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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – So Happy it Hurts e mais um par

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No passado dia 11 de outubro, Bryan Adams lançou So Happy It Hurts, o primeiro single do álbum com o mesmo nome, que sairá no próximo dia 11 de março. Não estava nos meus planos dedicar-lhe um texto – apenas alguns parágrafos no fim do texto anterior. No entanto, quando estava quase a terminar essa publicação, Bryan lançou uma segunda música, On the Road. Assim, decidi escrever sobre as duas canções no mesmo texto. Quando estava quase a terminar essa publicação, o homem lança-me uma terceira música, Kick Ass. 

 

Não há respeito neste mundo por blogueiras em part-time que gostam de escrever sobre músicas novas dos seus artistas preferidos!

 

Sigamos a ordem dos lançamentos. Mais do que Avril Lavigne com Bite Me, So Happy it Hurts é Bryan sendo Bryan, sobretudo o dos últimos anos. Um som rock clássico, vagamente retro, um tom alegre. Imagino-o tocando isto em palco e era capaz de apostar que os gestos e movimentos dele na minha mente – as suas expressões, a maneira como ele toca a guitarra, a cabeça dele abanando ao ritmo da música – não serão muito diferentes da realidade. 

 

Em termos de letra, So Happy it Hurts também está longe de ser um tema super raro na discografia de Bryan. Basicamente, fala sobre saltar para dentro de um carro, arrancar pela noite dentro, deixando todas as preocupações para trás. Mais ou menos o mesmo tema de The Last Night on Earth, do álbum anterior – e este é apenas o exemplo mais recente. 

 

Por outro lado, gostava de saber onde é que o homem andou nestes últimos dois anos para vir, agora, dizer que está “tão feliz que dói”.

 

 

Não é má canção. E o videoclipe é fofinho, sobretudo as partes em que aparece a mãe dele, bem como a mulher grávida e o jogador de futebol americano. É a música ideal para abrir um concerto, sobretudo no pós-confinamento… mas estou a adiantar-me. 

 

Ao contrário de So Happy it Hurts, On the Road é um pouco diferente do costume para Bryan. Esta foi lançada aquando da divulgação do calendário Pirelli de 2022.

 

Lançada é como quem diz… durante mais de uma semana a música só estava disponível no YouTube. Nem sequer havia letra em lado nenhum. Lá está, como blogueira em part-time que gosta de escrever sobre música nova dos seus artistas preferidos, foi um bocadinho chato. Felizmente, quando saiu Kick Ass, On the Road foi também lançada como deve ser.

 

O instrumental de On the Road é algo mais pesado que o costume para Bryan. Não sei como descrevê-lo senão como música de motoqueiros. Talvez seja influência da letra ou mesmo do videoclipe, onde Bryan surge de casaco de cabedal preto.

 

A letra de On the Road entra em territórios parecidos aos de So Happy it Hurts, se bem que com um tom menos delirantemente feliz. Uma vez mais, nada de muito original, a comparação com Open Road chega a ser óbvia. Segundo declarações de Bryan, a letra serve para celebrar o regresso à normalidade (normalidade com vários asteriscos, claro), bem como o estilo de vida de muitos artistas e bandas: sempre na estrada, sempre em digressão.

 

 

E de facto aquilo que me é mais óbvio destas duas músicas é que Bryan estava farto de estar confinado. Não era o único, claro. Mas imagino que para ele – ele que, de acordo com a sua música, passou quase toda a sua vida na estrada, já deu a volta ao mundo cerca de mil vezes – tenha sido particularmente doloroso. E que doa ainda mais agora, que contraiu Covid, precisamente no seu regresso aos palcos. 

 

Pergunto-me se esse será um tema recorrente em So Happy it Hurts. 

 

Falta falar sobre Kick Ass – a mais engraçada das três. Começa com uma narração melodramática do lendário John Cleese, sobre um anjo enviado por Deus, vestido com calças de ganga, botas e boné –  podia ser eu – para salvar a Humanidade do inferno da música má e trazer o rock aos mortais.

 

No fundo é a mesma filosofia de Kids Wanna Rock e Go Down Rockin’, apresentada de forma hilariante. Pergunto-me o que Travis Barker e respetiva turma pensariam desta música. 

 

À parte isso, é certo que esta música não é para ser levada cem por cento a sério, mas podemos parar de fingir que o rock é o único género musical que é bom? Rock é o meu género musical preferido, rock e todas as suas variantes, mas se uma pessoa só se limita a isso arrisca-se a perder muita música boa.

 

Mas pronto. 

 

 

Mesmo sem a introdução de Cleese – e existe uma versão da música sem essa parte – Kick Ass é uma boa música. Gosto da parte em que Bryan – falando pelo tal anjo – nomeia cada instrumento e este se junta à música. Faz-me lembrar o filme Escola de Rock, a parte em que Dewey atribui um instrumento a cada miúdo. 

 

Por outro lado, acho um bocadinho estranho Bryan falar na primeira pessoa do plural, apresentando-se como uma “kickass rocking band”, quando tecnicamente ele é um artista a solo. Se bem que nós, fãs um pouco mais hardcore, já vamos conhecendo os membros da banda dele. Em particular, o lendário Keith Scott.

 

Em suma, estas são três boas músicas de Bryan, mesmo não sendo nada por aí além. So Happy it Hurts é a mais fraquinha das três, mas não por muito, apenas por causa da previsibilidade. On the Road e Kick Ass sempre têm qualquer coisa de diferente para se distinguirem.

 

O que nos leva a So Happy it Hurts, o álbum. Não estou assim tão ansiosa por ele. Estou à espera que seja semelhante ao seu antecessor, Shine a Light: um conjunto de músicas agradáveis ao ouvido, mas pouco memoráveis. 

 

Mas posso estar enganada, claro. Estas três músicas até são boas, como vimos. Se o resto do álbum for de qualidade semelhante, ficarei satisfeita.

 

Ainda assim, em princípio não deverei escrever sobre So Happy it Hurts. A menos que o álbum seja deveras interessante, o que duvido. 

 

 

Antes de lançar So Happy it Hurts, no entanto, Bryan irá voltar a Portugal! Dia 29 de janeiro em Gondomar e dia 30 em Lisboa – tenho bilhetes para esse último. Não contente com isso, Bryan ainda virá ao Festival Marés Vivas, em julho.

 

Algo me diz que ele tem saudades nossas. 

 

É um bocadinho estranho, pois só se passaram dois anos desde a última vez que ele este cá. Estava habituada a encontros tetra-anuais. Mas não me queixo! Noutras circunstâncias talvez pusesse a hipótese de não ir, mas depois da pandemia, enquanto estiver dentro das minhas possibilidades, não quero desperdiçar oportunidades. 

 

Além disso, como o último concerto foi em finais de 2019, poucos meses antes de isto tudo se ter virado do avesso, as recordações dessa noite foram um dos meus consolos durante a pandemia. Vai ser especial regressar aos concertos precisamente com Bryan – e criar novas recordações. 

 

Também será especial pois, se tudo correr bem, vou ver os meus dois pais musicais com cerca de um mês e meio de diferença – o concerto de Avril Lavigne em Zurique é a 7 de março. Isso já devia ter acontecido há dois anos (com um intervalo maior entre concertos). A ver se desta não falha. Os álbuns também deverão sair mais ou menos na mesma altura, à semelhança do que aconteceu em 2019 – o de Avril, no entanto, ainda não tem data oficial; não me admirava se se atrasasse um bocadinho. 

 

 

Estou é com medo que o concerto seja cancelado, com a evolução da pandemia nas últimas semanas. As festas de fim de ano já foram canceladas – mas suponho que tenha sido por ser difícil verificar testes e certificados de vacinação. Não me importo se tiver de mostrar certificado e fazer teste antes do concerto de Bryan. 

 

A parte da máscara é que será mais difícil. Uma pessoa vai para lá dançar, saltar, cantar em altos berros e, pelo menos no meu caso, soprar beijinhos para o palco. Não dá jeito fazê-lo com máscara. Mas se tiver de ser…

 

Só não cancelem, por favor. Quero mesmo ir a estes concertos!!

 

Entretanto, conforme prometido, hei de escrever uma sequela a este texto. Desta vez, vou fazer por publicar a tempo – nas vésperas dos concertos de Bryan cá. Também já estou a preparar a minha retrospetiva musical de 2021. Ainda estou a tentar decidir os moldes, mas à partida vou voltar ao modelo dos primeiros anos deste blogue: uma publicação por artista ou banda, sensivelmente.

