do “Can I help you not to hurt anymore?” chorei pela primeira vez. Eu teria tentado ajudar se pudesse, teria feito o possível para evitar aquele desfecho, mas não pude fazer nada. Ninguém pôde.

 

Os Linkin Park referiram antes que tinham escolhido esta música para dar o título ao álbum – quando nenhum dos álbuns anteriores partilhara o nome com uma das suas faixas – precisamente por a considerarem o centro de gravidade emocional do álbum. E foi isso que aconteceu… mas não da maneira que previram. One More Light foi a canção em volta da qual fãs enlutados se uniram depois da perda de Chester – meros dois meses após a música ser lançada. Chester cantou o seu próprio requiem.

 

Eu adoro a música mas não a oiço muitas vezes. Lembra-me as primeiras semanas após a tragédia. É demasiado dolorosa, sobretudo se não estiver à espera.

 

Talvez devesse ter deixado One More Light para o fim, mas não queria terminar esta análise numa nota tão triste. Assim, vamos encerrar com Sharp Edges, que também encerra o álbum.

 

Esta tem uma sonoridade que no início, confesso, estranhei: mais folk do que estava à espera. E também nunca tinha imaginado Chester cantando algo como “Momma always told me…”. Mas não demorei a entranhar e, hoje, gosto bastante desta música.

 

 

A letra de Sharp Edges lembra-me um pouco Into You, do projeto lateral de Chester, Dead By Sunrise. À semelhança de Into You, Sharp Edges explora o paradoxo da vida de Chester. E, na verdade, na vida de toda a gente, em diferentes graus. Na maneira como educamos crianças.

 

Eu não tenho filhos, mas sei que existe uma linha ténue que separa proteger as nossas crias e deixá-las ganhar independência. Todos preferíamos que jogassem pelo seguro, que não saíssem dos limites, que optassem pelos livros em vez das drogas. Mas também já está mais que provado que proteger as crianças em demasia acaba, mais cedo ou mais tarde, por ter o efeito oposto.

 

Além de que, da experiência que tenho, há coisas que os mais velhos não nos conseguem ensinar, por muito que tentem. Há coisas que temos de aprender por nós mesmos. Conheço gente que, por exemplo, se arrepende de não ter estudado mais quando era jovem – e que agora tem filhos que estão a cometer os mesmos erros. 

 

Mesmo eu, que sempre fui uma menina certinha, me arrependo de muitas coisas que fiz (ou não fiz) no início da minha vida adulta. Se tiver filhos, vou tentar evitar que cometam os mesmos erros – mas será que eles ouvirão? Eu não ouvi os meus pais.

 

Falando especificamente de Chester, toda a gente sabe que ele teve uma infância e adolescência horríveis que o marcaram para a vida toda. Devia ter sido mais protegido pelos adultos da sua vida. Ao mesmo tempo, tal como admitiu em Halfway Right, o próprio Chester terá tomado uma série de más decisões e sofreu as consequências.

 

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E no entanto… seria ele o Chester que conhecíamos e adorávamos sem esse passado? Seria ele capaz de criar a música que criou e tocou tanta gente – salvando vidas, tanto em vida como em morte, sentando-se no escuro ao lado dos seus ouvintes, como escrevem aqui – teria ele tido os seus seis filhos, conhecido Talinda? Talvez fosse uma pessoa mais saudável, mais feliz, talvez ainda estivesse entre nós – mas seria o mesmo?

 

Os próprios Linkin Park escreveram na sua mensagem de despedida que sempre souberam que os demónios que levaram Chester faziam parte do pacote. Eu demorei um bocadinho mais a chegar aí. 

 

Isso significa que a morte de Chester era inevitável? É uma das perguntas por responder que se têm mantido nestes últimos três anos: se haveria maneira de evitar isto, o que se podia ter feito.

 

Eu recuso-me a acreditar que era inevitável. Pura e simplesmente recuso-me – tal como não acredito que a morte por suicídio alguma vez seja solução. Vale sempre a pena pedir ajuda e/ou ajudar uma pessoa em dificuldades. Mesmo que só sirva para adiar o desfecho.

 

Consta que Chester podia ter morrido por suicídio mais cedo, algures em 2005 ou 2006. Eu só me tornei fã em 2007. Se ele tivesse morrido nessa altura não estaria aqui a escrever este texto. Estou grata por aqueles dez anos extra. 

 

Torno a repetir a mensagem do início do texto: peçam ajuda. Vocês são importantes, vocês fazem falta, o mundo não é o mesmo sem vocês. Cada dia que passam com aqueles que gostam e que gostam de vocês é um dia ganho. Não deixem de pedir ajuda. 

 

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Por outro lado, só o facto de a perda de Chester ter motivado Talinda, Mike e os outros membros da banda a fazerem campanha pela saúde mental, contribuindo para a mudança na linguagem em torno do tema, só o facto de, como vimos acima, um verso de One More Light ter salvo uma vida, torna tudo isto menos insuportável. Chester continua a salvar vidas. 

