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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Linkin Park – Hybrid Theory (2000) #2

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Segunda parte da análise a Hybrid Theory. Podem ler a primeira parte aqui

 

Uma das minhas preferidas, não apenas neste álbum, mesmo de toda a discografia da banda, é With You. Descobriu-se há pouco tempo que é também a preferida de Bella Swan, do Twilight. Não sei o que fazer com essa informação.

 

With You tem uma letra algo vaga, não se percebendo ao certo qual é o assunto. Parece falar de uma pessoa querida que está separada do narrador. Morreu? Partes da letra parecem apontar nesse sentido – “Even though you’re close to me, you’re still so distant and I can’t bring you back”. “The sound of your voice painted on my memories/Even if you’re not with me, I’m with you.” – mas é possível que seja apenas sobre uma separação. A letra também dá a entender que o relacionamento não seria muito saudável – e que o narrador guarda arrependimentos em relação a isso. 

 

Para mim, o melhor da música é o seu instrumental. Gosto muito da introdução – embora não consiga identificar todos os sons, tirando os discos giratórios de Mr. Hahn. Estes, aliás, estão presentes em toda a música, quase tão prevalentes como a guitarra, tendo até direito a um solo.

 

Já que falamos de guitarras, adoro a sequência dos acordes, imediatamente antes da primeira estância. Durante o rap de Mike, nas estâncias, a instrumentação torna-se mais leve, mais atmosférica (algo que torna a acontecer noutras faixas de Hybrid Theory, como veremos adiante). Ouvem-se apenas notas de teclado por cima da bateria – para depois se repetir a sequência inicial, durante o pré-refrão e o refrão. 

 

Não resisto a contar-vos uma historieta pessoal engraçada. Alguns de vocês devem conhecer a música Get With You, so Ritchie Campbell. No refrão, ele canta "but I just can't get with you, with you". Eu ganhei o hábito de, quando apanhava a música na rádio, pôr-me a cantar "You, now I see, keeping everything inside" ou "You, now I see, even when I close my eyes" durante os "with you, with you". Por algum motivo, isto irrita a minha irmã – logo, comecei a fazê-lo de todas as vezes que ouvíamos Get With You. 

 

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Quem tiver irmãos compreende. 

 

A partir de certa altura, bastavam soar os primeiros acordes para a minha irmã se virar para mim e dizer:

 

– Nem penses! 

 

Eu não cantava, mas ficava a rir que nem uma perdida. 

 

Tenho de confessar que, depois de Chester morrer, deixei de fazê-lo. Ainda assim, agora que já passaram uns anos, era capaz de voltar a irritar a minha irmãzinha com estes versos. Mas a verdade é que não a temos apanhado na rádio ultimamente. 

 

Durante muito tempo quis fazer um AMV para esta música. Era a próxima na lista há meia dúzia de anos, quando andava a fazê-los com os filmes de Pokémon. Só que o Windows Movie Maker deixou de funcionar no meu computador. O desejo não desapareceu por completo, confesso, mas agora tenho menos tempo livre. Quando o tenho, prefiro escrever.

 

 

Outra que também esteve sempre entre as minhas preferidas (agora nem tanto, anda a ser destronada) é Points of Authority. Esta é uma das músicas com mais demos em todo o álbum – como dá para ver agora, na edição de aniversário. Numa dessas versões o rap de Mike – que, na versão final, serve de introdução e de terceira parte – toma o lugar do refrão. Outra versão usa o refrão do álbum, mas o rap é diferente – pior, na minha opinião, mais previsível. 

 

Em suma, prefiro mesmo a versão final. Gosto imenso do rap na terceira parte, sobretudo quando Chester se junta a Mike (pelo menos nas versões ao vivo). Além disso, o refrão flui tão bem depois das estâncias que custa a acreditar que, a certa altura, a banda pôs a hipótese de não inclui-lo. 

 

Uma confissão: espero não ter sido a única a ficar baralhada por um momento quando, no Rock in Rio de 2014, cortaram o rap introdutório. Demorei a perceber que música era. 

 

Outra confissão: examinar a letra de Points of Authority para esta análise estragou-me um bocadinho a música para mim. Parva como sou, nunca me tinha apercebido de que o verso "while taking pleasure in the awful things you put me through" poderá ser uma referência aos abusos sexuais a que Chester foi sujeito em miúdo. Existem também referências a comportamentos auto-destrutivos, e dá-se a entender que o agressor também foi uma vítima, que está apenas a lidar com a vida da maneira que sabe. 

