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Álbum de Testamentos

Mulher de muitas paixões e adoro escrever (extensamente) sobre elas.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Simmer & Leave it Alone

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No passado dia 22 de Janeiro, Hayley Williams, vocalista dos Paramore, lançou Simmer, o primeiro single do seu projeto lateral a solo, o álbum Petals For Armor. Pouco mais de uma semana depois, no dia 30, lançou o segundo single Leave it Alone.

 

Simmer saiu exatamente sete anos depois do lançamento de Now, o primeiro single do álbum Self-titled, o quarto dos Paramore. Não sei se foi intencional ou se foi mera coincidência. Em todo o caso, à semelhança de muitos fãs, eu adorei o pormenor. 

 

No meu caso foi extra especial porque Now foi a primeira Música Não Tão Ao Calhas – uma rubrica deste blogue onde, como sabem, analisamos canções recém-lançadas dos artistas do meu nicho. Na maioria das vezes, são primeiros singles de álbuns novos. 

 

No caso de Hayley Williams, este é o terceiro primeiro single que analisamos nesta rubrica. Os primeiros dois – Now e Hard Times – foram assinados pela banda Paramore. Simmer é o primeiro sob do nome Hayley Williams. 

 

No entanto, mesmo quando integrada nos Paramore, é Hayley quem escreve as letras, inspirada pelas suas próprias experiências. Ao mesmo tempo, apesar de este ser oficialmente um projeto a solo, Taylor York, guitarrista e co-compositor dos Paramore, colaborou com Hayley em Petals For Armor. Não tenho a certeza absoluta de que Zac Farro, o baterista dos Paramore, também tenha colaborado neste projeto, mas é possível. 

 

Tendo tudo isto em conta, na minha mente, Petals For Armor faz parte do mesmo cânone que os álbuns da banda. São capítulos da mesma história. E não sei se isso acontece com outros fãs dos Paramore, mas a história contada na música deles acaba por ser um espelho da minha. Aprendo lições de vida com ela. Se isso acontece por projeções minhas ou porque, de facto, o nosso mundo não é assim tão grande e acabamos todos por passar mais ou menos pelo mesmo, não sei. Mas é o que sinto há anos. 

 

À semelhança do que aconteceu com Hard Times, antes de podermos falar sobre Simmer, temos de falar sobre... bem, como chegámos aqui. 

 

 

A era de After Laughter terminou em setembro de 2018. Desde essa altura, os Paramore poucos sinais de vida deram. A partir de certa altura, os fãs começaram a ficar impacientes, mas eu estava tranquila. No que toca a esta banda, “no news is good news”. Tudo o que não seja a perda de membros é bom. No caso de isso acontecer (algo que achava pouco provável, mas já me enganei antes a este respeito), eles avisavam-nos. 

 

Entretanto, que os deixassem desfrutar da paz e estabilidade que não tiveram durante muito tempo. Hayley em particular.

 

Conforme comentámos na altura, nos anos anteriores a After Laughter, a vocalista dos Paramore passou por… bem, vou voltar a usar o trocadilho, tempos difíceis. Tempos esses que coincidiram com o início da era. Com o passar do tempo depois do lançamento do álbum, o estado psicológico de Hayley melhoraria. No entanto, a jovem só teve oportunidade para trabalhar nos assuntos mal resolvidos que acumulara ao regressar a casa, depois de encerrar o ciclo de AL.

 

No verão de 2017, Hayley anunciou o divórcio de Chad Gilbert, dos New Found Glory. Durante muito tempo, a jovem não disse nada sobre esse assunto em particular, tirando uma pista ou outra. 

 

Não que tivesse a obrigação de fazê-lo, como é evidente. Se Hayley tivesse mantido o silêncio sobre o assunto até agora, estava no seu direito. 

 

No entanto, em março do ano passado, a jovem deu uma extensa entrevista à revista online L’Odet dando alguns pormenores. Nomeadamente que ignorou instintos e sinais de alerta praticamente desde o início da relação (que ainda durou quase uma década), que mesmo no dia do casamento se sentia mal no vestido de noiva, que nunca chegou a passar pelo período de lua-de-mel. 

 

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Ainda antes do anúncio da separação, quando Hayley revelou pela primeira vez que se fora abaixo depois de Jeremy ter saído da banda, eu já tinha achado estranho ela ter-se casado quando supostamente estava com sintomas de depressão. Por algum motivo se diz para não se tomar decisões importantes quando sentimos emoções fortes. Não me surpreendeu descobrir que Hayley se casou ignorando os seus instintos.

 

É uma entrevista muito interessante, recomendo. Hayley fala sobre coisas que, tanto quanto sei, nunca falara antes, pelo menos não desta forma. Sobre, por exemplo, crescer com pais divorciados – algo que eu, filha de um casal estável e feliz há mais de trinta anos, nunca tive de experienciar. 

 

A parte que mais me impressionou, pela negativa, foi quando Hayley descreveu os tempos imediatamente a seguir à separação – que coincidiram com o início do ciclo de After Laughter. Nesta altura, por motivos que não foram bem explicados, Hayley estava a viver numa casa infestada com… morcegos.

 

Morcegos! Fucking morcegos! E uma espécie de carraças de morcegos. Eu não queria acreditar, ainda não acredito. Eu preferia viver no meu carro. Valha-me Deus, eu quase preferia viver na rua!

 

Porque é que Taylor, Zac, Brian e as outras pessoas na vida de Hayley a deixaram viver assim? Sem lhe oferecerem um sofá em casa deles ou algo do género. É certo que só conheço a parte que Hayley contou da história. Quero assumir que, a certa altura, os outros tenham intervindo e tirado Hayley daquela casa – se a jovem não tiver decidido fazê-lo por si mesma. 

 

 

Agora vejo que este deve ter sido um dos maiores sintomas de depressão que Hayley manifestou, tanto quanto sei. Ninguém psicologicamente saudável vive numa casa com morcegos quando tem dinheiro para, no mínimo, contratar uma empresa para se livrar da infestação. Depois de falar disto, referir ideação suicida é quase redundante.

 

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que estive perto de perder duas das minhas pessoas preferidas do mundo da música por suicídio. Perder Chester já foi difícil que chegue. Perder Hayley – que, ainda por cima, em Leave it Alone fala de brincar com uma forca – possivelmente no mesmo ano, da mesma forma, seria insuportável.

 

Além de que existem imensas pessoas que eu sei que nunca recuperariam – amigos próximos dela e também fãs. E com o histórico da banda nos anos anteriores... Não! Não de todo! Nem quero pensar mais nisso.

 

O que interessa é que Hayley sobreviveu e parece mais feliz, agora. Como referi antes, a jovem tem passado o último ano e meio lidando com as questões que a abateram no passado. Tem andado em acompanhamento psicológico intensivo e outros tratamentos, alguns convencionais, outros menos. Como por exemplo uma espécie de massagista craniosacral.

 

Foi durante uma sessão com ela que aconteceu algo especial. Citando a entrevista a L’Odet, “Tive uma visão de muitas flores nascendo do meu corpo. O meu lado cínico interpretou-o como ‘Bem, a única maneira de isso acontecer é se morreres, estiveres enterrada e alguém lá tiver colocado flores bonitas’”.

 

Uma pausa só para dizer… credo! Sonha com flores e isto é a primeira coisa que lhe vem à cabeça? Ela bem tinha avisado sobre a sua mente, em Rose Colored Boy… 

 

 

Enfim, continuando…

 

Mas depois este novo lado a que nunca tinha acedido apareceu, afastou-o e disse: ‘Não. Isto és tu. Isto é o agora. É o que está a acontecer agora e é à volta disto que tens estado a escavar neste último ano. Esta beleza e feminilidade e nova força que vai sair de ti.’ E escolhi agarrar-me a isso.

 

(...) Desde essa altura tenho colhido imensas flores para a minha casa. Mantenho-as junto a mim para me recordarem que estou a avançar para feminilidade e força e depois feminilidade e solidão o poder de ser auto-suficiente mas também de ser suave e aberta.”

 

Poucos dias após Hayley anunciar que ia embarcar num projeto, numa altura em que a expressão Petals For Armor andava a circular entre os fãs mas ainda não tivera confirmação oficial, calhou reler esta entrevista. Esta parte chamou-me a atenção. Seria daqui que viria o suposto nome do projeto lateral? 