 

E é tudo por agora. Obrigada pela vossa visita, como sempre. Até à próxima!

 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Bite Me

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Aqui no estaminé, Avril Lavigne dispensa apresentações. É uma personagem recorrente desde os primeiros tempos deste blogue – gosto de chamar-lhe a minha mãe musical – tendo inspirado múltiplos textos. Este é mais um deles, a propósito de Bite Me, o primeiro single do seu sétimo álbum. 

 

Avril já anda a lançar pistas sobre este álbum há um ano, na verdade – embora, segundo entrevistas mais recentes, nessa altura ainda estava a começar. Típico dela, fazendo anúncios e promessas antes de tempo, deixando os fãs baralhados. Mas ao menos já temos o primeiro single.

 

Este álbum, ainda sem nome, representa o regresso de Avril ao pop punk. A cantora sempre esteve associada a este género musical. Se perguntarem por aí, dir-vos-ão que Let Go foi a sua era mais pop punk, mas o álbum que mais explora este estilo é na verdade o The Best Damn Thing. Antes do seu terceiro álbum, Avril só contava duas músicas lançadas oficialmente influenciadas por este estilo: Sk8er Boi, em Let Go, e He Wasn’t, em Under My Skin

 

Temos ainda I Always Get What I Want, dos trabalhos do segundo álbum, que faz parte da banda sonora do segundo filme d’O Diário da Princesa. Este é um tema que tem tido muita rotação nos concertos de Avril: está no top 10 das músicas mais tocadas segundo o Setlist.fm, mais do que alguns singles. Tenho quase a certeza que Avril se arrepende de não ter incluído a música na edição-padrão de um álbum. 

 

Na minha opinião, devia ter sido guardada para o The Best Damn Thing. Encaixa-se que nem uma luva ao lado de I Can Do Better e a faixa-título.

 

Penso que a b-side Take It, também the Under My Skin, poderá ser igualmente considerada pop punk. Por outro lado, temos um caso estranho com I Don’t Give, dos trabalhos de Let Go. A música foi lançada como b-side do single Complicated e soa semelhante à larga maioria de Let Go. No entanto, durante a digressão Try to Shut Me Up (ela antigamente era mais imaginativa com os nomes das digressões), Avril tocava uma versão diferente de I Don’t Give: mais pesada, mais rápida, pode-se dizer mesmo mais pop punk. 

 

 

Eu adoro esta versão. Há mais de metade da minha vida que lamento que não haja uma versão pop punk de I Don’t Give gravada em estúdio. Seria uma surpresa agradável se isso acontecesse com uma potencial edição comemorativa dos vinte anos de Let Go. Pouco provável, mas uma pessoa pode sonhar…

 

Por outro lado, faz-me pensar em quantas músicas no primeiro álbum teriam um arranjo parecido com este, se Avril tivesse tido mais controlo sobre o processo. 

 

Isto tudo para dizer que, nos primeiros dois álbuns de Avril, apenas cinco músicas, no máximo, podem ser consideradas pop punk. E destas, só duas fazem parte das edições-padrão. Foi precisamente para colmatar esta falha que Avril criou o The Best Damn Thing – em que pelo menos metade das músicas, mais uma b-side, têm influências pop punk. Por isso, quando a comunicação social diz que Avril está a recuperar o estilo de Let Go com Bite Me, não fizeram o trabalho de casa. 

 

O regresso de Avril a este estilo acontece na mesma altura que o pop punk tem estado de novo na moda. Não é uma coincidência: ela é um dos muitos artistas apadrinhados por Travis Barker, o baterista dos Blink 182, o grande catalisador deste movimento. Outros artistas com quem Travis tem colaborado são Mod Sun, Machine Gun Kelly, Willow Smith, Yungblood. 

 

Não surpreende. Há quem diga que a nostalgia cumpre ciclos de vinte anos. Nos anos 2000 tínhamos saudades dos anos 80, na década de 2010 tínhamos saudades dos anos 90, agora temos saudades dos anos 2000. Suponho que tenha a ver com a geração que está na casa dos vinte e/ou dos trinta durante determinado período, que recorda a sua infância e/ou adolescência. 

 

Um aspeto engraçado em que tenho vindo a reparar é que, na altura, os críticos desprezavam muita da cultura que nós, da minha geração, consumimos. Sobretudo nós, meninas adolescentes. Mas agora que somos adultos, temos a palavra e podemos fazer justiça àquilo que nos definiu. 

 

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Travis Barker está, no fundo, a capitalizar esse ciclo de nostalgia. Pode-se debater que percentagem disso é oportunismo e que percentagem é genuína paixão por este estilo musical. Eu pelo menos acho que não havia necessidade de o homem se colar a todos estes artistas, como o “feat Travis Barker” no título de cada música. 

 

Há quem acuse este movimento de alguma falta de carácter, alguma falta de originalidade. Mesmo sem acompanhar essa onda de muito perto, tenho um par de exemplos desse problema. Olivia Rodrigo, para começar, não é uma das artistas patrocinadas por Travis Barker, mas também ela trouxe o pop punk de volta ao mainstream com a música good 4 u. Desde o início, as pessoas assinalaram as semelhanças com Misery Business, o êxito dos Paramore. Até que, há poucos meses, Olivia acabou por incluir Hayley Williams e Josh Farro nos créditos da música, o que deu polémica.

 

Pessoalmente, não acho good 4 you assim tão parecida com Misery Business. Um bocadinho no refrão, talvez, mas combina com elementos mais modernos, parecidos à música contemporânea. Para acusações de plágio já vi exemplos piores. 

 

Depois, temos grow de Willow – esta sim, um dos artistas apadrinhados por Travis Barker. Avril canta uma parte da música. O tema até é agradável ao ouvido, mas é uma mistura estranha de All the Small Things com música das estrelinhas do Disney Channel, nos anos 2000.

 

Não se pode ser demasiado duro com Olivia e Willow pela falta de originalidade. São miúdas novinhas, que ainda estarão a desenvolver o seu estilo pessoal, a descobrir a sua identidade. 

 

 

Depois, temos Machine Gun Kelly. Já falámos dele antes, de passagem – quando participou no concerto de homenagem a Chester Bennington e quando colaborou com Mike Shinoda em Lift Off. Nessa altura, ele era rapper, mas há um par de anos desistiu do rap/hip-hop e decidiu aventurar-se no pop punk, com o álbum Tickets to my Downfall. Ora, eu não teria problemas com isso… só que o tipo parece ser um estafermo. 

 

Segundo consta, o motivo pelo qual MGK trocou de géneros musicais foi por ter entrado em rota de colisão com Eminem. Mas aparentemente não aprendeu nada, pois quando veio para o pop punk arranjou logo picardias. A mais recente foi com Corey Taylor, dos Slipknot. As pessoas já começaram a virar-se contra ele – há um par de meses, MGK foi assobiado durante um festival qualquer. Não contente com isso, o tipo chegou a vias de facto com pessoas da audiência. 

 

Avril referiu MGK como uma das pessoas com quem ela colaborou no seu sétimo álbum, o que não me agrada. Não pelas suas qualidades musicais, mas pela personalidade dele. Preferia que Avril não se associasse a um tipo como este. O que vale é que ela tem juízo suficiente para não se envolver nas encrencas de MGK. 

 

Por outro lado, Avril está a namorar com Mod Sun, com quem colaborou no seu álbum – e no álbum dele, Internet killed the rockstar. Este também tem um passado como rapper, mas parece-me ser um tipo decente, mais decente que MGK. Parece gostar genuinamente de Avril – e tem um Husky muito giro. 

 

No início do ano lançaram um dueto, Flames – que tem vindo a subir na minha consideração, ligeiramente. O instrumental é diferente, é giro – alternando momentos mais calmos, ao piano, com momentos mais intensos e pesados. Só acho o refrão algo repetitivo. 

 

Além disso, eles perderam uma oportunidade ao não terem tentado fazer uma ligação com Bridgerton na promoção da música.

 

 

A minha opinião sobre a participação de Avril neste movimento tem oscilado entre contra e a favor. Existe uma parte que parece um bocadinho forçada: a transição da era Head Above Water para esta nova foi muito repentina. Mesmo aspetos como aquele Tik Tok com Sk8er Boi me parecem exploração descarada da nostalgia – algo que ela já tinha feito com Here’s to Never Growing Up (como assim já lá vão mais de oito anos?!). E pergunto-me se a sua associação com Travis Barker e companhia não será uma extensão disso. 