 

O que é capaz de ser verídico. 

 

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O instrumental não é dos mais interessantes neste álbum, mas sempre tem uma espécie de beatbox ao longo de toda a faixa, dando-lhe carácter próprio. O que de resto alude ao rap, que fala em corridas demasiado rápidas, em alguém que não está à altura do desafio. 

 

Neste momento e no que toca às últimas semanas, desde que comecei a examinar este álbum para escrever esta análise, as minhas músicas preferidas em Hybrid Theory são A Place For My Head e Forgotten. Já gostava delas individualmente antes disto – explicá-lo-ei porquê já a seguir – são ambas enérgicas, agressivas e soam muito bem em sequência, como surgem no alinhamento do álbum. A Place For My Head termina um pouco de repente – só temos um segundo para respirar, antes de Forgotten abrir logo a matar, com o potente refrão. 

 

Além disso, nestas últimas semanas tenho passado mais tempo com estas duas canções do que com a maioria das outras. A Place For My Head e Forgotten são as faixas mais antigas de Hybrid Theory, compostas ainda no tempo dos Xero. A edição de vigésimo aniversário inclui demos das mesmas – intituladas Essaul e Rhinestone – ainda com a voz de Mark Wakefield. E, como vimos antes, estas demos faziam parte da cassete de audição de Chester. 

 

A Place For My Head é uma das faixas mais pesadas em Hybrid Theory, com as guitarras e os gritos de Chester. Começa enganadoramente suave, com um riff de guitarra que faz uma boa ponte com o final de In the End. Seguem-se a bateria e os discos giratórios. É então que começa o rap de Mike, numa altura em que o riff passa a ser tocado por uma guitarra elétrica. As guitarras tornam-se mais pesadas por alturas do refrão. 

 

Um dos melhores momentos da música é a terceira parte. Quem disser que nunca se assustou quando Chester passa dia sussurros aos gritos está a mentir. Outra das minhas partes preferidas é o encerramento: os acordes pesados de guitarra, a bateria, os gritos de Chester antes de Mike repetir o rap.

 

 

Quem disser que nunca se assustou quando Chester passa dos sussurros aos gritos, na terceira parte da música, está a mentir. 

 

Outra das minhas partes preferidas é o encerramento:os acordes trovejantes de guitarra, a bateria, os gritos de Chester antes de Mike repetir o rap do pré-refrão. Quando abriram o concerto do Rock in Rio de 2012, eles recriaram esta parte na introdução e ficou espetacular, como poderão ouvir. 

 

Muitos destes elementos da instrumentação de que gosto em A Place For My Head já vinham da demo Essaul – que recebeu o nome de um dos amigos de Mike e dos outros membros dos Xero. Já lá está a introdução, os sussurros que passam a gritos, a conclusão. 

 

A diferença mais significativa é o rap de Mike: bem mais rápido, que tem sido comparado a Eminem. É de facto impressionante – gosto em particular do início da segunda estância, da pequena explosão musical quando Mike diz "stronger than a nuclear bomb". Ainda assim, prefiro o rap na versão final – só mesmo porque esse consigo acompanhar, consigo cantar. O outro não. 

 

Por outro lado, o verso "Soon the Aztec Moon will heat my room, heal my wounds" é hilariante. Que raio significa? 

 

 

Para ser justa, a letra da versão final também não é espetacular. Não é má, apenas simples e inespecífica. Fala de pessoas tóxicas, calculistas, que fazem favores só para poderem cobrar de volta. O narrador deseja fugir delas. 

 

Quando tinha dezassete ou dezoito anos, esta era uma das músicas que me repelia, demasiado pesada para as minhas sensibilidades ainda muito pop. Hoje no entanto, como referi antes, é uma das minhas preferidas. Não sou a única – consta que é bastante popular entre os fãs. 

 

A letra de Forgotten é um bocadinho pior que a de A Place For My Head – pinta cenários vagamente emo, vagamente sombrios, mais nada. Uma vez mais, vale pelo instrumental. 

 

Nesse aspeto, Forgotten tem algumas semelhanças com With You no sentido em que alterna guitarras elétricas com momentos mais leves e atmosféricos, algo eletrónicos, nas estâncias. Gosto imenso do refrão, com Chester e Mike alternando na primeira metade e depois a parte melódica – quase de todas as vezes que oiço esta música, dou por mim a cantar esses versos, sobretudo no final: "In the memory, you will find me". E gosto da maneira como o último verso soa estranhamente esperançoso "until the sun rises up". 