 

Em entrevista à BBC, Hayley confirmou as origens do nome Petals For Armor, voltando a falar da mesma visão. “Apercebi-me naquele momento que havia muito a tentar crescer de dentro para fora de mim e que isso ia doer. E acho que, para mim, é uma espécie de filosofia de vida tentar ser suave num mundo mesmo mesmo duro. Sentir dor, sentir tudo, deixar tudo vir e deitar para fora algo que possa redimir de isso tudo, mesmo que de início seja feio.”

 

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“(...) Eu sentia que a melhor maneira de me proteger era ser vulnerável e aceitar sentir imensa dor certas vezes e sentir imensa alegria certas vezes. Enquanto me mantiver suave e aberta para deixar estas coisas entrar e sair de mim conseguirei sobreviver mais facilmente ao mundo, em vez de me manter dura e sempre de punhos em riste.”

 

Ora, quem tiver acompanhado o meu blogue nos últimos tempos há de notar algo de familiar neste discurso. Foi mais ou menos o mesmo que escrevi quando analisei Ruki, de Digimon Tamers, comparando-a com personagens de outras histórias, como Emma Swan e Temperance Brennan, também conhecida por Bones

 

Lembram-se da diferença entre ser-se forte e ser-se impermeável? Uma substância impermeável repele todo o tipo de agressões, sem se atingir por elas. Uma substância forte sofre agressões, mas não se deixa destruir por elas. Pessoas impermeáveis, que constroem muros à sua volta e se fecham às emoções até podem conseguir evitar o sofrimento a curto prazo. Mas esses muros também bloqueiam emoções boas, como amor e alegria. 

 

Também me recorda uma das melhores cenas de Anatomia de Grey – a única cena que redime o infame episódio duplo que se segue à morte de Derek. À semelhança do que Hayley admite fazer, Amelia passou toda a sua vida recalcando os seus sentimentos, muitas vezes com a ajuda de drogas. 

 

Nesta cena, Owen faz-lhe ver que ninguém consegue viver assim. A única maneira de sobreviver é permitirmo-nos sentir a dor para depois arrumá-la a um canto; sermos destruídos e reconstruirmo-nos de novo. 

 

 

Para Amelia, como dá para ver no vídeo, de início foi feio, tal como Hayley disse. Feio, doloroso, mas necessário. 

 

Suponho que tenha sido mais ou menos essa a lição que Hayley aprendeu. A ser forte em vez de impermeável. A proteger-se com pétalas em vez de punhos. A jovem admite que tem a tendência de recalcar as suas emoções, de negar o que está a sentir. Se calhar, se estivesse mais em contacto com os seus sentimentos, não se teria casado e teria evitado muito sofrimento.

 

Pode-se argumentar que After Laughter enquanto álbum defende a filosofia de negar sentimentos. Canções como Rose Colored Boy e Fake Happy falam sobre colar sorrisos no rosto, escondendo a infelicidade que se sente. Mesmo o facto de a maior parte das canções ter instrumentais e melodias alegres e letras deprimentes. 

 

Então Hayley começou a lidar mais ativamente com as suas emoções. Como uma das melhores maneiras que ela possui para isso é escrevendo e compondo, começou a criar música. De início foi só para si mesma, sem expectativas ou compromissos. 

 

Só quando já contava meia dúzia de faixas é que percebeu que havia ali qualquer coisa. Taylor em particular encorajou-a a tornar aquilo oficial, em investir a sério no projeto.

 

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E puff! Fez-se o Chocapic Petals For Armor.

 

Por ocasião do seu trigésimo-primeiro aniversário, Hayley largou a bomba numa mensagem publicada nas redes sociais: em janeiro iria lançar música a solo, que criara “com a ajuda de alguns dos seus amigos mais íntimos”.

 

Como seria mais ou menos de esperar, uma parte da comunidade de fãs entrou em pânico. Depois de tudo por que a banda passou, este era o pior pesadelo de muita gente. 

 

Eu, no entanto, nunca acreditei que Hayley se tivesse “vendido” nem que isto significasse o fim dos Paramore enquanto banda – até porque, poucas semanas antes, a banda tinha publicado uma espécie de renovação de votos. 

 

Além disso, Zac lançou o EP The Velvet Face, do seu projeto Half Noise, praticamente em paralelo com After Laughter. Nem Hayley nem Taylor pareceram ter problemas com isso. Pelo contrário, apoiaram desde início, chegaram mesmo a tocar músicas como French Class (uma canção que tenho ouvido algumas vezes nos últimos tempos) em concertos. 

 

Porque não haveriam Zac e Taylor de fazer o mesmo com Petals For Armor? Eu quero, aliás, acreditar que as novelas nos Paramore ficaram na década passada. Que os anos 20 sejam de paz e estabilidade.

 

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Em todo o caso, a maior parte das reservas das pessoas desapareceram depois de Simmer ser lançada. Em parte porque Hayley revelou que o projeto teve a bênção e mesmo a colaboração de Taylor e Zac, em parte porque… tanto Simmer como Leave it Alone são boas músicas.

 

E depois de duas mil palavras só para dar contexto (não tenho remédio), vamos finalmente falar sobre elas. 

 

Simmer começa com um som que faz lembrar um alarme de perigo, que se mantém no fundo durante uma boa parte da faixa. Também se ouvem uns suspiros que funcionam como imagem de marca da canção. 

 

Confesso que demorei a habituar-me a eles. Ainda agora não posso dizer que adore essas partes. Parecem orgasmos ou alguém a morrer. Acho que a intenção era mesmo desconcertar. Ou simbolizar a acumulação e libertação de tensão. 

 

Entretanto, entra a bateria e o baixo, com os sintetizadores discretos no fundo, que se mantém durante as estâncias. No refrão ouve-se uma guitarra elétrica, mas sempre sem assoberbar.

 

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É uma instrumentação bastante minimalista, virando os holofotes para os vocais controlados de Hayley. É um híbrido estranho entre Billie Eilish e o rock de After Laughter, mais baseado em riffs de guitarra do que em acordes pesados.

 

Há quem diga que este é um som completamente diferente daquilo que estamos habituados da parte dos Paramore. No que toca a Leave it Alone talvez, como veremos adiante. Com Simmer, nem por isso, na minha opinião. A mim soa-me a uma evolução natural do estilo de After Laughter, como vimos no parágrafo acima. Não me parece radicalmente diferente de, por exemplo, Idle Worship ou No Friend. 

 

A diferença é que o som de After Laughter é mais pop, mais luminoso, influenciado pelos anos 80. Tanto Simmer como Leave it Alone não douram a pílula, são tão sombrias e cruas como as letras.

 

A de Simmer, então, fala sobre raiva e as dificuldades em contê-la. Segundo a lógica daquilo que falámos acima… não sei muito bem onde é que esta canção se encaixa. Se na, vamos chamar-lhe, “filosofia velha” dos punhos em riste, ou na, vamos chamar-lhe, “filosofia nova”, das pétalas como armadura.

 

Suponho que, para quem viva sempre com muros erguidos à sua volta, a raiva será a única emoção que se permitem sentir. Porque serve de proteção, para manter as pessoas afastadas. Porque muitas vezes é exprimida para disfarçar outras emoções, como medo ou dor. Isso acontece muito em homens que vivem sob as expectativas do patriarcado – que considera a ira a única emoção aceitável no género masculino. 

 

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Há que relembrar, no entanto, que não é por acaso que a ira é considerada um pecado mortal no cânone cristão. Se não for controlada, a raiva é extremamente destrutiva – não é preciso fornecer exemplos.

 

Por outro lado, também se poderia encaixar na filosofia nova. Mesmo tendo em conta todos os aspetos negativos, a raiva não deixa de ser uma emoção. Uma das emoções que, se calhar, Hayley recalcou. Quase toda a gente concorda que reprimir a raiva por completo não é saudável. A longo prazo poderá ser mesmo pior a emenda do soneto.

 

Além de que, se for usada corretamente, em doses terapêuticas, a raiva pode ser um catalisador. Pode dar coragem para mudar uma situação desfavorável. 

 

Voltando a questão do género, não é por acaso que um dos objetivos dos movimentos feministas nos últimos anos (pelo menos nos Estados Unidos) tem sido reclamar o direito das mulheres à raiva. Afinal de contas, a ira é um pecado mais facilmente perdoado no homem que na mulher (não me olhem assim, vocês sabem que é verdade). Uma mulher zangada recebe logo o rótulo de histérica ou de está-com-o-período. Ao patriarcado interessa manter as mulheres submissas e complacentes.