 

E é isto One More Light. Como veem, deixa muito a desejar mas não é tão mau como muitos o pintam. Quando estava a planear esta análise antes de Chester morrer, uma das minhas notas para as conclusões era, parafraseando, “A coisa boa no meio disto tudo é que os Linkin Park estão sempre a mudar de estilo. Mesmo que não gostemos deste trabalho, o próximo será diferente”.

 

Pois…

 

Tecnicamente, Mike lançou um álbum a solo no ano seguinte e esse foi, de facto, diferente. Mas não sei se conta

 

De qualquer forma, no fim disto tudo, eu aceitaria vinte ou trinta anos de álbuns piores que One More Light se isso significasse que Chester ainda estaria vivo. Quanto mais não fosse porque os Linkin Park tocariam sempre os velhos êxitos em concerto. Mais: eu aceitaria que os Linkin Park se dissolvessem como banda, que Chester nunca mais criasse música. Ao menos eu saberia que ele estava por aí, com a esposa, com os filhos, com os amigos. 

 

No cômputo geral das coisas, um álbum menos conseguido está longe de ser o fim do mundo. Perder pessoas, perder heróis, é que é horrível. Bolas, uma pandemia como a que estamos a viver, que condiciona as nossas vidas de uma maneira inédita, é que é horrível. Se todos os nossos problemas fossem álbuns maus dos nossos artistas ou bandas…

 

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Ao menos já escrevi sobre One More Light. Agora já posso escrever sobre Hybrid Theory e Meteora, como desejo há imenso tempo. Não assim tão cedo, quero aproveitar o vigésimo aniversário do primeiro álbum dos Linkin Park. E um dia destes dou uma nova oportunidade a A Thousand Suns. 

 

Foi doloroso escrever partes deste texto mas, no geral, a perda de Chester já não dói tanto. Parecendo que não, já passaram quase três anos, já aconteceu tanta coisa desde então. E, como já referi em textos anteriores, de uma maneira estranha, escrever sobre isso faz com que, mais tarde, doa menos. Só com este texto, passá-lo a computador custou bem menos do que escrever o primeiro rascunho.

 

Não sei se conhecem a teoria da bola numa caixa com o botão da dor. No início do luto, a bola ocupa a caixa quase toda, não é preciso muito para que esta pressione o botão. Com o tempo a bola tende a diminuir – a um ritmo diferente para cada pessoa e podem existir alturas em que cresce de novo. Uma bola mais pequena prime o botão menos vezes. A bola nunca chega a desaparecer mas, regra geral, o tempo torna a situação mais fácil.

 

No meu caso, acho que tenho algum controlo sobre a bola. Sei antecipar as situações em que a bola carrega no botão: quando oiço One More Light, a música, quando penso muito no assunto (como tive de pensar para escrever este texto), quando me ponho a ver vídeos dos Linkin Park no YouTube – sobretudo deles, Chester, Mike, fazendo palhaçadas. Assim, procuro evitar estas situações. 

 

O futuro dos Linkin Park continua incerto. No entanto, ficou mais definido nas últimas semanas. Phoenix revelou que, antes de a pandemia ter tomado esta dimensão, a banda andava a criar música. Quando entraram em quarentena suspenderam os trabalhos, naturalmente, mas ainda hoje, de vez em quando, falam sobre o assunto, discutem ideias, no Zoom.

 

Aqui entre nós, eu estava com medo deste momento. A revelação de que os Linkin Park estão a criar música outra vez, o eventual anúncio de um álbum novo, o primeiro sem Chester. 

 

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Não me interpretem mal, eu sempre disse deste o início que apoiaria a banda no que quisessem fazer a seguir. Não significa que seja fácil para mim – pelo contrário, agora é que vai doer como o catano. 

 

Quando se fala nisso, repito para mim mesma “Ainda não estou pronta, ainda não estou pronta, ainda não estou pronta… Lido com isso na altura, lido com isso na altura, lido com issso na altura…”. É o que tenciono fazer. Ainda vai demorar até chegar esse momento, com o Coronavírus e tudo mais. Porém quando for mesmo oficial, tirarei um momento para processar, para lidar com as minhas neuroses, talvez desabafe aqui no blogue, mas, no fim, ficarei contente. 

 

A curto prazo, aqui no blogue o próximo texto será a análise a Petals For Armor, o álbum a solo de Hayley Williams, que saiu há coisa de dez dias. Já estou a escrevê-lo – andava a antecipar este texto há meses, quase desde que publiquei a análise às primeiras músicas, Simmer e Leave it Alone. Neste momento vou em cerca de trinta páginas A5 de notas (OK, com letra grande), ou seja, tenho muito a dizer sobre este álbum. Devo demorar um bocadinho... mas vou divertir-me imenso!


Continuem por aí.

Linkin Park – One More Light (2017) #1

Isto vai doer, mas se não arrancar este penso rápido agora, nunca mais o arranco.