 

Talvez seja um bocadinho. Por outro lado, Avril está longe de ser a única artista musical, sobretudo feminina, em constante reinvenção. Taylor Swift comentou há uns tempos que ela e as suas contemporâneas são obrigadas a fazê-lo, mais do que os seus homólogos masculinos. Para manterem o público interessado nelas. 

 

Não que seja uma coisa má, na minha opinião. Aposto que muitos artistas, de qualquer género, não gostam de estar sempre a fazer o mesmo, gostam de mostrar diferentes facetas. Como Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Avril por exemplo é conhecida mais pelo pop rock, mas já brincou com vários estilos musicais.

 

Ela ia regressar a este estilo, mais cedo ou mais tarde. O seu modus operandi tem sido sempre alternar álbuns mais leves e alegres com álbuns mais sérios e pausados. Já em 2019, em plena era Head Above Water, Avril dizia que o sucessor teria mais guitarra e bateria. E assim o fez, oportunismo ou não. Penso que não corremos o risco de o material novo dela ser demasiado derivativo – ela está há mais de vinte anos nisto, não terá dificuldades em dar carácter próprio à música.

 

O que nos leva a Bite Me. É mais ou menos o que se esperava – penso que todos concordamos com isto. Um tema pop punk que, não sendo particularmente original, não é nada que esteja demasiado batido. Mesmo dentro do microcosmos da discografia de Avil, é suficientemente distinto do que ela fez antes. 

 

 

Gosto imenso do instrumental nas estâncias e no pré-refrão. Também gosto da mudança da velocidade a meio do refrão. E a voz de Avril soa impecável, como sempre. 

 

A letra é Avril sendo Avril, os tropos do costume: um ex-namorado que se arrepende de a ter deixado, mas ela agora manda-o passear. Uma vez mais, não é nada por aí além, mas ela tem letras piores.

 

Em suma, gosto de Bite Me. Talvez estivesse com a fasquia demasiado baixa, depois das desilusões que apanhei com os trabalhos mais recentes da Avril. Mas, ao contrário da maioria de Head Above Water, Bite Me sabe exatamente quem é, o que vem fazer e fá-lo com eficácia. 

 

Ao que parece, o resto do álbum deverá ser neste estilo. Avril chegou a dizer que não haveria uma única balada no disco – o que seria inédito na discografia dela. Mas entretanto mudou de ideias e incluiu uma. 

 

Eu fico contente. 

 

Em termos de temáticas, Avril disse que, no início dos trabalhos, estava numa fase de desgaste em relação ao amor. Não surpreende: mesmo sem estar a par dos mexericos dos últimos anos, estamos a falar de uma mulher com dois divórcios. Ninguém poderá censurá-la pelo cinismo. Uma das primeiras músicas compostas para este álbum chama-se mesmo Love Sux. 

 

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No entanto, quando Mod Sun colaborou com ela, Avril apaixonou-se e começou uma relação com ele. Ou seja, a sua atitude em relação ao amor mudou – o que se deverá refletir no álbum. Outro título avançado por Avril é Kiss Me Like the World is Ending (o que faz sentido em tempos de pandemia). A balada do álbum – aposto que será a faixa de encerramento – chama-se Dare to Love Me, precisamente sobre abrir-se de novo ao amor. 

 

Tudo isto me parece bem. Está longe de ser um tema inédito – veja-se Petals For Armor, de Hayley Williams. Duvido que Avril faça melhor. Mas ao menos sempre dará alguma profundidade a um álbum que, Avril já o confirmou, será bastante descontraído – com The Best Damn Thing nem se preocupou com isso, tirando as baladas e pouco mais. 

 

Nesta fase, não estou à espera que Avril se ponha a re-inventar a roda ou a ser particularmente introspetiva. Nem sequer quero – quando tentou fazê-lo com Head Above Water não resultou, perdeu-se em clichés. Nestas circunstâncias, mais vale manter-se na sua zona de conforto. Além disso, como tenho vindo a referir, nesta altura não quero música demasiado triste.

 

Estou assim cuidadosamente otimista em relação a este novo álbum. Não deverá ser nada que mude as nossas vidas, mas sei que vou gostar de pelo menos uma mão-cheia de canções. E aposto que haverá pelo menos uma que me tocará de maneira especial. 

 

Ainda não sabemos o nome do álbum, nem a tracklist, nem a data de lançamento. Há poucos dias ela anunciou datas no Canadá sob o nome “Bite Me Tour”. Será esse o nome do trabalho? Espero que não, é pouco imaginativo. Avril disse que lançará um segundo single em janeiro. Talvez divulgue o resto dos pormenores nessa altura. O álbum em si deverá sair “no início do ano”, o que quer que isso signifique (com o histórico dela, lá para abril ou maio, isto se tivermos sorte!). 

 

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Entretanto, a digressão europeia foi remarcada, pela segunda vez, para a primavera do próximo ano. A tal que devia ter decorrido em 2020. Como já escrevi antes, tenho bilhetes para o concerto de Zurique. 

 

A ver se é desta. É mais de metade da minha vida à espera. 

 

E pronto, para já é tudo. Acabei por falar muito pouco de Bite Me em si, mas não faz mal. Estes textos de Músicas Não Tão Ao Calhas sobre primeiros singles têm funcionado mais como prequelas às análises dos respectivos álbuns. E pareceu-me importante refletir sobre o histórico de Avril com este género musical antes de me debruçar sobre a música em si. 

 

Como sempre, obrigada pela vossa visita. Continuem desse lado que o próximo texto não deverá demorar muito.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Solar Power

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No passado dia 10 de junho houve um eclipse solar – que infelizmente mal se viu em território português. A cantora neozelandesa Ella Yelich-O'Connor, mais conhecida pelo seu nome artístico Lorde, aproveitou a ocasião para lançar Solar Power, o primeiro single do seu terceiro álbum de estúdio com o mesmo nome, que sairá a 20 de agosto.

 

Solar Power sucede a Melodrama, que saiu em 2017. Este é um álbum que, já na altura em que escrevi sobre ele, reconheci ser espetacular e o tempo só o melhorou. Dois, três, quatro anos após o seu lançamento e continuo a descobrir significados novos – mas não tantos como a autora desde excelente vídeo. Melodrama não se saiu grande coisa em termos comerciais, mas ganhou um culto de seguidores devotos, nos quais me incluo.

 

Por sua vez, Melodrama sucedia a Pure Heroine. Pessoalmente, gosto menos e compreendo menos este álbum, mas todos concordam que é também excelente e francamente revolucionário.

 

Ou seja, a fasquia está altíssima para Solar Power. Mais sobre isso adiante.

 

O primeiro single do álbum com o mesmo nome não se encaixaria nem em Pure Heroine e Melodrama. Dá para notar, no entanto, as impressões digitais de Lorde.

 

 

Uma das novidades é o facto de ser conduzida pela guitarra acústica. É apenas a segunda canção de Lorde conduzida por esse instrumento – a primeira foi The Louvre. Em entrevista ao The Guardian, Ella confessou que, durante os trabalhos de Pure Heroine, não achava as guitarras fixes. Eram demasiado “meio dos anos 2000” para o seu gosto, mais adequadas a serem cantadas à volta de uma fogueira, num acampamento.

 

Nisso não éramos parecidas.

 

Os acordes que guiam Solar Power nas estâncias têm um tom grave e contido – que se obtém quando se prende ligeiramente as cordas no braço na guitarra e só se toca as de alumínio. No refrão, as cordas de nylon soltam-se, emitindo um som mais luminoso.

 

Eu falo em refrão mas, para ser rigorosa, Solar Power não tem um refrão convencional. A melodia é semelhante, mas a letra é diferente. Depois do segundo refrão, a música explode para um som ainda mais luminoso, mesmo tropical, que se adequa à letra. 

 

Muitos têm-na comparado a Freedom, de George Michael. Eu concordo que é parecida, mas não tanto como algumas pessoas parecem achar. Pelo menos não ao ponto de ter pensado que era um “sample”. De qualquer forma, os herdeiros do falecido cantor já deram a benção a Lorde e a Solar Power.