 

By Myself é uma faixa muito parecida com Forgotten, não apenas no instrumental como também pelo facto de o refrão ser meio rap meio melódico. A letra é melhor, a musicalidade não (não que seja pior, é apenas menos impressionante). É uma música algo deprimente, que fala sobre solidão, cansaço, desânimo, insegurança, derrotismo. Só coisas boas, como podem ver. Se uma pessoa não se distrai dando uns headbands, fica na fossa. 

 

 

Consta que Chester não gostava muito de Runaway. Dizia que era uma das piores da banda, ao ponto de não querer mais tocá-la ao vivo. Eles mesmo assim mantiveram-na nas setlists até pelo menos 2012 – acho que só não a retiraram mais cedo porque sabiam que até era popular entre os fãs. 

 

Na minha opinião, é exagero dizer que é das piores dos Linkin Park, mas de facto não é nada de especial. A letra deixa um pouco a desejar – à semelhança de Forgotten, temos imagens sombrias, de revolta adolescente. Musicalmente segue a fórmula de Hybrid Theory, mas não tem a acutilância, a ferocidade de temas como One Step Closer ou A Place For My Head. 

 

Na verdade, agora que saiu a edição de vigésimo aniversário, gosto mais da versão demo desta faixa, Stick N Move – outra que vem dos tempos dos Xero. A versão mais antiga, com a voz de Mark Wakefield, não foi incluída na edição de aniversário, mas está disponível na Internet – em baixa qualidade. 

 

O instrumental é parecido com o de Runaway, mas o vocal é outro: as estâncias são em rap, o refrão é diferente. A versão cantada por Chester tem uma terceira parte apenas instrumental, mas a versão dos Xero tinha um rap de Mike interessante. 

 

Por mim, teria mantido a versão de Stick N Move cantada por Chester, juntamente com o rap da versão dos Xero. Sempre era um pouco mais interessante que Runaway. Mas consta que Don não gostava de Stick N Move. Mike e os outros também não morriam de amores pela canção, por isso, não se importaram que se transformasse em Runaway (mas no fim também não gostaram muito dessa…). Enfim. 

 

Crawling é uma música que tem subido na minha consideração nos últimos anos, se bem que não pelos motivos mais felizes. Musicalmente é uma balada, uma das músicas mais lentas de Hybrid Theory, mas não é menos pesada que a maioria do álbum – com alguns elementos eletrónicos, nomeadamente na introdução. Em termos de vocais, é impossível não assinalar os agudos impossíveis de Chester no refrão – falaremos sobre isso já de seguida. 

 

 

Todos concordam que esta será uma das músicas mais autobiográficas de Chester. O próprio explicou que a letra de Crawling é sobre admitir, por difícil que seja, que se tem um problema consigo mesmo, que não se tem controlo sobre si mesmo. No caso de Chester, isso diz respeito ao seu alcoolismo e toxicodependência, aos seus traumas, aos demónios que, no fim, lhe custaram a vida. Crawling é sobre ser-se o seu próprio pior inimigo. 

 

Há pouco tempo, Mike contou uma história engraçada sobre a letra do refrão. Se ouvirem a versão demo, lançada agora na edição de aniversário, hão de reparar que, tirando uma secção de rap que foi cortada na versão final, existem algumas diferenças pontuais na letra. Por exemplo, o verso "Fear is powerful", no refrão. Consta que, quando Mike e Chester mostraram esta versão a Don e lhe perguntaram a opinião sobre a letra, ele respondeu:

 

– Está boa. Gosto muito do verso "Fear is how I fall". 

 

Don ouvira mal a letra, mas Mike e Chester não disseram nada – concordaram tacitamente que a versão de Don era melhor. 

 

Em todo o caso, esta história chamou-me a atenção para esse verso. "Fear is powerful/how I fall, confusing what is real". O medo deita abaixo, altera a nossa perceção da realidade. Os nossos traumas, as nossas inseguranças fazem-nos recear coisas a que, racionalmente, não daríamos importância. 

 

Chester deu a entender que compôr e cantar Crawling, pôr a nu as suas partes mais negras, obrigou-o a tomar responsabilidade sobre si próprio, sobre a sua saúde mental. Chester não tinha problemas em admitir o seu passado difícil, os seus comportamentos aditivos e autodestrutivos. Tinha mesmo orgulho em ser um alcoólico em recuperação, em canalizar essas facetas para música que, como no caso de Crawling, depois se vendia aos milhões, ganhava Grammys e tocava ouvintes lidando com problemas semelhantes. 