 

ALERTA: Este texto irá abordar temas pesados como depressão, suicídio e causas de suicídio. Se estes temas forem um gatilho mental ou, como dizem os anglo-saxónicos, triggers no sentido de evocarem recordações traumáticas ou outras formas de sofrimento psicológico aconselho-vos a não o lerem. 

 

Se vocês se debatem com pensamentos suicidas ou desejos se fazerem mal a vocês mesmos, por favor, não o façam, peçam ajuda. Deixo aqui linhas de apoio tanto em Portugal como no Brasil. Quem conhecer mais linhas, por favor, deixe nos comentários. O mundo precisa de vocês, peçam ajuda!

 

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Os Linkin Park lançaram One More Light, o seu sexto (e até agora último) álbum de estúdio, há precisamente três anos. Ando a adiar a análise a esse álbum quase desde essa altura. O meu plano inicial era publicar esse texto durante o verão de 2017. Comecei a planeá-lo logo depois de publicar a minha análise a After Laughter. Já tinha inclusivamente escrito a introdução…

 

… mas depois Chester Bennington, um dos vocalistas, morreu

 

A análise ficou, assim, em águas de bacalhau. De início era por motivos de luto, conforme expliquei na altura. Mesmo passados um ano ou dois, já com a fase pior do processo para trás, fui continuando a adiar o texto sobre One More Light. Em parte porque tinha outros textos que queria escrever… mas também porque escrever esta análise não foi fácil e, vejo agora, o meu subconsciente sabia que ia ser assim.

 

Um dos principais motivos para ter custado tanto foi porque teria de dizer mal sobre o último álbum de Chester em vida. Sobretudo quando ele, na altura, estava tão entusiasmado com ele. Ao ponto de ter deixado críticas duras aos fãs que reclamaram do novo som – ele mais tarde retiraria estas palavras, mas agora, em retrospetiva, estas parecem um indício claro de que ele não estava bem. 

 

Sei perfeitamente que não é racional. Lá por ser fã, não tenho a obrigação de venerar automaticamente todo e qualquer material produzido pelos meus artistas ou bandas preferidos. Regra geral, costumo ter boa vontade para com os músicos do “meu nicho”, mas quem der uma vista de olhos pelos textos deste blogue dedicados a música, saberá que tenho sentido crítico. Não sou menos fã por isso. 

 

Da mesma forma, nenhum artista ou banda tem a obrigação de criar música perfeitamente talhada para os meus gostos.

 

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Dito isto tudo, por muito irracional e hipócrita que seja… quando há uma perda como esta é diferente. As pessoas não gostam de dizer mal dos mortos. Por um lado, não estão cá para se defenderem. Por outro, porque, depois de os perdermos, consolamo-nos recordando os seus melhores feitos. Não as coisas que ficaram abaixo das nossas expetativas. 

 

Em todo o caso, já prolonguei isto durante demasiado tempo. Até porque quero escrever sobre outros álbuns dos Linkin Park – nomeadamente Hybrid Theory e Meteora. Fazê-lo antes de escrever sobre One More Light ia parecer mal.

 

Muito bem, chega das minhas tretas, vamos a isto. Como tenho muito a dizer sobre este álbum, esta análise será dividida por duas publicações. A segunda parte virá ainda hoje, mais tarde. 

 

Os meus problemas com este álbum resumem-se a dois pontos. O primeiro diz respeito à instrumentação e produção da maioria das faixas. Conforme já tinha reclamado referido quando escrevi sobre Heavy (meu Deus, parece ter sido há séculos!), até aos trabalhos de One More Light, a banda compusera sozinha. Para este álbum, no entanto, os Linkin Park convidaram pessoas de fora para ajudarem na composição. 

 

Não tenho nada contra esse desejo por princípio. Há muito que me arrependi de ter falado em comercialismo na minha análise a Heavy. Também não tenho problemas com os Linkin Park fazendo música pop, menos agressiva – sobretudo depois de o álbum anterior ter sido o completo oposto.

 

O meu problema não é a ideia, a intenção. O meu problema é a execução – pelo menos no que toca à produção e instrumentação da maior parte das músicas. 

 

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Os Linkin Park sempre incorporaram elementos eletrónicos no seu som, bons elementos. As introduções de Crawling e Numb, Breaking the Habit, a sequência depois do segundo refrão em New Divide, álbuns como A Thousand Suns (destacando-se temas como Robot Boy e The Catalyst) e Living Things (destacando-se temas como Lost in the Echo e Burn it Down). Mesmo Post Traumatic é quase todo eletrónico – a instrumentação nem sempre é destaque, mas não prejudica. 

 

Na maior parte de One More Light, no entanto, o instrumental é uma mixórdia eletrónica, descaracterizada. Não percebo o que aconteceu. 