 

Isto tudo para dizer que a raiva tem vantagens e desvantagens, como muitas coisas na vida. Hayley revelou que a ideia inicial para a letra de Simmer era fazer uma reflexão geral sobre a ira. No entanto, na segunda estância acabou por entrar em territórios mais específicos, admitindo que sentiu dificuldades em gravá-la.

 

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Dá para ouvir. Os versos são cantados mais baixos que o resto da canção – não consegui ouvi-los bem da primeira vez. Há uma frase que é deixada incompleta. Como se, de facto, Hayley não se atrevesse a dizê-lo em voz alta, sem filtros.

 

Gostava de tirar alguns parágrafos para olhar para estes versos. Antes de prosseguir, no entanto, quero deixar bem claro que isto é um mero exercício de especulação – duvido que Hayley algum dia confirme ou desminta estas interpretações. É provável que estes versos tenham sido inspirados pelo amplamente comentado acima casamento falhado. Não dá para ter certezas absolutas, lá está, mas acho que todos concordam. 

 

Comecemos por “If I had seen my reflection as something more precious he would’ve never…”. É outra vez a questão dos morcegos. Da mesma maneira como Hayley teria evitado aquela casa se tivesse mais consideração por si mesma, se tivesse a sua auto-estima em níveis normais, não teria prolongado tanto uma relação que não era a adequada.

 

Não quero com isto comparar o ex de Hayley a morcegos… mas se calhar até quero comparar o ex de Hayley a morcegos (se os rumores que li por aí são verdadeiros, ele merece).

 

Faz lembrar a citação do filme As Vantagens de Ser Invisível: “aceitamos o amor que achamos que merecemos”.

 

Os versos que se seguem são particularmente chocantes: “If my child needed protection from a fucker like that man, I’d sooner gut him”. Deixando de parte as tendências homicidas, faz-me lembrar respostas no site Quora escritas por vítimas de relações abusivas (quer por companheiros, quer por familiares). Quando eram só eles(as), aguentavam – achavam que mereciam, até certo ponto. No entanto, quando tiveram filhos, perceberam que não queriam que estes vivessem o mesmo.

 

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Pergunto-me se foi assim que Hayley descobriu que a culpa não era só sua por a relação não ter resultado. Imaginando um filho seu ou, pura e simplesmente, um amigo ou familiar passando pelo mesmo que ela passou, finalmente percebendo que não, ninguém merece aquilo.

 

Há que ter em atenção que estes versos podem não ser cem por cento factuais. Em parte porque, em linha com o tema de Simmer, podem ter sido escritos sob influência da raiva. Além de que estamos apenas a ouvir a versão de Hayley da história.

 

Em todo o caso, a terceira parte da canção apela-nos a, lá está, usarmos pétalas como armadura. Neste contexto, penso que significa que a misericórdia é mais desejável que a raiva – respondendo à pergunta do refrão.

 

Não posso deixar de falar sobre o videoclipe. Começando pelo elefante na sala: Hayley está nua. Mais do que isso, existe algo de cru e visceral na aparência dela. Não usa maquilhagem – ou então tem uma maquilhagem de cara lavada muito convincente – e a iluminação enche o seu rosto de sombras, dando-lhe um ar ligeiramente demoníaco. 

 

A breve cena em que o rosto de Hayley surge sob uma luz vermelha parece representar uma personificação da raiva homicida descrita na letra – a cara interior que está mesmo debaixo da pele. O vídeo, de resto, recorre muito a luzes vermelhas para simbolizar essa ira.

 

 

Mesmo depois de já terem saído duas sequelas a este videoclipe (um interlúdio e o vídeo de Leave it Alone) não parece existir consenso sobre quem é ao certo a figura encapuçada que persegue Hayley – que tem o mesmo rosto que ela. Na minha opinião, é uma personificação do passado de Hayley. A Hayley do presente está em claro modo de fuga ou luta, medo ou raiva. De início foge, mas depois cobre-se de barro para lutar – derrotando a Hayley do passado. 

 

No vídeo de interlúdio, a Hayley-coberta-de-barro aparece com uma expressão clara de “Meu Deus, que fiz eu?”. Agora, em vez de medo ou raiva, reage com compaixão – arrasta o corpo inconsciente da Hayley-do-passado para outra divisão e toma-a nos seus braços. 

 

Não são necessários muitos dedos de testa para compreender o significado: ser-se gentil para consigo mesma, perdoar-se a si mesma. Segundo Hayley, esta foi outra das lições que teve de aprender no último ano e meio – suponho que seja um dos temas de Petals For Armor (mesmo já tendo falado sobre isso de passagem, a propósito de 26).

 

O resto do vídeo mostra a Hayley-do-passado e a Hayley-coberta-de-barro sendo envolvidas num casulo – uma cena um bocadinho sinistra na minha opinião. No fim, vemos uma Hayley diferente abrindo os olhos. Uma Hayley com o rosto coberto de pétalas.

 

O que nos leva a Leave it Alone – que foi lançada no dia 30, quase sem aviso, sem sequer sabermos o nome da música até esta ser lançada.

 

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Da primeira vez que ouvi Leave It Alone não reconheci a voz de Hayley. Não me lembro de alguma vez a ter ouvido cantando desta forma, num tom tão grave. Agora que já a ouvi várias vezes consigo perceber que é mesmo ela – mesmo assim é algo diferente.

 

Instrumentalmente, Leave it Alone é ainda mais minimalista que Simmer. Hayley compô-la com Joey Howard, baixista acompanhante dos Paramore (que também ajudou a compor Simmer), apenas com um baixo e uma caixa de ritmos (foi uma das primeiras a ser composta para Petals For Armor). No outro dia, Joey partilhou o ficheiro de áudio da primeira gravação da música. A versão final não possui muitos mais instrumentos que esta. Para além do baixo e da bateria, só um violoncelo, uns violinos, umas notas de órgão e pouco mais. 

 

Mais uma vez, esta é uma faixa que combina géneros. A mim soa-me a uma mistura de Lana del Rey com indie rock. Algo que serviria de música de fundo a um clube noturno retro, de algures entre os anos 20 e 30. Muitos fãs dizem que parece Radiohead – como conheço mal a banda, vou acreditar neles.

 

Em relação à letra… bem, é pesada. A primeira estância resume-se a “Agora que recuperei a vontade de viver, está toda a gente a morrer à minha volta”.

 

Como se isto não chegasse em termos de ironia, a própria música tira a vontade de viver. Mas estou a adiantar-me.

 

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A segunda estância começa com “You don’t remember my name somedays or that we’re related”. Aponta logo para um familiar com demência. Não surpreendeu, assim, quando poucas horas depois apareceram declarações de Hayley na Internet, revelando que a letra fora inspirada pelo menos em parte por um acidente com a sua avó. Há pouco mais de um ano, a senhora sofreu uma queda, bateu com a cabeça, e desde essa altura começou a sofrer de demência.

 

Pois eu sei o que isso é. Há poucos meses enterrámos o meu avô, depois de ter passado os últimos anos da sua vida sem as faculdades todas (já tinha mais de noventa anos). Ele nunca deixou de me reconhecer como alguém de quem ele gostava mas, lá está, não se lembrava do meu nome nem de que eu era a sua neta. E, segundo a minha avó, depois de eu sair, já não se lembrava de eu ter lá estado.

 

Muitos fãs têm revelado histórias semelhantes a propósito desta música, algumas bem piores. Não é fácil.

 

Leave it Alone é mesmo sobre isso: luto, morte. No caso de Hayley, o acidente com a sua avó aconteceu na pior altura possível – quando estava empenhada em tratar da sua saúde mental. Consta que outras pessoas na vida dela, amigos da família, foram morrendo na mesma altura – da minha experiência, estas coisas acontecem todas ao mesmo tempo, sem cerimónias. 

 

Toda a gente sabe como é perder entes queridos – ou irá descobri-lo mais cedo ou mais tarde. Hayley a certa altura interroga-se se faz sentido amar quando mesmo na melhor das hipóteses um dia a outra pessoa morre. Ou então morremos nós e as pessoas que amamos ficam obrigadas a lidar com tal perda.

 

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Pela parte que me toca, acho preferível amar e mais tarde perder do que não amar de todo. Ficam sempre as recordações, aquele calor no coração de que fala Everglow dos Coldplay. 