 

Pois… 

 

 

Queria agora falar sobre um momento que contribuiu para a minha elevada consideração por Crawling. Foi, uma vez mais, no concerto de 2012 no Rock in Rio (que coincidiu com a altura em que estava a tomar o gosto à música mais pesada dos Linkin Park). Quando tocaram Crawling, Chester foi cantar para junto do público. Houve um engraçadinho que colocou um cachecol do FC Porto aos ombros do vocalista – um momento hilariante que, como o próprio Chester descreveu, deixou "muita gente feliz e muita gente fula". 

 

Tenho apego a esse momento porque envolveu Chester provando um bocadinho de portugalidade, envolvendo-se por breves instantes nas nossas rivalidades clubísticas. Chester foi um bocadinho nosso. 

 

Mas mesmo sem o cachecol, foi um momento bonito – sobretudo para os sortudos dos fãs, até tiveram o privilégio de contactar com só um dos melhores vocalistas de todos os tempos. Fiquei com inveja, claro, mas também fiquei contente por eles, por fãs portugueses terem tido essa sorte. Sobretudo o rapaz que cantou o refrão cara a cara com Chester. 

 

Agora que ele já não está entre nós, recordações como esta – bem como quando lhe agarrei a mão por um momento no concerto do Rock in Rio de 2014 – ganharam um carácter agridoce. Pergunto-me como terão reagido aqueles fãs à notícia da morte de Chester. Terão dado graças por terem tido aquela oportunidade? Terão sentido pena por essa já não se poder repetir? Sentem mágoa, como eu, por as vozes deles cantando Crawling não terem falado mais alto que as vozes na cabeça dele? 

 

Depois do que aconteceu há três anos, tenho pensado muito no verso "Against my will I stand beside my own reflection, it's haunting", em como ele escolheu cantar esta música específica para junto do público – não apenas no Rock in Rio 2012, também noutras ocasiões, como no vídeo da digressão One More Light. Penso no verso de No Friend, dos Paramore (já não é a primeira vez que escrevo sobre isso aqui no blogue, pois não?): "I see myself in the reflection of people's eyes/Realising that what they see may not even be close to the image I see in myself". Seria por isso que Chester vinha para junto dos fãs? Para se ver refletido nos nossos olhos, para tentar ver-se a si mesmo como nós o víamos? Não o seu pior inimigo mas sim alguém digno de admiração, de carinho? 

 

Nunca saberemos. 

 

 

Queria agora falar sobre a versão de Crawling editada no álbum da digressão One More Light. Em linha com o disco menos pesado e agressivo, esta é uma versão apenas com piano num tom um pouco mais grave que a versão do álbum, mais cantada que gritada – Chester bem se tinha queixado que a melodia original era difícil de cantar. 

 

A música fica com um carácter completamente diferente assim. A versão de estúdio, com o refrão agudo, barulhento, soa raivosa, algo melodramática. Encaixa-se no estilo de Hybrid Theory, não me interpretem mal, e sei que é catártica para muitas pessoas, mas acho que distrai um pouco da mensagem trágica da letra. 

 

O que não é necessariamente um ponto fraco, agora que penso nisso. Um dos feitos de Hybrid Theory, é dos Linkin Park em geral, diz respeito à maneira como deram voz às angústias e revoltas de adolescentes, sobretudo rapazes. Isto nunca altura em que sentimentos no masculino ainda eram menos tolerados que agora. Ainda assim, a emoção dominante em Hybrid Theory é a raiva, que, como já tínhamos visto antes é a única emoção que homens podem exprimir, segundo o patriarcado. 

 

Nesse sentido, Crawling é um bom exemplo desta… ambiguidade, à falta de melhor palavra. À primeira vista (ou melhor, audição), esta é uma música dominada pela ira. No entanto, basta prestar um pouco de atenção para se perceber que essa ira esconde muita coisa.

 

A versão ao piano é mais transparente, nesse aspeto – o que faz sentido mais de quinze anos depois, num homem mais maduro. Esta é uma Crawling mais triste, mais resignada. Eu chorei da primeira vez que a ouvi, quando saiu o álbum ao vivo (tecnicamente já tinha ouvido esta versão antes, quando lançaram Heavy em fevereiro desse ano, mas muita coisa acontecera entretanto, tinha-me esquecido completamente). Ainda tinha passado pouco tempo, a dor era ainda recente. Esta versão soava – ainda soa – como uma versão memorial. Ainda agora, ao ver o vídeo da apresentação ao vivo, ao vê-lo cantando junto dos fãs, lacrimejei um pouco. Abracem-no. Abracem-no e não o larguem. 