 

Segundo o que Mike explicou em entrevistas, eles mudaram o processo de composição para este álbum. Antes começavam com um instrumental, depois uma melodia compatível, depois a letra. Para One More Light, começavam com um conceito e/ou uma história pessoal que inspirasse a letra, compunham a melodia e, por último, o acompanhamento musical. 

 

Uma vez mais, nada contra, mas não percebo várias das decisões neste último passo.

 

Havemos de dar exemplos mais específicos mais adiante, quando falarmos sobre as faixas individualmente. Para já, o segundo problema que tenho com este álbum não é bem uma falha do mesmo, antes uma frustração minha. O facto de Chester só ter composto duas canções neste álbum, Heavy e Halfway Right (segundo o Genius, ele também terá composto One More Light, a música, mas o Wikipédia contradiz essa informação). 

 

Uma boa parte de One More Light, o álbum, foca-se em temas de depressão, toxicodependência, erros seus, má fortuna, amor ardente (OK, amor ardente nem por isso, pelo menos não neste álbum). Chester era aquele que, dentro da banda, sempre assumiu esse histórico. Qualquer pessoa assumirá que músicas como Nobody Can Save Me ou Sharp Edges serão sobre a vida dele. Corrijam-me se estiver enganada, já lá vão três anos, mas tanto quanto me lembro os próprios Linkin Park promoveram o álbum um pouco nessa direção. 

 

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Mas se Chester não é creditado como compositor nestas músicas, como podemos ter a certeza? Com sabemos se é mesmo Chester cantando sobre a sua perspetiva, os seus sentimentos, ou se foi Mike ou Brad colocando-se no lugar dele?

 

Dando um exemplo específico: o próprio Chester afirmou em entrevista que a letra de Talking to Myself coloca-se no ponto de vista da sua esposa, Talinda, enquanto observava o marido em modo autodestrutivo. Mas, lá está, o nome de Chester não consta da lista de compositores. Chester disse a Mike e aos outros o que escrever? Eles mesmos imaginaram-se no lugar de Talinda? Qual foi o nível de envolvimento de Chester?

 

Se as circunstâncias fossem outras, talvez não me preocupasse tanto com isto. No entanto, este foi o último álbum de Chester em vida, antes de morrer por suicídio, vítima de depressão – um dos temas abordados em One More Light. Não faria sentido ter uma maior participação de Chester, sabermos diretamente da boca dele, da caneta dele, o que se passava no seu coração?

 

Enquanto escrevo isto percebo que estou a ser injusta, a obcecar com algo que não se relaciona diretamente com One More Light. Nem sequer sei a quem dirijo estas críticas que não chegam a sê-lo. É a parte de mim que ainda se interroga porque é que Chester teve de partir tão cedo e daquela maneira, quando supostamente estava melhor, o que é que correu mal. E ressinto-me de One More Light por não dar essas respostas.

 

Não é justo, sei que não é. Quando os Linkin Park estavam a trabalhar neste álbum, não podiam adivinhar o que aconteceria dois meses após o lançamento. Não podiam adivinhar que teríamos todas estas perguntas para as quais ninguém tem resposta.

 

E no entanto… será que quero essa resposta? Será que quero saber exatamente o que falhou? Que ganharia com isso?

 

Estão a ver porque é que eu não queria escrever sobre este álbum?

 

 

Vou deixar as minhas tretas de lado (agora sim, deixo mesmo!) e começar a falar das músicas em si. Heavy foi o primeiro single de trabalho. Conforme referi antes, escrevi sobre ele na altura em que saiu. 

 

Apesar de ainda não gostar muito da canção, hoje compreendo-a melhor – depois de ter lido e ouvido declarações de Chester sobre a mesma. Este explicou em várias entrevistas – ao longo de toda a sua carreira, aliás, muito antes de Heavy – que a sua mente é… ou melhor, era um território hostil, que ele era o seu próprio pior inimigo. Chester possuía uma compulsão para ansiedade, pensamentos sombrios, autodestrutivos, em focar-se no negativo. 

 

Ele argumentava que toda a gente tinha essa tendência, em diferentes graus. Eu concordo e sei que tenho. Por exemplo, tenho um dia menos conseguido no trabalho e não consigo pensar noutra coisa durante o resto do dia – para no dia seguinte nem perceber ao certo o que me incomodava tanto. Ou então, sinto-me mais ou menos satisfeita e em paz e, de repente, começo a pensar “Ah, mas não te esqueças que tens de te preocupar com isto e isto e isto.”

 

Consta que é um mecanismo evolutivo. Os cientistas chamam-lhe “viés negativo”. Impede-nos de nos tornarmos complacentes, força-nos a estar atentos ao perigo, a anteciparmos ameaças, a evitarmos situações desagradáveis. 

 

Tem as suas vantagens em doses terapêuticas mas, como tudo na vida, o problema é quando se exagera. Pessoas com doenças mentais e/ou um passado traumático (vide Chester para ambos os casos) terão mais tendência para exagerar. A partir de certo ponto uma pessoa não consegue desligar esse modo negativo, não se consegue focar no presente, aproveitar o momento. Segundo Chester é uma luta constante. 