 

Além disso, gosto de acreditar que, depois de morrermos, reencontrar-nos-emos todos de uma forma ou de outra, no outro lado. Gosto de acreditar que o meu avô foi pôr a conversa em dia com os meus avós maternos, que morreram antes dele. Que poderemos ver Eusébio jogando com Luís Figo e Cristiano Ronaldo (se já tiverem morrido nessa altura) como se estivessem todos na casa dos vinte. Que quando Mike, Phoenix, Rob e os restantes membros dos Linkin Park morrerem (daqui a várias décadas, espero bem), Chester chamá-los-á para partilharem o palco de novo.

 

Mas estou a desviar-me um bocado.

 

Na terceira parte de Leave it Alone, Hayley aconselha o ouvinte a deixar o amor entrar na sua vida, mas que tenha noção de que não será para sempre. Que esteja preparado para isso.

 

Não há muito a dizer sobre o videoclipe de Leave it Alone. Hayley encontra-se na fase do casulo. Este está a querer abrir, mas a ideia com que fico é que ela ainda não está preparada para sair, pelo menos não por completo.

 

 

Adoro o visual dela no casulo, a maquilhagem com as pétalas. Mas acho que invejo mais o vestido que ela usa na floresta, com a capa azul.

 

E pronto. Foram Simmer e Leave it Alone, a primeira degustação de Petals For Armor. Se estas músicas forem uma amostra representativa, este vai ser um álbum que nos arrasará emocionalmente. A ver se nos preparamos para isso.

 

Ambas as músicas são muito boas, únicas, cruas, poderosas (toma nota, Avril!). No entanto, se tivesse de escolher entre as duas, prefiro Simmer. Não porque ache que seja a melhor música, mais porque… Leave it Alone é um tudo nada demasiado triste para mim. É pesada emocionalmente, deita uma pessoa abaixo. 

 

Não quer dizer que não goste, longe disso. No entanto, por exemplo, enquanto escrevia este texto estive a ouvir Leave it Alone em repetição. Acidentalmente passei-a à frente, para uma música bem mais alegre, e senti-me logo aliviada.

 

Eu compreendo que Hayley não queira dourar a pílula para nós, queira ser honesta, crua, mesmo implacável. Como vimos acima, estas são as partes feias da “filosofia nova”, de deitar muros abaixo e processar emoções.

 

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Dito isto, aqui entre nós que ninguém nos ouve (ou lê), espero que não demore muito até chegarmos às partes bonitas (ou pelo menos menos feias). 

 

Petals for Amor será editado a 8 de maio. Hayley já afirmou que quer ir em digressão para promover este álbum, mas ao que parece ainda está tudo em fase de planeamento. Em relação aos Paramore, por agora, estes continuarão em águas de bacalhau. Segundo o que Hayley deu a entender, quando este ciclo estiver concluído e estiverem na disposição para isso, a banda gravará um novo álbum. 

 

Por outras palavras, os Paramore estão em pausa, mas ainda estão longe de terminar.

 

Por mim tudo bem, não tenho pressa agora que vamos ter Petals For Armor. Obrigada por lerem este looooongo testamento sobre um par de músicas. Continuem por aí.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Shine a Light

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Bryan Adams lançou, na passada quinta-feira, dia 17 de janeiro, o single Shine a Light, primeiro avanço do álbum com o mesmo nome, que sai a 1 de março.

 

Shine a Light foi co-composta com Ed Sheeran. Consta que os dois se conheceram há uns meses, em Dublin, e mantiveram o contacto. Porque ninguém do mundo da música é idiota ao ponto de conhecer Ed Sheeran e não manter o contacto. A certa altura, Bryan enviou-lhe aquele que se tornaria o refrão de Shine a Light. Uns dias depois, recebeu o esboço de volta, com estâncias compostas por Ed.

 

Tenho uma certa pena que Ed não tenha também cantado, até porque Bryan disse que “devíamos tê-lo ouvido a cantar”. Por outro lado… não estou a ver ao certo onde está a influência de Sheeran nesta música. Não sei o que é que ele fez pela música que Bryan não podia ter feito. O estilo musical dos dois não é assim tão diferente quanto isso. Não havia necessidade, na minha opinião.

 

Mas, lá está, é o Ed Sheeran. Como disse acima, nos dias que correm, ninguém deixaria a oportunidade escapar.

 

 

"Big city lives, fast lane living but
You never forgot your roots"

 

Cinismo à parte, esta é uma canção que, não sendo extraordinária, cativou-me à primeira audição com o seu tom luminoso – a condizer com o título da música. A guitarra acústica domina (ouve-se muito pouca guitarra elétrica), num ritmo acelerado marcado pela bateria. Lembra-me um bocadinho Oxygen, do álbum 11, se bem que a bateria de Shine a Light não seja tão dominadora.

 

Outra música que Shine a Light me recorda é Breakin’, dos All-American Rejects.

 

Infelizmente, regressa uma das falhas de Get Up: a ausência de solos de guitarra. De que serve ter um guitarrista excelente, como Keith Scott, se não podemos ouvir a guitarra dele na música de Bryan?

 

Enfim. Passemos à frente.

 

O tema de Shine a Light não é inédito na discografia de Bryan. À semelhança de Walk on By, do álbum 11, a letra aborda a história, muito típica na cultura americana e canadiana, da jovem que deixa a terra pequena onde nasceu e parte para a cidade para seguir os seus sonhos. Enquanto a letra de Walk on By é mais cautelosa, Shine a Light conta a mesma história numa luz (pun intended) bem mais otimista. Aqui ninguém duvida que a menina em questão conseguirá desenrascar-se sozinha e tornar os seus sonhos realidade – até porque ela ilumina tudo o que a rodeia.

 

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Em suma, Shine a Light é uma boa introdução ao álbum com o mesmo nome. Não acho que se vá tornar uma das minhas músicas preferidas, mas imagino-a ganhando um estatuto parecido ao de I thought I’d seen Everything, do álbum 11, e de She Knows Me.

 

Esta última, aliás, tem andado a subir na minha consideração ao longo do último ano. De vez em quando passa na Rádio Comercial, enquanto estou a trabalhar. Quando a oiço, lembro-me que saiu num dos períodos mais difíceis da minha vida. Só o percebi muito depois, mas na altura soube-me a um dia de sol, no meio de um verão invulgarmente cinzento e gélido.

 

Espero que seja esse o significado do nome deste álbum. Talvez o objetivo de Shine a Light seja mesmo esse: trazer música que nos aqueça neste inverno, que nos ilumine os dias, numa altura em que as vidas de muitos de nós já foram bem mais fáceis.

 

Já se conhece a tracklist do álbum Shine a Light. Desta feita, não temos apenas nove faixas inéditas, com quatro versões acústicas para nos poderem cobrar o preço de um álbum inteiro – mais de três anos depois de Get Up, ainda acho uma jogada super manhosa.

 

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Nada disso desta vez. Vamos ter direito a treze faixas inéditas. Bem, mais ou menos, uma é um cover de Whiskey in a Jar. A versão digital, em CD e em cassete (?) vai ter The Last Night on Earth como faixa exclusiva, enquanto a versão em vinil terá I Hear You Knockin’.

 

Um destaque da tracklist é o dueto com Jennifer Lopez. Confesso que não estava à espera desta. Não sou grande fã de JLo – tirando uma música ou outra, considero-a uma cantora mediana. No entanto, estou com algumas expectativas em relação a este dueto. Acho que pode sair uma coisa gira daqui.

 

Como disse antes, o álbum Shine a Light sai a 1 de março. Ou seja, no próximo mês e meio, vou receber três álbuns novos de artistas do meu nicho, com um intervalo de duas semanas. Resist, dos Within Temptation, a 1 de fevereiro. Head Above Water, de Avril Lavigne, a 15. Shine a Light a 1 de março. Que luxo!

 

Ainda bem que aderi à promoção do Spotify, que oferecia três meses de Premium pelo preço de um. Fiz a compra perto do Ano Novo e abarca estes três lançamentos. Bem jogado, Sofia-do-passado!

 

Já arranjei, aliás, uma playlist para toda a música nova que foi saindo este ano, para me ser mais fácil ir-me familiarizando com o material novo até arranjar os CDs. E também para ir manipulando o número de reproduções.

 

 

Entretanto, tenho andado a trabalhar num texto de Músicas Ao Calhas sobre duas músicas, uma de Bryan, outra de Avril Lavigne. Talvez o timing não seja o melhor – vai ser muita Avril e muito Bryan em pouco tempo neste blogue. Por outro lado, vou regressar às origens neste texto. Já que os dois se preparam para lançar álbuns novos, acho que é uma boa altura para voltar atrás e recordar o início da nossa relação musical.