 

Em termos de vocais, Lorde não faz nada de extraordinário, mas canta com a sua típica cadência, com o seu típico tom grave. Por outro lado, temos Clairo e Phoebe Bridgers nos backvocals – faz-me lembrar Roses/Violet/Lotus/Iris, nesse aspeto. 

 

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Tirando algumas particularidades de que vamos falar de seguida, Solar Power é uma música de verão pura e dura – o que pode ser interpretado como um passo atrás, depois da maneira como Lorde explorou a dicotomia verão/inverno, calor/frio em Melodrama. Segundo Ella, Solar Power é sobre a “energia namoradeira” que surge quando o tempo aquece e as roupas se reduzem.

 

Nada de muito original aqui. É basicamente o conceito das temporadas de verão dos Morangos com Açúcar.

 

E na verdade, este é um dos casos em que aquilo que o artista diz sobre a música não bate muito certo com o que a música parece dizer. Existem poucas referências a romance ou sexualidade em Solar Power: só mesmo em “my boy behind me, he’s taking pictures” e “are you coming, my baby?” e mesmo assim.

 

A letra é menos Morangos com Açúcar e mais Eu Gosto é do Verão (se bem que menos tola, no bom sentido). Está cheia de frases pedindo para serem transformadas em legendas do Instagram ou do Tik Tok (algo que tenciono fazer com fotos da minha cadela na praia). Solar Power fala sobre encontrar… bem, os seus sítios perfeitos na praia e sentir as mágoas e as preocupações derretendo com a luz do sol.

 

A narradora, aliás, assume-se um pouco como uma profeta, uma deusa solar ensinando ao povo as maravilhas do verão – “Lead the boys and girls onto the beaches. Come one, come all, I’ll tell you my secrets, I’m kinda like a prettier Jesus”. Suponho que a narradora seja a mesma personagem que Ella descreveu na carta de apresentação do álbum – mais sobre isso já a seguir.

 

O videoclipe explora bem essa ideia, mostrando Lorde na praia, líder de uma espécie de tribo ou seita, vestida de amarelo vivo – em contraste com os tons mais terra, mais discretos dos demais (tendo em conta que Ella sofre de sinestesia, esse pormenor foi cem por cento intencional, não duvidem). Lorde sempre representou esse papel de certa forma na sua música – mais a porta-voz da sua geração do que propriamente um guia, é certo. 

 

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Já que falamos do videoclipe, consta que este foi a introdução ao universo cinemático deste álbum. Se Melodrama decorria todo numa única noite, durante uma festa, Solar Power decorre numa praia – ou pelo menos os videoclipes. Lorde não revelou a praia exata onde decorreram as filmagens por motivos óbvios (e mesmo assim, acho que no Reddit já descobriram). Ella disse para imaginarmos que decorre na nossa praia preferida.

 

Na Meia-Praia de Lagos, portanto. Naquela zona não concessionada, mais perto do pontão, com menos pessoas, onde a Jane pode correr à vontade. 

 

Têm circulado piadas na Internet sobre o facto de Solar Power ter começado com Lorde admitindo que “odeia o frio”, quando uma das poucas coisas que soubemos dela, nos últimos anos, foi a sua viagem à Antártida. Eu acho que faz sentido – depois de tanto tempo num dos lugares mais frios do planeta, qualquer um sairia de lá sedento de calor e de verão. 

 

Em suma, Solar Power está longe de ser a melhor música de Lorde. Não sendo propriamente fútil, não tem grande profundidade e a mensagem não é muito original. Sobretudo se compararmos com Pure Heroine e Melodrama. Quem estava à espera de algo mais intenso e revolucionário, apanhou um balde de água fria. 

 

No entanto, mesmo no seu… não vou dizer “pior”, porque Solar Power não é uma música má, mas pronto, menos bom, Lorde continua acima da média. O tom descontraído sabe bem, sobretudo depois do último ano e meio – a própria Ella revelou que essa foi uma das razões pelas quais lançou a música nesta altura. 

 

Como vi na Internet, aliás, a única música alegre deste ano só podia vir da Nova Zelândia.

 

 

Consta que, de resto, apesar de não deixar de incluir algumas faixas mais sérias e introspectivas, Solar Power deverá ser um álbum no geral alegre e despreocupado. Pelo menos é essa a ideia com que fico. Isso agrada-me. Em parte por aquilo que referi sobre o último ano e meio, mas também porque dois dos álbuns que mais tenho ouvido nos últimos meses são o folklore e o evermore de Taylor Swift. Não me interpretem mal, são excelentes álbuns mas são emocionalmente desgastantes (ele é my tears ricochet, ele é seven, ele é august, ele é illicit affairs, ele é this is me trying, ele é ‘tis the damn season, ele é champagne problems, ele é marjorie…). Um álbum mais leve saber-me-á bem.

 

Este será também um trabalho mais focado na natureza – segundo Lorde, em momentos de “desgosto, luto, profundo amor ou confusão”, o mundo natural é o seu abrigo, é o seu sítio perfeito (não se limita à praia). O heterónimo dela neste ciclo será a personagem que ela descreveu na apresentação do álbum: uma mulher “sexy, brincalhona, selvagem e livre”, com múltiplos amantes, ligada à terra e ao passado, mas ao mesmo tempo moderna e de olhos no futuro.

 

Uma vez mais, nada disto é inédito ou particularmente original. Nos últimos anos estes movimentos de regresso à natureza têm estado na moda. Veja-se, lá está, folklore e evermore, por exemplo, bem como a estética cottage core, mesmo Petals For Armor até certo ponto. O heterónimo de Lorde que descrevi acima, aliás, lembra-me a Mulher Selvagem de Mulheres que Correm com os Lobos. 

 

Tudo isto faz sentido como resposta ao mundo atual: cada vez mais tecnológico e, claro, com uma pandemia. Solar Power, aliás, fala mesmo em atirar o telemóvel para a água – e Lorde já veio avisar que não vai voltar para as redes sociais. 

 

Como li algures – ironicamente na Internet – há dez anos vínhamos para as internetes para fugir ao mundo real. Agora fugimos para o mundo real para escapar às internetes.

 

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Solar Power sai então a 20 de agosto – um tudo nada demasiado perto do fim do verão para o meu gosto, se é um álbum estival. Bem, eu este ano também não vou ter férias de verão, só posso desfrutar da época ao fim-de-semana, por isso…

 

Fica para o ano. 

 

Estou a fazer por não elevar demasiado as minhas expectativas para este álbum. É muito difícil que Solar Power seja melhor que Melodrama ou Pure Heroine. Consta que esse terá sido um dos motivos para Ella ter demorado tanto tempo a cozinhar este trabalho. Eu pelo menos não levarei a mal se não conseguir atingir o mesmo nível estratosférico – parecendo que não, a miúda é humana!

 

Dito isto, continua a ser Lorde. Não baixo assim tanto a fasquia. 

 

É possível que Ella lance outro single antes de 20 de agosto. Há rumores de que Stoned at the Nail Salon poderá sair nos próximos dias. Deveria ter esperado? Deveria ter escrito sobre as duas músicas no mesmo texto? Talvez, mas não me apeteceu ficar à espera: o blogue já estava parado há muito tempo. Além disso, aqui o estaminé faz nove anos hoje, queria assinalá-lo com um texto novo.

 

Logo vejo se escrevo sobre Stoned at the Nail Salon ou sobre qualquer outro single que venha a ser lançado antes do álbum. Em princípio não o farei: quero começar a trabalhar noutros projetos e escrever sobre outras coisas no próximo texto deste blogue. Posso desde já adiantar que este será um texto de Músicas Ao Calhas sobre uma personagem recorrente aqui no estaminé. Não quero ter pressa com este (já tenho stress que chegue noutras áreas da minha vida), mas não devo demorar muito. 

 

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Um brinde rápido a este blogue, um dos orgulhos da minha vida – e um agradecimento a todos os que o têm visitado. Encerro este texto com uma pequena playlist baseada em Solar Power – que poderá vir a crescer com o tempo. Agora que acabaram de ler, se tiverem possibilidades para isso, ide aproveitar o sol... mas não se esqueçam do protetor solar!

 

Músicas Não Tão Ao Calhas – Simmer & Leave it Alone

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No passado dia 22 de Janeiro, Hayley Williams, vocalista dos Paramore, lançou Simmer, o primeiro single do seu projeto lateral a solo, o álbum Petals For Armor. Pouco mais de uma semana depois, no dia 30, lançou o segundo single Leave it Alone.