 

Se formos a ver, este não é um tema inédito na discografia dos Linkin Park. músicas como Given Up e sobretudo Papercut. Durante umas semanas tive vontade de ir ao vídeo de Papercut – um clássico dos Linkin Park, misturando rap e rock, bastante agressivo – no YouTube e deixar como comentário algo do género “So you’re saying you don’t like your mind right now?”. Uma provocaçãozinha para os fãs mais puristas.

 

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Mas depois Chester morreu e perdi a vontade de ser engraçadinha.

 

Continuo a não gostar muito da música. Sobretudo por causa da instrumentação. Mas reconheço que fui dura demais na minha primeira análise. 

 

Battle Symphony foi o segundo single de One More Light e também o analisei na altura. As minhas opiniões sobre esta música não mudaram muito desde que escrevi esse texto. Dizer apenas que gosto bastante desta versão ao piano

 

O mesmo acontece com Heavy, na verdade. É a questão da produção/instrumentação de novo. Deem instrumentais decentes a estas músicas e a qualidade aumenta logo. Mas não entremos por aí de novo.

 

Um aspeto curioso em relação a Battle Symphony, por outro lado, é que ainda hoje gosto de ouvi-la emparelhada com Liability, de Lorde. Foram lançadas com cerca de uma semana de intervalo, ouvi-as várias vezes na mesma altura para as analisar, acabaram por se associar na minha cabeça. Tem piada porque, de resto, as duas não têm muito em comum.

 

O single seguinte foi Good Goodbye, a faixa outlier de One More Light, com a participação de Pusha T e Stormzy.. Esta no fundo é uma versão mais soft, mais pop, dos clássicos rap/rock dos Linkin Park. Mesmo a letra parece ter sido escrita de modo a poder ser ouvida por menores de doze anos: o pico da agressividade é chamarem “idiota” ao interlocutor e mandarem-no para casa.

 

 

Compreende-se. Enfiarem um tema mais pesado e agressivo naquilo que é essencialmente um álbum pop faria com que a música se destacasse mais pela negativa. 

 

Gostava de chamar a atenção para dois pormenores da letra – versos que realçam a veterania dos Linkin Park enquanto banda. Mike dizendo “I’ve been here killing it longer than you’ve been alive, you idiot” e Stormzy referindo nas suas estâncias que agora tem uma música com os Linkin Park.

 

Eu na verdade até gosto desta música, mais do que esta merece. Ouvia-a bastante em 2017. Antes de começar a escrever esta análise, não a tinha ouvido em algum tempo. Pensava que, quando voltasse a ouvi-la, não lhe acharia tanta piada, mas ainda gosto. Lá está, não tanto como clássicos como Faint ou Papercut ou Bleed it Out, nem sequer está entre as minhas preferidas neste álbum, mas não deixa de ser uma música gira.

 

Invisible foi a última canção a ser publicada antes do resto do álbum. Este é uma das relativamente raras canções na discografia dos Linkin Park em que é apenas Mike a cantar (Chester apenas contribui para os backvocals). Tendo em conta o tema da canção, faz sentido. Segundo Mike, Invisible é uma carta aos seus filhos, para eles ouvirem quando forem adolescentes e se sentirem incompreendidos pelos pais.

 

A letra tenta antecipar eventuais discussões, tentativas da parte de Mike ou da esposa, Anna, de fazer o que acha ser o mais adequado para os filhos, mesmo que eles não gostem na altura. Segundo o próprio Mie, os filhos ainda são pequenos, mas já têm personalidades vincadas e “quando tiverem dezasseis anos vão dar-nos o ‘Pai, odeio-te, não me compreendes, blá blá blá’”, vão bater com a porta, meter headphones e ignorar os pais.”

 

Estou a rir-me porque a minha geração punha Linkin Park a tocar nos headphones que usávamos para ignorar os nossos pais. Numb, então, parece ter sido criada para esse uso. No entanto, agora Mike e os outros estão do lado dos pais, não dos filhos. 

 

 

Pergunto-me se os filhos de Mike algum dia usarão as músicas dos Linkin Park contra ele. Se a meio de uma discussão os miúdos acusarão Mike de achar que cada passo que os filhos dão é outro erro que eles cometem. Fico curiosa.

 

A letra é interessante, sim, a musicalidade nem por isso. Este é outro caso de instrumentação que não impressiona. Mike não canta nada mal, mas a música é demasiado monocórdica, está sempre no mesmo tom, não entusiasma. 

 

Nesse aspeto, Sorry for Now está melhor conseguida. Esta também é uma carta de Mike para os seus filhos – desta feita dizendo respeito às suas longas ausências em digressão. Em suma, uma sequela a Where’d You Go, do seu projeto lateral Fort Minor.