 

Eu diria, para resumir, que a versão de estúdio de Crawling é a versão adolescente. A versão ao piano é a versão adulta. 

 

 

Existe outra versão adulta de Crawling, outra versão memorial. Eu já tinha falado dos Bad Wolves aqui no blogue, a propósito do cover de Zombie, que lançaram pouco depois da morte de Dolores O'Riordan. Este ano voltaram a homenagear outra lenda do rock que partiu demasiado cedo. Lançaram um cover de Crawling na semana do aniversário da morte de Chester. 

 

Este cover acaba por ter um tom semelhante da versão de Crawling ao piano. É uma versão acústica no fundo: conduzida pelo piano, também, acompanhada por guitarra acústica, violinos, percussão. Incluíram também um solo de guitarra muito fixe. Gosto muito deste cover. 

 

Quando publicaram esta versão de Crawling no Facebook, juntaram-lhe uma mensagem dolorosa sobre os efeitos a longo termo de abusos sexuais na infância (a parte de desvalorizar o racismo é que era desnecessária). Chester infelizmente foi um bom exemplo. 

 

Por paradoxal que seja, gosto cada vez mais de Crawling, em parte por causa destas versões mais recentes. Mas também reconheço que, depois de 20 de julho de 2017, é uma das mais dolorosas. Antes da morte de Chester, havia muita gente que não levava a letra de Crawling a sério. Achavam que era exagerada, talvez para apelar aos dramas de adolescentes – sendo esses próprios dramas desvalorizados. 

 

Mas não, não era exagero nenhum, era real – e quando muitos de nós o descobriram já era tarde. E foram precisamente as coisas sobre as quais cantou que o mataram. 

 

Eu sei que tanto a vida como a morte de Chester terão ajudado muitas pessoas. Se hoje se fala mais sobre saúde mental, se as mentalidades estão a mudar, é pelo menos em parte por causa do que lhe aconteceu. Mas dói à mesma. Nos meus piores dias tenho vontade de mudar a letra para "these wounds will never heal". 

 

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*suspiro* Às vezes chateia-me que, desde julho de 2017, sempre que se fala dos Linkin Park, falamos inevitavelmente do que aconteceu a Chester. Já foi um alívio não ter tido de falar no assunto quando escrevi sobre She Couldn't, tirando uma referência muito breve. Imagino que seja mil vezes pior para Mike e os outros – talvez seja por isso que ainda não regressaram em força como banda. 

 

Que se pode fazer? Chester era o coração dos Linkin Park. Sem ele é tudo diferente, sobretudo tendo partido da maneira como partiu. Talvez um dia seja possível recordar Chester sem dor, só com alegria. Quanto a mim e a este blogue, vou tentar não puxar o assunto sem necessidade, mas quando achar que se justifica não vou deixar de assinalá-lo. 

 

Enfim, perdoem-me este desabafo, perdoem-me terminar esta parte da análise numa nota tão triste. A terceira e última parte será menos deprimente. Publico-a amanhã. 

Avril Lavigne - The Best Damn Thing (2007)

Uma das ideias que tenho para ir mantendo o blogue em funcionamento diz respeito a críticas retrospetivas de álbuns marcantes dos meus artistas preferidos. Seria também uma forma de revisitar músicas a que, ultimamente, não tenho dado muita atenção. Eu peço desculpa pela falta de variedade, mas os primeiros álbuns de que quero falar nesta categoria são os três de Avril Lavigne de que ainda não falei. A minha intenção era publicar as respetivas análises retrospetivas no aniversário dos lançamentos, mas o lançamento de Fly trocou-me as voltas relativamente a The Best Damn Thing (o single foi lançado no oitavo aniversário do terceiro álbum de Avril).

 

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The Best Damn Thing é o terceiro álbum de estúdio de Avril Lavigne e um dos mais controversos entre os fãs. Até aqui, Avril era marketeada como uma anti-pop star. Depois deste álbum, sobretudo com Girlfriend, esse rótulo foi ao ar. As consequências desta mudança foram diversas: se Girlfriend é o single dela com mais sucesso até ao momento (não, não é Complicated nem Sk8er Boi. Eu sei, custa a acreditar...) e este é um dos álbuns mais premiados dela, atraindo imensos fãs novos, também fez com que muitos fãs antigos batessem em retirada e, a longo prazo, arruinou o relacionamento da cantora com as editoras discográficas. E fez-me olhar com cinismo para outras anti-pop stars, como Adele e Lorde. 