 

Preparem-se, então, para muita música aqui no blogue nas próximas semanas, se não forem meses. Estamos apenas a começar. Continuem desse lado!

Músicas Não Tão Ao Calhas – Tell Me It's Over

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Avril Lavigne lançou, no ano passado 12 de dezembro, a música Tell Me It’s Over, que serve de segundo avanço ao seu sexto álbum – que se chamará Head Above Water, tal como o primeiro single, e será lançado a 15 de fevereiro.

 

"Oh, you come and you leave
Shame on me for believing every word out of your mouth"

 

Se a faixa Head Above Water não representou uma grande inovação no que toca à Avril, pelo menos em termos musicais, Tell Me It’s Over é outra história. Esta é uma música soul com elementos de jazz, uma faixa que parece saída do século passado (anos 50 ou assim), com saxofones à mistura com piano e violinos. Faz lembrar o tema Love on the Brain, da Rihanna – uma música bastante boa mas, na minha nada enviesada opinião, Tell Me It’s Over é melhor.

 

Acho que ninguém estava à espera desta – o mais próximo que Avril tinha estado deste estilo foi com o cover de How You Remind Me. Julgo ter referido há uns anos que esperava ouvir mais músicas dela nesse género. Mas daí a ouvir a voz da Avril num coro de soul vai um pedaço.

 

Julgo que a Avril referiu uma ou outra vez, em entrevistas, que gostava de ouvir jazz nas horas vagas. Em declarações mais recentes, a propósito deste lançamento, referiu mesmo que se inspirou em nomes como Aretha Franklin, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Etta James, em parte por serem ícones feministas (mais sobre isso adiante).

 

 

De qualquer forma, gosto muito do resultado final.

 

Começando pela interpretação. Esta música pode ter sido território novo para a Avril mas, baseando-se no seu desempenho vocal, não se nota nada. Quando saiu uma prévia da faixa, com os seis primeiros segundos, eu contava com vocais graves, estilo Give You What You Like.  Em vez disso, Avril alterna sem dificuldade entre agudos e graves, dá voz aos coros, como se tivesse passado os seus (*faz contas de cabeça*) quase dezassete anos de carreira cantando neste estilo.

 

Tanto Head Above Water como Tell Me It’s Over mostram que a voz da Avril nunca esteve em melhor forma – ótimas indicações para o álbum novo.

 

A letra de Tell Me It’s Over, não sendo nada do outro mundo, é melhor que a de Head Above Water – mais fluida e consistente, sem partes que parecem só lá estar para a rima ou para preencher buracos. No que toca à Avril, está acima da média em termos de qualidade.

 

Esta é mais uma canção entre várias na discografia da Avril sobre relações falhadas. Tell Me It’s Over fala sobre uma relação tóxica, sem futuro, mas em que o homem insiste em permanecer na vida da narradora. Não é capaz de dar-lhe o que ela quer, ou de tratá-la como deve ser, mas consegue manipulá-la demasiadas vezes. Na terceira parte da canção, a narradora está determinada a cortar com ele de vez e para sempre.

 

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É curioso que Avril tenha escrito esta letra nesta altura do campeonato. Ela sempre deu a impressão de ser bastante exigente em termos românticos – músicas como He Wasn’t e The Best Damn Thing deixam-no bem claro. Se olhássemos para essas duas faixas, nunca imaginaríamos a narradora delas (assumindo que é a mesma narradora nas três músicas), presa numa relação tóxica – antes, não aceitava um homem que não lhe abrisse as portas, mas agora não consegue largar um que, no videoclipe, lhe destrói o telemóvel?

 

Só prova que , por vezes, somos os nossos piores conselheiros.

 

Como podem ver, estou bastante satisfeita com Tell Me It’s Over. A única falha que tenho a apontar é à percussão – a batida soa um bocado artificial. Não havia necessidade, podiam ter gravado uma bateria a sério.

 

É apenas um pormenor, não afeta a qualidade da música, na minha opinião. Só reparei nisso porque uma pessoa o referiu no Twitter – se não o tivesse lido, ter-me-ia passado ao lado.

 

Não digo que Tell Me It’s Over esteja já entre as minhas músicas preferidas, mas é um passo na direção certa. O álbum homónimo jogou muito pelo seguro, tirando uma ou outra exeção. Tanto esse como o Goodbye Lullaby pareceram seguir um critério comercial na escolha dos singles – o quarto álbum, por exemplo, era cerca de oitenta por cento, mais coisa menos coisa, baladas e/ou música maioritariamente acústica, mas só uma dessas faixas se tornou single.

 

Não que tenha dado grande resultado.

 

Desta feita, foram lançadas duas baladas como singles – pela primeira vez em toda a carreira da Avril. A única exceção poderá ser Nobody’s Home depois de My Happy Ending, para o Under My Skin, mas não considero My Happy Ending uma balada.

 

Calculo que ela tenha mais controlo sobre a sua carreira e estratégias de marketing, depois de se ter mudado de gravadora. Faz bem. Se é para ser flop, que o seja com liberdade criativa, segundo os termos da Avril!

 

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Como disse antes, o álbum chamar-se-á Head Above Water, tal como o primeiro single. É um bom nome para este álbum, tendo em conta as circunstâncias e tudo o que a Avril revelou, quando lançou o single. Só acho estranho que ela não tenha revelado na altura que o álbum teria o mesmo nome (talvez só o tenha decidido depois).

 

O nome, data de lançamento, capa e tracklist foram revelados oficialmente no passado dia de 7 de dezembro – exatamente oito anos após o mesmo ter acontecido com o Goodbye Lullaby (mais um argumento para a minha previsão de que Head Above Water será uma versão melhorada de Goodbye Lullaby).

 

A capa não é das mais populares entre os fãs. Eu mesma não gostei muito à primeira – não pela nudez, mais por a achar demasiado escura. É, aliás, a segunda capa de seguida em preto. Eu sei que é a cor preferida da Avril, mas acho que ficava um pouco melhor a cores, com o fundo em azul.

 

Além de que aquele braço é um fail de Photoshop. Espero que corrijam antes do lançamento do álbum. Duvido que o façam, no entanto, já que a capa tem sido publicada em vários sítios sem alterações desde essa altura.

 

Agora que já se passaram alguns dias, já gosto um pouco mais da capa. Continuo a achar que a capa do álbum homónimo é pior.

 

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Na verdade, acho a tracklist muito mais interessante – com títulos como Love Me Insane e Bigger Wow. Além de que tem piada haver uma música chamada I Fell In Love With the Devil, num álbum cuja faixa-título é essencialmente uma oração.

 

Dumb Blonde é, segundo Avril, a música mais agitada, mas parecida com os seus típicos singles pop rock. Segundo um texto que vazou por umas horas há um par de meses, Dumb Blonde será uma música contra estereótipos misóginos como, lá está, “a loira burra”.

 

Quase quinze anos após Don’t Tell Me, Avril vai finalmente lançar outra música feminista. Ainda bem!

 

Por sua vez, Warrior é um título que conhecemos há quase dois anos. Pelos vistos, foi escolhida para encerrar o álbum. Baseando-me nisto, acho que Warrior funcionará como um epílogo à história contada em Head Above Water. Avril refletirá sobre tudo por que passou, concluindo que é uma guerreira, que sobreviverá e sairá mais forte desta luta.

 

Ficamos à espera, então. Talvez saia mais um single antes mas, se não sair, não me importo. Pode haver quem não tenha gostado de ter de esperar três meses por Tell Me It’s Over, depois de Head Above Water. Eu, no entanto, acho-o preferível a levar com metade de um álbum antes do lançamento oficial.

 

Só espero que o resto do álbum esteja ao nível dos primeiros dois singles, sobretudo de Tell Me It’s Over.

 

Antes, tenho planeado um texto de Músicas Ao Calhas centrando-se em duas músicas, uma delas da Avril. Mesmo que não hajam mais entradas de Músicas Não Tão Ao Calhas antes do lançamento de Head Above Water, preparem-se para uma dose saudável de Avril Lavigne neste blogue.

 

Entretanto, ando já a trabalhar no habitual texto de fim de ano. Este deverá ser um pouco mais curto que o do ano passado – ainda não sei se vou sequer dividi-lo em duas partes. De qualquer forma, já comecei a escrever o primeiro rascunho. Espero conseguir publicá-lo a tempo.