 

É sempre complicado explicar a miúdos pequenos porque é que a mãe e/ou o pai não podem estar sempre com eles – seja por umas horas, para ir trabalhar, seja durante semanas ou meses, como acontece com músicos como Mike. Ainda me lembro de ver a minha irmã com um ano de idade, chorando todas as manhãs quando os meus pais saíam para o trabalho. E lembro-me de ser difícil, tanto para mim como para os meus irmãos, quando os nossos pais tinham de fazer noites.

 

Nem quero imaginar o quão difícil será para os miúdos terem de passar semanas ou meses sem ver os pais.

 

Não admira que, nas primeiras semanas após a morte de Chester, uma das filhas dele, Lily, tenha perguntado se o pai estava “em digressão nos nossos corações”. Na altura associava as ausências de Chester a digressões.

 

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E com isto vou mudar de assunto antes que comece a chorar. 

 

Musicalmente, Sorry for Now é mais interessante que Invisible por vários motivos. Há maior variação ao longo da faixa, tanto no instrumental como na interpretação de Mike – ele até canta bem, notas mais agudas do que o costume! 

 

Eu, no entanto, dispensava os vocais artificiais. Já me queixei deles em Dedicated, de Carly Rae Jepsen, também estragaram várias músicas de One More Light, como esta.

 

A minha parte preferida de Sorry For Now é a terceira parte, quando Chester aparece do nada. É uma variação à fórmula de algumas músicas dos Linkin Park, como Burn it Down, em que Chester canta as duas primeiras partes e Mike vem na terceira com um rap. Embora, em Sorry For Now, o rap seja mais melódico que o habitual.

 

E com isto vamos fazer uma pausa na análise. Não percam a segunda parte, que vem ainda hoje. 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Bright

Não estava nos meus planos escrever este texto mas aqui estamos.

 

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Bright é uma canção de Avril Lavigne, composta e gravada durante os trabalhos de Head Above Water, mas que foi excluída do alinhamento final do álbum. Há cerca de três semanas apareceu na Internet. Logo nas primeiras audições a música deixou a sua marca em mim. Pus a hipótese de escrever sobre ela, mas deixei-a de lado. Em parte porque ainda estava a trabalhar no meu texto anterior e tinha planos para escrever outro a seguir, em parte porque não era um lançamento oficial. Não que me tenha servido de impedimento antes, mas mesmo assim.

 

No entanto, a verdade é que a música tem vindo a significar mesmo muito para mim. Acabei por chegar à conclusão de que o tema tem uma mensagem importante nestes tempos conturbados que atravessamos, não podia deixar de escrever sobre ela. Estamos todos a precisar de uma canção como Bright.

 

Um pouco de contexto antes. Hoje em dia qualquer fã de Avril estará fartinho de saber que ela contraiu Doença de Lyme em 2014 e passou os anos seguintes a lutar contra a doença. Durante os primeiros dois, três anos da doença, deixou de poder fazer a sua vida normal. Houveram alturas em que ficou de cama, incapaz de realizar tarefas básicas, como lavar os dentes. Chegou a pensar que não conseguiria retomar a sua carreira musical ou mesmo sobreviver. 

 

Uma coisa de que me apercebi por estes dias foi que aquilo por que estamos a passar neste momento – a quarentena, o isolamento social – foi mais ou menos aquilo que Avril teve de fazer durante os seus primeiros anos da sua doença. A menos que tenhamos sintomas graves do Covid-19, não estamos tão debilitados como ela chegou a estar, felizmente, mas também estamos confinados às nossas casas, com as nossas vidas em pausa, sem saber quando, ou se, conseguiremos retomá-las. 

 

E agora, que Avril já tinha recuperado a sua vida, a sua carreira, tinha conseguido gravar e lançar um álbum, já tinha estado em digressão pelos Estados Unidos e Canadá, preparava-se para regressar à Europa e à Ásia (e eu ia vê-la a Zurique), isto acontece, ela é obrigada a colocar a sua vida, a sua carreira, em pausa outra vez.

 

Esta pandemia não está a ser fácil para ninguém e o caso de Avril está longe de ser o pior. Longe de mim insinuar o contrário. Mas não deixa de ser cruel.

 

 

Bright é uma canção que documenta bem a vida de Avril condicionada pela Doença de Lyme – melhor que as músicas da edição padrão de Head Above Water, tirando, quanto muito, a faixa-título. É possível que tenha sido composta mais ou menos na mesma altura em que Head Above Water e Warrior foram, quando Avril só tinha forças para se levantar da cama e se sentar ao piano. 

 

A produção é relativamente simples e minimalista – é possível que isto seja só uma demo. É conduzida pelo piano, a que se junta a percussão, teclados discretos e, apenas no pós-refrão e terceira parte, sintetizadores.