 

Simmer saiu exatamente sete anos depois do lançamento de Now, o primeiro single do álbum Self-titled, o quarto dos Paramore. Não sei se foi intencional ou se foi mera coincidência. Em todo o caso, à semelhança de muitos fãs, eu adorei o pormenor. 

 

No meu caso foi extra especial porque Now foi a primeira Música Não Tão Ao Calhas – uma rubrica deste blogue onde, como sabem, analisamos canções recém-lançadas dos artistas do meu nicho. Na maioria das vezes, são primeiros singles de álbuns novos. 

 

No caso de Hayley Williams, este é o terceiro primeiro single que analisamos nesta rubrica. Os primeiros dois – Now e Hard Times – foram assinados pela banda Paramore. Simmer é o primeiro sob do nome Hayley Williams. 

 

No entanto, mesmo quando integrada nos Paramore, é Hayley quem escreve as letras, inspirada pelas suas próprias experiências. Ao mesmo tempo, apesar de este ser oficialmente um projeto a solo, Taylor York, guitarrista e co-compositor dos Paramore, colaborou com Hayley em Petals For Armor. Não tenho a certeza absoluta de que Zac Farro, o baterista dos Paramore, também tenha colaborado neste projeto, mas é possível. 

 

Tendo tudo isto em conta, na minha mente, Petals For Armor faz parte do mesmo cânone que os álbuns da banda. São capítulos da mesma história. E não sei se isso acontece com outros fãs dos Paramore, mas a história contada na música deles acaba por ser um espelho da minha. Aprendo lições de vida com ela. Se isso acontece por projeções minhas ou porque, de facto, o nosso mundo não é assim tão grande e acabamos todos por passar mais ou menos pelo mesmo, não sei. Mas é o que sinto há anos. 

 

À semelhança do que aconteceu com Hard Times, antes de podermos falar sobre Simmer, temos de falar sobre... bem, como chegámos aqui. 

 

 

A era de After Laughter terminou em setembro de 2018. Desde essa altura, os Paramore poucos sinais de vida deram. A partir de certa altura, os fãs começaram a ficar impacientes, mas eu estava tranquila. No que toca a esta banda, “no news is good news”. Tudo o que não seja a perda de membros é bom. No caso de isso acontecer (algo que achava pouco provável, mas já me enganei antes a este respeito), eles avisavam-nos. 

 

Entretanto, que os deixassem desfrutar da paz e estabilidade que não tiveram durante muito tempo. Hayley em particular.

 

Conforme comentámos na altura, nos anos anteriores a After Laughter, a vocalista dos Paramore passou por… bem, vou voltar a usar o trocadilho, tempos difíceis. Tempos esses que coincidiram com o início da era. Com o passar do tempo depois do lançamento do álbum, o estado psicológico de Hayley melhoraria. No entanto, a jovem só teve oportunidade para trabalhar nos assuntos mal resolvidos que acumulara ao regressar a casa, depois de encerrar o ciclo de AL.

 

No verão de 2017, Hayley anunciou o divórcio de Chad Gilbert, dos New Found Glory. Durante muito tempo, a jovem não disse nada sobre esse assunto em particular, tirando uma pista ou outra. 

 

Não que tivesse a obrigação de fazê-lo, como é evidente. Se Hayley tivesse mantido o silêncio sobre o assunto até agora, estava no seu direito. 

 

No entanto, em março do ano passado, a jovem deu uma extensa entrevista à revista online L’Odet dando alguns pormenores. Nomeadamente que ignorou instintos e sinais de alerta praticamente desde o início da relação (que ainda durou quase uma década), que mesmo no dia do casamento se sentia mal no vestido de noiva, que nunca chegou a passar pelo período de lua-de-mel. 

 

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Ainda antes do anúncio da separação, quando Hayley revelou pela primeira vez que se fora abaixo depois de Jeremy ter saído da banda, eu já tinha achado estranho ela ter-se casado quando supostamente estava com sintomas de depressão. Por algum motivo se diz para não se tomar decisões importantes quando sentimos emoções fortes. Não me surpreendeu descobrir que Hayley se casou ignorando os seus instintos.

 

É uma entrevista muito interessante, recomendo. Hayley fala sobre coisas que, tanto quanto sei, nunca falara antes, pelo menos não desta forma. Sobre, por exemplo, crescer com pais divorciados – algo que eu, filha de um casal estável e feliz há mais de trinta anos, nunca tive de experienciar. 

 

A parte que mais me impressionou, pela negativa, foi quando Hayley descreveu os tempos imediatamente a seguir à separação – que coincidiram com o início do ciclo de After Laughter. Nesta altura, por motivos que não foram bem explicados, Hayley estava a viver numa casa infestada com… morcegos.

 

Morcegos! Fucking morcegos! E uma espécie de carraças de morcegos. Eu não queria acreditar, ainda não acredito. Eu preferia viver no meu carro. Valha-me Deus, eu quase preferia viver na rua!

 

Porque é que Taylor, Zac, Brian e as outras pessoas na vida de Hayley a deixaram viver assim? Sem lhe oferecerem um sofá em casa deles ou algo do género. É certo que só conheço a parte que Hayley contou da história. Quero assumir que, a certa altura, os outros tenham intervindo e tirado Hayley daquela casa – se a jovem não tiver decidido fazê-lo por si mesma. 

 

 

Agora vejo que este deve ter sido um dos maiores sintomas de depressão que Hayley manifestou, tanto quanto sei. Ninguém psicologicamente saudável vive numa casa com morcegos quando tem dinheiro para, no mínimo, contratar uma empresa para se livrar da infestação. Depois de falar disto, referir ideação suicida é quase redundante.

 

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que estive perto de perder duas das minhas pessoas preferidas do mundo da música por suicídio. Perder Chester já foi difícil que chegue. Perder Hayley – que, ainda por cima, em Leave it Alone fala de brincar com uma forca – possivelmente no mesmo ano, da mesma forma, seria insuportável.

 

Além de que existem imensas pessoas que eu sei que nunca recuperariam – amigos próximos dela e também fãs. E com o histórico da banda nos anos anteriores... Não! Não de todo! Nem quero pensar mais nisso.

 

O que interessa é que Hayley sobreviveu e parece mais feliz, agora. Como referi antes, a jovem tem passado o último ano e meio lidando com as questões que a abateram no passado. Tem andado em acompanhamento psicológico intensivo e outros tratamentos, alguns convencionais, outros menos. Como por exemplo uma espécie de massagista craniosacral.

 

Foi durante uma sessão com ela que aconteceu algo especial. Citando a entrevista a L’Odet, “Tive uma visão de muitas flores nascendo do meu corpo. O meu lado cínico interpretou-o como ‘Bem, a única maneira de isso acontecer é se morreres, estiveres enterrada e alguém lá tiver colocado flores bonitas’”.

 

Uma pausa só para dizer… credo! Sonha com flores e isto é a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Ela bem tinha avisado sobre a sua mente, em Rose Colored Boy… 

 

 

Enfim, continuando…

 

Mas depois este novo lado a que nunca tinha acedido apareceu, afastou-o e disse: ‘Não. Isto és tu. Isto é o agora. É o que está a acontecer agora e é à volta disto que tens estado a escavar neste último ano. Esta beleza e feminilidade e nova força que vai sair de ti.’ E escolhi agarrar-me a isso.

 

(...) Desde essa altura tenho colhido imensas flores para a minha casa. Mantenho-as junto a mim para me recordarem que estou a avançar para feminilidade e força e depois feminilidade e solidão o poder de ser auto-suficiente mas também de ser suave e aberta.”

 

Poucos dias após Hayley anunciar que ia embarcar num projeto, numa altura em que a expressão Petals For Armor andava a circular entre os fãs mas ainda não tivera confirmação oficial, calhou reler esta entrevista. Esta parte chamou-me a atenção. Seria daqui que viria o suposto nome do projeto lateral? 

 

Em entrevista à BBC, Hayley confirmou as origens do nome Petals For Armor, voltando a falar da mesma visão. “Apercebi-me naquele momento que havia muito a tentar crescer de dentro para fora de mim e que isso ia doer. E acho que, para mim, é uma espécie de filosofia de vida tentar ser suave num mundo mesmo mesmo duro. Sentir dor, sentir tudo, deixar tudo vir e deitar para fora algo que possa redimir de isso tudo, mesmo que de início seja feio.”