 

Obrigada pela sua visita, como sempre.

Músicas Não Tão Ao Calhas – Head Above Water

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Avril Lavigne lançou, no passado 19 de setembro, Head Above Water, uma música que serve de primeiro avanço ao seu sexto álbum de estúdio (ainda sem nome e sem data de lançamento).

 

Quem siga este blogue há pouco tempo, se calhar, não saberá que Avril é a minha cantora preferida de todos os tempos. Como ela tem estado afastada dos holofotes durante os últimos quatro anos, tirando uma ou outra ocasião, não tenho tido muitas oportunidades para escrever sobre ela.

 

O seu último álbum de estúdio, homónimo, saiu há quase quatro anos. Depois desse, Avril lançou um single isolado, Fly, deu a voz à Branca de Neve do Príncipe Bué Encantado (embora não se perceba o que está a acontecer a esse filme) e emprestou a voz a canções de outros artistas. Desses, escrevi sobre Get Over Me e Listen, mas não sobre Wings Clipped. Não gostei desta última e, como saiu na véspera do quinto filme de Tri, não quis perder tempo com ela.

 

Foi uma longa espera, mais do que com os álbuns anteriores, mas, falando por mim, não me custou tanto como antes – em parte porque andei entretida com outras coisas, outras músicas. Em parte porque, desta feita, havia um motivo excelente (mais sobre isso adiante). Fui gerindo a página do Avril Portugal, que é a última ligação que tenho ao Fórum com o mesmo nome, mas existiram várias ocasiões em que mal pensava nela.

 

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No entanto, tudo isso mudou nas últimas semanas, assim que saíram os primeiros sinais de que Avril ia lançar música nova – e não era mais uma falsa partida, era mesmo a sério, com fotografias promocionais, com filmagens de videoclipe. Tenho-me sentido como se tivesse dezanove anos outra vez – altura em que quase só ouvia, pensava e respirava Avril Lavigne. As saudades que eu tive destas coisas.

 

Avril é como se fosse a minha casa no mundo da música, a minha mãe musical. Foi uma das primeiras artistas cuja música me apaixonou. Foi ela quem me trouxe ao mundo da música, com quem aprendi a ser fã, que ajudou a formar o meu carácter (musical e não só).

 

Estive muito tempo agarrada às saias dela, quando era mais nova, pouco ouvindo de outros artistas (tirando Bryan Adams, que por esta lógica pode ser considerado o meu pai musical). Com o tempo, fui saindo de debaixo da asa dela, descobrindo outra música – música, em muitos casos, falando de modo cem por cento racional, melhor que a da Avril – mas nunca deixo de voltar para ela. Tal como uma mãe, ela sabe sempre aquilo de que gosto e nunca haverá ninguém que tome o lugar dela.

 

Isto sou eu, claro, mas estou longe de ser a única. Uma coisa de que me apercebi nos últimos anos, de resto, é que a pegada que Avril deixou no mundo da música não desapareceu – mesmo que, na última década, ela tenha deixado de ter o sucesso comercial de outros tempos. As pessoas respeitam-na, sobretudo pelos seus primeiros dois álbuns mas não só. Reconhecem, tal como eu, o seu talento enquanto cantora e compositora, que ela é genuína de uma maneira que poucos são, no mundo da música. Avril, além disso, tem sido citada como influência por toda uma geração de artistas indie rock, como Soccer Mommy e Snail Mail.

 

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Isto é, quando não falam sobre a estúpida teoria da conspiração – que, à luz das últimas declarações dela, é de péssimo gosto.

 

Conforme já referi noutras ocasiões, os últimos anos não foram fáceis para Avril – nem para ela, nem para a maioria do meu “nicho” musical, como tenho vindo a reparar. A Avril contraiu a Doença de Lyme em 2014 – mais ou menos na mesma altura em que o seu primeiro marido, Deryck Whibley dos Sum 41, se ia matando à custa do álcool. Os Paramore estiveram à beira da implosão, depois da saída do baixista Jeremy Davies, o que quase deu cabo da vocalista Hayley Williams. Mesmo os Within Temptation terão passado por uma mini-crise, por desgaste, bloqueio criativo e problemas pessoais. Por fim, e sem dúvida o pior de tudo… o Chester morreu.

 

Não tem sido fácil para ninguém. Mesmo comigo tem sido com altos e baixos.

 

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Avril já tinha falado sobre a sua experiência com o Lyme noutras ocasiões mas, tanto quanto me lembro, não tinha ido tão longe como na carta de apresentação de Head Above Water. Avril escreveu que passou uma boa parte dos últimos anos, sobretudo os dois primeiros, presa à cama; que houve uma altura em que estava nos braços da sua mãe, sentindo o corpo a desligar-se e aceitando que ia morrer.

 

Vão ter de me perdoar a linguagem mas ler isto, do punho da minha mãe musical, pouco mais de um ano depois de perder o Chester, foi fodido.

 

Terá sido nessas circunstâncias que Avril rogou a Deus que não a deixasse morrer, que “mantivesse a sua cabeça à tona da água”. Daí Head Above Water – essa prece feita música e a primeira faixa gravada para este álbum.

 

  

And my voice becomes the driving force”

 

Musicalmente, Head Above Water é uma balada – é a primeira vez que Avril usa uma balada como primeiro single de um álbum novo. É um bocadinho estranho que tenha demorado tanto tempo, quando algumas das suas canções mais populares são neste estilo – como I’m With You e Keep Holding On. Começa com piano, num ritmo um bocadinho mais acelerado que o habitual, ao qual se juntam mais instrumentos – destacando-se uma guitarra elétrica discreta, um violoncelo e aquela percussão típica de baladas.

 

Em termos de vocal, Avril entra com tudo desde o início, a voz clara e forte do princípio ao fim. Na biografia atualizada do seu site oficial, Avril refere que, após ter passado dois anos praticamente sem cantar, não sabia em que estado estaria a sua voz. Quando gravou Head Above Water, no entanto, a sua voz soou “mais forte do que nunca”. Eu tenho de concordar.

 

Destacaria, aliás, o verso que citei acima, tanto pelo seu significado como pela maneira como Avril o canta – eu fiquei de queixo caído da primeira vez que o ouvi. Yep, se há voz capaz de servir de força motriz, é esta.

 

Falemos, então, da letra. Com referi acima, Head Above Water é uma oração, um pedido de socorro a Deus, Avril rogando-Lhe que não a deixe morrer. Não que ela chegue a usar essa palavra, recorrendo antes a eufemismos (“I’m too young to fall asleep”).

 

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Um aspeto que me agrada particularmente é a temática aquática. Conforme referi noutras ocasiões, a água é o meu elemento. Entre outras coisas, sempre adorei nadar, sobretudo no mar, sobretudo debaixo de água e já escrevi aqui no blogue sobre canções que usam metáforas aquáticas. Ao contrário de Underwater e Pool, no entanto, em Head Above Water, a água, o mar, possuem uma conotação negativa – representam a doença dela.

 

Ao mesmo tempo, foi nestes momentos de dificuldade que Avril se aproximou de Deus – como acontece com muitas pessoas em circunstâncias semelhantes. (“I’ll meet you there, at the altar, as I fall down to my knees”, “I need you now, I need you most”)

 

Infelizmente, a letra de Head Above Water acaba por cair nas mesmas armadilhas que uma boa parte da discografia da Avril: a letra é demasiado vaga e acaba por se perder um pouco em clichés. Confesso que fiquei um pouco desiludida, depois de o quinto álbum tem incluído algumas letras boas, como 17 e Give You What You Like, melhorando bastante em relação ao seu antecessor, estava à espera de um bocadinho mais.

 

Não que isso prejudique demasiado a música. A letra é suficientemente sólida para transmitir a mensagem e a emoção – e para comover outros doentes de Lyme (mais sobre isso adiante).

 

  

É isto, essencialmente. Não diria que esteja caída de quatro com Head Above Water, mas é uma boa música, uma música que poderá tocar muitas pessoas, sobretudo alguém que tenha passado por uma situação semelhante – quer seja Lyme ou outra doença grave, quer sejam dificuldades económicas ou assim. Por muito que uma pessoa até possa gostar das Girlfriends e Hello Kittys desta vida e que, por vezes, Avril não queira levar a sua música demasiado a sério, a verdade é que é desta faceta da Avril que gostamos. Da música que vem do coração e que salva vidas, mesmo com letras imperfeitas.