 

O foco deste texto não é a parte musical, no entanto, é a letra – que pode ter sido inspirada pelas dificuldades de Avril com o Lyme mas também pode ser aplicada à nossa situação. Bright começa com “Everything is numb. I lost all the feelings in my bones. Got no place to go.” Não sei como é com vocês, mas ultimamente tenho tido dias de desânimo, em que me custa sair da cama, em que não me apetece fazer nada – ou melhor, só me apetece fazer coisas improdutivas como jogar Sims ou Candy Blast Mania no meu telemóvel. 

 

Os versos do pré-refrão continuam nessa linha: “I’ve been sleeping through the days and nights”. A frase seguinte vai mais longe: “I’ve been feeling I can’t even fight for things that used to get me feeling so alive”. Avril aqui falará provavelmente sobre o facto de não poder fazer aquilo que mais gosta: cantar, ir em digressão. A mim, no entanto, recorda-me tudo o que o vírus nos tem tirado: a possibilidade de trabalharmos, para muitos nós; concertos, jogos de futebol, cinema, teatro e todo o género de eventos com multidões.

 

As coisas que, lá está, nos dão alegria, sentido, que nos fazem sentir vivos.

 

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Na segunda estância Avril canta “Feeling like I’m somewhere in between. Everything I know slowly coming back to meet me”. Faz-me lembrar 26, dos Paramore.I talk to myself about the places that I used to go”. Estando nós impedidos de viver experiências novas, uma das coisas que temos feito é olhar para trás. Como por exemplo recordando a final do Euro 2016. 

 

Admito desde já que não tenho autoridade para criticar tais atitudes. Sempre tive esse defeito: viver no passado, recordando períodos felizes, ignorando as coisas boas do presente. Além de que serei a última pessoa a criticar recordações da final de Paris – ainda hoje me emocionam vídeos como este e sei perfeitamente que iremos falar desse jogo até ao fim dos nossos dias.

 

No entanto, nesta fase do campeonato, não me tem ajudado muito olhar para o passado. Ao fim de algum tempo, só me recorda daquilo que não podemos fazer. 

 

Tendo em conta aquilo que se está a passar agora, estou grata pelas oportunidades não desperdicei nos últimos anos. Todos os jogos da Seleção a que fui, sobretudo a final da Liga das Nações no Porto. Os concertos dos Sum 41, da Shakira, de Bryan Adams, os encontros do Odaiba Memorial Day. Todos os almoços e jantares com família, colegas ou amigos, festas de anos dos meus primos pequenos. As viagens que tenho feito. As férias na praia. Até mesmo coisas menores como os passeios com a minha cadela, as tardes de escrita na esplanada. 

 

Mas também tudo isto me recorda que tão cedo não serei capaz de formar novas recordações para juntar a essas. O concerto da Avril foi cancelado e ainda não foi remarcado. O Euro 2020 foi adiado para o próximo ano. Era suposto o meu irmão vir passar a Páscoa connosco, no Algarve. É possível que o encontro do Odaiba Memorial Day não tenha de ser cancelado, pois será só em agosto, mas ainda não se tem a certeza.

 

E seria uma chatice cancelar o evento deste ano – logo agora que vão lá estar dobradores!

 

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No refrão, Avril compara-se a uma estrela cadente. Que surge no céu, brilha durante alguns segundos e depois desaparece na escuridão. Se pensarmos um bocadinho nesta frase, se assumirmos que é uma metáfora da sua carreira, dos seus sonhos… é triste. 

 

Não duvido que hajam pessoas com sentimentos semelhantes neste momento – que tiveram de pôr as suas vidas, os seus projetos, os seus sonhos em pausa, e correm o risco de perdê-los definitivamente.

 

A segunda parte do refrão é mais otimista, falando da necessidade de manter os olhos no céu, não perder a luz de vista. O verso “Out of the darkness we burn so bright” faz-me pensar nos exemplos do melhor da humanidade que temos visto: o sacrifício de médicos e enfermeiros, pessoas cantando à janela, as mensagens de esperança de jornalistas, partilhadas nas redes sociais (com graus diferentes de realismo e lamechice mas, eh pá, se isso ajudar uma pessoa que seja a tornar isto tudo menos insuportável, não sou eu que vou criticar), os utentes que vêm à minha farmácia buscar medicamentos para os familiares e vizinhos, a senhora que, no outro dia, nos ofereceu umas fatias de bolo de chocolate. 

 

Na terceira parte, Avril fala sobre agarrar-se à sua luz interior, sobre lutar para recuperar os seus sonhos. Quando ela escreveu esta letra referia-se por certo à sua saúde. Aplicando à atualidade, no entanto, à pandemia, torna-se paradoxal porque, para muitos de nós, a única maneira que temos de lutar pela nossa liberdade é… continuando prisioneiros. 

 

 A solução passará mesmo pela ideia defendia pelo refrão: continuarmos à procura da luz, agarrar-nos ao nosso melhor lado – ao civismo, à solidariedade, à esperança. Acreditar que, mais cedo ou mais tarde, isto passará. Que, como dizem nas internetes, iremos todos ficar bem.

 

Ainda que eu tenha algumas reservas.