 

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“(...) Eu sentia que a melhor maneira de me proteger era ser vulnerável e aceitar sentir imensa dor certas vezes e sentir imensa alegria certas vezes. Enquanto me mantiver suave e aberta para deixar estas coisas entrar e sair de mim conseguirei sobreviver mais facilmente ao mundo, em vez de me manter dura e sempre de punhos em riste.”

 

Ora, quem tiver acompanhado o meu blogue nos últimos tempos há de notar algo de familiar neste discurso. Foi mais ou menos o mesmo que escrevi quando analisei Ruki, de Digimon Tamers, comparando-a com personagens de outras histórias, como Emma Swan e Temperance Brennan, também conhecida por Bones

 

Lembram-se da diferença entre ser-se forte e ser-se impermeável? Uma substância impermeável repele todo o tipo de agressões, sem se atingir por elas. Uma substância forte sofre agressões, mas não se deixa destruir por elas. Pessoas impermeáveis, que constroem muros à sua volta e se fecham às emoções até podem conseguir evitar o sofrimento a curto prazo. Mas esses muros também bloqueiam emoções boas, como amor e alegria. 

 

Também me recorda uma das melhores cenas de Anatomia de Grey – a única cena que redime o infame episódio duplo que se segue à morte de Derek. À semelhança do que Hayley admite fazer, Amelia passou toda a sua vida recalcando os seus sentimentos, muitas vezes com a ajuda de drogas. 

 

Nesta cena, Owen faz-lhe ver que ninguém consegue viver assim. A única maneira de sobreviver é permitirmo-nos sentir a dor para depois arrumá-la a um canto; sermos destruídos e reconstruirmo-nos de novo. 

 

 

Para Amelia, como dá para ver no vídeo, de início foi feio, tal como Hayley disse. Feio, doloroso, mas necessário. 

 

Suponho que tenha sido mais ou menos essa a lição que Hayley aprendeu. A ser forte em vez de impermeável. A proteger-se com pétalas em vez de punhos. A jovem admite que tem a tendência de recalcar as suas emoções, de negar o que está a sentir. Se calhar, se estivesse mais em contacto com os seus sentimentos, não se teria casado e teria evitado muito sofrimento.

 

Pode-se argumentar que After Laughter enquanto álbum defende a filosofia de negar sentimentos. Canções como Rose Colored Boy e Fake Happy falam sobre colar sorrisos no rosto, escondendo a infelicidade que se sente. Mesmo o facto de a maior parte das canções ter instrumentais e melodias alegres e letras deprimentes. 

 

Então Hayley começou a lidar mais ativamente com as suas emoções. Como uma das melhores maneiras que ela possui para isso é escrevendo e compondo, começou a criar música. De início foi só para si mesma, sem expectativas ou compromissos. 

 

Só quando já contava meia dúzia de faixas é que percebeu que havia ali qualquer coisa. Taylor em particular encorajou-a a tornar aquilo oficial, em investir a sério no projeto.

 

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E puff! Fez-se o Chocapic Petals For Armor.

 

Por ocasião do seu trigésimo-primeiro aniversário, Hayley largou a bomba numa mensagem publicada nas redes sociais: em janeiro iria lançar música a solo, que criara “com a ajuda de alguns dos seus amigos mais íntimos”.

 

Como seria mais ou menos de esperar, uma parte da comunidade de fãs entrou em pânico. Depois de tudo por que a banda passou, este era o pior pesadelo de muita gente. 

 

Eu, no entanto, nunca acreditei que Hayley se tivesse “vendido” nem que isto significasse o fim dos Paramore enquanto banda – até porque, poucas semanas antes, a banda tinha publicado uma espécie de renovação de votos. 

 

Além disso, Zac lançou o EP The Velvet Face, do seu projeto Half Noise, praticamente em paralelo com After Laughter. Nem Hayley nem Taylor pareceram ter problemas com isso. Pelo contrário, apoiaram desde início, chegaram mesmo a tocar músicas como French Class (uma canção que tenho ouvido algumas vezes nos últimos tempos) em concertos. 

 

Porque não haveriam Zac e Taylor de fazer o mesmo com Petals For Armor? Eu quero, aliás, acreditar que as novelas nos Paramore ficaram na década passada. Que os anos 20 sejam de paz e estabilidade.

 

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Em todo o caso, a maior parte das reservas das pessoas desapareceram depois de Simmer ser lançada. Em parte porque Hayley revelou que o projeto teve a bênção e mesmo a colaboração de Taylor e Zac, em parte porque… tanto Simmer como Leave it Alone são boas músicas.

 

E depois de duas mil palavras só para dar contexto (não tenho remédio), vamos finalmente falar sobre elas. 

 

Simmer começa com um som que faz lembrar um alarme de perigo, que se mantém no fundo durante uma boa parte da faixa. Também se ouvem uns suspiros que funcionam como imagem de marca da canção. 

 

Confesso que demorei a habituar-me a eles. Ainda agora não posso dizer que adore essas partes. Parecem orgasmos ou alguém a morrer. Acho que a intenção era mesmo desconcertar. Ou simbolizar a acumulação e libertação de tensão. 

 

Entretanto, entra a bateria e o baixo, com os sintetizadores discretos no fundo, que se mantém durante as estâncias. No refrão ouve-se uma guitarra elétrica, mas sempre sem assoberbar.

 

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É uma instrumentação bastante minimalista, virando os holofotes para os vocais controlados de Hayley. É um híbrido estranho entre Billie Eilish e o rock de After Laughter, mais baseado em riffs de guitarra do que em acordes pesados.

 

Há quem diga que este é um som completamente diferente daquilo que estamos habituados da parte dos Paramore. No que toca a Leave it Alone talvez, como veremos adiante. Com Simmer, nem por isso, na minha opinião. A mim soa-me a uma evolução natural do estilo de After Laughter, como vimos no parágrafo acima. Não me parece radicalmente diferente de, por exemplo, Idle Worship ou No Friend. 

 

A diferença é que o som de After Laughter é mais pop, mais luminoso, influenciado pelos anos 80. Tanto Simmer como Leave it Alone não douram a pílula, são tão sombrias e cruas como as letras.

 

A de Simmer, então, fala sobre raiva e as dificuldades em contê-la. Segundo a lógica daquilo que falámos acima… não sei muito bem onde é que esta canção se encaixa. Se na, vamos chamar-lhe, “filosofia velha” dos punhos em riste, ou na, vamos chamar-lhe, “filosofia nova”, das pétalas como armadura.

 

Suponho que, para quem viva sempre com muros erguidos à sua volta, a raiva será a única emoção que se permitem sentir. Porque serve de proteção, para manter as pessoas afastadas. Porque muitas vezes é exprimida para disfarçar outras emoções, como medo ou dor. Isso acontece muito em homens que vivem sob as expectativas do patriarcado – que considera a ira a única emoção aceitável no género masculino. 

 

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Há que relembrar, no entanto, que não é por acaso que a ira é considerada um pecado mortal no cânone cristão. Se não for controlada, a raiva é extremamente destrutiva – não é preciso fornecer exemplos.

 

Por outro lado, também se poderia encaixar na filosofia nova. Mesmo tendo em conta todos os aspetos negativos, a raiva não deixa de ser uma emoção. Uma das emoções que, se calhar, Hayley recalcou. Quase toda a gente concorda que reprimir a raiva por completo não é saudável. A longo prazo poderá ser mesmo pior a emenda do soneto.

 

Além de que, se for usada corretamente, em doses terapêuticas, a raiva pode ser um catalisador. Pode dar coragem para mudar uma situação desfavorável. 

 

Voltando a questão do género, não é por acaso que um dos objetivos dos movimentos feministas nos últimos anos (pelo menos nos Estados Unidos) tem sido reclamar o direito das mulheres à raiva. Afinal de contas, a ira é um pecado mais facilmente perdoado no homem que na mulher (não me olhem assim, vocês sabem que é verdade). Uma mulher zangada recebe logo o rótulo de histérica ou de está-com-o-período. Ao patriarcado interessa manter as mulheres submissas e complacentes.

 

Isto tudo para dizer que a raiva tem vantagens e desvantagens, como muitas coisas na vida. Hayley revelou que a ideia inicial para a letra de Simmer era fazer uma reflexão geral sobre a ira. No entanto, na segunda estância acabou por entrar em territórios mais específicos, admitindo que sentiu dificuldades em gravá-la.