 

E Head Above Water até tem sido bem recebida pelo público. Tem dominado as tabelas de vendas do iTunes, chegando mesmo ao primeiro lugar nos Estados Unidos, algo que não acontecia desde Girlfriend (embora eu tenha algumas dúvidas no que toca à relevância do iTunes numa era dominada pelo streaming). Tem sido ainda melhor recebida por outros doentes de Lyme – como esta senhora. Não sei como isto afetará o sucesso comercial de Avril e do próximo álbum a longo prazo, mas é um bom começo.

 

Ainda não há nenhuma pista em relação ao álbum ou mesmo a outros singles. Há quem diga que o álbum ainda sai este ano, mas eu duvido. A ideia com que fiquei foi que Avril quer ir fazendo isto aos bocadinhos, regressando a pouco e pouco ao mundo da música, não vá a sua saúde ressentir-se. Acredito, aliás, que os adiamentos se devem a recaídas (sinto-me culpada por ter reclamado antes…). Não me admirava se saíssem vários singles antes de o álbum ser lançado por completo.

 

Em todo o caso, se houver outro single nos próximos tempos, podem contar com mais um texto de Músicas Não Tão Ao Calhas. Mal posso esperar.

 

Como o costume, obrigada pela vossa visita. 

Mike Shinoda – Post Traumatic (o EP e não só)

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Como é do conhecimento geral, Chester Bennigton morreu no ano passado. A sua morte deixou a sua banda, os Linkin Park, com um futuro incerto. Tirando o concerto de homenagem em finais de outubro do ano passado, cada um dos membros sobreviventes encontra-se, neste momento, a seguir o seu próprio caminho, à parte da banda. Para Mike Shinoda – segundo vocalista, multi-instrumentista e, para todos os efeitos, cérebro dos Linkin Park –  esse caminho passa por lançar música a solo

 

Em entrevistas recentes, Mike confessou que, mesmo antes de Chester morrer, já tinha a vaga ideia de, um dia, investir num projeto a solo, em música que ele pudesse criar e lançar sem passar pelo crivo de colegas de banda. Um pouco o que o próprio Chester fez com os Dead By Sunrise. A morte do melhor amigo – da pessoa com quem, nas palavras de Mike, passava mais tempo tirando a sua esposa – acabou por acelerar esses planos. Mike afirmou que, embora nem todas as músicas deste trabalho novo sejam sobre o luto por Chester, foi por aí que o projeto começou. Sendo o luto uma jornada tão pessoal, tão íntima, Post-Traumatic é um trabalho igualmente íntimo e pessoal. Para além de compôr e produzir estas músicas ele mesmo, os videoclipes vieram todos do telemóvel de Mike – o único que não veio, foi filmado com fãs.

 

Não estou surpreendida por ouvir música a solo por parte do Mike, nesta altura do campeonato. Julgo tê-lo ouvido dizer, numa entrevista de há uns anos, que ele é daquele género de compositores que precisa de estar sempre a trabalhar em algo, para o músculo não atrofiar. Em declarações mais recentes, já a propósito de Post-Traumatic, Mike referiu mesmo que, desde miúdo, sempre se voltou para a música e para o desenho nestas alturas – são a sua maneira de lidar com momentos difíceis.

 

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Eu encaro a escrita da mesma maneira: algo que faço quase todos os dias, em parte para não perder a prática (tal como expliquei aqui), mas sobretudo por necessidade. Eu preciso de ter algo para escrever, mesmo que nunca seja publicado de nenhuma forma. Também é a minha maneira de lidar com períodos mais infelizes, quer escrevendo sobre eles ou (e isto é mais frequente, confesso) como forma de consolo ou escapismo.

 

Quando o Chester morreu, no entanto, Mike teve de se obrigar a regressar ao estúdio, reaprender a compôr. Chegou a dizer que, nas primeiras semanas, compôs uma série de “músicas grunge más”, algumas propositadamente más, algumas propositadamente ridículas, até conseguir compôr algo decente. Daí Post-Traumatic.

 

Este começou por ser apenas um EP de três músicas, lançado em finais de janeiro. Na altura não escrevi sobre ele porque ainda não tinha uma opinião formada sobre ele. Mas agora que Mike lançou mais um par de faixas, confirmando que Post-Traumatic vai ser um álbum, é uma boa altura para dar o meu parecer.

 

Antes de começar, dizer apenas que, na minha opinião, estas faixas valem mais pelas letras que pela parte musical. Desse modo, não vou focar-me tanto em instrumentais como faria noutras circunstâncias.

 

  

Sem grande surpresa, um dos temas recorrentes nestas músicas é desorientação, insegurança. É o que acontece, não apenas quando se perde um melhor amigo, mas também quando o trabalho de quase duas décadas fica comprometido. A Place to Start, que abre o EP – e que deverá abrir o álbum – reflete exatamente isso. A faixa – que, segundo Mike, chegou a ser considerada para introdução ao álbum One More Light, com uma letra diferente, claro – tem um instrumental grave e melancólico, bem a condizer com a letra.

 

Em a Place to Start, Mike afirma que, essencialmente, não tem maneira de seguir com a sua vida, que sente que não tem controlo sobre ela. Diz que receia tomar decisões, pois podem acabar mal. Ao mesmo tempo, quer fazer alguma coisa. Começar por algum lado, tal como reza o título da canção.

 

Havemos de regressar a esta ideia.

 

  

Consta que Over Again é a música mais popular do EP e eu concordo com a opinião geral. Não é difícil perceber porque é que as pessoas gostam: é a mais crua, a mais específica, de todas lançadas até agora, aquela que chama os bois pelos nomes. Mike compôs a primeira estância na véspera do concerto de homenagem a Chester, no Hollywood Bowl, e a segunda no dia a seguir. Ambas as estâncias referem-se diretamente a esse concerto e a tudo o que levou a ele.

 

Na primeira parte da canção, assim, ouvimos acerca da decisão de fazer o concerto, nas primeiras semanas a seguir à morte de Chester, de como chegara o dia do concerto… e do pavor que Mike tinha de subir ao palco.

 

Mais uma vez, sem surpresas aqui. Eu mesma chorei quando anunciaram esse concerto, em inícios ou meados de setembro. E tornei a chorar na manhã que se seguiu ao concerto. Eu, que sou apenas uma fã, cujo único contacto com Chester fora agarrar-lhe a mão durante dois segundos.

 

A segunda parte aborda o pós-concerto e é muito mais intensa, rica em raiva e revolta, em que Mike parece disparar em múltiplas direções: aos críticos da banda, ao processo de luto que parece nunca mais acabar, àqueles que que não parecem compreender a dimensão do problema de Mike. O verso “Only my life’s work hanging in the fucking balance” é esclarecedor – Mike disse mesmo no Genius (mais sobre esse site aqui) que é a ideia principal de Post-Traumatic.

 

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Ao mesmo tempo, Mike confessa que não sabe o que sente em relação ao concerto em si, que quase se foi abaixo em certos momentos – isto apesar de terem existido alturas em que ele parecia animado. A certa altura, chegou a dizer que se estava a divertir, o que lhe parecia estranho.

 

É como o próprio Mike disse durante o concerto: é uma montanha-russa de emoções. Em Over Again, Mike diz que só queria que se tornasse mais fácil. A língua inglesa tem esta palavra extraordinária, closure, que não tem tradução direta para português. É um misto entre conclusão e aceitação. Essencialmente, dar um capítulo da vida de uma pessoa por encerrado e partir para outra. Algo que Mike não consegue fazer.

 

Se esta música tivesse saído um mês antes, teria dado cabo de mim.

 

O que nos leva ao refrão. O título da música Over Again refere-se ao facto de o luto nem sempre ser um processo linear. O sentimento de perda nunca desaparece de vez, está apenas dormente, despertando quando menos esperamos. E, quando acontece, abalam uma pessoa. Mike têm dado vários exemplos em que, em suma, ele até está a ter um dia bom, sai para comprar gelado, toca uma música dos Linkin Park ou é abordado por um fã e volta tudo de novo. Como reza One More Light, “the reminders pull the floor from your feet.”