 

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Em suma, não sendo uma letra super original, Bright é melhor que músicas como Warrior e mesmo Head Above Water ou It Was in Me até certo ponto. Isto porque, como acabámos de ver, em vez de se pôr com clichés, Avril diz exatamente aquilo que sente: a apatia, a frustração, a determinação, a esperança. E, pelo menos falando por mim, isso repercute na audiência, sobretudo numa altura como esta. 

 

Bright podia e devia ter sido incluída em Head Above Water. Talvez soasse um bocadinho redundante com Warrior ou a faixa-título mas este álbum está cheio de redundâncias. Birdie, I Fell in Love with the Devil e Tell Me It’s Over sobre relações tóxicas; Crush e Love me Insane sobre redescobrir o amor. Se era para haver repetição de temas neste álbum, que fosse, sobre a sua luta contra a Doença de Lyme – aquilo que, supostamente, seria o conceito principal de Head Above Water.

 

Por outro lado, não posso negar que Bright apareceu na Internet numa altura excelente. Pergunto-me se isso foi deliberado da parte do pirata informático que desencantou esta canção (simpático da parte dele ou dela) ou se foi mera coincidência.

 

Em todo o caso, é por situações como esta (que, como neste caso, nem sempre estão sob o controlo dela) que Avril se vai mantendo no topo das minhas preferências, mesmo sem o merecer por completo. Ela será sempre a minha mãe musical.

 

Espero, assim, que Bright também vos dê consolo e alento enquanto esperamos que esta pandemia se resolva. 

 

Quanto a este blogue, tinha referido na publicação anterior que queria escrever textos em atraso. E é o que tenho feito. Tenho estado a trabalhar numa análise que ando a adiar há muito tempo. No entanto, quero publicá-la numa data específica em maio. Ainda vão ter de esperar para poderem lê-la. 

 

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Entretanto, comecei outro projeto, algo inesperado. Um diário. 

 

Tinha visto de passagem no Twitter sugestões para escrevermos diários durante este período de pandemia – um período que, todos concordam, vai mudar o Mundo, que será estudado por historiadores no futuro. A ideia ficou-me no subconsciente, um dia destes ressurgiu e resolvi colocá-la em prática. 

 

Não voltei a encontrar o tweet em questão, mas tenho encontrado vários artigos sobre o assunto, encorajando as pessoas a escreverem diários. Para além dos benefícios psicológicos numa situação difícil e extraordinária como esta, no futuro estes diários serão objetos de estudo de historiadores. Servirão para informá-los acerca do impacto que esta pandemia está a ter no dia-a-dia de pessoas comuns como nós – algo que nem sempre é fácil descobrir através de fontes oficiais. 

 

A autora deste artigo, por exemplo, revela que escreveu no seu diário sobre as primeiras semanas ou meses após o 11 de setembro, a maneira como as pessoas da sua comunidade estavam a reagir à tragédia. Por outro lado, também escreveu sobre a maneira como viveu a vitória do seu clube, The New England Patriots, na Super Bowl. 

 

Não posso deixar de comentar esse aspeto pois foi precisamente com esse fim (ainda que de forma inconsciente) que criei o meu blogue sobre a Seleção Nacional. 

 

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Neste artigo referem que será preferível escrever um diário manuscrito em vez de digital. Supostamente serão mais duradouros.

 

Será verdade? Tenho as minhas dúvidas – não encontrei nenhuma fonte que corroborasse essa teoria. Mas suponho que, para um historiador, será mais fácil estudar um velho caderno escrito por uma tia-avó do que escavar por entre toneladas de lixo digital, tentando separar publicações sérias de desinformação.

 

Não me interpretem mal, se preferem escrever ao computador, num blogue ou num ficheiro Word protegido por palavra-passe (ainda é possível proteger ficheiros Word com palavra-passe?), estejam à vontade. Escrever é sempre bom. 

 

Eu no entanto prefiro escrever o meu diário à mão. Mesmo que não sirva de objeto de estudo para um historiador, pode ser que algum descendente meu queira ler sobre a minha vida durante a pandemia. Se nem para isso servir, será apenas um exercício de entretenimento e auto-reflexão.

 

Ora, visto que tenho escrito sobre coisas que ocorrem na minha família ou no meu emprego, não poderei partilhar o meu diário na íntegra aqui no blogue. A ideia é este diário só ser lido daqui a muitos anos – quando aspetos que hoje são privados já não serão relevantes. Mas poderei eventualmente publicar alguns excertos – com alguma distância temporal. 

 

Este texto foi adaptado de uma das entradas do meu diário, na verdade. Precisamente por causa do impacto que Bright teve em mim. 

 

Vou, assim, passar estes dias de quarentena e isolamento social a escrever, quer no meu diário quer neste blogue (o outro, infelizmente, vai ficar em águas de bacalhau por tempo indefinido). Quanto a vocês, lavem as mãos, fiquem bem e em casa. De uma maneira ou de outra isto há de passar. 

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