 

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Dá para ouvir. Os versos são cantados mais baixos que o resto da canção – não consegui ouvi-los bem da primeira vez. Há uma frase que é deixada incompleta. Como se, de facto, Hayley não se atrevesse a dizê-lo em voz alta, sem filtros.

 

Gostava de tirar alguns parágrafos para olhar para estes versos. Antes de prosseguir, no entanto, quero deixar bem claro que isto é um mero exercício de especulação – duvido que Hayley algum dia confirme ou desminta estas interpretações. É provável que estes versos tenham sido inspirados pelo amplamente comentado acima casamento falhado. Não dá para ter certezas absolutas, lá está, mas acho que todos concordam. 

 

Comecemos por “If I had seen my reflection as something more precious he would’ve never…”. É outra vez a questão dos morcegos. Da mesma maneira como Hayley teria evitado aquela casa se tivesse mais consideração por si mesma, se tivesse a sua auto-estima em níveis normais, não teria prolongado tanto uma relação que não era a adequada.

 

Não quero com isto comparar o ex de Hayley a morcegos… mas se calhar até quero comparar o ex de Hayley a morcegos (se os rumores que li por aí são verdadeiros, ele merece).

 

Faz lembrar a citação do filme As Vantagens de Ser Invisível: “aceitamos o amor que achamos que merecemos”.

 

Os versos que se seguem são particularmente chocantes: “If my child needed protection from a fucker like that man, I’d sooner gut him”. Deixando de parte as tendências homicidas, faz-me lembrar respostas no site Quora escritas por vítimas de relações abusivas (quer por companheiros, quer por familiares). Quando eram só eles(as), aguentavam – achavam que mereciam, até certo ponto. No entanto, quando tiveram filhos, perceberam que não queriam que estes vivessem o mesmo.

 

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Pergunto-me se foi assim que Hayley descobriu que a culpa não era só sua por a relação não ter resultado. Imaginando um filho seu ou, pura e simplesmente, um amigo ou familiar passando pelo mesmo que ela passou, finalmente percebendo que não, ninguém merece aquilo.

 

Há que ter em atenção que estes versos podem não ser cem por cento factuais. Em parte porque, em linha com o tema de Simmer, podem ter sido escritos sob influência da raiva. Além de que estamos apenas a ouvir a versão de Hayley da história.

 

Em todo o caso, a terceira parte da canção apela-nos a, lá está, usarmos pétalas como armadura. Neste contexto, penso que significa que a misericórdia é mais desejável que a raiva – respondendo à pergunta do refrão.

 

Não posso deixar de falar sobre o videoclipe. Começando pelo elefante na sala: Hayley está nua. Mais do que isso, existe algo de cru e visceral na aparência dela. Não usa maquilhagem – ou então tem uma maquilhagem de cara lavada muito convincente – e a iluminação enche o seu rosto de sombras, dando-lhe um ar ligeiramente demoníaco. 

 

A breve cena em que o rosto de Hayley surge sob uma luz vermelha parece representar uma personificação da raiva homicida descrita na letra – a cara interior que está mesmo debaixo da pele. O vídeo, de resto, recorre muito a luzes vermelhas para simbolizar essa ira.

 

 

Mesmo depois de já terem saído duas sequelas a este videoclipe (um interlúdio e o vídeo de Leave it Alone) não parece existir consenso sobre quem é ao certo a figura encapuçada que persegue Hayley – que tem o mesmo rosto que ela. Na minha opinião, é uma personificação do passado de Hayley. A Hayley do presente está em claro modo de fuga ou luta, medo ou raiva. De início foge, mas depois cobre-se de barro para lutar – derrotando a Hayley do passado. 

 

No vídeo de interlúdio, a Hayley-coberta-de-barro aparece com uma expressão clara de “Meu Deus, que fiz eu?”. Agora, em vez de medo ou raiva, reage com compaixão – arrasta o corpo inconsciente da Hayley-do-passado para outra divisão e toma-a nos seus braços. 

 

Não são necessários muitos dedos de testa para compreender o significado: ser-se gentil para consigo mesma, perdoar-se a si mesma. Segundo Hayley, esta foi outra das lições que teve de aprender no último ano e meio – suponho que seja um dos temas de Petals For Armor (mesmo já tendo falado sobre isso de passagem, a propósito de 26).

 

O resto do vídeo mostra a Hayley-do-passado e a Hayley-coberta-de-barro sendo envolvidas num casulo – uma cena um bocadinho sinistra na minha opinião. No fim, vemos uma Hayley diferente abrindo os olhos. Uma Hayley com o rosto coberto de pétalas.

 

O que nos leva a Leave it Alone – que foi lançada no dia 30, quase sem aviso, sem sequer sabermos o nome da música até esta ser lançada.

 

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Da primeira vez que ouvi Leave It Alone não reconheci a voz de Hayley. Não me lembro de alguma vez a ter ouvido cantando desta forma, num tom tão grave. Agora que já a ouvi várias vezes consigo perceber que é mesmo ela – mesmo assim é algo diferente.

 

Instrumentalmente, Leave it Alone é ainda mais minimalista que Simmer. Hayley compô-la com Joey Howard, baixista acompanhante dos Paramore (que também ajudou a compor Simmer), apenas com um baixo e uma caixa de ritmos (foi uma das primeiras a ser composta para Petals For Armor). No outro dia, Joey partilhou o ficheiro de áudio da primeira gravação da música. A versão final não possui muitos mais instrumentos que esta. Para além do baixo e da bateria, só um violoncelo, uns violinos, umas notas de órgão e pouco mais. 

 

Mais uma vez, esta é uma faixa que combina géneros. A mim soa-me a uma mistura de Lana del Rey com indie rock. Algo que serviria de música de fundo a um clube noturno retro, de algures entre os anos 20 e 30. Muitos fãs dizem que parece Radiohead – como conheço mal a banda, vou acreditar neles.

 

Em relação à letra… bem, é pesada. A primeira estância resume-se a “Agora que recuperei a vontade de viver, está toda a gente a morrer à minha volta”.

 

Como se isto não chegasse em termos de ironia, a própria música tira a vontade de viver. Mas estou a adiantar-me.

 

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A segunda estância começa com “You don’t remember my name somedays or that we’re related”. Aponta logo para um familiar com demência. Não surpreendeu, assim, quando poucas horas depois apareceram declarações de Hayley na Internet, revelando que a letra fora inspirada pelo menos em parte por um acidente com a sua avó. Há pouco mais de um ano, a senhora sofreu uma queda, bateu com a cabeça, e desde essa altura começou a sofrer de demência.

 

Pois eu sei o que isso é. Há poucos meses enterrámos o meu avô, depois de ter passado os últimos anos da sua vida sem as faculdades todas (já tinha mais de noventa anos). Ele nunca deixou de me reconhecer como alguém de quem ele gostava mas, lá está, não se lembrava do meu nome nem de que eu era a sua neta. E, segundo a minha avó, depois de eu sair, já não se lembrava de eu ter lá estado.

 

Muitos fãs têm revelado histórias semelhantes a propósito desta música, algumas bem piores. Não é fácil.

 

Leave it Alone é mesmo sobre isso: luto, morte. No caso de Hayley, o acidente com a sua avó aconteceu na pior altura possível – quando estava empenhada em tratar da sua saúde mental. Consta que outras pessoas na vida dela, amigos da família, foram morrendo na mesma altura – da minha experiência, estas coisas acontecem todas ao mesmo tempo, sem cerimónias. 

 

Toda a gente sabe como é perder entes queridos – ou irá descobri-lo mais cedo ou mais tarde. Hayley a certa altura interroga-se se faz sentido amar quando mesmo na melhor das hipóteses um dia a outra pessoa morre. Ou então morremos nós e as pessoas que amamos ficam obrigadas a lidar com tal perda.

 

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Pela parte que me toca, acho preferível amar e mais tarde perder do que não amar de todo. Ficam sempre as recordações, aquele calor no coração de que fala Everglow dos Coldplay. 

 

Além disso, gosto de acreditar que, depois de morrermos, reencontrar-nos-emos todos de uma forma ou de outra, no outro lado. Gosto de acreditar que o meu avô foi pôr a conversa em dia com os meus avós maternos, que morreram antes dele. Que poderemos ver Eusébio jogando com Luís Figo e Cristiano Ronaldo (se já tiverem morrido nessa altura) como se estivessem todos na casa dos vinte. Que quando Mike, Phoenix, Rob e os restantes membros dos Linkin Park morrerem (daqui a várias décadas, espero bem), Chester chamá-los-á para partilharem o palco de novo.