 

Pela parte que me toca, a edição deste álbum teve grande impacto em mim. Depois de ter descoberto Let Go e Under my Skin com algum atraso, The Best Damn Thing era o primeiro CD cujo lançamento eu acompanhava como deve ser - o que, na altura, foi importante para mim. E ainda é. Numa altura em que ainda não sabia sacar músicas, nem fazia do que era o iTunes, descobri que o site onde podíamos ver os sketches do Gato Fedorento (a.k.a. YouTube), também tinha áudio de Keep Holding On e Girlfriend, e ouvia-as sempre que podia. Tentava replicar a capa do álbum, em que ela aparece enrolando uma madeixa de cabelo no dedo. Desenhava o símbolo do álbum (um coração com dois ossos cruzados atrás) nas margens dos meus cadernos da escola com o número de dias que faltavam para o CD ser posto à venda. Quando finalmente o álbum foi editado, fiz questão de ir comprar o CD no próprio dia em que saiu - naquela altura, os CDs ainda chegavam a tempo às lojas, sem os atrasos que há hoje. Ainda me lembro de muitos aspetos desse dia 16 de abril de 2007 (embora o lançamento oficial tenha sido no dia seguinte), desde o que pensei exatamente quando ouvi certas músicas pela primeira vez, até à hora aproximada a que comprei o CD e a roupa que vestia (o meu cérebro, senhoras e senhores!) Ao longo dos meses seguintes, e mesmo depois, andei obcecada com o álbum e com a própria Avril. Tendo coincidido com a altura em que ia aprendendo a escrever ficção, várias das músicas deste álbum inspiraram-me na escrita. Hoje sei que a maneira como eu encarava o álbum na altura era muito alimentada pelo hype. Como terá o álbum se saído no teste do tempo?

 

Segundo declarações da Avril na altura, o principal objetivo do seu terceiro álbum era produzir músicas animadas, enérgicas, ideais para concertos ao vivo - até àquele momento, as únicas que se encaixavam nesse critério eram Sk8er Boi e He Wasn't (isto se não contarmos com as b-sides I Don't Give e I Always Get What I Want, que tinham feito parte da setlist de alguns concertos). Deixando um pouco de lado o cunho autobiográfico que marcara fortemente os dois primeiros álbuns, o principal foco de Avril com The Best Damn Thing era divertir-se - não é um álbum para ser levado à letra ou demasiado a sério, uma lição que foi necessário aprender perante canções tão fúteis e vazias de sentido como Girlfriend, I Can Do Better e I Don't Have to Try (embora Hello Kitty faça estas últimas parecerem tratados filosóficos).

 

 

Mesmo dentro deste estilo descontraído, festivo e superficial, The Best Damn Thing tem uma série de boas canções. A minha preferida é Runaway. Tem claros ecos de Let Go, uma letra com que toda a gente se identifica, uma melodia cativante na tradição do bom pop rock, bateria de Travis Barker, dos Blink 182, e uma das melhores guitarras de todo o álbum - não descansei enquanto não aprendi a tocá-la.

 

Outra de que gosto muito é Contagious - era para ser gravada pelo guitarrista Evan Taubenfeld, que ajudou a compô-la, mas chegaram à conclusão que a Avril cantava-a melhor. É uma faixa curtinha, com uma letra simples, de amor (acabando por ser uma predecessora de Smile e You Ain't Seen Nothing Yet), mas incrivelmente alegre e... bem, contagiante.

 

A faixa que a antecede, One of Those Girls, acaba por ser parecida: animada sem cair nos excessos de futilidade de outras músicas. A letra foge ao habitual na música da Avril ao contar a história de uma caçadora de fortunas. Não a distinguiria particularmente de outras canções deste álbum não fosse um pormenor: o bridge. Tal como acontece com frequência neste álbum, este apresenta traços de rap - no entanto, é o melhor conseguido de todo o disco. Foi um golpe de génio colocarem backvocals sem palavras ao mesmo tempo que, no fim de cada verso, emprestam melodia à última palavra. É uma faixa algo subvalorizada, One Of Those Girls, ficando na sombra de outras músicas mais ostensivas neste álbum.