 

 

Queria, por fim, chamar a atenção para os vocais do segundo e terceiro refrões e, sobretudo, perto do fim da canção: muitos, eu incluída, julgam ouvir a voz de Chester no coro. Chegou a pensar-se que talvez fossem vocais antigos do cantor, gravados para um dos álbuns de Linkin Park mas que nunca chegaram a ser usados. No entanto, Mike disse no Twitter que não, os vocais são dele mesmo – quanto muito, estaria a canalizar o Chester dentro de si.

 

Eu gosto disso. É uma parte do Chester que continua a viver em Mike – na voz dele e não só, como reza Everglow, dos Coldplay. Sempre consola um bocadinho.

 

  

Existem muitas coisas boas em Over Again, como podem ver, é a minha faixa preferida até ao momento. Por sua vez, Watching As I Fall é das menos apelativas para mim – o que não significa que seja má.

 

Tem um ritmo um pouco mais acelerado que as outras canções do EP e, tal como em Over Again, ouve-se muita raiva e revolta na letra e interpretação. Os temas são os mesmos: o luto não linear, a desorientação, o surrealismo. Destaca-se o facto de Mike estar a passar por tudo isto sob o olhar do público.

 

Estas foram, então, as músicas lançadas quando Post-Traumatic era apenas um EP. Por sua vez, Crossing A Line e Nothing Makes Sense Anymore foram lançadas há apenas duas semanas, já como parte do álbum. Além disso, nota-se que pelo menos Crossing A Line foi composta numa fase diferente das músicas do EP.

 

  

Crossing A Line – o primeiro single oficial – está a tornar-se uma das minhas preferidas de Post-Traumatic por causa da letra, um tudo nada mais esperançosa que as outras músicas. Se em a Place to Start, Mike não sabia o que fazer consigo mesmo, em Crossing a Line, ele parece ter uma ideia mais clara. As inseguranças persistem mas, desta feita, Mike tem esperança.

 

Se dúvidas existiam antes, Mike deixa bem claro no Genius que a decisão de que Crossing A Line fala é o seu álbum a solo… e sobre o medo que Mike sentia da reação dos seus colegas de banda ao projeto.

 

Eu compreendo as inseguranças de Mike, sobretudo à luz da morte de Chester – podia parecer que ele estava a desistir dos Linkin Park. Mas eu acho que o Brad, o Phoenix e os outros nunca diriam que não. Eles nunca tiveram problemas nem com Fort Minor (ao ponto de incluírem músicas como Remember the Name na setlist de vários concertos dos Linkin Park) nem com Dead by Sunrise (ao ponto de, segundo uma entrevista que vi na altura em que escrevi a análise a Out of Ashes mas que não consigo encontrar agora, terem dado ao Chester a possibilidade de lançar Out of Ashes com o nome dos Linkin Park). Porque haveriam de levar a mal este projeto do Mike?

 

De qualquer forma, Mike queria mesmo que os amigos soubessem que ele não estava a abandoná-los.

 

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A expressão “Crossing a line” – cruzando um risco, ultrapassando um limite – faz pensar em algo proibido, irreversível. Consigo pensar em várias outras possíveis interpretações para coisas “proibidas” a que a canção pode estar a referir-se. Mike está já a cruzar um limite só pelo facto de estar a seguir com a sua vida após a morte do Chester. Ao mesmo tempo, mais uma vez remetendo para A Place to Start, Mike está a deixar um lugar depressivo mas confortável para se aventurar no desconhecido.

 

Por outro lado, só o facto de este trabalho deixar a alma de Mike a nu é algo suficientemente desconfortável para equivaler a cruzar uma linha.

 

O videoclipe para Crossing a Line é mais sofisticado que os outros, mas mantém o carácter pessoal e intimista. O vídeo foi filmado no mesmo sítio onde os Linkin Park terão começado como banda. Mike avisou quarenta e cinco minutos antes no Twitter que ia para lá, pedindo aos fãs para irem lá ter se pudessem. Como se pode ver no vídeo, apareceu imensa gente.

 

Eu com inveja deles? Não! Que ideia…

 

  

Falta apenas falar sobre Nothing Makes Sense Anymore, que foi lançada juntamente com Crossing a Line. Esta, no entanto, tem mais semelhanças com as músicas do EP, lançadas em janeiro.

 

Para esta, queria começar por falar do videoclipe. Este mistura imagens dos incêndios que assolaram Los Angeles em dezembro do ano passado com imagens do telemóvel de Mike, quando este foi visitar os terrenos ardidos. Faz-me lembrar, como é evidente, os nossos próprios incêndios, no ano passado.

 

Não me surpreende que Mike tenha escolhido este cenário para o vídeo. Suponho que ele se identifique com uma vítima dos incêndios – com as devidas ressalvas, claro, porque mal por mal Mike não perdeu a sua casa. Mesmo assim, a morte de Chester foi algo que lhe destruiu a vida que conhecia e Mike encontra-se, agora, a reconstruir uma vida nova sem Chester, a encontrar o novo “normal”.

 

É sobre isso que fala a letra de Nothing Makes Sense Anymore – à mistura com os temas recorrentes de luto e incerteza.

 

Sobre a parte musical, queria dizer apenas que os efeitos na voz de Mike irritam-me um pouco, tornam o seu desempenho demasiado artificial, pouco humano. Estes efeitos também existem em Crossing a Line, eu sei, mas só no refrão, não incomodam tanto. Talvez Mike não tenha gostado do seu desempenho vocal e tenha acho que precisava de ajustes.

 

 

Em suma, conforme dei a entender antes, estas canções são mais ou menos o que se esperava da parte do Mike, tendo em conta as circunstâncias. É possível que tenhamos mais músicas assim no resto de Post-Traumatic. Pergunto-me, aliás, se Looking for an Answer fara parte da tracklist. Mike ainda não a lançou porque, segundo um tweet dele, não conseguira descobrir a melhor maneira de apresentá-la.

 

Eu gosto do Mike, quase tanto como gostava do Chester. Para além de ser um bom músico, parece ser uma boa pessoa, um bom exemplo, com sentido de humor, chegado aos fãs. Tal como Chester era. Tenho pena de, entre muitas outras coisas, não podermos voltar a vê-los juntos, mas estou grata por ainda termos Mike na nossa vida, por termos música criada por ele, mesmo que não seja Linkin Park.

 

Aqui entre nós que ninguém nos ouve, nesta fase, não me importaria muito muito se os Linkin Park nunca mais se voltassem a reunir, se a partir de agora Mike só criasse música para si mesmo. É o que sinto neste momento – não garanto que não mude de ideias no futuro. Mas, nesta fase, estou aliviada por os Linkin Park estarem em pausa, com cada membro seguindo o seu caminho, porque ainda não me sinto preparada para ver os Linkin Park continuando sem o Chester, seja de que forma for.

 

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Mais uma vez sublinho: é o que eu sinto agora. Não está escrito em pedra.

 

Já que falo disso, suponho que faça sentido fazer uma atualização da maneira como tenho lidado com a morte do Chester, nos últimos tempos. Curiosamente, tenho estado bastante melhor este ano – a pior parte ficou em 2017. Talvez tenha ajudado escrever sobre isso nesse texto. Talvez o facto de a minha própria vida andar a correr melhor este ano tenha feito com que parasse de projetar os meus próprios dramas no que aconteceu ao Chester. De qualquer forma, está menos insuportável do que antes.

 

E, mesmo assim, de vez em quando apanha-me desprevenida – como Mike descreveu nestas canções, mas muito mais atenuado, claro. Houve uma ocasião em que estava a escrever despreocupadamente para o meu outro blogue, com o Spotify em modo aleatório. De repente, começa a tocar a música One More Light (que não ouvia há algum tempo) e deu-me um baque.

 

Esta foi a ocasião mais intensa. Para além dessa, às vezes dou por mim a lacrimejar quando oiço certas músicas. Como Breaking the Habit ou Numb (ponho-me a pensar no concerto no Hollywood Bowl, em que tocaram esta sem ninguém a cantar, apenas o microfone iluminado). Por fim, escrever este texto voltou a despertar um bocadinho do luto em mim.

 

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Entretanto, ainda tenho o álbum One More Light por analisar. Não o fiz ainda por uma questão de calendário – tenho uma data de textos que quero escrever e publicar antes de me voltar para esse. Como tal, ainda devo demorar alguns meses.

 

Para já, quero ver se o próximo texto que publico é o próximo de Pokémon através das gerações, a análise à sexta geração, que deverá vir em duas partes Não sei se consigo publicá-los já já, mas nunca depois de finais de maio.

 

Obrigada pela vossa visita, como sempre. Continuem ligados!

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