 

Mas estou a desviar-me um bocado.

 

Na terceira parte de Leave it Alone, Hayley aconselha o ouvinte a deixar o amor entrar na sua vida, mas que tenha noção de que não será para sempre. Que esteja preparado para isso.

 

Não há muito a dizer sobre o videoclipe de Leave it Alone. Hayley encontra-se na fase do casulo. Este está a querer abrir, mas a ideia com que fico é que ela ainda não está preparada para sair, pelo menos não por completo.

 

 

Adoro o visual dela no casulo, a maquilhagem com as pétalas. Mas acho que invejo mais o vestido que ela usa na floresta, com a capa azul.

 

E pronto. Foram Simmer e Leave it Alone, a primeira degustação de Petals For Armor. Se estas músicas forem uma amostra representativa, este vai ser um álbum que nos arrasará emocionalmente. A ver se nos preparamos para isso.

 

Ambas as músicas são muito boas, únicas, cruas, poderosas (toma nota, Avril!). No entanto, se tivesse de escolher entre as duas, prefiro Simmer. Não porque ache que seja a melhor música, mais porque… Leave it Alone é um tudo nada demasiado triste para mim. É pesada emocionalmente, deita uma pessoa abaixo. 

 

Não quer dizer que não goste, longe disso. No entanto, por exemplo, enquanto escrevia este texto estive a ouvir Leave it Alone em repetição. Acidentalmente passei-a à frente, para uma música bem mais alegre, e senti-me logo aliviada.

 

Eu compreendo que Hayley não queira dourar a pílula para nós, queira ser honesta, crua, mesmo implacável. Como vimos acima, estas são as partes feias da “filosofia nova”, de deitar muros abaixo e processar emoções.

 

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Dito isto, aqui entre nós que ninguém nos ouve (ou lê), espero que não demore muito até chegarmos às partes bonitas (ou pelo menos menos feias). 

 

Petals for Amor será editado a 8 de maio. Hayley já afirmou que quer ir em digressão para promover este álbum, mas ao que parece ainda está tudo em fase de planeamento. Em relação aos Paramore, por agora, estes continuarão em águas de bacalhau. Segundo o que Hayley deu a entender, quando este ciclo estiver concluído e estiverem na disposição para isso, a banda gravará um novo álbum. 

 

Por outras palavras, os Paramore estão em pausa, mas ainda estão longe de terminar.

 

Por mim tudo bem, não tenho pressa agora que vamos ter Petals For Armor. Obrigada por lerem este looooongo testamento sobre um par de músicas. Continuem por aí.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Shine a Light

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Bryan Adams lançou, na passada quinta-feira, dia 17 de janeiro, o single Shine a Light, primeiro avanço do álbum com o mesmo nome, que sai a 1 de março.

 

Shine a Light foi co-composta com Ed Sheeran. Consta que os dois se conheceram há uns meses, em Dublin, e mantiveram o contacto. Porque ninguém do mundo da música é idiota ao ponto de conhecer Ed Sheeran e não manter o contacto. A certa altura, Bryan enviou-lhe aquele que se tornaria o refrão de Shine a Light. Uns dias depois, recebeu o esboço de volta, com estâncias compostas por Ed.

 

Tenho uma certa pena que Ed não tenha também cantado, até porque Bryan disse que “devíamos tê-lo ouvido a cantar”. Por outro lado… não estou a ver ao certo onde está a influência de Sheeran nesta música. Não sei o que é que ele fez pela música que Bryan não podia ter feito. O estilo musical dos dois não é assim tão diferente quanto isso. Não havia necessidade, na minha opinião.

 

Mas, lá está, é o Ed Sheeran. Como disse acima, nos dias que correm, ninguém deixaria a oportunidade escapar.

 

 

"Big city lives, fast lane living but
You never forgot your roots"

 

Cinismo à parte, esta é uma canção que, não sendo extraordinária, cativou-me à primeira audição com o seu tom luminoso – a condizer com o título da música. A guitarra acústica domina (ouve-se muito pouca guitarra elétrica), num ritmo acelerado marcado pela bateria. Lembra-me um bocadinho Oxygen, do álbum 11, se bem que a bateria de Shine a Light não seja tão dominadora.

 

Outra música que Shine a Light me recorda é Breakin’, dos All-American Rejects.

 

Infelizmente, regressa uma das falhas de Get Up: a ausência de solos de guitarra. De que serve ter um guitarrista excelente, como Keith Scott, se não podemos ouvir a guitarra dele na música de Bryan?

 

Enfim. Passemos à frente.

 

O tema de Shine a Light não é inédito na discografia de Bryan. À semelhança de Walk on By, do álbum 11, a letra aborda a história, muito típica na cultura americana e canadiana, da jovem que deixa a terra pequena onde nasceu e parte para a cidade para seguir os seus sonhos. Enquanto a letra de Walk on By é mais cautelosa, Shine a Light conta a mesma história numa luz (pun intended) bem mais otimista. Aqui ninguém duvida que a menina em questão conseguirá desenrascar-se sozinha e tornar os seus sonhos realidade – até porque ela ilumina tudo o que a rodeia.

 

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Em suma, Shine a Light é uma boa introdução ao álbum com o mesmo nome. Não acho que se vá tornar uma das minhas músicas preferidas, mas imagino-a ganhando um estatuto parecido ao de I thought I’d seen Everything, do álbum 11, e de She Knows Me.

 

Esta última, aliás, tem andado a subir na minha consideração ao longo do último ano. De vez em quando passa na Rádio Comercial, enquanto estou a trabalhar. Quando a oiço, lembro-me que saiu num dos períodos mais difíceis da minha vida. Só o percebi muito depois, mas na altura soube-me a um dia de sol, no meio de um verão invulgarmente cinzento e gélido.

 

Espero que seja esse o significado do nome deste álbum. Talvez o objetivo de Shine a Light seja mesmo esse: trazer música que nos aqueça neste inverno, que nos ilumine os dias, numa altura em que as vidas de muitos de nós já foram bem mais fáceis.

 

Já se conhece a tracklist do álbum Shine a Light. Desta feita, não temos apenas nove faixas inéditas, com quatro versões acústicas para nos poderem cobrar o preço de um álbum inteiro – mais de três anos depois de Get Up, ainda acho uma jogada super manhosa.

 

IMG_20190120_125342.jpg

 

Nada disso desta vez. Vamos ter direito a treze faixas inéditas. Bem, mais ou menos, uma é um cover de Whiskey in a Jar. A versão digital, em CD e em cassete (?) vai ter The Last Night on Earth como faixa exclusiva, enquanto a versão em vinil terá I Hear You Knockin’.

 

Um destaque da tracklist é o dueto com Jennifer Lopez. Confesso que não estava à espera desta. Não sou grande fã de JLo – tirando uma música ou outra, considero-a uma cantora mediana. No entanto, estou com algumas expectativas em relação a este dueto. Acho que pode sair uma coisa gira daqui.

 

Como disse antes, o álbum Shine a Light sai a 1 de março. Ou seja, no próximo mês e meio, vou receber três álbuns novos de artistas do meu nicho, com um intervalo de duas semanas. Resist, dos Within Temptation, a 1 de fevereiro. Head Above Water, de Avril Lavigne, a 15. Shine a Light a 1 de março. Que luxo!

 

Ainda bem que aderi à promoção do Spotify, que oferecia três meses de Premium pelo preço de um. Fiz a compra perto do Ano Novo e abarca estes três lançamentos. Bem jogado, Sofia-do-passado!

 

Já arranjei, aliás, uma playlist para toda a música nova que foi saindo este ano, para me ser mais fácil ir-me familiarizando com o material novo até arranjar os CDs. E também para ir manipulando o número de reproduções.

 

 

Entretanto, tenho andado a trabalhar num texto de Músicas Ao Calhas sobre duas músicas, uma de Bryan, outra de Avril Lavigne. Talvez o timing não seja o melhor – vai ser muita Avril e muito Bryan em pouco tempo neste blogue. Por outro lado, vou regressar às origens neste texto. Já que os dois se preparam para lançar álbuns novos, acho que é uma boa altura para voltar atrás e recordar o início da nossa relação musical.

 

Preparem-se, então, para muita música aqui no blogue nas próximas semanas, se não forem meses. Estamos apenas a começar. Continuem desse lado!

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