 

 

Hot é o meu single favorito de The Best Damn Thing. Nesta canção, Avril mostra-se um pouco mais madura do que na maioria das músicas do resto do álbum, explorando (pela primeira vez na sua carreira) o seu lado mais sensual, mais glam rock. Foi a primeira música mais ostensivamente sexy de que gostei a sério. Na altura em que saiu, encontrei algumas semelhanças com Say it Right, da sua conterrânea Nelly Furtado. 

 

A faixa-título The Best Damn Thing, não sendo uma das minhas preferidas, tem o seu quê de irresistível. Considerada por muitos uma Girlfriend 2.0 (embora, tanto quanto me recordo de entrevistas, tenha sido composta muito antes, em finais de 2004), é um hino para meninas mimadas, mas a verdade é que reflete os valores antiquados que a Avril já afirmou várias vezes ter: exigir que o companheiro a trate como uma princesa. Tem, na minha opinião, um dos refrões e pré-refrões mais bem conseguidos de todo o álbum. Ouvindo agora, é inevitável comparar com a mais recente Shake it Off, de Taylor Swift - e, de resto, não é a primeira vez que essa cantora imita a Avril. 

 

Falar das baladas de The Best Damn Thing é quase como falar de outro álbum, completamente diferente. São estas que melhor mostram o amadurecimento de Avril como compositora. Muitos críticos na altura afirmavam que era neste estilo musical que Avril realmente brilhava e é difícil discordar. Eu mesma afirmei recentemente que, neste género de música, Avril raramente erra.

 

 

A de que gosto menos é When You're Gone e é só porque é menos melodiosa que as outras baladas, incluindo a b-side I Will Be. É o único defeito pois, na altura e que saiu, a canção tocou-me profundamente, sobretudo depois de sair o videoclipe. Não fui a única e a faixa foi, inclusivamente, usada em várias bandas sonoras, incluindo nos Morangos com Açúcar (belos tempos...). Mesmo assim, acabei por ficar a gostar mais de I Will Be. Esta tem muitas semelhanças com When You're Gone, tanto em termos de letra como em termos musicais, mas, no cômputo geral, I Will Be está melhor conseguida. Não quero alongar-me muito, pois I Will Be merece uma entrada de Músicas Ao Calhas que hei de escrever, um dia destes.

 

Já falei aqui no blogue sobre as outras duas baladas de The Best Damn Thing (sobre Innocence aqui). Keep Holding On é, provavelmente, a faixa deste álbum que melhor se saiu no teste do tempo. Conforme já expliquei aqui, a música faz parte da banda sonora do filme Eragon, tendo sido lançada em finais de 2006. Mesmo sem videoclipe e sem grande promoção, saiu-se bem na rádio da altura. Aquando da edição de The Best Damn Thing, Avril subestimou criminosamente Keep Holding On ao excluí-la da setlist da maioria dos concertos - nesta altura, ela favorecia ostensivamente as músicas mais compatíveis com o conceito de TBDT, pelo que as baladas eram deixadas um pouco de lado. Keep Holding On, no entanto, foi capaz de se safar sozinha nos anos que se seguiram, sobretudo após se tornar uma das músicas de marca da série Glee. A própria Avril aprendeu a dar valor à música, sobretudo quando esta se tornou um dos hinos da sua Fundação - isto é, antes de Fly.

 

 

 

Quanto a mim, Keep Holding On continua a ser uma das minhas preferidas da Avril, ocupando um lugar especial no meu coração desde que a ouvi pela primeira vez. Isto porque a mensagem da música - sobre amizade e capacidade de resistência - adaptava-se perfeitamente à história que eu andava a escrever na altura. Temas que ainda hoje permanecem na ficção que escrevo.

 

Se Keep Holding On me deixou totalmente satisfeita na altura em que foi lançada, com Girlfriend a história foi diferente. Não tinha nada a ver comigo (e ainda não tem), mas era uma música tão, mas tão contagiante. É uma posição que se manteve até hoje. Há quem diga que, da mesma maneira como Let Go estimulou outras cantoras a aventurarem-se pelo rock, Girlfriend deu permissão a outras cantoras para se aventurarem no pop politicamente incorreto, ajudando, assim, a criar as Katy Perry, Nicky Minaj, Ke$ha e Meghan Trainor desta vida - embora eu ache que podíamos, perfeitamente, passar sem tais criaturas.

 

Para além de Girlfriend, duas faixas gritantes (em vários sentidos) neste álbum são I Can Do Better e I Don't Have to Try, mais exemplos da futilidade extrema que, na minha opinião, estraga o disco. I Can Do Better equivale praticamente a uma noite de bebedeira pós-separação - a música até fala de Limoncello! A própria Avril admitiu tê-la gravado bêbada, algo que se nota.

 

Um aparte só para confessar que I Can Do Better me deixou com vontade de provar Limoncello, algo que consegui fazer há uns anos. É bom.

 

 

I Don't Have to Try vai na mesma onda que I Can Do Better, com uma mensagem de "quem manda aqui sou eu". Esta faixa seria perfeitamente esquecível, sobretudo passados estes anos todos, se não fossem uma série de elementos muito bem conseguidos: o rap introdutório, o solo de guitarra (adoro-o desde o primeiro momento em que ouvi a canção), os backvocals no segundo e terceiro refrões ("don't have to! don't have to! to make you! to make you!"), o grito à punk rock.

 

Por fim, Everything Back But You é uma faixa gravada para o Under My Skin, mas que Avril considerou mais adequada ao The Best Damn Thing. Na verdade, sinto-me parva por só o ter percebido depois de Avril revelar esse pormenor, mais de um ano depois de publicar a faixa. Os sinais estão todos lá: a voz de Avril soa diferente do resto do álbum, mais parecida com o timbre de Under My Skin. Essa diferença é mais evidente na versão censurada da música - os "hey hey" soam completamente diferentes do resto. Everything Back But You tem um som punk rock muito clássico, gosto do solo de guitarra e do baixo, mas confesso que foi das primeiras faixas de The Best Damn Thing de que me cansei - a partir de certa altura, uma pessoa farta-se de infinitas break-up songs (e pensar que a Taylor Swift ainda deve ser pior...).

 

Conforme disse antes, este álbum foi um game changer para a carreira da Avril. A mudança foi mais em termos de imagem e marketing do que propriamente musical, pois The Best Damn Thing não é tão pop como é pintado. Pelo menos não é muito mais pop que o Let Go, muitos poderiam argumentar que acontece precisamente o oposto. E, definitivamente, o quinto álbum é o mais pop da carreira da cantora.

 

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A própria Avril, em si, era a mesma que conhecíamos - aliás, os fãs podem dizer o que quiserem sobre este álbum e esta era, mas a verdade é que The Best Damn Thing reflete melhor a personalidade de Avril que Under My Skin. Eu, na verdade, sempre senti dificuldades em conjugar o tom sombrio do segundo álbum com a menina divertida e amalucada dos vídeos de bastidores. Pode-se argumentar que a Avril devia ter previsto a controvérsia que o este álbum causaria (os Paramore, pelo menos, sabiam no que se estavam a meter quando lançaram o álbum homónimo), mas não creio que isso mudasse alguma coisa. Uma das coisas que mais respeito na Avril é a sua ausência de pretensão, a sua genuinidade. Ela não sente necessidade de provar nada, ela faz aquilo que entende com a sua música, não o que esperam dela. Para o melhor e para o pior.

 

E a verdade é que, por muitos defeitos que este álbum tenha, com The Best Damn Thing, Avril arriscou, re-inventou-se, apresentou uma nova faceta da sua música. Fê-lo, de resto, nos três álbuns que se seguiram à sua estreia, com Let Go. Mas não o fez com o seu álbum homónimo. Daí que este me tenha desiludido. 

 

Confesso que, mesmo passados estes anos todos, ainda não tenho uma opinião definida sobre esta mudança na carreira da Avril. A maior desvantagem foi, sem dúvida, o facto de este álbum ter complicado o relacionamento dela com as gravadoras, levando a um fraco desempenho comercial dos álbuns que se seguiram. À parte esse aspecto, lembro-me de ter decidido, já algum tempo depois da edição de The Best Damn Thing, que gostava da pessoa que Avril se tornara. O cabelo loiro, o cor-de-rosa, as dançarinas, uma ou outra música mais fútil, tudo isso eram aspetos secundários.

 

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E a regra tem sido essa até agora. É certo que, sobretudo no ano passado, senti algum desgaste na carreira da Avril - começando a compreender os fãs que se tinham fartado dela - mas agora, com o lançamento de Fly, estou mais otimista. A minha esperança é que toda esta história com a sua doença a tenham tornado uma pessoa mais forte e madura e que isso se reflita na sua música. Avril pode ter chegado a uma fase em que não sente necessidade de ser tão autobiográfica na sua música, em que só quer divertir-se, mas - conforme aprendeu com Fly - basta verter um bocadinho do coração na sua música para esta salvar vidas. Mais do que faixas como Girlfriend, são músicas como Fly que têm potencial de viver para sempre.

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